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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

MARACANAZO

O futuro da equipe espanhola, na Copa do Mundo de futebol, em 2014, foi determinado na partida contra os chilenos. Depois de ter perdido para Holanda (5 x 1), Espanha precisava de um bom resultado contra a ex-colônia. Os gols de Vargas e Aránguiz transformaram o Maracanã no cemitério da seleção campeã de 2010. Só restou engolir o orgulho, abaixar a cabeça e voltar para casa (a vitória contra a Austrália – 3 x 0 – não teve a mínima importância). Ficar em terceiro, em um grupo de quatro equipes, com apenas três pontos, caracterizou um dos momentos mais vergonhosos da história futebolística de Espanha. 

Nesse cenário improvável para desenvolver uma narrativa de desencontro amoroso, Arthur Dapieve promoveu a complicada intersecção entre literatura e futebol. A história de Victor e Violeta (evocando as figuras míticas de Victor Jara e Violeta Parra) constitui o pano de fundo para dissecar a tempestade que cada ser humano carrega dentro de si. Mas, não é somente isso. Há outros ingredientes. O passado político dos dois países – e, consequentemente, dos dois personagens – revela que as diversas camadas de violência não podem ser superadas pelo resultado de uma partida de futebol. O breve momento de glória em que aquele que foi oprimido supera o opressor constitui uma insignificante vitória em uma guerra perdida. Ganhar uma partida de futebol não apaga a História, não reduz a violência dos colonizadores, não recupera o que foi roubado, não elimina milhares de mortes.

Arthur Dapieve
No dia 18 de junho de 2014, Victor está sentado em uma cadeira do Maracanã, esperando o inicio da partida contra o Chile. Na companhia de Guillermo e Juan Pablo, ele ainda tem esperanças de que a seleção de Espanha se recupere no campeonato. Em dado momento, os acontecimentos em campo perdem a importância quando a câmera do telão do estádio focaliza o local onde eles estão. Ao lado dos espanhóis estão três garotas, duas brasileiras e uma chilena. A última, tentando fugir da câmera, beija Victor. Esse é o estopim que deflagra uma série de eventos pouco usuais e que somente terminam na manhã seguinte, quando o homem e a mulher se separam – para nunca mais se encontrarem.

Essa é uma síntese do enredo de Maracanazo, o mais extenso dos cinco contos que compõem o livro homônimo. As outras narrativas se desenvolvem em ritmos e temas bastante diferentes. Tempo Ruim descreve uma situação inusitada, tendo como protagonistas dois surfistas. Fragmento da Paisagem, através do relato histórico, se concentra em um concerto em Viena, Áustria, antes da Segunda Guerra Mundial. Enquanto as pessoas ouvem a música de Mahler, o mundo se transforma – e jamais será como antes. Inverno, 1968, que havia sido publicado anteriormente na coletânea Contos para Ler Ouvindo Música (Org. Miguel Sanches Neto, 2005), trata de um ensaio da banda Pink Floyd, e focaliza um dos episódios mais estranhos da história do rock. Bloqueio, por sua vez, narra as dificuldades de um cadeirante nas ruas do Rio de Janeiro.

Sergio Busquets, depois da derrota para o Chile
O fio umbilical que une os cinco contos de Maracanazo e Outras Histórias transcende o nome do autor, expresso na capa do livro. Embora o futebol e a música agrupem parte do livro, o que importa está em outro diapasão. Em cada uma das narrativas, escritas em tempos cronológicos distintos, a mistura de masculinidade e violência gera vários tipos de traumas e cicatrizes. Independente do discurso edulcorado dos livros de autoajuda, nenhum indivíduo consegue escapar incólume na contemporaneidade. Não há remédios ou panaceias capazes de diminuir a dor constante.


TRECHO ESCOLHIDO


(...) Sinto fome, fome demais para caminhar uma distância que já não lembro qual é. Entro numa lanchonete. Como um sanduíche de queijo quente feito num pão de forma. Bebo um suco de laranja. Há outras pessoas falando espanhol no balcão, mas pelo sotaque metálico são argentinos. Evito qualquer confraternização idiomática. Eles também olham de lado para a minha camiseta. Cornos.

Em frente à loja de sucos há uma banca de jornal, com exemplares dos diários locais pendurados do lado de fora e cobertos por um plástico transparente que os protege da chuva fina. Eu me aproximo, ainda com o suco e o sanduíche na mão. Num dos jornais, sob a foto de um grupo de chilenos presos pela invasão à sala de imprensa do Maracanã, está um manchete em português que não tenho dificuldades em decifrar: “Copa acaba mais cedo para a Espanha e 88 chilenos”. Abaixo da manchete, há outra foto, de Busquets ajoelhado, com as mãos no rosto, e a bola lhe ocultando a cabeça. Catalão de merda. Belo retrato de uma derrota. Ao lado da foto, há um título discreto: “O rei também sai de cena”. Deus, que manhã. Dou a última mordida no sanduíche. Passa um negro brasileiro sorridente, empurrando uma bicicleta. Ele me olha e grita:

– Chile!

Com a boca cheia, não consigo manda-lo se foder, e ele se afasta com um sorriso largo no rosto. Que filho da puta! Entro novamente na lanchonete em busca de uma lata de lixo para descartar o guardanapo e o copo de papel. Só então eu me vejo no espelho atrás do balcão. Não estou usando minha camiseta da Espanha. Visto a camiseta chilena do irmão da menina que dizia se chamar Violeta. Na pressa de fugir de nossa vergonha, trocamos camisetas, como fazem jogadores ao final de uma partida. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

OS ABRAÇOS PERDIDOS

Há uma visível escassez de narrativas longas em Santa Catarina. A grande maioria dos escritores atuantes nesse pedaço de terra espremido entre Paraná, Rio Grande do Sul, Argentina e o oceano Atlântico concentram suas energias no conto e na poesia. As narrativas longas vivem do passado, como comprovam os nomes de Guido Wilmar Sassi, Miro Morais, Adolfo Boos Júnior, Holdemar de Menezes, Ricardo Hoffmann e Lausimar Laus. Os livros que eles escreveram estão se transformando em relíquias arqueológicas ou em teses acadêmicas (que no es lo mismo / pero es igual). Em contrapartida, na primeira oportunidade, uma quantidade significativa de romancistas vivos (ou mais vivos), deixaram SC e foram morar em outros estados – onde, rapidamente, obtiveram reconhecimento intelectual. Basta citar Edla van Steen, Cristóvão Tezza, Deonísio da Silva, Donaldo Schüler, Godofredo de Oliveira Neto e Alex Sens, como casos exemplares.

Há milhares de explicações para esse fenômeno. Todas irrelevantes. Todas incapazes de justificar a falta de comprometimento catarinense com a literatura – inclusive naqueles momentos em que muitos escritores juram amor eterno pela cultura barriga-verde. A hipocrisia é uma qualidade subestimada. Dizem.

A novela Os Abraços Perdidos, de João Chiodini, publicado em 2015, de uma forma ou de outra, navega na contracorrente. Diante do mundo capitalista (fragmentário e dispersivo), voraz em consumir os “enlatados” que são oferecidos nas prateleiras das livrarias, permanecer em Santa Catarina e publicar um texto, qualquer texto, constitui um ato de resistência literária. É como se dissesse: meu livro quer se insurgir contra a apatia intelectual. A pretensão também é um valor subestimado.

O enredo da novela se estende por 121 páginas de lavação de roupa suja em público. A história que (des)une Antônio Carlos e Pedro, pai e filho, assusta. E por vários motivos. Poucos leitores se sentem à vontade ao ler um tratado sobre o ressentimento filial. Raros são aqueles que encontram prazer na exposição nua e crua, promovida pelo filho de um alcoólatra violento (indivíduo que não perde nenhuma oportunidade de criar um inferno familiar particular). Além disso, a narrativa não está mediada por algum tipo de distanciamento objetivo e emocional. Os fatos (no passado e no presente narrativo) são tratados a ferro e fogo – como se fossem agressões pessoais ao narrador. Essa maneira maniqueísta de expor o “mal” impede que o pai possa emitir qualquer tipo de defesa – caso o comportamento autodestrutivo de Antônio Carlos mereça algum tipo de defesa.

Pedro, ao dizer que Antônio Carlos jamais seria aquele pai desejado que nunca tive, se baseia em uma figura paterna ideal, sem falhas, sem vícios. Uma impossibilidade. E que está reverberada na história paralela oferecida pela narrativa. A namorada de Pedro fica grávida. Ele se desespera com a ideia. A perspectiva do horror opressor renascer – desta vez tendo ele, Pedro, como agente ativo – o assusta. Todos os seus atos, neste episódio, são pela supressão da vida. Independente da correção desse proceder, o que se destaca é o medo crescente de se transformar em uma versão (ainda mais) repugnante de Antônio Carlos.

No plano teórico, Os Abraços Perdidos usa de narradores múltiplos. Em primeiro plano, Pedro, narrador-personagem, alterna o texto em dois níveis narrativos (o passado e o presente, a infância e a vida adulta – que caminham paralelamente). Secundariamente, há um narrador inominado, em terceira pessoa, que articula os elementos que não foram contemplados de maneira direta. O uso desse recurso narrativo, dividindo as responsabilidades na exposição do enredo, possibilita que o texto se desenvolva com fluência e que não fique preso a parcialidade dos relatos em primeira pessoa.

Infelizmente, as diversas qualidades do livro não compensam a ausência de uma boa revisão editorial (que cortaria inúmeras cenas e deixaria o texto com mais densidade e um pouco menos discursivo). Mais é menos. Basta ver, como exemplo, as semelhanças que existem entre três cenas:

– Pedro, você sabe que é a única pessoa em quem confio nesse mundo.

– Boa noite, pai.

Não quis responde àquela afirmação. Não era verdade. Estávamos distantes um do outro. Eu não neguei ajuda para ele, me senti na obrigação de cumprir o papel de filho. Éramos dois estranhos. (p. 58-59)


No final da sessão, Giovanna, a psicóloga dele, perguntou-o:

– Antônio, e para o Pedro, o senhor tem algo a dizer?

– Sim. Obrigado por sua ajuda, meu filho. Eu te amo muito.

– Eu que agradeço por sua mudança, pai. Eu também te amo muito.

Acho que ambos estávamos mentindo. (p. 90)


– Que bom. Sabe, Pedro, eu te amo muito.

– Eu também te amo muito, pai.

Ele sorriu. Eu sorri.

Ambos continuaremos mentindo. (p. 121)


Não há motivo literário que justifique esse tipo de redundância. Principalmente em um texto tão curto como Os Abraços Perdidos. Qualquer editor com um mínimo de visão também desbastaria outros trechos, inclusive o da compra do remédio abortivo. Parece ser um caso típico de “encher linguiça”. Uma elipse, utilizando duas ou três frases, resumiria o episódio e daria mais dinamismo ao texto.

Os Abraços Perdidos acena com um futuro promissor para João Chiodini. Principalmente se ele optar por diminuir a fúria e o ódio e se concentrar nas sutilezas sempre necessárias às narrativas.


P.S.: O diretor de cinema argentino Daniel Burman, um especialista na discussão das relações familiares, principalmente os conflitos entre pais e filhos, dirigiu um filme quase homônimo ao livro de João Chiodini: El Abrazo Partido (O Abraço Partido, 2004). Além do tema principal ser bastante diferente (o pai vai embora para Israel e deixa o filho com a mãe, somente retornando vários anos depois), no filme de Burman, há leveza, humor e menos drama. No filme seguinte, de 2006, Derecho de Família (no Brasil, As Leis de Família), Burman consegue mostrar que o antagonismo filial e paterno pode, aos poucos, se transformar em amor.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

NORTE E SUL

O romance Norte e Sul, da britânica Elizabeth Gaskel (pseudônimo literário de Elizabeth Cleghorn Stevenson, 1837-1901), publicado em livro originalmente em 1855, e que, salvo engano, somente agora, um século e meio depois, recebeu uma edição brasileira, tem sido classificado por alguns desavisados como semelhante ao enredo de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, com a vantagem de enfocar politicamente o período de implantação da industrialização britânica. Essa tese não possui fundamento. E se revela absurda em diversos momentos. De qualquer maneira, insinuar qualquer semelhança entre Gaskel e Austen ou entre Margaret Hale, protagonista de Norte e Sul, e Elizabeth (Lizzy) Bennet, protagonista de Orgulho e Preconceito, mais do que um ridículo golpe publicitário, significa negar as várias qualidades dos romances de Elizabeth Gaskel.

Ler Norte e Sul exige um considerável esforço. São 744 páginas. A estrutura narrativa está sedimentada na vida e nos sentimentos de Margaret Hale. E a isso deve se acrescer que a mistura de romantismo com o realismo incipiente não obtém resultado muito satisfatório (para os padrões atuais), mas, provavelmente, deve ter entusiasmado os leitores da época em que o romance foi publicado. Com uma formação educacional “superior”, obtida no convívio com a sociedade londrina, Margaret precisa se adaptar ao ambiente hostil e quase selvagem de Milton-North (cidade fictícia, provavelmente inspirada por Manchester).

Elizabeth Cleghorn Stevenson
(1837-1901)
Parte do romance se concentra no choque entre o intelectualismo bucólico (sul) e o capitalismo industrial (norte). Nessa discussão são misturados diversos ingredientes, nem todos compatíveis: ética, moral anglicana, idealismo, condições deploráveis de trabalho, forças sindicais, disparidade socioeconômicas, fome, morte. E, claro, o amor – que, depois de ser negado mil vezes, somente se torna palpável no desfecho da narrativa. 

De acordo com o narrador onisciente e onipresente de Norte e Sul, um romance linear (daqueles que possuem início, meio e fim, nesta ordem), (...) a nuvem nunca surge justo naquela parte do horizonte para a qual estamos olhando. Seja no sentido metafórico, ou não, a “nuvem” – dessas que anunciam tempestades, enxurradas e lamaçais – não é tão assustadora quanto parece. Evidentemente, inúmeros obstáculos precisam ser ultrapassados. Somente há algum alívio quando as complicações se esgotam – e isso demora centenas de páginas, muito mais do que o necessário.

Nesse sentido, cabe lembrar que, no romance inglês clássico, muitas questões ficam nas entrelinhas. Em diversos momentos, o subentendido adquire significado superior às palavras que escorrem pelo papel contando uma história (que parece não ter nenhuma importância – exceto alertar que muitos elementos permanecem escondidos).

 Uma dificuldade significativa do livro está na falta de personagens para interagir com os dramas de Margaret – embora todas as situações-chave sejam resolvidas por encaixe. O excesso de discurso interior torna o texto quase indigesto. Sobram reflexões sobre os acontecimentos, uma espécie de falar para si mesmo, como se estivesse colocando em ordem os pensamentos, como se houvesse interlocutores para tantas dúvidas e lamentações. Se ela pudesse conversar com alguma amiga ou com o pai, provavelmente haveria mais ação dramática e menos blábláblá. Margaret Hale, moradora de Milton-North, se transforma em uma mulher solitária, movida pelo altruísmo, interessada nas dificuldades alheias (ali ela havia encontrado um interesse humano),e absolutamente incapaz de resolver adequadamente as próprias dificuldades. 

Quando a mãe de John Thornton diz que Hale vem de uma região aristocrática onde, se as lendas são verdadeiras, os maridos ricos são considerados troféus, mostra um interessante vaticínio sobre o futuro do filho. Embora esteja errada quanto aos interesses econômicos de Margaret, acerta em relação a um possível envolvimento amoroso entre os dois – algo que a desagrada, pois, como compete à classe média em ascensão, almeja algo “melhor” para seu primogênito. Ou seja, quer o filho se case com uma mulher de linhagem nobre e que, submissa, tenha como preocupações fundamentais cuidar dos (possíveis) filhos e jamais causar embaraços sociais para a família. Margaret não coincide com esse perfil.

John também entende que existem obstáculos – além de tudo, ele foi rejeitado quando fez a primeira proposta! Em determinado momento, fica constrangido: Suas faces arderam ao se lembrar da maneira arrogantecom que ela manifestou sua objeção ao comércio, quando se conheceram, porque, se por um lado, com frequência, ele levava ao engano de fazer que bens que eram inferiores pudessem passar por superiores, por outro lado levava a assumir crédito por uma riqueza e por recursos que não tinha posse. Falta-lhe inteligência emocional para entender os sentimentos de uma mulher que, politicamente,está avant la lettre. Margaret se preocupa com o ser humano e despreza todos aqueles que somente estão interessados com a obtenção do lucro.

Norte e Sul, no contexto realista, alerta o leitor para um fato básico: o dinheiro nunca pode ser considerado suficiente para proporcionar a felicidade. Simultaneamente, movido pelo romantismo, inspira a esperança de que o amor supera todos os bloqueios. Construído como uma discussão política ficcional sobre os primórdios da industrialização na Inglaterra, o romance apresenta um bom painel histórico e um personagem – Margaret – que se recusa a aceitar que homens e mulheres sejam explorados pelo capitalismo predatório. 


TRECHO ESCOLHIDO


"Ele, também, deve ter tomado Frederick por meu amante (ela corou quando essa palavra passou por sua mente). Vejo bem agora. Não se trata apenas de saber que menti, mas ele acredita que outra pessoa me quer, e isso... oh, meu Deus, meu Deus, o que vou fazer? O que é isso que estou dizendo? Por que me importo com o que ele pensa de mim, além da perda do bom conceito, por ter contado a verdade ou não? não sei. Mas me sinto infeliz! Como foi triste este último ano em que passei da infância para a velhice. Não tive sequer juventude ou maturidade; não tive nem as esperanças de uma mulher adulta, pois nunca irei casar-me. E antevejo cuidados e tristezas como se eu já fosse velha, com o mesmo espírito amedrontado. Sinto-me cansada desse contínuo apelo para ser forte. Poderia aguentar-me por causa de papai, pois este é um dever natural e piedoso. Penso que poderia aguentar-me contra... Seja como for, teria a energia para resistir às suspeitas injustas e impertinentes da sra. Thornton. Mas é duro sentir o quanto ele está totalmente equivocado a meu respeito. O que aconteceu para que eu me sinta assim tão mórbida hoje? Só sei que não estou conseguindo evitar. Às vezes me entrego. Mas desta vez não irei entregar-me”, disse ela levantando-se de um salto. “Não irei... Não continuarei a pensar em mim nem em minha própria posição. Não ficarei analisando meus sentimentos. Isso não serviria para nada agora. Algum dia, se eu viver o bastante até ficar velha, irei sentar-me ao lado da lareira e, olhando para as brasas, ver a vida que podia ter vivido."

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

STONER

Em alguns casos, a ficção supera o “real” (seja lá o que isso for). Esse pensamento se torna inevitável durante a leitura de Stoner, romance escrito por John Edward Williams, em 1965, e que, salvo engano, somente teve uma edição no Brasil em 2015. Esses 50 anos de defasagem não fizeram mal ao texto. Ao contrário, o livro continua genial – e com sólida base na realidade contemporânea.

A história de William Stoner (1891-1955) fornece visibilidade aos ideais que motivam todos aqueles que escolhem (escolheram, escolherão) seguir a carreira docente universitária. Ao mesmo tempo, o romance procura sinalizar para uma serie de armadilhas que estão espalhadas no interior de cada um dos departamentos que compõem as instituições escolares. As disputas internas são violentas, representação grotesca da guerra bárbara que indivíduos com “instrução superior” deveriam evitar – mas, que, ao contrário, são estimuladas por grupos ambiciosos. Em síntese: somente os ingênuos e os mal-intencionados são capazes de negar que os caminhos profissionais estão contaminados por diversos interesses (vaidade, poder, dinheiro – não necessariamente nessa ordem).

A literatura atingiu Stoner aos 19 anos, quando ele estava cursando ciências agrárias, na Universidade do Missouri. Foi o estranhamento da proposta criativa que o fez mudar o curso de sua vida. A mente inquieta do jovem não conseguiu resistir ao desafio intelectual. Ao contrário da agricultura, onde as regras básicas são praticamente imutáveis, a literatura trabalha com o contraste entre certezas e dúvidas. Mais dúvidas do que certezas. Diante dos livros, tomou consciência de si mesmo de um jeito que nunca lhe ocorrera antes. Superando as dificuldades de uma história pessoal sem significativa formação escolar, concluiu as disciplinas que lhe forneceram um diploma em Literatura Inglesa. O mestrado e o doutorado transcorreram de forma natural – sob a supervisão do professor Archer Sloane, de quem Stoner era discípulo. Convidado a lecionar, aceitou. Foi o seu único emprego na vida. Somente deixou as salas de aula quando ficou doente. De maneira superficial, poderia se dizer que nada de mais significativo aconteceu na vida de William Stoner.

John Edward Williams (1922-1994)
Evidentemente, essa descrição está repleta de omissões. A mais importante se refere à vida privada. Nas minúcias que misturam o ser e o estar no mundo, a vida de um professor que raras vezes foi valorizado de forma adequada se desenvolve em compasso de espera e solidão. Em diversos momentos, ele lembra um de meus professores ficcionais favoritos, Andrew Crocker-Harris (interpretado por Albert Finney), protagonista do filme Nunca te Amei (The Browning Version. Dir. Mike Figgs, 1994), que, ao olhar para trás, faz um balanço do tempo em que esteve em sala de aula. Não é uma visão otimista. Predomina a sensação de que o desenrolar de sua vida transcorreu de modo injusto.

Stoner se apaixonou quatro vezes na vida. A primeira vez foi pela literatura. A segunda, quando conheceu Edith Elaine Bostwick, com quem se casou. A felicidade proposta pelo casamento desapareceu rapidamente. A esposa detestava sexo e, depois de um tempo, deixou de gostar do marido. O terceiro amor de Stoner foi por Grace, sua única filha. Edith tudo fez para dissolver essa ternura. Através de artifícios e ocupações sociais manteve a filha distante (física e afetiva) do pai. Incapaz de reagir à crueldade da esposa, Stoner viu a filha se transformar em um espectro. Na primeira oportunidade, para fugir do clima opressivo criado pela mãe, Grace ficou grávida. Quando o marido se alistou para combater na II Guerra Mundial, tornou-se alcoólatra. O último amor de Stoner surgiu quase por acaso. Katherine Driscoll foi sua aluna em um seminário. A união se resolveu de forma quase que natural – e, para perplexidade do leitor, abençoada por Edith, que assim se livrava da presença do marido.

Stoner cometeu dois erros significativos em sua vida profissional. O primeiro, compreensível, foi reprovar um aluno, Charles Walker, orientado pelo professor Hollis Lomax. O segundo, fruto da ingenuidade profissional, rejeitar a chefia do departamento – quando essa oportunidade surgiu. O que se seguiu não pode ser descrito sem tristeza. Lomax assume o departamento e transforma a vida funcional de Stoner em uma sucursal do inferno. Estoico, ele jamais reclamou do destino. Da melhor maneira possível, sem medir esforços, assumiu as tarefas mais medíocres, as piores turmas, os horários que ninguém queria, e nunca se incomodou com os visíveis impedimentos para que fosse promovido. Até de Katherine precisou desistir, quando Lomax – reclamando a moral e os bons costumes – denunciou a indecência da ligação amorosa. 

Foram anos de sofrimento, suportando a fúria da esposa e a canalhice de Lomax. Stoner somente consegue algum sossego quando é tarde demais. Qualquer coisa perde a importância diante da proximidade da morte.

Stoner, romance escrito de forma linear, em tom monocórdio, com um narrador onisciente e onipresente, vai envolvendo o leitor a cada página. Impossível resistir ao charme de William Stoner, um homem comum, muitas vezes simplório, e que ama a literatura com fé religiosa.


TRECHO ESCOLHIDO


Só uma vez teve noticias de Katherine Driscoll. No começo da primavera de 1949, ele recebeu uma circular da editora de uma grande universidade do leste que anunciava a publicação do livro de Katherine e trazia algumas palavras sobre a autora. Ela estava lecionando numa boa faculdade de letras em Massachusetts e jamais casara. Assim que foi possível, ele arranjou um exemplar do livro. Quando o segurou nas mãos, teve a sensação de que seus dedos se animavam. Eles tremiam tanto que mal conseguiu abri-lo. Folheou as primeiras páginas e leu a dedicatória: “Para W. S.”.


Seus olhos se embaçaram, e por muito tempo ficou sentado sem se mexer. Então balançou a cabeça, voltou ao livro e não o largou até tê-lo lido por inteiro. Era um bom trabalho: a prosa era elegante, e a paixão, disfarçada pela frieza e pela lucidez de sua inteligência. Stoner se deu conta de que era exatamente ela que ele via no que lia, e se maravilhou de quando ainda a sentia próxima. De repente, era como se Katherine estivesse na sala ao lado dele, e ele a tivesse deixado só momentos antes. Sentiu uma espécie de formigamento nos dedos, como se a estivesse tocando. E a consciência daquela perda, que por tanto tempo represara dentro de si, transbordou, engoliu-o, e ele se deixou ser levado para longe, além do controle de sua vontade; ele não queria mais se salvar. Então sorriu ternamente, como que lembrando algo. Ocorreu-lhe que estava com quase 60 anos e que devia ter deixado para trás a força de tamanha paixão, de tamanho amor.


Mas sabia que não era assim, e nunca seria. Sob o entorpecimento, a indiferença, o distanciamento, aquele amor estava ali, intenso e firme. Nunca fora embora. Em sua juventude, ele o dera livremente, sem pensar; dera-o para o conhecimento que lhe fora revelado – quantos anos atrás? – por Archer Slone. Ele o dera a Edith, naqueles primeiros dias insensatos e cegos da corte e casamento. E ele o dera a Katherine, como se nunca o tivesse dado antes. Estranhamente, ele o dera a cada momento de sua vida, e talvez o tivesse dado mais completamente quando não tinha consciência de que o estava dando. Não era uma paixão da mente nem da carne: era mais uma força que abrangia ambas, como se não fossem mais que a matéria e a substância do próprio amor. Para uma mulher ou um poema, seu amor dizia simplesmente: Olhe! Estou vivo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

PSSICA

A barbárie que impera na região Norte do Brasil está descrita com detalhes assustadores em Pssica, romance do paraense Edyr Augusto. Em uma terra sem lei, ou melhor, em uma terra onde vigora a lei do mais forte, a vida não vale um centavo furado. Trafico de escravas brancas, roubo de cargas, ineficiência policial, crimes sexuais, assassinatos por motivo fútil, drogas – a violência não possui limites. 

Tendo como pano de fundo Belém do Pará e algumas cidades da região de Marajó (Soure, Breves, Portel e Melgaço), o eixo principal de Pssica consiste no desencontro afetivo entre um marginal de terceira classe, Jonas de Lima, vulgo Preá, e a adolescente Janalice. Em paralelo, correm as histórias de Amadeu, policial aposentado, Manuel Tourinho, o angolano, e dezenas de personagens secundários – que entram e saem da narrativa com uma velocidade estarrecedora.

Edyr Augusto
Tudo começou quando Fenque colocou na Internet um vídeo de sexo com a namorada, Janalice, 14 anos. O pai da menina, enfurecido, expulsa a filha de casa, que passa a viver com uma tia. O que se segue é o inominável. Além de ser violentada pelo marido da tia, ela se envolve com personagens do submundo de Belém. Um dia foi raptada por uma quadrilha especializada em prostituição – o resto de sua vida se resume em degradação, física e mental.

Com a morte de Vailson de Lima, o Tabaco, Preá herda a quadrilha do pai. Mas, falta-lhe experiência e sensatez para sobreviver em um mundo apocalíptico. De qualquer forma, em uma festa na casa de Cosme de Barros, vulgo Barrão, prefeito de Breves, conhece, no sentido bíblico, Jane, ou melhor, Janalice. Foi amor à primeira vista. Tentou comprar a menina. Esforço inútil. As complicações seguintes são consequência direta dessa paixão.

Transporte comum na região de Marajó
Depois que Janalice desapareceu, o pai da menina contrata Amadeu para tentar localizá-la. Ao mesmo tempo em que ele descobre que ela está sendo mantido em cativeiro pela rede de prostituição, torna-se um alvo fácil. O mesmo vale para o angolano Manuel Tourinho, que deseja vingar a morte de sua esposa. Ninguém mexe em vespeiro impunemente.

Pssica é uma espécie de maldição, uma praga.  E serve para confirmar que a traição é uma constante em uma terra onde os banhos de sangue são a norma. Nenhum dos personagens da narrativa entende os preceitos éticos elementares da civilização. A corrupção, a cobiça e a selvageria são os motores que os conduzem na direção do horror. O único princípio que quase todos respeitam é a necessidade de sobreviver. Mas, mesmo assim, em um mundo dominado por monstros, há exceções. Ou seja, as normas de convivência social são regidas por regras especiais. Quem não está a serviço do crime, precisa ser eliminado. Simples assim.

A região de Marajó é extremamente pobre
Pssica tem apenas 92 páginas. Essa brevidade (que em outro autor provavelmente se desenvolveria em, no mínimo, 300 páginas) está diretamente relacionada com o negar da elaboração de um enredo mais consistente. Edyr Augusto prefere que suas histórias sejam construídas com velocidade narrativa e falta de cuidado com a carpintaria literária. Usando e abusando das elipses e dos palavrões, quer – de alguma maneira – se aproximar da linguagem coloquial. Em síntese, os detalhes são eliminados (na medida do possível) e a espinha dorsal da narrativa se projeta como elemento principal. Um exemplo dessa estratégia está no fato que cada um dos 17 capítulos não abrange mais do que cinco páginas.


TRECHO ESCOLHIDO

Alberto Alcântara estava ao telefone com o secretário de Segurança. Puta que pariu, Oswaldo! Que merda vocês foram fazer! O Gov tá puto da vida e eu é que escuto. Quem mandou esses teus porras a Breves prender o Barrão? Tá uma cagada na cidade! Prendeu até vereador, sem mandado, porra nenhuma. A cidade está revoltada. E eu é que escuto! Esse pessoal pensa o quê? Tem que ter lei, porra. Manda soltar, porra. Manda soltar e eu nem quero saber como. Dá teu jeito! Tá bom. Deixa comigo. Me dá noticias boas disso, tá? Tá. Oswaldo Dias tentou ligar para Ed Paulo. Nada. Estavam no meio da baía. Ligou para Alberto. Nada ainda. Não faz conexão. Fora de área. Estão no meio da baía e, olha, vê se liga pro superintendente aí porque tem federal no meio e eles são metidos à merda. Deixa comigo. Eu vou é por Brasília.

Orlando bem que tentou, mas não conseguiu chegar perto da área de desembarque dos presos. Todos embarcaram em algumas vans e foram alguns para a Seccional de São Brás, outros para a Superintendência da Polícia Federal, onde rapidamente foram soltos, embarcando em carros luxuosos sem dar entrevistas. Camões e Ed Paulo foram suspensos de suas funções e proibidos de falar ao público. Enquanto isso, o corpo de Sapo era removido da cela onde se encontrava. Foi estrangulado com um arame. Jesuíno, o Podrera, que estava preso com ele, confessou ser o autor. Um desentendimento.

Orlando não sabia o que dizer. Teria sido uma “barriga” a denuncia? Ah, mas que havia algo estranho nisso, havia. Tentou ligar para Amadeu. Fora de área. Ou tocava e não atendia. Dois dias depois, os jornais mostravam fotos do retorno triunfal de Barrão a Breves, carregado pela multidão. Havia sido enredado em uma trama da qual nada tinha a ver e voltava com o aval do governador, seu grande aliado.