Às vezes, penso: no fundo, eu tenho medo de mulher. E você não tem? Tem, bem que eu sei, comenta o narrador do conto Joãotónio, no enquanto, incluído em Estórias Abensonhadas, escrito pelo moçambicano Mia Couto (nascido António Emílio Leite Couto, em Beira, no dia 5 de Julho de 1955).
Contada em linguagem que muitas vezes dialoga com os neologismos de Guimarães Rosa, escondendo em formulário epistolográfico o que lhe cabe revelar gradativamente, essa história segue o compasso de tango e valsa como em pródigo e épico caso de amor, ocorrência que foge de classificação ordinária.
Narrativa em que o espanto e a falta do gozo se misturam com o alumbramento, parece abordar o velho desencontro entre homens e mulheres, mas é em outra estação que o passageiro do ônibus do desejo quer desembarcar.
Deusa a exigir altar de devoção, Maria Zeitona me apareceu intacta e intacteável. Dela se soltava a suspeita da brasa sob a cinza. Seu corpo falava pelos olhos. E que olhos cristalindos! Casamos, instantâneos. Eu queria sofrer a promessa daquele fogo. Queria e ficou no querer. Nada se cumpriu parecido com o que havia sido imaginado. Nos folguedos diários, realizados entre lençóis e gemidos, faltava sabor. Ou saber. Para surpresa de Joãotónio, Maria Zeitona cavalgava ignorância no conhecimento de temperos e doçuras. Mais que isso, inspirava insuportável impressão de desgostar do esporte. Maria Zeitona era fria, calafrígida! Eu fazia amores era como se fosse com uma defunta.
Joãotónio, frustrado por não ter conseguido extrair as labaredas em que sonhava se queimar, Zeitona era lenha molhada: o fogo lhe desvalia, e antes que o desespero batesse na porta e o convidasse ao sair à procura do que não conseguia encontrar na própria alcova, encaminhou a questão para rumo inesperado: contratou famosa e rabuda prostituta para escolarizar a amada nas delícias que recheiam as artes amatórias. As duas mulheres concordam com o destrato. A esposa a cumprir estágio com uma dessas profissionais de roça e destroca. Assim ela aprenderia a enrodilhar lençóis. Enfim, ela cometeria o pecado imortal. A outra, mediante algum dinheiro, garantiu que não economizaria lições sobre o ofício. Para finalizar o contrato, afirmou que, quando Maria Zeitona voltasse, eu haveria tanto de despentear com ela que até o colchão reclamaria urgentes remendos.
Depois de algumas semanas, Maria Zenaide voltou. Voltou diferente. Diferente? Muito diferente. Vinha, de facto, mudada. Seus modos eram demasiados estranhos mas não da maneira que eu esperava. Caramba, mano, até ponho vergonha nesta confissão: Zeitoninha vinha com jeitos de homem! A mulher que lá foi, transformou−se em outra, senhora (em alguns momentos, senhor) de outros procederes, outros poderes, um enxoval de desconhecidas acrobacias. Joãotónio pagou por cartilha de alfabetização e recebeu biblioteca. Diante de tamanho desassossego, como faltava−lhe estrutura psicológica para folhear tantos volumes, nada mais restou senão sentir o espinho na carne, uma luxúria que assombrava, ela é que me empurrava a deitar, acredite, ela é que me desapertava, me ia roubando os ares. Eu ficava para ali sem nenhuma iniciativa, executado e mandado como se fosse rapariga iniciada. Invertidos os papeis e as posições, aflição foi o mínimo que Joãotónio sentiu ao perceber que a corda estava espremendo as partes que diferenciam o macho da fêmea.
O problema, mano, é o seguinte: eu até gosto! Me custa admitir, tanto que hesito em escrever. Mas a verdade é que me agrada esta nova condição, sendo−me dada a passiva idade, o lugar de baixo, a vergonha e o receio.
Entre quatro paredes vale tudo, diz a masculina sabedoria popular, sorriso de satisfação escorrendo pelo canto da boca como se fosse sumo de mastigada fruta madura, dessas que se apanham ao pé da árvore, no meio da tarde. Joãotónio é que não conseguiu entender o que estava se passando, sentiu medo em avançar sinal, muitos prejuízos em caso de colisão. E se ficasse viciado nas novas formas de dispor do corpo? Faria o quê? Imerso nessas dúvidas, dívidas produzidas por amor e sexo, perdido ao não mais sentir o chão onde se movimentava com tanta firmeza e certeza antes de Maria Zeitona fazer pós−graduação naquelas loucuras, é que ele escreve a carta.
Mas agora, no momento que lhe escrevo, nem mais me apetece explicações. Quero desraciocinar. Em cada dia não espero senão a noite, as brandas tempestades em que eu sou Joãotónio e Joanatónia, masculina e feminino, nos braços viris de minha esposa. Por enquanto, mano, ainda sou Joãotónio. Me vou despedindo, vagarinhoso, do meu verdadeiro nome.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
TRINTA FRASES SEM COMPROMISSOS COM O AMANHECER (Acompanhadas de algumas gravuras de Johannes Vermeer)
A árvore, quando está sendo cortada, observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira. (Provérbio árabe)
O que está para ser feito a qualquer hora não será feito nunca. (Provérbio escocês)
Os imbecis deixam as suas marcas no que dizem. (Sofocleto)
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores. (Mário Quintana)
O homem que só bebe água tem algum segredo que pretende ocultar dos seus semelhantes. (Charles Baudelaire)
Eu continuo sendo apenas um palhaço, o que já me coloca em nível bem mais elevado do que o de qualquer político. (Charles Chaplin)
O melhor profeta do futuro é o passado. (Lord Byron)
O insensato, quando foge de um vício, ordinariamente se precipita no oposto. (Horácio)
Cansamo−nos de tudo, menos de compreender. (Virgílio)
A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito. (Denis Diderot)
Com a sua intuição, a juventude sabe que o mundo esta cheio de forças; mas não chega a entender qual o papel que a fraqueza, nas suas diversas formas, desempenha no mundo. (Hugo von Hofmannsthal)
Só se escreve para provocar um amigo, conquistar uma mulher ou ganhar muito dinheiro. (Ivan Lessa)
Queremos ser do nosso tempo é estarmos já ultrapassados. (Eugène Ionesco)
Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele; um dia a gente se encontra. (Mário Lago)
Mais difícil do que ter uma grande idéia é reconhecer uma. Especialmente se for de outra pessoa. (Washington Olivetto)
A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades. (Millôr Fernandes)
Não use palavras muito grandes no texto. Não diga "infinitamente" quando você quer dizer "muito". De qualquer forma, não lhe restarão palavras quando quiser falar sobre algo realmente infinito. (C. S. Lewis)
A arte não é só talento, mas sobretudo coragem. (Glauber Rocha)
Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo. (Carlos Drummond de Andrade)
A leitura torna o homem completo, a conversação torna−o ágil e a escrita lhe da precisão. (Francis Bacon)
É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas, quanto os poetas se tornarem razoáveis. (Pablo Neruda)
A consciência é o melhor livro de moral e aquele que menos se consulta. (Blaise Pascal)
Escrevam algo que valha a pena ler ou façam algo que valha a pena escrever. (Benjamin Franklin)
Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. (José Saramago)
(...) a grande, a perfeita solidão exige uma companhia ideal. (Nelson Rodrigues)
O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem de ir colhê−la à beira de um precipício. (Stendhal)
No homem, o desejo gera o amor. Na mulher, o amor gera o desejo. (Jonathan Swift)
Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. (Ítalo Calvino)
Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém. (Mark Twain)
Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes. (Machado de Assis)
O que está para ser feito a qualquer hora não será feito nunca. (Provérbio escocês)
Os imbecis deixam as suas marcas no que dizem. (Sofocleto)
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores. (Mário Quintana)
O homem que só bebe água tem algum segredo que pretende ocultar dos seus semelhantes. (Charles Baudelaire)
Eu continuo sendo apenas um palhaço, o que já me coloca em nível bem mais elevado do que o de qualquer político. (Charles Chaplin)
O melhor profeta do futuro é o passado. (Lord Byron)
O insensato, quando foge de um vício, ordinariamente se precipita no oposto. (Horácio)
Cansamo−nos de tudo, menos de compreender. (Virgílio)
A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito. (Denis Diderot)
Com a sua intuição, a juventude sabe que o mundo esta cheio de forças; mas não chega a entender qual o papel que a fraqueza, nas suas diversas formas, desempenha no mundo. (Hugo von Hofmannsthal)
Só se escreve para provocar um amigo, conquistar uma mulher ou ganhar muito dinheiro. (Ivan Lessa)
Queremos ser do nosso tempo é estarmos já ultrapassados. (Eugène Ionesco)
Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele; um dia a gente se encontra. (Mário Lago)
Mais difícil do que ter uma grande idéia é reconhecer uma. Especialmente se for de outra pessoa. (Washington Olivetto)
A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades. (Millôr Fernandes)
Não use palavras muito grandes no texto. Não diga "infinitamente" quando você quer dizer "muito". De qualquer forma, não lhe restarão palavras quando quiser falar sobre algo realmente infinito. (C. S. Lewis)
A arte não é só talento, mas sobretudo coragem. (Glauber Rocha)
Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo. (Carlos Drummond de Andrade)
A leitura torna o homem completo, a conversação torna−o ágil e a escrita lhe da precisão. (Francis Bacon)
É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas, quanto os poetas se tornarem razoáveis. (Pablo Neruda)
A consciência é o melhor livro de moral e aquele que menos se consulta. (Blaise Pascal)
Escrevam algo que valha a pena ler ou façam algo que valha a pena escrever. (Benjamin Franklin)
Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. (José Saramago)
(...) a grande, a perfeita solidão exige uma companhia ideal. (Nelson Rodrigues)
O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem de ir colhê−la à beira de um precipício. (Stendhal)
No homem, o desejo gera o amor. Na mulher, o amor gera o desejo. (Jonathan Swift)
Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. (Ítalo Calvino)
Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém. (Mark Twain)
Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes. (Machado de Assis)
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
WALY SALOMÃO (1944 −2003)
Waly Salomão, nascido Walid, também conhecido como Waly Sailormoon, marinheiro da lua, filho de um árabe com uma baiana, ponte entre as mil e uma noites e o calor de Jequié (interior da Bahia), era nômade por natureza, nunca parou quieto em algum lugar, amante da filosofia pré−socrática, produtor musical, herdeiro do Tropicalismo, poeta marginal (Me segura qu’eu vou dar um troço foi sucesso de público e crítica nos anos 60).
Embora tivesse voz rouca e forte, dessas que ocupam todos os espaços da sala, falava com as mãos, gesticulando palavras e pensamentos, o corpo se movendo como uma avalanche de idéias.
Waly foi um dos convidados do 5° Encontro Catarinense dos Escritores, realizado em novembro de 2000, em Joinville, SC. Esbanjando simpatia e sorrisos, fez pronunciamentos, leu poemas, esculhambou com o que tinha para ser esculhambado e autografou livros. Enfim, comportou−se como um profissional. Desses que fazem jus ao cachê pago pela organização.
No entanto, em determinado momento, um curto−circuito. Em um dos eventos menores da programação estourou uma discussão. Waly estava no recinto, lá nos fundos, em uma daquelas conversas paralelas típicas de eventos literários. Comprovando que tinha bom ouvido, percebeu que alguém estava falando mal de Kostantin Kavafis. Irritado com a ignorância do sujeito e comprovando desconhecer a prudência, interrompeu a briga, solicitou a palavra e encenou espetáculo.
Adjetivou o sujeito em alto e bom som com os mais diversos, divertidos e inumeráveis palavrões. Pudica e envergonhada, a vítima não sabia onde se meter. Sequer conseguiu encontrar alguma desculpa para escapar daquele constrangimento. Não satisfeito com o massacre, Waly, como se fosse um professor que não tem piedade com o aluno incompetente, desconstruiu toda a argumentação que gerou a polêmica. Sem indulgência, fez questão de esclarecer quais são as diferenças que separam o equívoco e a erudição.
O público aplaudiu de pé − e se pudesse, teria pedido bis.
Esse engraçadíssimo episódio está registrado no número 3 da revista Babel.
Como se fosse um reflexo de sua personalidade, a poesia que Waly escreveu era lírica e agressiva, marginal e discursiva, cheia de ritmo e contrabando, fora de moda e dentro do pensamento selvagem, hino em louvor à contradição e ao labor estético. Como mimeses dos sons produzidos por uma orquestra sinfônica, reavivou, reanimou, re−estabeleceu o reinado do barroco, gotas de chuva se somando à tempestade, luzes e algaravias no meio da noite, detalhes sobre detalhes multiplicando o excesso, seguindo a trilha forjada por personagens/profetas/poetas como padre Antonio Vieira e Gregório de Matos.
Editor da revista Navilouca (ao lado de Torquato Neto), Waly nunca recusou o navegar por mares nunca dantes navegados. Nado no grande livro do mundo, afirmou, folheando a enciclopédia do conhecimento. Mergulhou nas águas turbulentas da crítica, flutuou em traduções, foi ator e espectador das próprias performances. Escreveu letras de músicas gravadas por Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, Zeca Baleiro e Jards Macalé. Soldado da cultura.
Waly Salomão, funcionário público (secretário nacional do livro), morreu aos 59 anos, vítima de câncer, em maio de 2003. Ele sabia que toda poesia é detrito da vida.
OLHO DE LINCE
Quem fala que sou esquisito hermético
É porque não dou sopa estou sempre elétrico
Nada que se aproxima nada me é estranho
Fulano sicrano beltrano
Seja pedra seja planta seja bicho seja humano
Quando quero saber o que ocorre à minha volta
Ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
Experimento tudo nunca me iludo
Quero crer no que vem por ai beco escuro
Me iludo passado presente futuro
Reviro na palma da mão o dado
Presente futuro passado
Tudo sentir de todas as maneiras
É a chave de ouro do meu jogo
É fósforo que acende o fogo
De minha mais alta razão
Na seqüência de diferentes naipes
Quem fala de mim tem paixão
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
ORIDES FONTELA (1940−1998)
Dizem que Orides de Lourdes Teixeira Fontela gostava de gatos e era louca. A primeira parte é verdade, a segunda... também – nenhum poeta consegue escapar da voracidade que contorna a tragédia pessoal. Sobrevivência é mais do que um substantivo perdido nas páginas frias dos dicionários. É promessa de redenção. É compromisso de viver o próximo dia com intensidade superior ao anterior. Bendita a sede / por congregar−nos em torno / da fonte.
Mulher, poeta e pobre: triste coleção de infortúnios em um mundo em que a razão e a ternura foram substituídas pela barbárie capitalista. Professora do ensino fundamental. Bibliotecária. Encrenqueira. Filósofa. Artífice. Tudo / será difícil de dizer: / a palavra real / nunca é suave. (...) (Toda palavra é crueldade.)
Foi "descoberta" em São João da Boa Vista (interior de São Paulo). Foi salva da glória menor que é reservada aos "poetas municipais". A crítica a acolheu desde o início (Transposição, 1969). Poucos leitores, poucos amores, muitas dores. A raiva corroendo o corpo frágil, afastando amigos, destruindo pontes, se espalhando em destroços e cores. Translúcida insanidade com contornos zen-budistas. Sombras amargas que seguem/perseguem o inefável. Afável é adjetivo que nunca lhe caiu bem. Cultivava outra moda: a do insulto, do desprezo, do mal−querer. Jamais adotou artimanha de fraco. Não foi surpresa ter morrido sozinha. Costumava declamar poemas (a voz empostada, ritualizada, solene) como se estivesse rezando: – é proibido / voltar atrás / e chorar.
Versos incandescentes renovam e repetem novos e velhos pensamentos. Repetem o que já se ouviu. Repetem de forma diferente, acrescentando significados, repartindo ilusões. Poemas são símbolos ou cicatrizes. Simplicidade de quem bebe água na fonte. Nunca negou (ao contrário, sempre confirmou) a herança e o diálogo com Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Complementares, cada um enfrentando, destruindo, passando por cima ou contornando as pedras que surgem pelo caminho. Versos de fina tessitura a de/cantar teoremas e silêncios, a ler o desassossego, a nomear sentimentos, a repudiar o inominável. A tarde em mim se / repete / e nunca surgem as estrelas.
Versos são tijolos arremessados contra as vidraças da mediocridade. Poetas são donos de olaria. Repetem incansavelmente o gesto. Entre a mão e o braço, um arco a descrever a fúria. O objeto se desloca em velocidade constante. O choque. O ruído. O estilhaço. Único verso. Universo. Reverso. Transverso, travessura. A palavra vencida / e para sempre inesgotável.
Espectros / farejam todos / os rumos. O sanatório em Campos do Jordão. Poetas deveriam ter alvarás para viver mais do que 58 anos. Dentro dos livros, algumas palavras se repetem incansavelmente: água, pedra, pássaro, flor, sol, estrela, silêncio. Talvez, no fim da tarde, ao abrir a Carta, seja possível descobrir que Da / vida / não se espera resposta.
VIAGEM
esta viagem.
Mulher, poeta e pobre: triste coleção de infortúnios em um mundo em que a razão e a ternura foram substituídas pela barbárie capitalista. Professora do ensino fundamental. Bibliotecária. Encrenqueira. Filósofa. Artífice. Tudo / será difícil de dizer: / a palavra real / nunca é suave. (...) (Toda palavra é crueldade.)
Foi "descoberta" em São João da Boa Vista (interior de São Paulo). Foi salva da glória menor que é reservada aos "poetas municipais". A crítica a acolheu desde o início (Transposição, 1969). Poucos leitores, poucos amores, muitas dores. A raiva corroendo o corpo frágil, afastando amigos, destruindo pontes, se espalhando em destroços e cores. Translúcida insanidade com contornos zen-budistas. Sombras amargas que seguem/perseguem o inefável. Afável é adjetivo que nunca lhe caiu bem. Cultivava outra moda: a do insulto, do desprezo, do mal−querer. Jamais adotou artimanha de fraco. Não foi surpresa ter morrido sozinha. Costumava declamar poemas (a voz empostada, ritualizada, solene) como se estivesse rezando: – é proibido / voltar atrás / e chorar.
Versos incandescentes renovam e repetem novos e velhos pensamentos. Repetem o que já se ouviu. Repetem de forma diferente, acrescentando significados, repartindo ilusões. Poemas são símbolos ou cicatrizes. Simplicidade de quem bebe água na fonte. Nunca negou (ao contrário, sempre confirmou) a herança e o diálogo com Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Complementares, cada um enfrentando, destruindo, passando por cima ou contornando as pedras que surgem pelo caminho. Versos de fina tessitura a de/cantar teoremas e silêncios, a ler o desassossego, a nomear sentimentos, a repudiar o inominável. A tarde em mim se / repete / e nunca surgem as estrelas.
Versos são tijolos arremessados contra as vidraças da mediocridade. Poetas são donos de olaria. Repetem incansavelmente o gesto. Entre a mão e o braço, um arco a descrever a fúria. O objeto se desloca em velocidade constante. O choque. O ruído. O estilhaço. Único verso. Universo. Reverso. Transverso, travessura. A palavra vencida / e para sempre inesgotável.
Espectros / farejam todos / os rumos. O sanatório em Campos do Jordão. Poetas deveriam ter alvarás para viver mais do que 58 anos. Dentro dos livros, algumas palavras se repetem incansavelmente: água, pedra, pássaro, flor, sol, estrela, silêncio. Talvez, no fim da tarde, ao abrir a Carta, seja possível descobrir que Da / vida / não se espera resposta.
VIAGEM
(Orides Fontela)
Viajar
mas não
para
viajar
mas sem
onde
sem rota sem ciclo sem circulo
sem finalidade possível.
Viajar
e nem sequer sonhar−se
esta viagem.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
OS OUTROS – NARRATIVA ARGENTINA CONTEMPORÂNEA
Costumamos esconder a ignorância atrás dos rótulos. Por exemplo, para negar o poder e a qualidade da literatura produzida em Uruguai, Paraguai, Equador, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru, Argentina, Chile, Suriname, Guiana Francesa e Guiana Inglesa, frequentemente usamos o título genérico sul−americana.
Reunir escritores tão diversos como Julio Ramón Ribeyro e Daniel Alarcón, Mempo Giardinelli e Osvaldo Soriano, Felisberto Hernández e Juan Carlos Onetti, José Donoso e Alberto Fuguet em um "balaio de gatos", significa elaborar um constructo ideológico capaz de negar o acesso às diferenças, à alteridade.
Parte desse engano, o caso argentino, adquire visibilidade na coletânea Os outros – narrativa argentina contemporânea, organizada pelo escritor e psicanalista argentino Luis Gusmán. O volume apresenta 27 contos praticamente desconhecidos do público brasileiro. As exceções são Martin Kohan e Alan Pauls – nomes reconhecidos pelo imaginário literário brasileiro. O texto escrito por Sergio Bizzio (Cinismo) também não é estranho: serviu de base para o roteiro de XXY (Dir. Lucía Puenzo, 2007), filme vencedor da Semana de Crítica do Festival Internacional de Cinema de Cannes.
Os escritores argentinos contemporâneos precisam sobreviver à sombra deixada por Jorge Luis Borges. Diante de tamanha herança, uma encruzilhada se estabelece. Ou seguir o caminho trilhado pelo Mestre ou abrir nova estrada. Poucos possuem o espírito de combate dos engenheiros rodoviários. Ao mesmo tempo, ninguém quer ser acusado de ser imitador. Tamanho conflito deságua em constantes tentativas de reler, ritualizar, reatualizar, dissolver e esquecer o passado. Nem sempre essas incursões ao tragicômico fabular resultam em experiências bem−sucedidas. Inclusive porque as fraturas múltiplas e conflitantes espelham os destroços da história política, social e cultural.
Não bastasse Borges, outros nomes também pesam sobre os ombros daqueles que decidem fazer da escrita uma forma de conviver com os próprios fantasmas. Entre Julio Cortázar, Juan José Saer, Roberto Arlt, Macedonio Fernández, Manuel Puig e Ricardo Piglia, uma avalanche está pronta para soterrar vitimas e culpados.
A antologia de Luis Gusmán não quer seguir um caminho particular. Tampouco quer repetir formulas. E nesse fazer o que é possível, faz o que é necessário – apesar dos tropeços (inevitáveis nesse tipo de trabalho). O fato é que, além de fornecer visibilidade para a literatura argentina, alguns contos estão muito acima de outros.
O escolhido (C. E. Feiling) surpreende o leitor. As três cenas que o compõe parecem estar desconectadas até o parágrafo final, onde o horror se revela. Impressionante "tour de force" narrativo.
Em Exótica (Ana Kazumi Stahl), a narrativa se fixa no eterno descompasso entre o imaginário e o real. No embate cultural, decidir pelo novo muitas vezes significa enfrentar a decepção.
O cerco (Martin Kohan) é uma alegoria muito bem construída, sem se reportar diretamente aos governos autoritários. Ao leitor cabe a decisão de encontrar os necessários paralelos ou de lê-la como se fosse uma fábula de inspiração kafkaniana.
A pele de cavalo (Ricardo Zelarrayán) parece contar algumas aventuras picarescas, mas subitamente se desloca para o inesperado. Esse andamento, ao contrário da dispersão, fornece unidade ao desencontro.
Há outros contos igualmente interessantes. Muitos deles margeando a literatura intimista, o "eu" se pronunciando com intensidade. Há também exemplos da pesquisa formal, o monólogo interior manifesto como ferramenta da enunciação que tangencia a poética. Apesar das questões políticas não se apresentarem de forma visceral, elas também estão presentes em todo o livro. A opressão possui inúmeras faces e sempre está armando emboscadas para os ingênuos.
Depois de Os outros – narrativa argentina contemporânea, o leitor se torna cúmplice dessa literatura que promete recompensar o incômodo com alguns prazeres − como se fosse alguém que vai nos revelando, lentamente, segredos agradavelmente excitantes.
Reunir escritores tão diversos como Julio Ramón Ribeyro e Daniel Alarcón, Mempo Giardinelli e Osvaldo Soriano, Felisberto Hernández e Juan Carlos Onetti, José Donoso e Alberto Fuguet em um "balaio de gatos", significa elaborar um constructo ideológico capaz de negar o acesso às diferenças, à alteridade.
Parte desse engano, o caso argentino, adquire visibilidade na coletânea Os outros – narrativa argentina contemporânea, organizada pelo escritor e psicanalista argentino Luis Gusmán. O volume apresenta 27 contos praticamente desconhecidos do público brasileiro. As exceções são Martin Kohan e Alan Pauls – nomes reconhecidos pelo imaginário literário brasileiro. O texto escrito por Sergio Bizzio (Cinismo) também não é estranho: serviu de base para o roteiro de XXY (Dir. Lucía Puenzo, 2007), filme vencedor da Semana de Crítica do Festival Internacional de Cinema de Cannes.
Os escritores argentinos contemporâneos precisam sobreviver à sombra deixada por Jorge Luis Borges. Diante de tamanha herança, uma encruzilhada se estabelece. Ou seguir o caminho trilhado pelo Mestre ou abrir nova estrada. Poucos possuem o espírito de combate dos engenheiros rodoviários. Ao mesmo tempo, ninguém quer ser acusado de ser imitador. Tamanho conflito deságua em constantes tentativas de reler, ritualizar, reatualizar, dissolver e esquecer o passado. Nem sempre essas incursões ao tragicômico fabular resultam em experiências bem−sucedidas. Inclusive porque as fraturas múltiplas e conflitantes espelham os destroços da história política, social e cultural.
Não bastasse Borges, outros nomes também pesam sobre os ombros daqueles que decidem fazer da escrita uma forma de conviver com os próprios fantasmas. Entre Julio Cortázar, Juan José Saer, Roberto Arlt, Macedonio Fernández, Manuel Puig e Ricardo Piglia, uma avalanche está pronta para soterrar vitimas e culpados.
A antologia de Luis Gusmán não quer seguir um caminho particular. Tampouco quer repetir formulas. E nesse fazer o que é possível, faz o que é necessário – apesar dos tropeços (inevitáveis nesse tipo de trabalho). O fato é que, além de fornecer visibilidade para a literatura argentina, alguns contos estão muito acima de outros.
O escolhido (C. E. Feiling) surpreende o leitor. As três cenas que o compõe parecem estar desconectadas até o parágrafo final, onde o horror se revela. Impressionante "tour de force" narrativo.
Em Exótica (Ana Kazumi Stahl), a narrativa se fixa no eterno descompasso entre o imaginário e o real. No embate cultural, decidir pelo novo muitas vezes significa enfrentar a decepção.
O cerco (Martin Kohan) é uma alegoria muito bem construída, sem se reportar diretamente aos governos autoritários. Ao leitor cabe a decisão de encontrar os necessários paralelos ou de lê-la como se fosse uma fábula de inspiração kafkaniana.
A pele de cavalo (Ricardo Zelarrayán) parece contar algumas aventuras picarescas, mas subitamente se desloca para o inesperado. Esse andamento, ao contrário da dispersão, fornece unidade ao desencontro.
Há outros contos igualmente interessantes. Muitos deles margeando a literatura intimista, o "eu" se pronunciando com intensidade. Há também exemplos da pesquisa formal, o monólogo interior manifesto como ferramenta da enunciação que tangencia a poética. Apesar das questões políticas não se apresentarem de forma visceral, elas também estão presentes em todo o livro. A opressão possui inúmeras faces e sempre está armando emboscadas para os ingênuos.
Depois de Os outros – narrativa argentina contemporânea, o leitor se torna cúmplice dessa literatura que promete recompensar o incômodo com alguns prazeres − como se fosse alguém que vai nos revelando, lentamente, segredos agradavelmente excitantes.
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