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sábado, 31 de janeiro de 2026

TARÂNTULA

 


Uma história devastadora – como compete à literatura que denuncia a violência, a desumanização e o fascismo. Misturando tempos cronológicos em capítulos curtos, Tarântula, de Eduardo Halfon (Editora Autêntica, 2025. Tradução de Silvia Massimini Felix), aborda os acontecimentos (e seus desdobramentos) em um acampamento de férias na Guatemala, quando o narrador e seu irmão tinham 13 e 12 anos, respectivamente.

A recriação de um campo de concentração nazista, sob a alegação pedagógica de que os jovens deveriam ter algum conhecimento do sofrimento de seus ancestrais durante a II Guerra Mundial, não só mostra a paranoia como uma doença nociva, como estimula a invenção do inimigo – ente, em princípio, inexistente, mas que vai adquirindo substância na medida em que o ódio se estabelece como parâmetro para todas as coisas. Não por acaso, muitos anos depois, o narrador (que também se chama Eduardo) ouve do agressor (Samuel Blum) o provérbio latino: Si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra).  

Suponho que, diante da adversidade, algumas pessoas reagem lutando, e outras mais covardes saem correndo para a floresta. Movido pelo impulso da sobrevivência, ciente que a situação estava se tornando incontrolável, Eduardo, na primeira oportunidade, prefere deixar o grupo e mergulhar no desconhecido. No habitat das árvores, dos animais selvagens, dos terrores inimagináveis e de pessoas estranhas, a grande lição de aprendizado, a passagem da adolescência para o mundo adulto, a compreensão de que o humano se divide em incontáveis nuances, e, por fim, o entendimento de que fugir também pode ser um ato de coragem. Na floresta (com os seus perigos), o menino recupera a racionalidade e percebe que existem pessoas que sentem prazer em torturar outras pessoas.

Muitos anos depois, em Paris e Berlim, Eduardo (um escritor conhecido, talvez o autor da narrativa) encontra dois dos personagens presentes no pseudo-acampamento. Ao conversar com eles (mas sem os desculpar), descobre os detalhes da trama/trauma que fundamentava aqueles momentos de agressão e que tinham como objetivo efetuar uma lavagem cerebral ideológica: Na tarde seguinte, enquanto nós doze fazíamos uma caminhada com Samuel ao longo de um riacho, e possivelmente a tudo que ele passara nos dizendo e pregando, comecei a entender que as atividades, mais do que didáticas, eram de doutrinação.

O mais trágico da situação está no fato de que todo aquele horror tinha a anuência das famílias dos adolescentes e que nenhum desses pais tinha consciência de que, em algum momento, a situação poderia resultar em algum tipo de dano irreversível. Foi a fuga de Eduardo que fez com que o castelo de cartas desmoronasse.    

A picada da tarântula costuma causar irritação e dor local – o risco de morte não é significativo, assim como certas ações da política contemporânea. Mas, torna-se imprescindível observar que a cicatriz nunca mais desaparecerá e que o oprimido de ontem pode se transformar no opressor de hoje. Foi a visão de uma tarântula tatuada no braço esquerdo de Samuel que esclareceu os objetivos de reunir todos aqueles adolescentes na selva da Guatemala.    

São as lembranças fraturadas (que misturam o passado e o imaginário) que fundamentam a narrativa. Essas imagens vão ficando desbotadas com o passar dos dias, então é necessário dar-lhes existência real antes que sejam tragadas pelo esquecimento:  Existem histórias-zepelim. Foi assim que descreveu o escritor cubano José Lezama Lima. Observa-se uma história passando, disse ele, como se observa um zepelim passando. Embora seja possível que Lezama Lima não tenha dito isso. Também é possível que ele não tenha dito uma história, mas sim um poema. Mas tanto faz. A comparação funciona do mesmo jeito.

 

Eduardo Halfon

Parte da obra literária de Eduardo Halfon possui tradução no Brasil: O boxeador polaco (Editora Rocco, 2014), Luto (Editora Mundaréu, 2018), Canción (Editora Mundaréu, 2022) e Tarântula (Editora Autêntica, 2025).


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

SOBRE A MESA

 


A literatura precisa ter sabor e, ao virar das páginas de um livro, despertar a famosa vontade de quero mais. De certa forma, o coração e a mente do leitor precisam ser alimentados. Principalmente quando deixam a sofisticação de lado. Ninguém come lagosta ou caviar todos os dias. Há quem prefira arroz, feijão e alguma proteína – o suficiente para uma boa alimentação.

Essa frugalidade está inscrita na produção ficcional de Regina Behar. São textos para comer com os olhos, para celebrar o ato civilizatório que constitui as refeições. Seja quando alguém está cozinhando, seja quando os personagens participam de algum evento em botecos, cafés e restaurantes. A vida multiplica a alegria quando comidas e bebidas são servidas, compartilhadas. É uma forma de criar um lugar à mesa para o leitor.

Em Sobre a mesa (Editora Dromedário, 2025), a relação entre as narrativas e a gastronomia aparece nos eventos cotidianos. Não importa a circunstância: as lembranças do marido morto, os aborrecimentos com o telemarketing, a presença do falso conhecedor de vinhos, os fantasmas familiares, a patroa malvada, o poder mágico da leitura, o desfrutar das geleias e dos doces caseiros. Nas entrelinhas estão o humor, o rancor, o medo, as muitas sutilezas que vão sendo acrescentadas às camadas que constituem as demandas humanas. Tudo isso temperado com algumas referências culturais (Cinema Paradiso, Alceu Valença, bolachas Maria, Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto, Saint-Exupéry, sabedoria popular, etc.).

Essas misturas no caldeirão literário, evidentemente, não evitam, em alguns contos, que as papilas gustativas do leitor sejam contaminadas pelo efeito residual agridoce que resulta da combinação nem sempre pacífica entre o chocolate e a pimenta, entre o afeto e a amargura. Nunca mais havia lembrado dele, mas naquela mesa de amigas, bebendo e compartilhando amores perdidos, ele voltou tão forte que só falei da superfície. Um episódio de amor, uma passagem da juventude. (...) Mas não falei do inconfessável e tentei esquecer.

Talvez seja por isso que algumas histórias são conduzidas em banho Maria, o desfecho suave evitando o sal de frutas, ou melhor, a indigestão. São essas sutilezas, especiarias raras, que impedem que as narrativas, como uma maionese mal feita, desandem e produzam efeitos indesejados.

Livro de receitas um pouco diferente daqueles que foram escritos por Dona Benta, Anthony Bourdain ou qualquer chef de cuisine francês, Sobre a mesa evoca as refeições na casa da avó, as histórias contadas nas cozinhas de fogo de chão, um mundo que deixou de existir – embora se renove a todo instante, o eterno PF (prato feito) do dia a dia.

Naquele sábado eu tinha outros planos: o grupo de literatura, o cineminha com as meninas, ou o happy hour com Gilberto naquele motel no caminho do fim do mundo... Ai Jesus, perdão, mas se Nossa Senhora fosse casada com o Aristides, faria o mesmo. O que esse homem já me traiu... Perdão, Nossa Senhora, Virgem Maria esqueça o que disse. (...) Eu é que sou uma pecadora mesmo, mas considere as minhas razões... Certos deslizes produzem um intenso salivar, a lembrança do sumo da fruta madura a manchar a vida com o gosto do passado. 

É na simplicidade que a felicidade encontra morada. E isso está bem definido no livro de Regina Behar. Ninguém fica com fome lendo os contos de Sobre a mesa.


Regina Maria Rodrigues Behar

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O GAROTO DO MEU PAI

 


Não tenho medo da morte. O que me aterroriza é a aproximação dela. A frase, atribuída ao escritor Oscar Wilde, de certa forma, multiplica o alcance do romance autobiográfico O garoto do meu pai, de Emmanuelle Lambert (Editora Autêntica Contemporânea, 2023. Tradução de Adriana Lisboa). A narradora, sem conseguir conter a emoção, precisa contar ao leitor como foram os últimos dias de seu pai. O câncer estava sugando as últimas forças de matemático que trabalhou com programação de computadores, que era um leitor voraz (inclusive de ficção científica), que jogava pôquer, bridge, xadrez e vôlei, que gostava de música (ópera) e de cachorros, que ajudou a criar duas filhas com amor e rispidez. 

Na Cerimônia do adeus, ritualizada em uma narrativa descosturada, cabe àquela que era sua filhinha, que ele arrastava meio que para todo canto como ela fosse um menino, reconstruir o presente e o passado, mesmo que em alguns momentos o tempo se mostre complicado, o hoje e o ontem misturados como se fossem uma coisa só. Susan Sontag não é citada no texto, mas uma de suas frases atravessa a narrativa como se fosse um dogma: Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença. Essa sentença projeta a ameaça latente, o encerramento do ciclo da vida.   

A questão principal do livro é outra: como devemos nos comportar diante da morte daqueles que amamos? A narradora vai descrevendo o que acontece no hospital (esse labirinto de paredes assépticas: lavanda e damasco). Uma última tentativa desesperada de impedir o inevitável: a enfermeira fala com calma, explica as diferentes doses do tratamento. Eu franzo uma sobrancelha para dar a impressão de entender algo dessa coisa que não entendo. O sofrimento – para o doente, para quem o está acompanhando – causa tormento: Dizem-me “tratamento experimental”, ouço “se ele vai morrer mesmo, pelo menos que isso sirva para alguma coisa”. E fico cega à utilidade daquilo, só vejo a vida que ainda pulsa em suas veias, a ele, que quero manter perto de mim, agora, para sempre.

Então, na terça-feira, Quando voltamos ao quarto (...). Repeti o que ele me dissera: ele não queria o tratamento. Todos nós sabíamos que isso o condenava a um prazo muito curto. O dr. K. pretendia, por sua vez, honrar o pacto que o unia a seu paciente. Queria ter certeza de que entendíamos. (...) Ele encarou o médico com um olhar fixo, articulando lentamente: “Quero morrer”. Depois disso não havia mais nada a dizer.  

Então, cessam todas as tentativas de prolongar a existência, a vontade do doente deve ser respeitada, mas sob uma mínima condição: Agarramo-nos aos olhos do dr. K., ele não está sentindo dor, não é?, isso é principal, a única coisa que importa, o resto podemos aceitar, no fundo é a vida que vai, não é a morte que é intolerável, é o sofrimento animalesco. Grandes doses de morfina são injetadas no corpo doente – uma forma piedosa de chamar pela morte.

Através de digressões sobre a vida familiar, o relato procura reconstituir a existência daquele que até algum tempo atrás era força e substância. Na cartografia do imaginário, o território da perda está repleto de armadilhas. A qualquer momento pode surgir uma crise, um momento de desespero, difícil conter o turbilhão que acompanha a ausência, mesmo quando se está ciente do que nos espera, o pó, a invisibilidade de nossas trajetórias. Escrever sobre a morte do pai consiste em um esforço de resistência ao apagamento da memória – mesmo sabendo que as palavras são insuficientes para expressar os sentimentos.

Livro triste, O garoto do meu pai também celebra a vida, esse espetáculo com hora marcada para terminar. Inclinei-me sobre ele, sua respiração parou. Acariciei sua cabeça, depositei um beijo em sua testa e sussurrei em seu ouvido, vai ficar tudo bem, pai; e ficou tudo bem.  

  

TRECHO ESCOLHIDO

O fato de não poder mais ler por exaustão era para ele, sem dúvida, a coisa mais intimamente cruel e degradante. Isso atacava seu ser interior, o garoto perdido cujos únicos amigos sempre tinham sido os livros. A mesa de cabeceira, por mais que estivesse cheia de jornais, revistas, tablets e telefones, de todas essas próteses essenciais à nossa vida consumista, parecia-me então completamente vazia. Ele queria morrer; tinha razão.


Emmanuelle Lambert


domingo, 11 de janeiro de 2026

COISA DE RICO

 


Existe um mundo paralelo ao dos mortais e que está sob a regência do dinheiro. Mas, cuidado, não se deve confundir os ricos com "os ricos". São duas classes distintas – e antagônicas. Na nova Idade Média que identifica a contemporaneidade, não basta ter patrimônio físico, também é necessário ter um nome de família respeitável. Ou seja, tradição, história e, embora não seja prioridade, um currículo educacional nas melhores universidades (Ivy league, por exemplo). Os novos ricos são tratados como párias na “alta” sociedade.    

A venda de cerca de duzentos mil exemplares do livro Coisa de rico – a vida dos endinheirados brasileiros, do antropólogo Michel Alconforado, sinaliza que a curiosidade com o universo dos milionários é inesgotável: os leitores querem saber como vivem, como se alimentam e onde habitam essas pessoas estranhas. Nesse sentido, o livro – que utiliza uma linguagem fluente, acessível para qualquer um – foi construído como um anedotário das diferenças entre os ricos antigos e os novos ricos, entre os que desejam comprar glamour e finesse e aqueles que, em nome da cultura civilizatória, combatem os bárbaros. Os primeiros, transformaram Miami em um parque de diversões do consumo; os segundo, como medida de proteção, se escondem em Genebra ou em algum recanto paradisíaco inacessível.  

Esse embate fornece cor e sabor ao espetáculo – ao mesmo tempo que retrata as movimentações na pirâmide econômica. Se O tempo das elites é um intervalo suficiente para inventar uma tradição, como afirma Alconforado, o tempo dos que estão ascendendo na cadeia alimentar precisa ser o agora. Por isso ostentam, esbanjam, adquirem objetos de luxo e apartamentos em prédios modernos. Fazem o que for possível para serem percebidos como “vencedores”. Discrição não existe na órbita dos emergentes. Eles atropelam a língua portuguesa (e a inglesa), promovem confusões nos restaurantes, ostentam roupas de marca e pretendem parecer o que nunca serão. O vexame se transforma em uma forma de diferenciação no mundo competitivo da riqueza.

A maneira como as elites usam as coisas de rico desperta o interesse de outros grupos sociais. Só que, à medida que se popularizam, as coisas de rico perdem a força e morrem. São peças simbolicamente frágeis. O que ontem era uma forma de distinção, hoje está descartado. Grifes de roupas e acessórios, automóveis, restaurantes e bairros residenciais adquirem o rótulo "desprezível" na medida em que se tornam acessíveis a qualquer um. Os valores que orientam as famílias tradicionais são outros e exigem exclusividade. Um ricaço deve conhecer o poder de suas traquitanas e saber usá-las com eficácia, de modo que elas gritem para os “de dentro” a riqueza acumulada e, ao mesmo tempo, se mostrem como uma esfinge aos “de fora”.

O poder econômico tradicional está alicerçado em códigos invisíveis (que reforçam privilégios e naturalizam as desigualdades). É um modelo de pensamento que amplia as distâncias entre os que “estão dentro” e os que “estão fora” e que, sobretudo, seja para proteger alguns ideais, seja para impedir o contágio com pessoas de outro nível de riqueza, prefere se enclausurar em grupos com interesses comuns (clubes sociais, condomínios exclusivos, almoços ou jantares de negócios).

Em paralelo, aqueles que gostariam de compartilhar dos privilégios, os novos-ricos, precisam recorrer a uma engenharia de transformação (...) para enfrentar a batalha pelo reconhecimento. E isso significa comprar tudo aquilo que estiver ao alcance do cartão de crédito: substituir o natural, mudar a aparência, acrescentar depois de pronto, suprir a falta. O artificial adquire status de verdadeiro, porque respaldado pela necessidade de pertencimento. Todo esse esforço se mostra lento e repleto de tropeços (mas é celebrado com estoicismo e otimismo). O segredo é fazer os outros acreditarem que se é o que se é desde sempre.          

Coisa de rico – a vida dos endinheirados brasileiros aposta no hibridismo. Ao mesmo tempo que se mostra mordaz com aqueles que possuem dinheiro novo, revela alguma simpatia por aqueles que administram o dinheiro antigo. Entre a elegância e o folclore, entre os que nasceram em berço de ouro e os arrivistas, a narrativa parece flutuar – incapaz de perceber que o encontro com o chão causará danos irreversíveis. É, na sua essência, um livro de fofocas (disfarçado de estudo antropológico).

 

 

Michel Alconforado é doutor em antropologia social e ficou conhecido como o antropólogo do luxo por estudar as relações de consumo e o modo de vida das elites econômicas no Brasil. Apresenta o programa Para onde vamos, na Rádio CBN.


domingo, 4 de janeiro de 2026

O BARBEIRO E EU

 


Há quem diga que a barbearia é uma espécie de divã psicanalítico dos homens (assim como o salão de cabeleireiro é para as mulheres). O sujeito senta na cadeira do barbeiro e pode conversar sobre qualquer assunto (futebol, política, carros, traumas da vida, amores, fofocas) sem muitos julgamentos, sem muitas consequências. Como algumas pessoas acreditam no poder curativo da fraternidade e é mais barato do que uma sessão com o psicólogo, desatam a falar as besteiras que lhes interessam.

Na infância, no lado esquerdo do cruzamento entre as ruas Cruz e Souza e Carlos Vidal Ramos, Bairro da Brusque, existia a barbearia do Nérço (a grafia é essa!). Era uma salinha pequena (mas enorme na percepção de quem tinha menos de 10 anos).  Os móveis eram poucos e indispensáveis: um banco para duas ou três pessoas e uma mesinha, onde os clientes podiam escolher para leitura alguns exemplares da revista O Cruzeiro. As paredes do santuário capilar eram decoradas com cartuns do Amigo da Onça (desenhados por Péricles [de Andrade Maranhão], 1924-1961).

A família deixou o bairro e o Nérço ainda ficou lá por um bom tempo. Algumas coisas mudaram, o meu cabelo cresceu até quase o meio das costas (tenho fotos para provar) e a memória deixou de reter quaisquer lembranças que envolvam trabalhadores da área, exceto uma vez, no início da vida adulta em São Bento do Sul (SC), e, muito mais tarde, duas vezes em Florianópolis e duas em Itapema. Obviamente, fui ao barbeiro outras vezes, mas simplesmente não tenho lembranças desses momentos.

Quando voltei para Lages, em 1999 ou 2000, comecei a frequentar uma barbearia que ficava na rua Marechal Deodoro, em frente ao Cine Tamoio (que talvez já funcionasse como igreja evangélica). O dono gostava de contar “causos” e a sua freguesia era composta, na essência, por pessoas de bastante idade. Alguém me contou que ele tinha uma coleção de revistas eróticas e que, nos intervalos entre um corte e outro, a velharada se divertia recordando o passado. Por escrúpulo ou aversão, passei a cortar o cabelo com outro profissional.     

Que talvez fosse o Nérço, que reencontrei na Rua João Gualberto da Silva, ou um dos irmãos Buck, na rua Coronel Córdova (quase na frente da agência central dos Correios). Falta-me precisão nos acontecimentos daquela época   o tempo muitas vezes se transforma em névoa e esquecimento.

Fiquei com os irmãos Buck por algum tempo – era um lugar divertido, onde se podia encontrar “todo mundo”, além de fornecer material jornalístico para vários artigos que publiquei em A Notícia (Joinville).

Os Buck eram uma espécie de “memória viva” de parte da história da cidade e quando passaram a residir na eternidade troquei de barbeiro várias vezes. Incompatibilidades diversas. Desde as idiossincrasias que alimento até a tese de que o silêncio precisa, necessariamente, ser eloquente. Detesto barbeiro engraçadinho, moralista, fanático futebolístico, fumante e picareta de carros. Sobram poucos, é verdade. Mas a vida é muito curta para aguentar (segundo o meu personalíssimo critério) gente chata (mais chata do que eu).

Toda essa lenga-lenga têm um propósito. Quero contar que, por diversos motivos, inclusive preguiça, deixei para o final de ano a ida ao barbeiro. O pouco cabelo que me restou estava precisando de um corte. E a barba? – a barba parecia a do Papai Noel.

Não querendo me deslocar até o Centro da cidade, fui em uma barbearia perto do apartamento onde moro. Esforço em vão. O barbeiro (amparado em suspensórios e um bigodinho modelo Cantinflas) me disse que só atendia com hora marcada e que, se eu não tinha agendado o evento, ele não poderia me atender. Senti na pele, digo, nos pelos, os avanços e retrocessos da modernidade – gourmetizaram a barbearia! Tinha conhecimento que, nos últimos tempos, alguns estabelecimentos estão oferecendo jogos de sinuca e cerveja artesanal para quem está na fila de espera, mas recusar cliente foi surpreendente.  

Embora saiba que janeiro não é o mês ideal para iniciar qualquer plano, deixei passar as festas e procurei pela barbearia que frequento. Estava fechada – a turma (são muitos naquele estabelecimento) tinha tirado uns dias de folga. Sem alternativa, como cachorro que caiu do caminhão de mudança, entrei na primeira porta que estava aberta. Não conhecia o cidadão, nem ele me conhecia. Mas, nos primeiros minutos, percebi que estava no lugar errado. Ele tentou puxar assunto várias vezes, sempre com uma pitada de humor. Fiz de conta que não estava ouvindo, gosto de meditar (de uma maneira bem particular) enquanto o barbeiro faz o trabalho. Fui salvo quando chegou outro freguês e a conversa tomou rumo para uma considerável distância dos meus pensamentos.

Depois que o serviço terminou e efetuei o pagamento (mais caro do que tinha imaginado), fui almoçar. Também não estava bom. Como dizia Hardy, famoso personagem de desenho animado de um passado que não volta mais, ó céus, ó vida, ó azar!