Páginas

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

SHERLOCK HOLMES

Hollywood nunca deu folga para aqueles que imaginam haver vida inteligente fora dos padrões capitalistas. Não bastasse a desculpa de que cinema e literatura utilizam−se de linguagens diferentes − muitas vezes conflitantes −, a vontade mórbida de ganhar dinheiro com as ruínas produzidas pelo desrespeito com a história cultural também ajuda a ampliar esse proceder.

Sob a discutível alegação de que o cinema consegue captar as características mais importantes de algumas narrativas em que a ação supera a descrição, uma tendência relativamente freqüente nos últimos 30 anos é a adaptação cinematográfica de determinados clássicos literários. Algumas histórias−em−quadrinhos também foram atingidas por esse flagelo. Batman, Super−homem, Hércules, Tarzan, James Bond e dezenas de outros heróis e super−heróis foram transpostos para projeção em tela grande. Sem se importar que parte significativa do imaginário ficcional fosse jogada na lata de lixo (e sem direito à reciclagem), os produtores de filmes elaboraram um catálogo de cenas e maneirismos que devem ser repetidos constantemente para que as bilheterias batam recordes de arrecadação. Final feliz e brigas coreográficas são dois ingredientes indispensáveis.

A última vítima (conhecida) da ganância insana que rege a superficialidade do cinema comercial foi um dos grandes detetives literários, Sherlock Homes. Vários filmes com esse personagem foram feitos em diversas épocas da história do cinema – alguns passáveis, nenhum que merecesse consideração. Acreditando que o desastre não estava completo, Hollywood apostou, recentemente, nos atores Robert Downey Jr e Jude Law para recriar os personagens criados por Sir Arthur Conan Doyle.

Evocar, com alguma imprecisão, diversos detalhes de Um estudo em vermelho e O cão dos Baskervilles, que li na adolescência, causa prazer. Em contrapartida, nada é possível recordar do primeiro Sherlock Homes (Dir. Guy Richie, 2009), que vi a somente dois anos. Será que a memória criou algum tipo de bloqueio contra algo que considerou despropositado? Provavelmente. Na versão literária, o morador de 221B Baker Street é um homem sedentário, usuário de cocaína (algumas vezes, morfina), dono de uma inteligência inigualável − capaz de associar o invisível e o improvável em segundos. Muitas vezes se mostra capaz de resolver os enigmas sem sair do apartamento em que mora. Quem estabelece a conexão entre esse ser quase vegetativo e o mundo urbano, pré−industrial, governado pela rainha Vitória, é o seu biógrafo, médico e amigo, John H. Holmes, que, contra todas as regras do bom senso, além de suportar as idiossincrasias de Holmes, as incentiva. Em síntese: Sherlock é o protótipo do detetive cerebral, capaz de fornecer explicações para mistérios pouco ortodoxos.

No mundo iletrado do cinema de ação, Sherlock Holmes se transformou em Bruce Lee. Impossível não pensar nessa possibilidade ao assistir Sherlock Homes 2 – O jogo das sombras (Dir. Guy Richie, 2011). A pancadaria começa na primeira cena e parece nunca mais terminar. Embora o Sherlock literário se apresente como um aficionado do boxe, além de dominar a esgrima e arte de usar da bengala como arma de defesa e ataque, raramente se mete em complicações físicas. Pacifista, abomina quem utiliza pistolas, espingardas e canhões. O cérebro é a sua grande arma.

O enredo de Sherlock Holmes 2 - O jogo das sombras apresenta tanto non-sense que somente aqueles que ignoram (ou desprezam) a literatura conseguem se divertir. O combate entre Sherlock e Moriarty fica diluído por explosões, lutas corporais com cossacos, ciganos anarquistas, efeitos especiais e uma tonelada de bobagens. O prazer estético e intelectual é substituído pela descarga continua e ininterrupta de adrenalina. Com exceção de algumas ridículas sutilezas humorísticas e da divertida participação de Stephen Fry (interpretando Mycroft, o irmão mais velho de Sherlock), todos os demais ingredientes do filme provavelmente teriam ofendido mortalmente Sir Arthur Conan Doyle.

O Sherlock do cinema é a antítese do Sherlock literário. Como isso se tornou possível? Quando a arte se transforma em um produto comercial, quando perde a identidade ou ganha uma nova (oposta à origem), o capitalismo triunfa. E a barbárie se estabelece – como se fosse dona de nossos corações e mentes.






sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

UMA HISTÓRIA ANTIGA

Dizem que o sucedido se assucedeu lá pelas bandas da Coxilha Rica. Certeza ninguém tem não, até porque quem contou o episódio, várias vezes, foi Antônio Luís, que sempre está bêbado, lá no Bar da Felicidade.

Pois o fato é que Ignácio, dono de imensa sesmaria, era o melhor amigo de Eleutério, outro latifundiário. Não havia carreirada, festa de igreja ou noitadas no night club Assunción em que um estivesse longe do outro. Eram unha e carne. Mais do que irmãos, compartilhavam de inúmeras afinidades comuns. Até que...

Um dia brigaram. Coisa pequena. Parece que uma vaca derrubou uma cerca e invadiu a propriedade do outro. Um empregado, sem perceber a extensão do gesto, prendeu a rês em um galpão. Tudo aconteceu em um dia ruim. Na manhã seguinte, Eleutério acusou Ignácio de roubo. Discutiram. Depois disso não mais foi possível acerto. Quase houve violência física. O ódio tomou conta dos dois. Um mudava de calçada quando via o outro. Ostensivamente, forjaram boatos para manchar a reputação do inimigo. Passaram a promover discórdias e inimizades. Onde o Ignácio estava, Eleutério não entrava. Aliás, Eleutério só fazia negócios com exclusividade – quem comprava ou vendia alguma coisa para Ignácio podia se preparar para, como ele fazia questão de dizer em voz alta, morrer de fome.

Na festa de São Sebastião, um foi pela manhã, o outro pela tarde. O padre teve a maior dificuldade para administrar a crise. E as "prendas"... Não há festa de igreja sem doações da comunidade. No início, nenhum dos dois queria saber do assunto. O sacerdote, a bem de São Sebastião, pediu "um particular" com cada um dos adversários. Poucos sabem o que foi tratado nessas conversas  – que demoraram uma eternidade. O fato é que aqueles que um dia tiveram laços de afeto entraram em uma competição brutal para provar quem tinha maior devoção ao santo. O sucesso da festa foi garantido por uma briga insana, dizia o pároco, enquanto enxugava o suor da testa.

Um dia aconteceu algo que mudou tudo. Eleutério teve um enfarte e foi levado as pressas para a capital. Ignácio, tão logo soube do fato, começou a adjetivar aquele que era alvo de suas hostilidades e disse, entre trezentos palavrões, que o diabo era capaz de se regenerar, já que o inferno era muito pequeno para ser dividido com aquele fio−duma−égua. E, por conta da doença alheia, pagou várias rodadas de cachaça para os frequentadores da bodega do Chico Cascavel.

Quando Eleutério morreu, Ignácio não teve dúvidas: mandou estourar duas caixas de foguetes Caramuru, especialmente encomendadas para a ocasião. Para quem quisesse ouvir, quase gritava: Já vai tarde, lazarento!. Para coroar a demonstração de rancor, compareceu ao enterro. Foi se certificar se era verdade que o desafeto iria comer capim pela raiz. Cumprimentou a viúva e foi olhar para o que restava daquele cão sarnento (a mais suave das expressões que pronunciou na ocasião). Ao redor, parentes e vizinhos fizeram silencio, digamos, sepulcral. O rosto tranquilo do morto só aumentou a raiva de Ignácio, que não conseguiu se controlar e, como se quisesse expulsar o ódio que estava corroendo as suas entranhas, cuspiu no cadáver. Depois, foi embora, o som de suas botas ecoando naquele fim de tarde, como se fosse o anúncio de novas tragédias.

Nos meses seguintes, os dias foram arrancados de maneira brutal da folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Ignácio se sentia mais leve e, paradoxalmente, mais sozinho. Não era raro vê−lo assoviando músicas de baile.

Depois de um ano, Ignácio mudou. Uma transformação repentina. Se tornou um homem triste. Melancólico. Reclamava de qualquer coisa. Daquela onipotência aristocrática só restaram vestígios esparsos. Magro, parecia estar à espera da morte. Só adquiria vigor quando montava no cavalo e, na companhia da matilha de cães de caça, se dirigia ao cemitério.

Enquanto a cachorrada latia sem parar, Ignácio fazia o cavalo pisar no túmulo do inimigo. Depois, voltava para casa, os olhos anuviados de lágrimas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

GRANTA


A história das publicações literárias brasileiras não repousa no mar da tranqüilidade. Ao contrário. Tempestades e naufrágios é que não faltam. Piratas também são freqüentes. Enfim, por diferentes motivos e situações, saques, estupros e contrabandos acompanham o alegre valsar do empreendedorismo cultural. Conseqüentemente, a vida movimentada de revistas e jornais tem como espelho o comportamento romântico: oscilar entre a efemeridade e a enfermidade galopante. Completa a paisagem a falência econômica. Em síntese: em algumas ocasiões a resistência é um pouco mais consistente, em outras menos. Todas terminando na vala comum do esquecimento.

Tendo esse histórico como referência, o mundo literário nacional recebeu − com surpresa, quatro anos atrás − a notícia de que uma das mais importantes revistas literárias do mundo, a inglesa Granta, teria uma edição brasileira. Periodicidade semestral. Seguindo o pessimismo habitual, muitos leitores apostaram que não duraria cinco números. Erraram feio. Acaba de ser publicado o número oito.

Revista em forma de livro, preferida de dez entre dez escritores, raramente os funcionários das livrarias a conhecem. Mesmo em empresas mais qualificadas como a Saraiva ou a Curitiba, sem insistência não é possível conseguir um exemplar. E isso só ocorre depois de longa e muitas vezes cansativa busca no "sistema", também conhecido como o deus que protege os incompetentes.

Uma das muitas qualidades de Granta é que todos os seus números são temáticos. Ambição, família, longe daqui e sexo foram alguns dos assuntos abordados. Também foram publicadas três antologias: melhores jovens escritores norte−americanos, melhores jovens escritores em espanhol e uma seleção de textos do William Boyd. Reunindo ficção (contos, trechos de romances, poesia), jornalismo literário, fotografia e memória de escritores consagrados ou pouco conhecidos, a revista quer mostrar algumas coisas básicas sobre o tema escolhido. Não há intenção de esgotar o assunto. Isso, além de pretensioso, seria impossível.

Outro ponto a favor da revista é a inclusão de alguns brasileiros. Foram publicados textos de Bernardo Carvalho, Ricardo Lísias, Sergio Sant’Anna, Luis Fernando Veríssimo, Ronaldo Correia de Brito, Reinaldo Moraes e Antonio Cicero, entre outros.

O número mais recente (oito) está concentrado nas relações de trabalho. É a edição com maior número de contribuições brasileiras: seis. Cinco textos e as fotografias de Walter Carvalho. Desses, um ilustre desconhecido, bruno bandido, assim em minúsculas, é talvez o autor que mais surpreenda. Não pela abordagem, A arte de apagar cigarro com cuspe nada acrescenta ao velho conflito entre o fim da adolescência e as agruras do mundo adulto, mas pelo estilo narrativo sem arestas, sólido como o de um escritor veterano (desmentido ao final do volume: bruno nasceu em 1990).

Outro texto acima da média, Se Deus existisse, seria um meia de primeira, do bósnio Alexandar Hemon, poderia ter sido escrito por algum brasileiro. Poderia. Mas nunca o será. Nossa relação com as futilidades da vida é de outra ordem e o olhar que o fanatismo esportivo lança sobre o futebol é tão sagrado que jamais será possível alcançar um tom que una humor e inteligência.

Outro conto digno de nota é Dejeuner sur l’Herbe, de Mario Sabino. Com conhecimento de causa (Sabino é editor em Veja), o autor detona com o comportamento profissional de seus colegas de profissão. Quem trabalha ou trabalhou em redação de jornal (ou revista) vai identificar o ambiente e o comportamento ali descrito.

Enfim, Granta é ótima. O difícil é ficar esperando pelo próximo número (em junho).

(Para quem quiser arriscar, o próximo número será sobre jovens escritores brasileiros)



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A LATA DE LEITE


Entrou no supermercado sem mapa, bússola ou astrolábio. Se estivesse de posse de toda essa parafernália, além de um bom GPS, ainda assim se sentiria perdido. Queria levar um pequeno presente quando fosse visitar a filha recém−nascida da sobrinha. Então, descobrir onde estavam escondidas as latas de leite era o objetivo. Esconder é o verbo adequado para definir a situação. Passeou por todos os corredores e em nenhuma prateleira foi capaz de encontrar o alimento.

Procurou com a meticulosidade de um Sherlock Holmes. E nada. Tinham desaparecido. Encontrou o sabão em pó e o vinho. Definitivamente, não era isso o que estava buscando. Quase comprou uma garrafa daquele tinto português super−caro que estava a namorar nos últimos três meses. Seria um rombo no cartão de crédito. Melhor deixar para outra oportunidade. Para garantir a saúde financeira, virou o rosto para o outro lado e abandonou o delírio.

E o leite? Continuava em lugar incerto e não identificado. Igualmente fora do cenário estavam os funcionários do estabelecimento. Se fosse paranóico, ou melhor, um pouco mais paranóico, imaginaria que alguma conspiração maluca havia engolido os funcionários. E o leite.

Antes que o desespero cobrasse a taxa de consumação mínima e transformasse a situação em drama de terceira categoria, pediu ajuda para a primeira mãe acompanhada por criança que encontrou. Quase perguntou: Pelas cólicas infantis que destroem o sono dos pais despreparados, onde é que estão escondidas as latas de leite? Quase. No último segundo, mudou de tática e com um tom de neutralidade civilizada, fez outra pergunta. Por favor, será que a senhora poderia me ajudar? Estou procurando comida para criança pequena.

Claro que ela sabia. E, sem o menor esforço, forneceu a direção. Não satisfeita em ajudar, mostrou que tinha conhecimento prático sobre o tema. Tanto que, antes de qualquer coisa, perguntou pela idade da criança. Ao saber que a menina não tinha mais do que quinze dias de vida, não perdeu tempo e começou a enumerar os tipos de leite possíveis de serem encontrados na prateleira. Foi uma aula. Daquelas que fazem os alunos ficarem olhando para o relógio, consumidos de ansiedade pelos minutos que faltam para o início do intervalo.

Constrangido, ele só pensava em escapar o mais rápido possível. Era injusto ter que agir educadamente justamente no momento em que estava tentando ser educado. Usualmente costuma escolher a rispidez como fecho natural para esse tipo de situação.

Controlou a aflição. Talvez por estar encenando um "momento ternurinha", agüentou o discurso maternal como se fosse um recital de poesia.

Felizmente, a menininha que acompanhava aquela mãe solicita perdeu a paciência e mostrou ao mundo o seu mais interessante talento: as lágrimas. Sem a mínima solidariedade com o problema alheio, enquanto a garota chorava metade da Catarata do Iguaçu, ele aproveitou a oportunidade e se despediu. Antes, justificou: A bebê não é minha, é filha da minha sobrinha.

De onde é que surgiu esse mecanismo de defesa? Será que a possibilidade de ser confundido com algum pai−avô colocou em polvorosa o medo inconsciente de ter outro filho? Uns dez anos de terapia quiçá sejam suficientes para explicar o porquê desse temor ter se manifestado no primeiro momento de descuido.

Antes que os fantasmas tomassem conta do espetáculo, acelerou o passo. Dobrou no corredor à direita, seguiu em frente e, tandanrandam, como se fosse passe de mágica, estava diante de centenas, quem sabe milhares, de latas de leite. Uma mais cara do que a outra. Meio quilo de urânio enriquecido provavelmente seria mais barato.

Procurou pelo papel onde havia anotado a marca que deveria comprar, mas isso não foi suficiente. Cada tipo de leite é dividido em sub−categorias, cores, números e embalagens com diversas quantidades. Como se estivesse na antecâmara do inferno pensou em desistir e comprar uns dois pacotes de fraldas. Cinco segundos depois, a razão mostrou que essa bobagem era uma bobagem. Fraldas existem em vários tamanhos, tipos e marcas. Repetir a mesma comédia não tinha graça.

Ciente de que não há lugar mais solitário no mundo do que os corredores de um supermercado, telefonou para quem de direito e pediu socorro. Socorrido foi. O leite adequado para a criancinha estava diante dos seus olhos. Pegou a lata, colocou na cestinha e foi procurar por outros itens necessários para o dia−a−dia de quem quer sobreviver na selva urbana.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

OS LIVROS QUE FICARAM PARA TRÁS


Uma amiga espalhou a quem pudesse interessar, e para os fins que porventura fossem necessários, que estava lendo o Ulisses, do James Joyce. Uma página por dia. Levou quase três anos para completar o desafio. E toda vez que comenta a experiência faz caras e bocas, revira os olhinhos, e diz que foi incrível.

Outro amigo, um pouco mais cético, não acredita nesse tipo de maluquice. Adepto da tese de que alguns textos foram escritos para NÃO serem lidos e que o mise−en−scène está acima de qualquer suspeita, algumas vezes faz algum comentário obscuro sobre esta ou aquela obra, freqüentemente "citando" os romanos em latim e os gregos em grego. Paulo Mendes Campos, em crônica antiga, chamou esse proceder de o cinismo dos vencedores. A idéia geral que edulcora essa desfaçatez é que poucos realmente leram os grandes clássicos e que uma camada mínima de verniz cultural é suficiente para gerar renome de humanista garantido (outra vez Paulo Mendes Campos). Em outras palavras, no mundo das aparências intelectuais, é possível dizer as maiores barbaridades correndo um risco ínfimo de ser desmascarado.

Na crônica citada acima, e publicada em Os bares morrem numa quarta-feira, o irônico Paulo Mendes Campos defende a idéia de que basta ler a primeira frase para conhecer o livro inteiro. Exemplifica com Kafka, André Gide e Maquiavel. Poderia ter escolhido outros autores, mas esses dão conta do recado.

Por fim, dá um conselho precioso para quem sente prazer em "fazer bonito", mas sem se aprofundar nas conversas literárias:

(...) em se tratando de escritores portugueses, elogie o sabor da sintaxe lusíada; escritores franceses, a finura, digo, a "finesse"; escritores germânicos, a densidade; inglês, o "fog" poético; eslavos, a psicologia inesperada; asiáticos, o misticismo milenar; africanos, o primitivismo; brasileiros, a força telúrica; norte−americanos, os fabulosos direitos autorais.
Restam praticamente os autores hispano−americanos e os australianos. Comente a imaturidade dos primeiros, "apesar de certo surto renovador nos últimos anos". Quanto aos escritores da Austrália, mude habilidosamente a conversa para uma discussão se canguru joga ou não joga boxe. Todos vão adorar...


De minha parte, estou reservando a aposentadoria (que não sei se virá ou quando virá) para a prática desse saboroso esporte que é a leitura dos clássicos. Evidentemente Dostoievski, Conrad, Henry James, Flaubert, Balzac, Dickens, Sartre, Camus e Thomas Mann costumam freqüentar a cabeceira da minha cama. São autores que não ficaram para trás. E que sempre me acompanharam. Sem o que essa gente escreveu não é possível imaginar a carpintaria literária. Por outro lado, tenho visível débito, por exemplo, com A procura do tempo perdido (Marcel Proust), A divina comédia (Dante Alighieri) e algumas das tragédias de Sófocles, Eurípedes e Ésquilo. Os exemplares parecem acenar lá das estantes, mas finjo não os ver. Sei que não é justo, mas... quem sabe no ano que vem!?!?

Se tivesse tempo e dinheiro, queria repetir o gesto de um terceiro amigo que, certa vez, comprou uma coleção completa do Shakespeare, não lembro quantos volumes, talvez uns vinte, talvez mais. Como faz algum tempo que não o vejo, imagino que a essas alturas do campeonato deve conhece todos os textos de cor e salteado. Provavelmente recita, nos dias de sol, seus trechos favoritos – no original e em diversas traduções, que uma só não basta para quem escolhe um autor como companheiro nesse desatino que costumam chamar de existir.

Se tivesse tempo e dinheiro, não deixaria para trás todos os livros que ainda não li. Livros que, se tiver sorte, ainda vou ler.

(Unidos pela amizade e pelos livros: Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mário Quintana e Paulo Mendes Campos)