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terça-feira, 23 de julho de 2019

O PENSAMENTO DE CHRISTIAN JOHANN HENRICH HEINE (1797-1856) EM VINTE E DUAS FRASES.



– Aqueles que começarem a queimar livros, logo acabarão queimando pessoas.

– Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos – mas não antes de terem sido enforcados.

– Deus nos deu a língua para que possamos dizer coisas amáveis aos nossos amigos e duras verdades aos nossos inimigos.

– Muitas vezes digo à vida: não me dês tanto, para que não possas me tirar tanto.

– Não há nada mais silencioso que um canhão carregado.

– O amor é uma velha história e, no entanto, sempre nova.

– Ainda não se descobriu a bússola para navegar no alto mar do casamento.

– Nunca vi um asno falante, mas encontrei muitos humanos que falam como asnos.

– Os romanos nunca teriam tempo de conquistar o mundo se tivessem que – antes – aprender o latim. 

– O historiador é o profeta que olha para trás.

– A morte é o ar fresco da noite; a vida, o dia sufocante.

– Se queres viajar até as estrelas, não procure por companhia.

– A flecha deixa de pertencer ao arqueiro quando abandona o arco. A palavra já não pertence a quem a profere, uma vez que ultrapassa os lábios.

– Onde as palavras acabam, começa a música.

– Poucas vezes compreendi os outros. Poucas vezes os outros me compreenderam. Porém, quando nos encontramos na lama, nos compreendemos rapidamente.

– Dentre todas as invenções, a do sono é a mais preciosa.

– Todo delito que não se converte em escândalo não existe para a sociedade.

– Quem na vida nunca foi louco, nunca foi sábio?

– Nunca admito o ato ou o fato, mas apenas o espírito humano. O ato, o fato, são vestimentas e a história não é mais do que o velho guarda-roupa do espírito humano.

– A verdadeira loucura talvez seja a sabedoria que, cansada de ver as vergonhas do mundo, tomou a resolução de enlouquecer.

– O inteligente se previne de tudo. O idiota faz observações sobre tudo.

– Deus vai me perdoar: é o seu ofício.




sexta-feira, 21 de junho de 2019

21 DE JUNHO DE 1839


Hoje é dia de aniversário do bruxo. Bruxo do Cosme Velho. Aquele sujeito que fazia misérias com as palavras, uma ironia aqui, um cinismo ali, frases com sabor de tapas de luva ou socos na boca do estômago. Nem Mohamed Ali foi tão mortal. Imortal. Talvez esse tenha sido o seu maior pecado venial. 39 membros e um morto rotativo, como sintetizou o melhor dos Fernandes – que, entre muitos acertos, recusou dar cores e flores à teoria do medalhão, esse símbolo do carreirismo pátrio.

Hoje é dia de aniversário do marido de Carolina, essa quase névoa que alcançou o panteão das celebridades através d’um soneto do ilustre consorte. Transformar a ausência em versos exige as bênçãos de Erato – a beleza sempre está acompanhada da dor, como comprova o conto sobre os braços, metáfora antiga, possivelmente se referindo a outras partes do corpo, um formigamento estranho a bulir com sentimentos e regiões pouco recomendáveis aos que não atingiram a maioridade penal.

Hoje é dia de aniversário do filho de Francisco José de Assis e Maria Leopoldina Machado da Câmara, agregados de Dona Maria José de Mendonça Barroso Pereira. Viveram todos em um tempo difícil para as classes subalternas. Mesmo para quem sabia ler e escrever, e que contava com as vantagens típicas do conluio casa grande & senzala, o excesso de melanina não era a melhor carta de recomendação nos círculos imperiais.   

Hoje é dia de aniversário daquele que foi coroinha. Predileto do Padre Silveira Sarmento – que a terra lhe seja leve, assim como se imagina ter sido com o pupilo, no devido tempo. Talvez esteja ai, nessa amizade, a gênese de Bentinho, esse sujeito que, no início da trama, não sabe se entrega a alma a Deus ou se mergulha nos mistérios da carne. Poucos possuem a força de vontade de Santo Antão, aquele que somente sucumbiu à vaidade.

Hoje é dia de aniversário do funcionário público exemplar. Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Enquanto a ciranda dos governos abalava o Império, ele se mantinha lá, forte e burocrata. Tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.  A moldura do Conselheiro Aires também serve para o seu criador. Mimetismos literários. A salamandra se escondendo entre as pedras, o crítico literário apontando para o que destoa do mineral. 

Hoje é dia de aniversário do autor de nove romances, peças de teatro, poemas, contos, crônicas. A sociedade carioca do II Império e do inicio da República. As transições sociais e políticas. O mundo de ponta-cabeça. A modernidade arrombando as portas do passado, destruindo ilusões. Literatura como documento – apesar do olhar oblíquo, que traziam não sei que fluído misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.

No dia do aniversário, a constatação: nunca mais como antes. Nunca mais Nogueira poderá alegar falta de entendimento nas conversas com senhoras, no meio da noite. Nunca mais o Alferes Jacobina enfrentará o seu doppelgȁnger. Nunca mais Simão Bacamarte asilará os loucos de Itaguaí. Nunca mais desentendimentos entre a agulha e a linha. Nunca mais uma cartomante, a pretexto de ganhar algumas moedas, vaticinará amores eternos. Nunca mais Marcela abusará da boa fé de um apaixonado e gastará onze contos de réis em quinze meses. Nunca mais. Nunca mais como antes.

O louvor dos mortos é um modo de orar por eles.

domingo, 9 de junho de 2019

LIVROS: PERDAS E DANOS


Fobias são idiossincráticas. Há quem entre em pânico diante de aranhas, palhaços e baratas. Há quem tenha medo de escuro, choques elétricos e lugares com pouco espaço. Todos os indivíduos possuem algum tipo de temor, normalmente identificado com situação traumática (antiga ou recente) e que – por uma dessas maluquices que fazem os humanos se portarem como humanos – volta à tona na presença daquilo que causa horror.

Na relação (imensa!) de coisas que me causam aversão, a que mais me amedronta é perder livros. Sou um acumulador. Nunca me preocupei em ter dinheiro na conta bancária ou em comprar carro ou imóvel. Meu objeto do desejo sempre foi ter livros. Quanto mais, melhor. E isso, de certa forma (mas não da forma certa), explica porque escolhi a literatura como elemento norteador de minhas escolhas.

Paro diante das estantes (os livros envolvidos pelo que Walter Benjamin chamou de suave tédio da ordem) e vejo aqueles que li e aqueles que – eis o paradoxo – jamais lerei. Sinto um prazer que a outras pessoas parece estranho, esquisito, pouco compreensível. A isso se acresce o fato de que gosto mais da companhia das criaturas de papel do que das pessoas de carne e osso. Quando falam de minha falta de sociabilidade, esboço um esgar de canto de lábio e sigo em frente.

Outro dia, no rascunho de um artigo que está sendo desenvolvido, citei um conto da Susan Sontag. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em formato de bolso, tem menos de 60 páginas. Ou seja, é um livro fácil de desaparecer entre centenas de outros volumes. Fui procurá-lo. Não estava onde deveria estar. Também estava ausente em vários lugares possíveis.

Defendo a tese de que os livros se movem quando o leitor não está olhando. Não importa o cuidado organizacional, retirar e recolocar no lugar certo, eles, os livros, adoram se esconder. E somente reaparecem quando querem – e isso pode acontecer vários meses depois ou nunca!

Revirei prateleiras, movi dezenas, centenas de volumes do lugar. Olhando para aquele mar de histórias, lamentei não saber em que profundeza abissal estava o Assim Vivemos Agora. Como nunca tive vocação para herói, adiei a busca, sentei no sofá, sequei o suor da testa, tentei negar a forte dor nas costas e, para não perder a viagem, amaldiçoei a humanidade.

Na tentativa de acalmar a ansiedade, acessei a Estante Virtual. Na eventualidade de precisar adquirir uma cópia, fui verificar a disponibilidade. Encontrei três exemplares. O primeiro, R$ 85,00 (mais R$ 6,53 de frete); o segundo, R$ 90,00 (mais R$ 8,05 de frete); o último, R$ 130,00 (frete grátis!).

A mercantilização da literatura acompanhou os avanços da tecnologia. Vinte anos atrás, os livros ficavam esquecidos nas prateleiras obscuras de algum sebo mal localizado. Os garimpeiros literários precisavam ter espírito de aventura para extrair do pó e das traças as raridades que se encontravam escondidas entre exemplares de autoajuda e romances açucarados. Quem leu John Dunning sabe o que isso significa. Com a Internet, as listas dos acervos foram digitalizadas e a lei da oferta e da procura se transformou em arma de combate. Para piorar a situação, o mundo bibliográfico foi invadido pela multiplicidade de sebos gourmet. Ou seja, prometem mil serviços "especiais" ao consumidor – livros higienizados, autografados, primeiras edições, ... Tudo isso com preços acessíveis a quem acertou – sozinho – na mega sena.

Algum tempo atrás, na última mudança física, tentando colocar alguma desordem na bagunça que caracteriza a biblioteca, separei a literatura estadunidense das demais literaturas. Empilhados contra a parede, seguindo a fórmula exemplar do delegado Espinosa (personagem do Luiz Alfredo Garcia-Roza), os livros esperam por algum tipo de organização. Paul Auster está misturado com Sherwood Anderson, Ross Macdonald faz companhia para Ralph Ellison, Patti Smith parece ignorar Jonathan Safran Foer. Miscelânea e balburdia. Um dia desses, não sei quando, entro em uma loja e compro novas estantes.

Susan Sontag (1933-2004)
“Só pode estar ali”, disse a mim mesmo, apesar de ter conferido a ausência dois dias antes. Sentei no chão e comecei, outra vez, a busca. É impressionante a capacidade de dispersão de quem procura por algo e encontra vários brinquedos pelo caminho. Entre devaneios e interrupções (fui aquecer a água para o chá, fui até o escritório levar alguns volumes que tinha separado para trabalhos futuros, fui ler as edições virtuais dos jornais, etc.), segui na faina de tentar encontrar algo que não desejava ser localizado.

Há quem aposte que a primeira Lei de Murphy (se algo puder dar errado, dará) é mais importante do que todas as leis da física. Nunca consegui encontrar explicação “científica” capaz de negar esse axioma. Por exemplo, a fila ao lado flui com mais rapidez   enquanto que naquela em que estamos alguém resolveu pagar 518 boletos, o pão sempre cai no chão com o lado untado em manteiga para baixo, etc. e tal.

De qualquer forma, um fio de esperança sempre se fez presente. Ninguém abre mão da probabilidade de encontrar o objeto perdido na última gaveta, na última pilha de roupas, no último lugar possível de estar. Não é comum, mas acontece. Faz parte do show.

Eis o fato desolador: o livro não estava lá! Ou estava e eu, mais uma vez, não o vi. Queria tê-lo encontrado. Mas, ele desapareceu, volatilizou, sumiu. Talvez esteja em algum lugar que não procurei. Talvez não exista mais. É uma tristeza dizer isso, mas os livros também morrem.        

Incêndio da Biblioteca de Alexandria (48 a. C.)

Em tempo

1) Diante da estante em que estão aprisionados os escritores latino-americanos, descubro que o exemplar de Asco, do hondurenho Horácio Castellanos Moya, também está desaparecido.

2) Em lugar incerto e não identificado está um pacote da Livraria Cultura. A transportadora alega ter entregado. Reafirmei para a Livraria que não recebi. Enquanto não localizam o controle e verificam a procedência da minha reclamação, lembrei de uma das minhas muitas conversas com Mestre João Rath, o ilustre proprietário de A Sua Livraria. Ele não se cansava de contar que o seu estabelecimento comercial foi assaltado diversas vezes. Nunca levaram um livro sequer!

3) Ó céus! Ó vida! Ó azar!, se lamentava Hardy, em um desenho animado antigo.

quarta-feira, 27 de março de 2019

TRINTA E CINCO CITAÇÕES LITERÁRIAS (I)


Susan Sontag (1933 - 2004)
Um baleeiro foi para mim Yale e Harvard. (Herman Melville: O Vigarista)

Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor. (Samuel Beckett: Nohow On)

Às vezes estamos envolvidos demais em nossa própria história e não percebemos que somos personagens coadjuvantes na história dos outros. (Nathan Hill: Nix)

O outro, mesmo quando não se trata de um inimigo, só é visto como alguém para ser visto, e não como alguém (como nós) que também vê. (Susan Sontag: Diante da Dor dos Outros)

(...) não era o primeiro que mandava uma mulher na frente, para trazer-lhe prisioneiros atados com flores. (Julio Cortázar: As Babas do Diabo). 

Não é de todo mal ter antepassados criminosos. Um avô incendiário pode deixar, de herança, um bom nariz para fumaça. (Ursula K. Le Guin: A Mão Esquerda da Escuridão)  

Ursula Kroeber Le Guin (1929 - 2018)
(...) a vida de todo rapaz de boa situação financeira se parece com a de uma perdiz numa caçada. (Francis Scott Fitzgerald: Bernice Corta o Cabelo)

A idade ensinou−lhe a pintar amores−perfeitos de péssima qualidade. (Inês Pedrosa: A Instrução dos Amantes)

Aprendam isso, minha gente boa e decente. Um ano eleitoral começa assim que o primeiro tiro é disparado. (Marlon James: Breve História de Sete Assassinatos)

Um dia, quando Rosemary Savage Samarco estava para morrer (pela quinta vez, de um total de dez), confiou à sua filha, Celeste Boyle: – Juro por Deus, o único prazer que tive na vida foi o de encher o saco de seu pai. (Dennis Lehane: Sobre Meninos e Lobos)

Se a minha presença a incomoda, senhora, não preciso que mo diga, e acto contínuo sai-se pela porta fora, sem olhar para trás, olhar para trás é risco tremendo, pode a pessoa transformar-se em sal e ficar ali à mercê da primeira chuva. (José Saramago: O Homem Duplicado)

(...) em toda refeição, contudo, chega a inevitável hora da conversa e do olhar ou da briga. Uma refeição nunca pode terminar num silencio indiferente, a não ser que um dos comensais esteja morto. (Manuel Vásques Montalbán: O Labirinto Grego)

Inês Pedrosa
Desejei duas coisas – uma dose de Bourbon e sabedoria para ter feito tudo de modo diferente. Mas estava no lugar errado para uma, e era tarde demais para a outra. (John Dunning: Impressões e Provas)

A imprudência ou o azar não devem esperar ser salvos pelo altruísmo alheio. (Miguel Sousa Tavares: Não te Deixarei Morrer, David Crockett)

O escritor não entendia por que ela estava contando tudo isso, como se não soubesse – e talvez não soubesse mesmo. Embora naquele tempo já quisesse ser escritor, e um escritor deveria sabê-lo – que é desse jeito que as pessoas se conhecem, contando coisas que não se contam, despejando palavras alegremente, irresponsavelmente, até chegar a territórios perigosos, a lugares em que as palavras precisam do verniz do silêncio. (Alejandro Zambra: Tentar Lembrar)

– Não devia ter feito isso, advertiu a mulher, como que despertando de profunda cisma.
– O quê?
– Voltar ao lugar das primeiras ilusões. (Aníbal Machado: Viagem aos seios de Duília)

De vez em quando alguma palavra se perdia, mas eu a completava imediatamente: em toda conversa sempre há algo para adivinhar. (Pablo de Santis: Os Antiquários)

Hanif Kureishi
Foi então que a vi sem tê-la olhado, sem realmente tê-la olhado, sem sequer dirigir meu olhar para ela, e vi que era loira, loira de verdade, embora parecesse pequena, mas mesmo sem medi-la soube que era feita sob medida para mim. (Guillermo Cabrera Infante: Corpos Divinos)

– Peraí, não precisa ir embora, já já tô voltando pra minha mesa, pro meu cantinho, você está achando que eu sou um marginal, né? E conheço muito bem esse nariz empinado. Qual nariz? Ah, meu amigo, provavelmente não tá ciente, mas esse nariz é o gesto favorito da elite brasileira, eu conheço muito bem, sim señor. Só porque tô pinga numa quinta-feira nesse horário e tô com essa roupa imunda e tô cheirando a ralo você acha que sou um marginal? Que horas são? Cinco e meia? Você acha que sou um marginal só por estar bêbado às cinco e meia duma quinta-feira? Você nunca esteve bêbado num horário assim? Numa quinta-feira? É como falou o cara das barbas, lembra? Quem estiver livre de pecado que atire a primeira pedra. Você deve estar achando que eu sou um desses caras que aparecem nas histórias escandalosas da TV, o coitado que era um executivo de grande sucesso e virou marginal porque a mulher e os filhos morreram assassinados num arrastão ou porque ficou apaixonado por uma pistoleira ou porque virou corno e logo, logo logo, marginal. Não, amigo, essas histórias acabam com o sujeito virando travesti ou escritor boêmio. Se eu contasse minha história você não ia nem acreditar. Obrigado, amigão. Impressionante a velocidade pra servir um chope, né, o bicho só demorou uma década. (Juan Pablo Villalobos: No Estilo de Jalisco)

E, na medida em que as pessoas insistem em diferenciar arte e vida, é melhor que julguem sua obra boa e sua vida ruim do que vice-versa. O mais provável, claro, é que ninguém se importe com nenhuma delas. (Joseph Brodsky: Sobre o Exílio)

Guillermo Cabrera Infante (1929 - 2005)
Engraçado como a memória falha e à medida que vamos escrevendo ela vai surgindo, como ossos que estão soterrados em cova rasa e que são descobertos pela chuva. (Eliana Alves Cruz: O Crime do Cais de Valongo). 

Uma vez Margot me dissera: – Quando você pensa ou sente alguma coisa importante, você escreve em vez de falar. Eu adoraria que chovesse no seu computador! (Hanif Kureishi: O Corpo e outras histórias)

(...) o general, abria gavetas e armários com o objetivo de não encontrar nada, mas para conseguir uma desculpa para perambular de sala em sala. Na década de 1950, havia nos palcos londrinos muitas peças nas quais os personagens faziam frequentes entradas e saídas através de várias portas, e eram vistos novamente no segundo ato, três horas depois. O general se encaixaria bem numa dessas peças. Ele circulava muito atento entre as bebidas, sorrindo experimentalmente, à espera de que logo precisassem dele, mesmo que por apenas por alguns momentos, pois abrir champanha não era tarefa para mulheres. (Penélope Fitzferald: A Livraria)

Uma família era uma arapuca para quem estava nela, um tédio para quem estava fora dela. (Jonathan Franzen: Tremor)

Julio Florencio Cortázar (1914 - 1984)
Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. (Walter Benjamin: Infância em Berlim por volta de 1900).

A experiência acumulada sempre altera a percepção do passado. (Siri Hustvedt: O Mundo em Chamas)


Anne Desbaresdes esperou um minuto, depois tentou levantar-se da cadeira. Conseguiu, ficou em pé. Chauvin não olhava para ela. Os homens continuavam a evitar olhar para aquela mulher adúltera. Ela ficou de pé.
– Eu queria que você estivesse morta – disse Chauvin.
– Eu estou morta – disse Anne Desbaresdes.
Anne Desbaresdes contornou a cadeira de modo a não precisar fazer o gesto de tornar a sentar-se. Depois, deu um passo para trás e virou-se de costas. A mão de Chauvin ergueu-se no ar e tornou a cair sobre a mesa. Mas ela não viu, ele já havia deixado seu campo de visão. (Marguerite Duras: Moderato Cantabile)

Onde há nostalgia há amnésia. (Martin Cruz Smith: O Fantasma de Stalin)

Nathan Hill
Curiosas essas lacunas com que nos deparamos quando esquadrinhamos com uma insistência excessiva a tessitura do passado, já atacada pelas traças. (John Banville: Luz Antiga)

Claro que não perderá tempo a responder-lhe que é impossível não ter inimigos, que os inimigos não nascem da nossa vontade de os ter, mas do irresistível desejo que têm eles de nos terem a nós. (José Saramago: O Homem Duplicado)  

Por que vir a Paris, quando se quer ser uma margarida no campo? (Katherine Mansfield: Feuille d’Album).

– Atanas, eu gostaria que você fosse sério. Uma vez na vida.
– Pensei que fizesse parte das coisas, Vera.
– Parte de quê?
– Da liberdade. Liberdade de não ser sério. Jamais de novo, jamais, jamais, se não corresponder à sua vontade. Não será um direito meu ser frívolo pelo resto da vida, se é isso que eu quero?
– Atanas, você já era tão frívolo quanto agora antes das mudanças.
– Mas na época era um comportamento antissocial. Vandalismo. Agora é meu direito constitucional. (Julian Barnes: O Porco-espinho).

Karl Ove Knausgard
O mesmo carro estava estacionado perto da estrada, o mesmo homem abriu a porta quando bati. Ele me reconheceu, meneou a cabeça, abriu a porta da sala onde estivéramos na véspera, sem entrar, e eu me vi novamente diante de papai. Dessa vez estava preparado para o que me esperava, e seu corpo, a pele devia ter escurecido ainda mais com o passar de mais de vinte e quatro horas, não despertou nenhuma das sensações que tinham me invadido na véspera. Agora eu via somente a ausência da vida. E já não havia diferença entre aquilo que um dia fora meu pai e a mesa onde ele jazia, ou o chão onde estava a mesa, ou a tomada na parede embaixo da janela, ou o fio que ia até a luminária ao lado dele. Pois os seres humanos são apenas formas em meio a outras formas, as quais o mundo não cessa de reproduzir, não só aquilo que tem vida, mas também aquilo que não tem, desenhando na areia, na pedra e na água. E a morte, que eu sempre considerara a maior dimensão da vida, escura, imperiosa, não era mais do que um cano que vaza, um galho que se quebra ao vento, um casaco que escorrega do cabide e cai no chão. (Karl Ove Knausgard: A Morte do Pai).    

Walter Benjamin (1892 - 1940)
– Ah, entendi. Vai ser um livro de seiscentas páginas que apenas dez pessoas vão ler. Parabéns. (Nathan Hill: Nix)

Tu grava uma música, mas não um hit, porque mesmo naquela época era uma música bonita demais pra favela, onde todo mundo já abandonou a ilusão de que a beleza pode facilitar a vida de alguém. (Marlon James: Breve História de Sete Assassinatos)



segunda-feira, 25 de março de 2019

BRASAS E CINZAS

Foto: Marilene Ramlov


O passado muitas vezes se transforma no presente. As lembranças deveriam ser uma dádiva. Deveriam. Não é isso o que acontece. O que ficou para trás costuma voltar em frações, pedaços inesperados. A narrativa vai sendo construída na descontinuidade das elipses.   

(Re)vejo o fogão de lenha crepitando, aquecendo a cozinha da casa grande, lá nos Morrinhos, coração da Coxilha Rica.

                                Foto: Marilene Ramlov
Antes, o terço. Minha avó fazia questão de rezar todos os dias, lá pelas seis horas da tarde, um pouco depois da “Ave Maria” transmitida pela Rádio Clube. Diante do oratório, ficávamos ajoelhados durante uma eternidade. Qualquer movimento era punido com olhares de reprovação. E se havia algo que, naqueles tempos, me causava medo era ver Dona Henriqueta zangada. Isso não impedia, evidentemente, de procurar por coisas que não esqueci nos bolsos da calça ou brincar com algum osso, que imaginava ter a forma de um carrinho. Muitas vezes abandonei a litania para acompanhar a fila indiana das formigas que atravessava a sala e desaparecia em um buraco minúsculo da parede. Em algum momento impreciso a fantasia se dissolvia e a minha voz voltava a acompanhar os infindáveis pai-nossos.

A fé precisava ser provada em jejum. Nem um mísero pedaço de pão era permitido antes das orações. Não adiantava reclamar. Tenha paciência, Deus deve ser atendido primeiro – diziam, como se isso fosse alimento. A solução era engolir o choro e aguardar – o que só servia para aumentar a fome.

Depois da obrigação religiosa, café com mistura. Ninguém “jantava”. Diziam que, à noite, “comida pesada” fazia mal, causava pesadelos, dores de barriga, doenças inimagináveis. Melhor se servir de algo mais leve. Então, tudo se resolvia com copo de leite, bolinhos de coalhada, pão caseiro, queijo, mel e nata. Um pouco de cada, avisava a vó, sempre preocupada com coisas que o menino não entendia.

                                 Foto: Marilene Ramlov
A cozinha era o melhor lugar da casa. Melhor que o quarto. Melhor do que embaixo das cobertas. A geada, lá fora, queimava o capim, dava uma nova cor ao mundo.  O vento conduzia o frio por entre as frestas da casa de madeira. O fogão de lenha nos protegia do clima rigoroso. Foi ali, naquele lugar mágico, que aprendi a ler e a escrever. No princípio, uma cartilha – dessas que constroem a alfabetização através de “b + a = ba” e “Ivo viu a uva”. Depois, quando já conseguia ler e escrever com facilidade, ganhei umas hagiografias, três ou quatro, edições Paulinas. A formação católica estava me empurrando para uma direção que abandonei na primeira oportunidade.

Mais tarde, mais “experiente”, sentado em banquinho “mocho”, ficava ouvindo a conversa dos mais velhos. Depois de algum comentário sobre as notícias ouvidas no rádio, causos de aventura ou de assombração.

                                                        Foto: Marilene Ramlov
A luz do lampião de querosene criava sombras e imagens assustadoras. Isso fazia com que todos ficassem juntos até as oito horas da noite. Era normal dormir cedo. O sono vinha rápido. Na manhã seguinte, tudo era reinício: ordenhar as vacas, alimentar os bichos (galinhas, cavalos, gado), olhar a lavoura, colher frutas, buscar a água no poço.  

Antes de ir deitar alguém sempre olhava o fogão. Era preciso apagar as brasas dormidas que se escondiam no meio das cinzas. O que nunca me contaram é que, tantos anos depois, essas recordações – fagulhas que reúnem o que existiu com o que foi inventado – poderiam causar incêndios incontroláveis.