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segunda-feira, 23 de junho de 2014

A BIBLIOTECÁRIA



Uma ambição significativa do realismo literário contemporâneo reside na combinação de um enredo verossímil com descrições sexuais que – além de manifestarem um elemento essencial da vida social – não possam ser confundidas com a imaturidade adolescente. Infelizmente, salvo engano, a prática desmente a possibilidade de sucesso dessa ideia. Muitos são os obstáculos. São poucos os escritores que conseguem resistir aos prazeres proporcionados pelo sucesso econômico e publicitário. Prevalece o mais fácil – que em 80% dos casos significa preguiça, ausência de técnica e falta de criatividade.

De forma surpreendente, quase escandalosa, sem levar em consideração que a modernidade está saturada por imagens sexuais, diversas editoras brasileiras, preocupadas com as finanças, estão apostando em satisfazer os apetites dos apreciadores do nicho denominado mommy porn (pornô para mães). São tantas as publicações similares – quase todas traduzidas – que se torna difícil distinguir se algumas delas possuem algum componente estético ou literário relevante.

O romance A Bibliotecária, de Logan Belle (pseudônimo de Jamie Brenner), aposta suas fichas em um enredo que se parece ter sido copiado da trilogia Cinquenta Tons, escrita por Erika Leonard James. Poucas são as diferenças, muitas as similaridades. Se não fosse a mudança de cenário e alguns outros detalhes, poderia ser considerado como um plágio escancarado.

Biblioteca Pública de Nova Iorque
Regina Finch, virgem, quase inexperiente nas brincadeiras entre homens e mulheres, depois de terminar um mestrado em biblioteconomia e ciência da informação, consegue o emprego de seus sonhos na Biblioteca Pública de Nova Iorque (localizada na Quinta Avenida).

A história da jovem que compensa as carências afetivas manipulando volumes empoeirados modifica-se no dia em que, explorando o local de trabalho, entra na sala Barnes – que abriga uma coleção fora do alcance dos visitantes. Ao abrir a porta, vê uma cena digna dos romances pornográficos do século XVII. Abalada, se retira rapidamente. Antes, permite que o homem perceba a presença da voyeur.

O que se segue é previsível – inclusive a abundância de diálogos superficiais, que fornecem volume para uma narrativa que não possui densidade suficiente para preencher cinco páginas. O multimilionário Sebastian Barnes, presidente do Young Lions, um conselho que arrecada fundos para a Biblioteca, rapidamente seduz a bibliotecária – que revela grande imaturidade emocional. Ao entregar o coração e o corpo ao Casanova extemporâneo, Regina transforma-se em objeto sexual. Ou melhor, em um simulacro de Bettie Page. O sujeito tem um fetiche pela modelo estadunidense da década de 50, famosa por suas fotos como pin-up.

Bettie Page
O enredo da narrativa, que era praticamente inexistente, se dilui na sequência de várias cenas de sexo selvagem. Acontece de tudo – felação, cunnilingus, sexo vaginal, sodomia. Os livros, depositados nas estantes da Biblioteca, se transformam em testemunhas silenciosas de algumas dessas folias.

Sebastian, que em público parece ser inofensivo, em particular amplia o prazer sexual dominando as mulheres com doses de sadismo leve (mas não muito). Entre outros divertimentos, obriga Regina a usar plugues anais. Quando é desobedecido, não se constrange em marcar a pele da mulher com o chicote. Como compensação, ao permitir esses abusos, ela recebe em troca fantásticos orgasmos e alguns presentes (roupas, joias e uma coleira – símbolo de que o corpo da fêmea pertence ao macho).

O happy end, que nesse tipo de texto significa uma relação estável e exclusiva, ocorre de forma natural. Praticamente uma confirmação do princípio hedonista masculino que transforma os corpos femininos em parque de diversão. 

Trocando em miúdos: manter distância de A Bibliotecária é uma atitude saudável.

terça-feira, 17 de junho de 2014

MEU DUELO COM SOFIO



Não pretendia ler Meu Duelo com Sofio e Outros Contos, escrito por Tito Ryff. Aliás, sequer tinha conhecimento de sua existência. Outro dia, pesquisando – na Estante Virtual, que considero uma espécie de Disneylândia dos bibliófilos – alguns temas que me interessam, encontrei o volume. Edição de 1999. Preço irrisório. Encomendei um exemplar.

Composto por cinco contos, Meu Duelo com Sofio e Outros Contos, é, de forma singular, boa diversão. Sem se esconder atrás de firulas narrativas, o livro está escorado na mais singular das pretensões literárias: contar um punhado de histórias engraçadas.

No conto homônimo ao título, o romance entre o narrador e Mônica parecia destinado ao paraíso amoroso e sexual. Parecia. No meio do caminho surge um gato. Inicialmente identificado como fêmea, o felino foi batizado com o nome de Sofia, homenagem a uma avó de Mônica, recém-falecida. Desfeito o engano, para não alterar a ordem do mundo, a dona mudou apenas a vogal final. Ficou Sofio.

O gato, que tinha sido abandonado na rua, foi recolhido por Mônica em uma madrugada em que ela chegou em casa bêbada. O vínculo entre o animal e a mulher se solidificou com o tempo. Então, em qualquer situação em que esteja envolvido Sofio, a atenção de Mônica se dirige a ele. Anestesiada pelo amor que sente pelo animal, não percebe as nuances que acontecem ao redor e que, de uma forma ou de outra, começam a sabotar o namoro. Por exemplo, o felino tenta impedir a entrada do namorado no apartamento, arranha com as garras a porta do quarto naqueles momentos em que o silêncio é interrompido pelo resfolegar de nossas respirações e alguns gemidos. Mesmo nos momento em que Sofio caça pombas e tenta almoçá-las no meio da sala, essa transgressão comportamental e alimentar é vista pela dona do felino como uma pequena falta, coisa de criança.

Com o passar do tempo, o gato adquire características antropomórficas – e pouco importa se isso é verdade ou fruto da imaginação do narrador. Contra esse tipo de inimigo nenhuma arma é excessiva. Não há limites. Vale tudo – e esse “tudo” é tudo mesmo, inclusive...

As outras histórias, embora tenham suas qualidades especificas, não fazem a mínima sombra para Meu Duelo com Sofio e podem, sem qualquer tipo de constrangimento, serem considerados como “bônus”. De qualquer forma, A Espera tem algum charme; Três Amigos e uma História acrescenta humor ao universo masculino – eternamente povoado por mulheres inacessíveis; À Cata de Novos Filiados tangencia o “jeitinho” brasileiro em terras estrangeiras. Um pouco mais elaborado é Um Filho de Loulé, texto que consegue captar – com precisão – o desamparo que existe entre as gerações. Diante do filho que saiu de casa muito cedo, o pai não consegue reconhecer o mundo que os cerca, não consegue entender o que se rompeu. A solidão não é a companhia que ele escolheu para os dias que lhe restam.

Depois que terminei a leitura e emparedei o exemplar na estante, fiquei um instante a vê-lo desaparecer no meio dos outros livros. Como o show precisa continuar, cabe enfrentar o próximo desafio, a próxima leitura.

Ah, tenho pensado em comprar outros exemplares de Meu Duelo com Sofio e Outros Contos – para presentear amigos e amigas que gostam de gatos.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

DAS PAREDES, MEU AMOR, OS ESCRAVOS NOS CONTEMPLAM



A literatura alimenta o leitor com pequenos prazeres. Os melhores são inesperados. Desafortunadamente, com o avanço das técnicas narrativas e a falta de imaginação de alguns escritores e editores, essas surpresas se tornaram raras. A pasteurização da linguagem e dos temas literários rebaixou a criatividade narrativa. Histórias que não se enquadram no padrão instituído pelos interesses econômicos e pelo mercado de consumo são descartadas. Ou melhor, não são publicadas.

Felizmente, por razões que fogem ao entendimento, algo sempre (ou quase sempre) escapa da normatização. Das Paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam, de Marcelo Ferroni, talvez possa ser considerado como uma espécie de curto-circuito no comportamento bem-educado (e sem identidade) que rege a produção brasileira contemporânea. Não é pouco, não é muito, mas parece ser suficiente para distingui-lo no mar de mesmices, embora não identifique o que realmente importa.

O título não é fácil de lembrar. Parece se referir a alguma citação latina, dessas que não interessam a ninguém, seja porque estão muito distantes no tempo, seja porque remetem a algum tipo de conhecimento que não mais faz parte do cotidiano do leitor. Enfim, o seu valor está em introduzir algum estranhamento no contexto.

Narração em primeira pessoa – com todas as complicações que isso acarreta. Aquele que controla o fluxo narrativo condiciona o texto ao seu ritmo e às questões que quer revelar. 

E isso leva ao primeiro ponto problemático: as primeiras páginas de Das Paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam caracterizam um romance morno, pretensamente moderno, sem grandes novidades, há tantos outros similares com esse andamento. A possibilidade de ser apenas uma comédia de costumes, adejando ao redor de corações fragilizados pela ausência de romantismo, não pode ser descartada.

Então, se o leitor considerar seriamente o enredo, repleto de descrições, esparramado pelas páginas do livro como instrumento da postergação narrativa, complicação que torna necessário ler páginas e mais páginas para obter alguma informação relevante, talvez haja algumas dificuldades na leitura. Os ansiosos provavelmente não gastarão o fôlego tentando entender a paixão amorosa que move Humberto Mariconda, o frustrado escritor que cumpre a dupla função de narrador e personagem.

Humberto está apaixonado por mulher de classe econômica vários níveis acima do dele. Como de praxe, a paixão não encontra correspondência. “Grudento”, ele aceita passar um final de semana na mansão da família de Júlia, na esperança de se reaproximar da moça. Peixe fora d’água, descobre que o esporte favorito dos ricos oscila entre brigar por dinheiro e humilhar os pobres – no caso, ele.



O segundo ponto problemático surge no início da segunda parte do texto, quando o leitor percebe, depois de 140 páginas, que está lendo um romance policial. O desaparecimento de Carla, que trabalha como restauradora da mansão centenária, parece não ter força suficiente para impulsionar o imobilismo geral. Somente quando o patriarca da família, Ricardo Damasceno, é assassinado em uma sala fechada, vedada aos outros hóspedes da mansão, é que surge alguma movimentação dramática. Qualquer lembrança com um daqueles enigmas literários que fazem as delícias dos admiradores de Agatha Christie não constitui mera coincidência.

A longa noite sem luz, os diálogos repletos de ameaças veladas, os cadáveres – essa é a melhor parte do romance. A ação narrativa se torna mais lúdica, mais próxima do entretenimento. Provavelmente, uma das causas desse relaxamento na tensão está na desconstrução dos gêneros literários, na permeabilidade das dinâmicas que instituem a trama narrativa. O inevitável desfecho e suas trapalhadas surge com o clarear do dia, com o fim do delírio e com o despertar da consciência – tudo volta ao normal, inclusive a carência afetiva de Humberto.

P.S: Particularmente irritante é a maneira com que o narrador nomeia dois dos personagens. Em alguns trechos Julia se transforma em “pequena” e Carlos é o “garoto”. Bobagem.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS



A história representada e a história escrita ainda correm por linhas paralelas, mas estão tendendo a juntar-se. (Edmund Wilson, in Rumo à Estação Finlândia)

Liev Davidovitch Bronstein, conhecido como Leon Trótski, foi, simultaneamente, profeta da revolução russa e poeta do socialismo. Com uma biografia repleta de aventuras e selvagerias, ainda é uma das figuras emblemáticas da história contemporânea – setenta e quatro anos após sua trágica morte, na Cidade do México. Sobrevivente dos horrores do cárcere czarista, amargou o exílio e a pobreza. Isso não o impediu de lutar pela construção de uma sociedade igualitária mundial. Em um dos momentos cruciais da história russa, quando Vladimir Ilyitch Uliánov (Lenin), em 1918, solicitou sua ajuda, organizou o Exército Vermelho. Sem qualquer tipo de crise de consciência ou escrúpulos humanitários, destruiu o Exército Branco e estruturou as bases do futuro Estado Soviético. Como observou o poeta Paulo Leminski, na biografia que escreveu sobre Liev Davidovitch, em Trótski, a revolução vai ser uma paixão intelectual, uma certeza lógica, uma convicção feita de ferro em brasa.

Por diversos motivos, seja por ter feito uma leitura política equivocada, seja por vaidade intelectual (estava convencido de que era mais inteligente do que os outros revolucionários), Trótski não conseguiu impedir – depois da morte de Lenin, em 1924 – que Liev Borisovitch Kamenev, Gregori Evseievitch Zinoviev (nascido Ovsei-Gershon Aronovitch Radomyslsky) e Nikolai Ivanovitch Bukharin se tornassem aliados políticos do arrivista Iossif Vissarionovitch Djugashvili, também chamado de Josef Stalin. O georgiano, adepto da força bruta, depois de controlar o Politítchedkoe Byurô (Politburo), assumiu o poder. O que se seguiu é um exemplo clássico de lição histórica: as revoluções só se tornam completas quando devoram os seus filhos mais queridos. Para não ser transformado em mártir, Trótski precisou seguir para um novo exílio, em 1929. Aqueles que o traíram, Kamenev, Zinoviev e Bukharin, não tiveram a mesma sorte. Depois de processos judiciais fraudulentos, foram expurgados do poder e fuzilados – em 1936. Quatro anos depois, vitima de uma trama diabólica, Trótski foi assassinado na Cidade do México.

Leonardo Padura
O romance histórico O Homem que Amava os Cachorros, do cubano Leonardo Padura, retoma, ficcionalmente, ou melhor, arqueologicamente, a história que é comum a alguns dos personagens mais importantes do século XX.  

Tour de force narrativo, o livro procura manter-se longe do maniqueísmo político e o mais próximo possível da essência literária. Oscilando entre a descrição da brutalidade stalinista e do fanatismo trotskista, consegue se esquivar das peças publicitárias. Para o bem e para o mal, Stalin e Trótski eram faces de uma mesma moeda. E, se os papeis fossem invertidos, provavelmente muito pouco teria mudado na história russa – embora Liev Davidovitch fosse um pouco, não muito, mais humano do que Iossif Vissarionovitch.  

Liev Davidovitch Bronstein
O texto está dividido em vários planos narrativos. O principal, focalizado na figura do escritor cubano Iván Cárdenas Maturell, serve de epicentro para que outros personagens possam aflorar. Um sujeito, que diz se chamar Jaime López, faz um relato impressionante. E o faz de tal forma que deixa Iván ansioso por ouvir cada capítulo dessa narrativa. Ao mesmo tempo, por vias transversas, não-verbais, parece fornecer autorização para que o cubano possa expor para outras pessoas o que está ouvindo. Ou seja, quer que Iván transforme tudo o que ele está dizendo em um livro. Para que isso se complete, antes de ser devorado por um câncer devastador, Jaime López envia ao escritor uma longa carta, mais de cinquenta folhas escritas à mão numa caligrafia muito espremida, quase infantil e, depois, uma cópia do livro que foi escrito por Luis Mercader. 

Ao mesmo tempo em que muitas coisas se esclarecem, outras tantas se misturam com a perplexidade.  Iván não consegue compreender como foi que se tornou possível a sua participação nessa confusão: Como podia alguém escapar da história para ir passear com dois cães e um cigarro na boca por uma praia de minha realidade?

A resposta não existe. Mas, a história que Iván recebeu de presente envolve um dos personagens mais estranhos da política mundial: Jaime Ramón Mercader del Rio Hernández (aliás Adriano, aliás Jacques Mornard Vandendreschs, aliás Frank Jacson, aliás Jaime López, aliás Ramón Pavlovitch López, além de outros codinomes). Combatente republicano na Guerra Civil de Espanha, Ramón foi um espectro camaleônico, um fanático ideológico. Recrutado pelos russos para se tornar um agente de elite do Narodnyy Komissariat Vnutrennikh Del – NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), depois de intensivo treinamento, recebeu uma missão muito especial: eliminar Trótski.

Jaime Ramón Mercader del Rio Hernández
Após Stalin assumir o controle estatal, a vida de Trótski se transforma em um martírio. Simultaneamente à penúria (econômica, emocional) produzida por um novo exílio, ainda há uma lenta fila de homens mortos. Dolorosas são as mortes dos filhos: Nina Nevelson e Zinaida (Zina) Volkova, filhas de Alexandra Lvovna Sokolovskaia, Liev (Liova) Lvovitch Sedov e Sergei (Serioja) Lvovitch Sedov, filhos de Natalia Ivanovna Sedova. 

Dos familiares mais próximos, somente Natalia Ivanovna Sedova (a viúva), Vsevolod (Sieva, Esteban) Platonovitch Volkov (filho de Zina) e Julia Sergeevna Rubinshtein (filha de Sergei), conseguem escapar do massacre promovido pelos stalinistas. Não satisfeito em secar todas as fontes vitais que alimentavam a família de Liev Davidovitch, centenas de intelectuais trotskistas foram mortos. Essa carnificina não se mostra suficiente. Stalin quer mais. Muito mais. Quer a morte de Trótski – que, por algum mecanismo psicológico, causa grande mal-estar ao senhor de Moscou. 

Iossif Vissarionovitch Djugashvili
A História, assim como a Medusa, costuma destruir aqueles que ousam olhar diretamente para o seu rosto. Algum dia, (...), se reconhecerá que foram os erros dos revolucionários, mais que o empenho dos imperialistas, que atrasaram as grandes mudanças da sociedade humana, percebe o personagem Liev Davidovitch em um dos momentos cruciais da narrativa. No mesmo sentido, a voz do narrador interrompe a descrição dos fatos históricos para concluir que Muitos, (...), se veriam obrigados a reconhecer que o stalinismo não tinha suas raízes no atraso da Rússia, nem no ambiente imperialista hostil, como chegou a ser dito, mas na incapacidade do proletariado de se transformar em classe governante. Teria que admitir também que a União Soviética não fora mais do que a precursora de um novo sistema de exploração e que a sua estrutura política tinha inevitavelmente de gerar uma nova ditadura, maquiada, quando muito, com outra retórica...

Política é retórica, é discurso, é aparência, é teatro – como tudo na vida. Embora, em alguns momentos, a energia vital tente – a qualquer preço – negar toda e qualquer canalhice. Na visão de Iván, a vida em Cuba (ou na Rússia) pode ser facilmente resumida em poucas frases: era evidente que estávamos mergulhados no fundo de uma atrofiada escala social na qual inteligência, decência, conhecimento e capacidade de trabalho davam lugar à habilidade, à proximidade do dólar, à posição política, a ser filho, sobrinho ou primo de alguém, à arte de resolver, inventar, medrar, fugir, fingir, roubar tudo que fosse passível de roubo. E ao cinismo, à porra do cinismo.

Por não compactuar com esse cenário de degradação, Iván e Liev Davidovitch pagam o preço de estarem jogando uma partida de xadrez sofisticada, repleta de lances obscuros e combinações complicadas. A inevitável derrota se explica na falta de habilidade para calcular todas as variantes, todas as possibilidades. No fim, os adversários, obviamente mais rudes, mais ignorantes, são aqueles que vencem o jogo.

A coda dessa sinfonia macabra está na troca de narrador, no último capítulo. Como se fosse o herdeiro da tragédia, restou a Daniel Fonseca Ledesma, grande amigo de Iván Cárdenas Maturell, contar o desfecho da narrativa. Também lhe cabe lembrar que em das muitas conversas que tiveram, ouviu o amigo lhe dizer que Eu também sou um fantasma... – síntese mais do que eloquente da crueldade com que a política (e, por extensão, a literatura) trata homens como Liev Davidovitch e Iván Cárdenas Maturell.