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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A FILHA PERDIDA

O romance A Filha Perdida, da italiana Elena Ferrante, não deve ser considerado como um ensaio sobre a maternidade. Mas poderia ser. Ingredientes não faltam: a rejeição aos filhos, a ambição pessoal em detrimento da vida familiar e, fundamentalmente, a culpa. Também consagra dois temas que ressurgem em paralelo como aguilhões: o medo da solidão e a banalidade do mal.

O enredo linear da narrativa (seguindo o esquema básico: começo, meio e fim, nesta ordem) não apresenta grandes surpresas. Os poucos flash-backs acrescentam um elemento significativo, a rememoração, quando se trata de descrever com exatidão os sentimentos que estão escondidos naquela “hora neutra da madrugada” (segundo célebre definição de Rubem Braga) em que os fantasmas pessoais adquirem solidez e colocam em relevo a sordidez que recheia os pecados.

Leda, 48 anos, professora universitária, decide passar as férias na praia. Vai sozinha. As filhas (Bianca e Marta) moram no Canadá. Com o pai. Nenhuma surpresa. Por um período, três anos, as meninas estiveram afastadas da mãe. Eu fui embora. Abandonei-as quando a maior tinha seis anos e a menor, quatro, explica Leda, sem tremer a voz, sem estar preocupada que esse tipo de declaração possa apavorar quem está ouvindo. Às vezes, precisamos fugir para não morrer

(...) apesar de ter fugido, não fui muito longe, confessa Leda, ao olhar para o passado. O mundo que encontra fora do ambiente doméstico não se mostra domesticado. Ao contrário, a selva costuma devorar todos os que não conseguem se adaptar ao ambiente predatório. O caso afetivo-sexual que teve com um professor se revelou insatisfatório. Muitas de suas expectativas intelectuais não se efetivaram. A frustração se tornou uma constante.

Leda quer convencer – e se convencer – de sua incapacidade de encenar o papel de Mater Dolorosa, aquela que sacrifica as ambições pessoais em favor da prole. Os filhos sempre causam preocupações, confessa, sem discernir se o que a incomoda é o bem-estar dos filhos ou os mal-estares que eles causam nos pais. Não importa. Qualquer definição conceitual se mostra incapaz de explicar aquilo que a corrói internamente.

Na praia, Leda fixa sua atenção em uma jovem mãe e sua filha. A menina, Elena, brinca exaustivamente com uma boneca. Diversos parentes surgem em algum momento e promovem uma festa. Essa alegria destemperada – que lhe é em tudo distante, porque lembra a falta de educação da própria família – aborrece Leda.

Certo dia, Elena desaparece no meio da multidão que frequenta a praia. Inicia-se uma busca frenética pela menina. Todos saem para procurar. Quem a encontra é Leda, que a entrega aos parentes. O ponto crucial desse incidente se resume em uma questão menor: a boneca de Elena também desapareceu. A menina, desesperada, fica doente – apesar das promessas da mãe, Nina, de comprar outra boneca.

A racionalmente desaparece, nessa história, diante de um detalhe mesquinho. Leda escondeu a boneca na bolsa de praia. A princípio, a ideia era devolver no dia seguinte. Não foi o que aconteceu. Mesmo sabendo que Elena estava com febre, ou talvez por isso mesmo, manteve a boneca escondida no apartamento que havia alugado para passar as férias. Sem precisar usar as ferramentas de análise psicanalíticas, o leitor percebe que Leda compensa a sua incapacidade de estabelecer uma relação saudável com o mundo que habita com a companhia do brinquedo.

O que se segue equivale a uma descrição precisa das torturas que acompanham a maldade. Leda, apesar de ter excelente compreensão dos acontecimentos, não se preocupa em desfazer o horror. Prefere macerar a culpa por estar agindo errado, ao mesmo tempo em que vê o sofrimento que causa. Derramei a raiva secreta que nutria por mim mesma, diz, em outro contexto, mas que serviria perfeitamente para caracterizar a situação.

Em paralelo, há outros elementos que interagem no desenvolvimento da narrativa. Um dos mais emblemáticos surge quando Leda descobre que Nina está tendo um caso extraconjugal com Gino, o salva-vidas. Esse fato desencadeia uma nova serie de complicações, inclusive o desfecho. O fio que liga o cotidiano e as relações sociais foi rompido. Sobra pouco. Muito pouco. 

No telefone, falando com as filhas, Leda faz um resumo dos acontecimentos:

Nesse momento tocou o telefone. Vi o nome de Marta, senti uma grande satisfação e atendi. Ela e Bianca, em uníssono, como se tivessem preparado a frase e a recitassem acentuando meu sotaque napolitano, gritaram alegremente no meu ouvido.

– Mamãe, o que você anda fazendo, não liga mais para a gente? Pode pelo menos nos dizer se está viva ou morta?

Murmurei, comovida:

– Estou morta, mas bem.


Evidentemente, essa cena não é uma metáfora “ad hoc”, tanto que, ao voltar para Florença, Leda bate o carro na barra de proteção da estrada. Aos amigos e às filhas explica que dormiu ao volante. Mas eu sabia perfeitamente que esse não fora o verdadeiro motivo. O motivo havia sido um gesto sem sentido, sobre o qual, justamente por ser sem sentido, decidi não contar a ninguém. As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.



TRECHO ESCOLHIDO


(...) Fiquei muito feliz ao saber, quando estava grávida, que dentro de mim uma vida se formava. Eu queria fazer tudo da melhor maneira. As mulheres da minha família inchavam, dilatavam. A criança estabelecida no ventre delas parecia uma longa doença que as transformava, mesmo depois do parto não voltavam mais a ser as mesmas. Já eu queria uma gravidez vigiada. Eu não era minha avó (sete filhos), não era minha mãe (quatro filhas), não era minhas tias, minhas primas. Eu era diferente e rebelde. Queria carregar minha barriga inchada com prazer, aproveitando os nove meses de espera, espiando, guiando e adaptando meu corpo à gestação, como eu havia feito teimosamente com tudo na minha vida desde o início da adolescência. Eu me imaginava como uma peça fulgurante do mosaico do futuro. Por isso me cuidei, segui rigorosamente as prescrições médicas. Consegui permanecer bonita, elegante, ativa e feliz durante todo o período da gravidez. Eu falava com a criança na barriga, fazia com que ela ouvisse música, lia no original os textos em que eu estava trabalhando, traduzia-os com um esforço inventivo que me enchia de orgulho. O que depois se tornou Bianca já era Bianca para mim desde o início, um ser em seu melhor estado, purificado de fluídos e sangue, humanizado, intelectualizado, sem nada que pudesse evocar a crueldade cega da matéria viva em expansão. Até minhas longas e furiosas dores do parto consegui subjugar, moldando-as como uma prova extrema a ser enfrentada com sólida preparação, contendo o terror e deixando de mim – especialmente de mim mesma – uma lembrança digna.


Fui bem-sucedida. Como fiquei feliz quando Bianca saiu de dentro de mim e veio para os meus braços por alguns segundos, e percebi que ela havia sido o prazer mais intenso da minha vida. (...) Mas depois veio Marta. Foi ela que agrediu meu corpo, obrigando-o a revirar-se sem controle. Ela se manifestou desde o início não como Marta, mas como um pedaço de ferro vivo na barriga. Meu corpo se tornou um licor sanguinolento, e suspenso nele havia um sedimento mole dentro do qual crescia um pólipo furioso, tão distante de qualquer humanidade que me reduziu, ainda que ele se nutrisse e expandisse, a uma matéria pútrida sem vida. (...)


Eu já estava infeliz naquela época, mas não sabia. Parecia que a pequena Bianca, logo após seu lindo nascimento, havia mudado de maneira brusca e roubado traiçoeiramente toda a minha energia, toda a minha força, toda a minha capacidade de fantasia. Parecia que meu marido, ocupado demais com a sua fúria de progredir, sequer percebia que sua filha, depois de nascer, havia se tornado voraz, exigente, desagradável como nunca me parecera dentro da barriga. Descobri aos poucos que eu não tinha força para tornar a segunda experiência tão emocionante quanto a primeira. Minha cabeça afundou para dentro do corpo, parecia que não havia prosa, verso, figura de linguagem, frase musical, sequência de filme ou cor capaz de domesticar a fera sombria que eu carregava no ventre. Aquela foi a verdadeira derrocada para mim: a renúncia a qualquer sublimação da minha gravidez, a desconstrução da mesma lembrança feliz da primeira gestação, do primeiro parto.   

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ATLAS DE NUVENS

Atlas de Nuvens, de David Mitchell, é uma espécie de terremoto na paisagem do romance contemporâneo – a tradução no Brasil ocorre tardiamente, depois de longos doze anos de defasagem com a publicação original na Inglaterra. Ao chegar à última página do romance, muitos leitores ficam de pernas para o ar, de ponta-cabeça ou qualquer outra figura de linguagem que caracteriza a ausência de chão embaixo dos pés. A audácia de combinar alguns elementos, aparentemente desconexos, como o romance de aventuras, o escapismo científico e as complicações políticas, resulta em uma espécie de sinfonia. Dessas que merecem aplausos. De pé. Durante quinze minutos. Ou mais.

Os seis segmentos ficcionais que estabelecem a espinha dorsal do romance fornecem uma releitura do mito de Teseu e do Minotauro – do ponto de vista intelectual. A narrativa foi elaborada como um continuum de histórias interligadas e que se multiplicam em espiral, gerando outras conexões, outras referências, outras leituras. O proposito dessa estrutura complicada, semelhante a um labirinto, induz à impressão de que será difícil desmanchar o emaranhado. Felizmente, é um efeito falso. Na medida em que o leitor começa a encaixar as peças e a elaborar mentalmente o desenho narrativo, todas as dificuldades desaparecem e são substituídas pelos elementos que conduzem para longe o ininteligível.

Ao utilizar uma estrutura narrativa polimorfa (diário, epistolografia, romance policial, ficção científica, entrevista, linguagem de baixo extrato gramatical) e o entrecruzamento de narradores (em alguns momentos em primeira pessoa; em outros, em terceira pessoa) o texto procura mapear o deslocamento histórico e geográfico de um caderno de anotações. Entre 1850 (quando Adam Ewing, passageiro do Prophetess, um navio de carga, escreve sobre os fatos que presencia) e uma data não identificada no futuro (quando, um pouco antes de sua execução, Sonmi~451, uma estrutura semi-humana, clonada para desempenhar tarefas subalternas, depõe sobre uma tentativa de insurreição), muitos eventos ocorrem, muitas complicações se sucedem. Em alguns momentos, a proposta desse fragmento está conectada com o aviso de que a modernização tecnológica se assemelha com o extermínio da civilização. Nos interstícios temporais  e narrativos surgem em cena personagens pitorescos como Henry Goose, Robert Frobisher, RufusSixsmith, Luisa Rey, Timothy Cavendish, Zachry Bailey, Meronyme, Hae-Joo Im. Eles aparecem, desaparecem, reaparecem na narrativa como se fossem folhas sopradas pelo vento. Ou seja, apesar do romance estar povoado por tragédias, a poesia também está presente. O último pedido de Sonmia~451, por exemplo, é um “achado”, pois consagra o que ela define como o momento em que conheceu a felicidade. A máquina (seja lá o que for Sonmia~451) tem sentimentos e eles são humanos (seja lá o que isso for).

O título do livro se refere a uma peça musical, composta por Robert Frobisher. Em estado de completa penúria financeira, Robert (um indivíduo sem grandes escrúpulos morais) procura salvação como assistente de Vyvyan Ayrs, um compositor famoso e quase cego, que mora no interior da Bélgica. Nos intervalos do trabalho, ele escreve dezenas de cartas para Rufus Sixsmith, seu amante, relatando com riqueza de detalhes os principais acontecimentos que protagoniza. Com exceção do afeto que sente pelo companheiro, na sua escrita não há lugar para bons sentimentos. Precisando viver no exílio intelectual, ele, por conveniência, se torna amante da esposa de Ayrs. Também rouba preciosidades bibliográficas de seu patrão (uma delas é o diário de Adam Ewing). É a vida medíocre que o torna capaz de compor uma obra-prima, para logo depois se suicidar, antes dos 25 anos.

Outro personagem impressionante é Timothy Cavendish, um editor londrino. De trambique em trambique, ele consegue manter os credores à distância. Um dia, contra todas as possibilidades, Timothy ganha na loteria. Metaforicamente, é claro. Um de seus autores se torna um best-seller. No instante em que começa a sobrar algum dinheiro em caixa, ele precisa administrar problemas que não estavam previstos. Talvez o mais significativo seja o encarceramento em uma instituição para pessoas com problemas mentais. A fuga e o desfecho dessa aventura são hilários.

Sem se apegar ao romance policial clássico ou com a distopia que acompanha a ficção cientifica, Atlas de Nuvens consegue se utilizar desses suportes narrativos com maestria, de forma que o enredo principal não sofra algum tipo de declínio. É o contrário. A união de tantas formas narrativas – que muitos consideram como antagônicas – acrescenta qualidade ao texto e permite dizer que Atlas de Nuvens renova a carpintaria narrativa do romance, dando ao gênero literário um novo fôlego. E transforma a estrutura tradicional (começo, meio e fim, nessa ordem) em uma sombra difusa do potencial que pode ser explorado por escritores com imaginação e talento.   

P.S: Há uma versão cinematográfica de Atlas de Nuvens, dirigida pelos irmãos Lilly e Lana Wachowski e por Tom Tykwer (2012) e que no Brasil recebeu o incompreensível título de A Viagem.


TRECHO ESCOLHIDO


 A explosão alcança Luisa Rey e a lança para a frente de modo irresistível, como uma onda do Pacífico. O corredor gira noventa graus – várias vezes – e atinge Luisa nas costelas e na cabeça. Pétalas de dor se abrem diante de seu campo de visão. A alvenaria geme. Pedaços de gesso, cerâmica e vidro chovem, chuviscam, cessam.


Uma paz tensa. O que é isso que eu estou vivendo? Pedidos de socorro brotam do meio da poeira e da fumaça, gritos da rua, alarmes que disparam no ar queimado. A mente de Luiza volta a funcionar. Uma bomba. O guardinha urra e geme. O sangue escorre de seu ouvido, formando um delta no colarinho da camisa. Luisa tenta se afastar, mas sua perna foi arrancada.


Ela abre a boca para gritar, mas o horror passa, sua perna está apenas presa debaixo do chinês desacordado. Luisa livra-se do homem e sai rastejando, dura e doída, mas sem nada de grave, atravessa o saguão do banco, agora transformado num cenário de filme. Chega à porta reforçada, arrancada das dobradiças. Escapei por um triz. Vidro quebrado, cadeiras de pernas para o ar, pedaços de parede, pessoas feridas em estado de choque. Uma fumaça negra e oleosa emana dos dutos, e um sistema de sprinkles entra em ação – Luisa fica encharcada e sufocada, escorrega no chão molhado e tropeça, zonza, encurvada, em outras pessoas.


Uma mão benévola a segura pelo punho. “Se apoia em mim, se apoia em mim, eu ajudo você a sair daqui, pode ter outra explosão.”


Luisa se deixa levar, e lá fora, à luz congestionada do sol, há uma muralha de rostos atentos, sequiosos de horrores. O bombeiro conduz Luisa até o outro lado de uma rua cheia de carros engarrafados, e ela se lembra das imagens que viu no noticiário, em abril, mostrando Saigon em guerra. A fumaça ainda jorra. “Saí daí! Pra trás! Pra lá!” Luisa, a jornalista, está tentando dizer alguma coisa a Luisa, a vítima. Sua boca está cheia de saibro. Alguma coisa urgente. Ela pergunta ao homem que a salvou: “Como foi que você chegou tão depressa na cena da explosão?”


“Tudo bem”, ele insiste, “você sofreu uma concussão.”


Um bombeiro? “Eu já posso me virar sozinha...”


“Não, é mais seguro por aqui...”


A porta de um Chevrolet preto empoeirado se abre.


“Me solta!”


O punho do homem é de ferro. “Entra nesse carro”, ele murmura, “senão te dou um tiro no meio dos cornos.”


Aquela bomba era para mim, e agora...


O sequestrador de Luisa geme e cai para a frente. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

JOÃO RATH E ALGUMAS LEMBRANÇAS

Foi no final dos anos 70 e eu tinha quase vinte anos. O Edézio H. W. Caon, por alguma razão desconhecida, resolveu me apresentar alguns “comunistas” que frequentavam A Sua Livraria. Demorei um pouco para perceber que o rótulo ideológico era uma espécie de piada particular, um pouco alusão sobre o fato de João Rath, o proprietário da loja, ter sido acusado desse “crime” em 1964, um pouco ironia sobre a situação do Brasil – que estava dividido entre MDB e Arena.

A livraria estava situada no início da Rua Nereu Ramos (onde hoje se localiza uma das agências da Caixa Econômica) e, em uma sala nos fundos, sob o pretexto de tomar chimarrão, reunia os mais diversos segmentos sociais, econômicos, políticos e intelectuais da cidade. Foi lá que tive o prazer de conhecer alguns dos personagens que – depois de tanto tempo – ainda participam do meu imaginário: Rogério Castro, Senador Celso Ramos, Pedro Fava, Sineval Couto, Antônio Munarim e o casal Walmor (Nini) Beltrame e Sonia Stradiotto, entre outros. Rogério Córdova, que era um dos dirigentes do Colégio Industrial (onde eu estudava), Ari Martendal, Sergio Sartori (um dos meus professores de História) e Dona Eda Arruda Scur (minha parente!) também visitavam o ambiente. O espaço era bem mais democrático que possa parecer, tanto que os militantes mais assumidos da direita também costumava “filar” o mate – a sede da Arena era ao lado da livraria!  

A primeira coisa que notei ao entrar na loja foi o jirau (que algum metido possivelmente chamará de mezzanino). A livraria era enorme e o João Rath controlava o movimento dos clientes lá de cima (conta a lenda que foi daquele lugar que o Edézio Nery Caon – literalmente – “lançou” o mais famoso dos best-sellers lageanos, A Academia). Depois de resolver o expediente burocrático (ir ao correio, ir aos bancos, fazer pedidos às editoras, separar os livros para devolução), João descia para conversar com os amigos – que entravam e saiam durante todo o dia, de acordo com interesses pessoais.

Por algum motivo que foge de qualquer nível de compreensão (inclusive porque não gosto de chimarrão!), fui adotado. Primeiro por Dona Maria Rath, que cometeu a insanidade de me oferecer crédito na livraria. Depois, me enturmei com os “velhos” (quase todos tinham, no mínimo, o dobro da minha idade). Sempre que tinha algum tempo livre, ia para lá “namorar” os livros, comentar o noticiário nacional. Evidentemente, causei algumas dificuldades. O estudante rebelde (meu personagem favorito daquela época) costumava dizer várias bobagens de cinco em cinco segundos. E a regra da casa era simples: quem diz o que quer, escuta o que não quer. O aprendizado nem sempre é suave.

Alguns anos depois, a livraria teve que mudar de endereço. Continuou na mesma rua, mas uns 200 metros mais abaixo e do outro lado da calçada. Infelizmente, os participantes da roda de chimarrão eram outros (muitos dos antigos tinham se mudado de Lages, outros foram levados pela indesejada das gentes). De qualquer forma, eu costumava “bater o ponto” quase todos os dias. Principalmente para conversar com o João Rath – embora ele não gostasse muito de ser interrompido em sua rotina. O escritório era menos sofisticado, separado da livraria por uma estante quase cheia (pelos espaços vazios era possível ver o movimento na loja). Minha imagem mais nítida desse tempo mostra o João sentado, diante da mesa de trabalho, mergulhado em um mar de papéis ou resolvendo as palavras cruzadas do jornal (no final da tarde). Os visitantes ou se sentavam em uma “namoradeira” de madeira, com espaço para duas pessoas, ou no sofá (que acabou ficando famoso, mas essa é outra história). Nesse período era fácil "jogar conversa fora" com Márcio Camargo Costa, com a “doutora” Lélia Pamplona, com Sergio Ramos e com Valmir Nunes. Nos sábados pela manhã, o encontro marcado era com Alcione Wagner, Edézio H. W. Caon e Fernando Agustini.

Valmir Nunes, Ari Martendal, Raul Arruda Filho,
João Rath, Sergio Ramos e Edézio H. W. Caon
Para quem gosta de literatura, a vida do livreiro João Rath está entrelaçada com uma interessante coincidência. Ou melhor, um ponto de intersecção entre o real e a ficção. As oitocentas e tantas páginas do romance Ulisses, escrito por James Joyce, transcorrem no dia de seu aniversário: 16 de junho. A data é comemorada no mundo todo como Bloom’s day.    

Minhas conversas com João pareciam intermináveis, repletas de “causos” paralelos, e, algumas vezes, continuavam no dia seguinte. Invariavelmente, eu lhe pedia algum conselho sobre questões pessoais. Ele tergiversava ou emitia algum comentário ameno. Mesmo assim, ajudava. E muito. Era como se ele dissesse que a tomada de decisões, boas ou ruins, é algo particular, pessoal. E que devemos estar atentos ao desencadear de reações, muitas vezes imprevistas. Optar por isso ou aquilo tem preço – ninguém pode delegar a terceiros essa carga.  

Guiomar Rath Gargione e seu pai, João Rath
Além de ser um ótimo conselheiro, João tinha – aos meus olhos – quatro significativas qualidades: sólida formação intelectual, memória invejável, determinação e humor. A união dessas características podia ser observada na forma sóbria com que analisava o mundo. Filho de uma das pioneiras da educação lageana, Fausta Rath, estudou em colégio interno por algum tempo. Em Lages, integrou a primeira turma do Colégio Diocesano – Nereu de Lima Goss e Laerte Vieira foram seus colegas. Tentou ingressar na faculdade, em Porto Alegre. A situação financeira familiar impediu esse avanço escolar. Conhecia história, geografia, religião e literatura clássica com profundidade. Em conversas sobre esses assuntos, era capaz de recordar datas e acontecimentos com assustadora exatidão. Era comum que algum incrédulo consultasse livros e enciclopédias para localizar enganos, mas... tempo perdido.

Fiel depositário da memória histórica, João Rath participou de alguns dos mais importantes acontecimentos culturais e políticos de Lages durante cerca de cinco décadas (grupo de escoteiros, fundação do "Correio Lageano" e Casa da Cultura, por exemplo).

Quando decidia alguma coisa, raramente mudava de opinião. Em momentos distintos de sua vida, decidiu abandonar o álcool e o tabaco. Nunca mais bebeu ou fumou.

João Rath, Danilo Castro, Nereu Goss,
Ari Martendal e Raul Arruda Filho
Em público, era um homem sério; em particular, esbanjava humor. Adorava trocadilhos. Quando falava sobre o regime militar iniciado em 1964, lembrava que um militar o havia advertido, no momento de sua prisão, que estava sendo acusado de defender “certas ideias e não as ideias certas”. Também repetia que o governo, nesse período, tinha o desagradável costume de alterar a frase latina si vis pacem para bellum (se quer a paz, prepare-se para a guerra) para Civis? Passem no parabélum!.

Fiel ao lema “perco o amigo, mas não perco a piada”, dizia que, se deixasse passar uma situação engraçada, ficava com remorso (!!) e não conseguia dormir a noite. Assisti várias vezes a encenação de um de seus divertimentos favoritos: em almoços, principalmente quando estava na companhia de estranhos, costumava se queixar, de forma bastante triste, que a Madre Superiora (que era como ele chamava carinhosamente a Dona Maria), por pura maldade, o proibia de comer sobremesa. Invariavelmente, o ouvinte acreditava na narrativa e passava a olhar para Dona Maria como se ela fosse uma megera! Isso não era verdade, mas ele se divertia bastante com essa brincadeira inocente.

Não posso garantir a total veracidade dos fatos que estou recordando, o tempo corrói as lembranças, mistura o antes e o depois, deixa esse vazio que somente conseguimos preencher inventando. O que tenho certeza é que (tomado pelo sentimento de orfandade, pois sempre o considerei como uma espécie de avô adotivo) fui forçado a me despedir de João Francisco Regis Rath de Oliveira no dia 24 de outubro de 2016.

Nada conseguirá diminuir a dor física que acompanha a ausência.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

BOB DYLAN E O NOBEL DE LITERATURA

A vida está repleta de surpresas. E todo ano, em outubro, quando anunciam o nome do vencedor do Nobel de Literatura, essa tese recebe confirmação. Para algumas pessoas os palpites para 2016 eram iguais aos de 2015 e 2014: Ismail Kadaré, Philip Roth e Amós Oz (nesta ordem). Haruki Murakami também estava na lista – um pouco abaixo, na companhia de outros autores menos cotados. Todos foram preteridos – mais uma vez! No caso de Roth, considerado como persona non grata pela Real Academia Sueca, as chances, com o passar do tempo, se tornaram nulas. Para os outros três, cabe esperar pelos próximos anos – torcendo para que a premiação (se houver) não ocorra tarde demais.

Robert Allen Zimmerman, Irwin Allen Ginsberg
e o túmulo de Jack Kerouac 
A notícia de que o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2016 (e dos oito milhões de coroas suecas, cerca de três milhões de reais) foi Robert Allen Zimmerman (Duluth, Minnesota, 24/05/1941), mais conhecido como Bob Dylan, não conseguiu atingir a unanimidade. Protestos foram realizados nos quatro cantos do mundo. Também aconteceram centenas de comemorações. Infelizmente, como sói acontecer em situações similares, reflexões mais significativas não ganharam espaço na linha de frente ou nas manchetes dos jornais. Críticos e fãs preferiram bombardear os adversários com discussões estéreis. Letra de música não é literatura, disseram alguns. Outros preferiram argumentar sobre a necessidade capitalista de promover (e lucrar) com a contracultura e a cultura pop.

Para os primeiros, cabe lembrar que parte da teoria da literatura considera   atualmente    que todos os gêneros literários são fluídos, ou seja, não possuem fronteiras definidas. Alguns textos em prosa são poéticos, alguns poemas flertam com a prosa, a dramaturgia surge no inesperado e, em muitos casos, raramente se consegue dizer, com certeza, que isso é isso e aquilo, aquilo. Normalmente a boa literatura (seja lá o que isso for!) é composta pela soma de isso com aquilo (embora a predominância de um ou de outro se manifeste em diversos casos). Em outras palavras, o argumento mais sólido usado nesse momento está relacionado com o entendimento de que a modernidade e a literatura são líquidas (seguindo o pensamento de Zygmunt Bauman). E, nesses termos, transgredindo a lição de Heráclito de Éfeso, cabe se banhar dezenas de vezes nas águas de um mesmo rio. Só não vale afogamento (vá lá, alguns casos aconteceram!).

Se esse cinismo a-pós-a-moderna-idade não for o canto das sereias suficiente para produzir o sebastianismo que todos anseiam, urge lembrar que houve um tempo em que a música e a poesia eram irmãs siamesas. Na antiguidade clássica e medieval, o ritmo sonoro estava intimamente ligado com a versificação. Era um corpo indivisível. Nada conseguia separar as duas formas artísticas.

Bob Dylan e Mohamed Ali
Aedos, rapsodos, menestréis, trovadores e bardos (cada qual no seu devido tempo histórico) seguiam de cidade em cidade cantando canções líricas e epopeias heroicas. Sob a proteção de Orfeu, transmitiam oralmente as expressões da beleza. Eram os responsáveis pela (como diria Walter Benjamin, vários séculos depois) faculdade de intercambiar experiências. E, nessa festa constante, onde o lúcido estava associado com o lúdico, mostravam ao mundo que as questões mais significativas (amor, ódio, coragem, inteligência, inveja, morte) são universais. Poemas como Iliada e Odisséia, para ficarmos nos exemplos mais básicos, não chegariam até nós se não fosse o trabalho desenvolvido por esses artistas itinerantes. Somente mais tarde, muito mais tarde, quando Gutemberg (confirmando a fragilidade de papiros, pergaminhos e manuscritos) aprimorou a impressão com tipos móveis, é que foi possível dizer que surgiu um suporte mais eficaz para a transmissão do conhecimento. 

Bob Dylan e David Bowie
O divórcio entre a música e a poesia ocorreu em algum momento, embora ninguém consiga precisar quando. Como se fossem formas estranhas e distantes, elas passaram a caminhar por estradas paralelas, satisfeitas por nunca se encontrarem no infinito. A perda artística foi inestimável. A partir dessa fratura, fomentou-se o preconceito de que a poesia era uma forma de arte "superior" e que as letras de música (lyrics, na língua inglesa) não poderiam mais ser consideradas como manifestação literária, pois estão destinadas somente – e tão somente – a ser acessórios da estrutura melódica. Mesmo no mundo operístico, que consagra a união entre a música e a palavra, costuma-se ignorar o libretto – como se ele fosse a parte menos importante.

Bob Dylan e Bruce Springsteen
Com relação à outra restrição, mesmos os mais reacionários não conseguem negar o crescente interesse econômico da indústria cultural (que procura cooptar tudo o que não consegue destruir). A era da reprodutibilidade técnica (Walter Benjamin outra vez!) possibilitou que a distinção entre originais e copias se perdesse no balcão de negócios que transformou a arte em mercadoria. A fabricação de objetos em serie multiplicou a margem de lucros. Nesse sentido, para o capitalismo literário, há significativa diferença entre premiar, digamos, um poeta desconhecido do Vietnã e um grande astro europeu ou estadunidense. No segundo caso há tantas vantagens, que “desovar” estoques (que, de outra forma, estavam destinados a ocupar um espaço que poderia ser utilizado com outro produto mais rentável) fica em segundo plano. O entusiasmo de todos os participantes da engrenagem comercial se multiplica diante da possibilidade de vender um produto antigo revestido por uma nova embalagem (que fornece uma releitura aos conteúdos e cria algum tipo de compulsão pelo consumo).

Cher, Sonny Bono e Bob Dylan
Nos últimos trinta anos, talvez mais, a contracultura e a cultura pop perderam  parte do caráter libertário que as caracterizam. Passaram a ser itens da produção massificada. A rebeldia comportamental, o anarquismo político e a liberação sexual sofreram diversas mutações – que foram comercializadas como se fossem “tendências” da moda (devidamente expostas em revistas de fofocas ou nos desfiles das coleções outono-inverno e primavera-verão da “alta cultura” burguesa). E se alguém perguntar o porquê desse fenômeno, the answer, my friend, is blowin’ in the wind.

Dito isso, cabe concluir que pouco importa se Bob Dylan, um artista fora do cânone, ganhou um prêmio hipervalorizado pela indústria cultural. Qualquer um que conheça o mínimo de literatura percebe que qualidade (seja lá o que isso for!) e troféus poucas vezes são equivalentes. O usual é a divergência.
  
Bob Dylan e Patti Smith
Diante da inevitável pergunta cartesiana, o que acontecerá com a literatura depois do prêmio conferido ao Bob Dylan?, cabe entender que não existe qualquer tipo de resposta satisfatória. O grande legado do prêmio não está no nome do contemplado ou na sua “obra”, mas na análise crítica que pode surgir no cenário artístico. Repetindo algumas das discussões iniciadas no ano anterior (quando foi premiada uma jornalista investigativa em detrimento de algum escritor de ficção), espera-se que todo esse barulho sirva para derrubar alguns preconceitos estéticos.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

O JAZZ EM QUARENTA FRASES

– Jazz é ritmo e significado. (Henri Matisse)

– Jazz significa estar no momento presente. (Herbie Hancock)

– O jazz é uma inquietação acelerada. (Françoise Sagan)

– Quem precisa perguntar o que é jazz nunca o saberá. (Louis Amstrong)

– Se têm mais de três acordes, é jazz. (Lou Reed)

– De certo modo, a vida é similar ao jazz... é melhor quando improvisamos. (George Gershwin)

– O jazz é o irmão mais velho do blues. O blues é o ensino médio, o jazz é o ensino superior. (B. B. King)

– O rock é uma piscina, o jazz é o oceano. (Carlos Santana)

– Rock é para o grito, samba é para o pé, jazz é para a alma. (Lara Bottas)

– Não toque o que está na partitura. Toque o que não está lá. (Miles Davis)

– O jazz é a musica que expressa o melhor do espírito humano. Tem a ver com a ideia de compartilhar, não com a de competir. Jazz tem a ver com trabalho em grupo. (Herbie Hancock)

– O jazz é como o futebol, um improviso coletivo dentro de certas regras, um exercício de convivência. (Fernando Sabino)

– Tudo vale a pena no campo do jazz, a partir do momento em que a música ressoa na alma dos músicos que estão tocando. A improvisação pode transformar tudo em jazz. Não há restrições. (Joshua Redman)

– Só existem duas coisas importantes: o amor, em todas as suas formas, pelas mulheres bonitas e a música de Nova Orleans ou de Duke Ellington. O resto deveria desaparecer. (Boris Vian)

–  A maior sensação que já tive na vida – vestido – foi quando ouvi Charlie Parker e Dizzy Gillespie pela primeira vez. (Miles Davis)

– Todas as cantoras deveriam se ajoelhar e agradecer a Deus por ter existido uma Billie Holiday. (Annie Ross)

– No jazz, cada instante é uma crise – disse Sato, citando Wynton Marsalis –, e cada um coloca toda a sua habilidade para suportar essa crise. Como o espadachim, o arqueiro, o poeta e o pintor: tudo está ali. Não há futuro, nem passado. Somente esse instante e como o enfrentamos. A arte acontece. (Christopher Moore)

– Jazz é uma palavra branca para definir a gente negra. Minha música é música clássica negra. (Nina Simone)

– Ninguém é obrigado a ter colhido algodão para tocar jazz. (Miles Davis)

– Quando tocar um pouco de jazz e as pessoas não moverem os pés, não toque mais. (Count Basie)

– Não toque o saxofone. Deixe que ele toque você. (Charlie Parker)

– Pode haver certa magia quando estou escrevendo, mas no resto do dia sou apenas um amante do jazz – como milhões por aí. (Haruki Murakami)

– Não me importa se os críticos dizem que sou uma cantora de jazz ou de música pop. Eu gosto de cantar e tento cantar o que acredito que as pessoas gostam de escutar. Canções que se ajustam ao meu estilo. (Ella Fitzgerald)

– Não sei onde a música mais séria e o jazz se separam. Não vejo uma linha divisória. Se a musica soa bem, ela é boa. (Duke Elington)

– Cantar canções como “The Man I Love” ou “Porgy” dá menos trabalho do que sentar e comer pato assado. E eu adoro pato assado. (Billie Holiday)

– Parece-me que a maioria das pessoas só se impressiona com três coisas: a rapidez com que se pode tocar, a altura que se pode atingir e o volume de som produzido. Agora, mais experiente, vejo que provavelmente menos de 2% do público sabe realmente ouvir. (Chet Baker).

– Tragédias de todo tipo podem ter acontecido comigo, mas quando estou tocando tudo passa. Quando eu sair, vou levar tudo comigo de novo, mas o palco é o meu santuário. Eu costumo chamá-lo de meu casulo. (Art Blakey)

– Eu não estava pensando em mudar o curso do jazz, estava apenas tentando tocar alguma coisa que soasse boa. (Thelonious Monk)

– Na primeira vez que ouvi Bird, ele me acertou bem no meio dos olhos. (John Coltrane)

– Alguns críticos e algumas escolas de pensamento dizem que o jazz é liberdade de expressão e todo esse tipo de coisas, mas na realidade suas ideias são muito tendenciosas, porque acreditam que uma personalidade deveria estar limitada a sua principal característica de identidade. (Duke Ellington)

– O jazz é como o vinho. Os novos são para os aficionados. Quando envelhecem, todo mundo os quer. (Steve Lacy)

– Mais do que os escritores, o que mais me influenciou foi o cinema europeu, o jazz e o expressionismo abstrato. (Don Delillo)

– As únicas coisas que Estados Unidos deu ao mundo são os arranha-céus, o jazz e os cocktails. (Federico Garcia Lorca)

– Tudo o que queria fazer de significativo era tocar jazz e viajar – e foi o que fiz toda a minha vida. (Count Basie)

– Jazz não é um “quê”; o jazz é um “como”. (Louis Armstrong)

– Jazz é música para ser tocada em ritmo suave e doce. (Jelly Roll Morton)

– O bebop não é o filho mimado do jazz. (Charlie Parker)

– O jazz não morreu. Ele ficou com um cheiro estranho. (Frank Zappa)

– Jazz é como o latim: bonito e sem vida. (Marcus Miller)

– O jazz é a música tradicional da era industrial. (Paul Whiteman)