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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O FOGO NA FLORESTA



Os delírios causados pelo autoengano da classe média brasileira. Se não fosse tão assustadora e, por extensão, tão próxima da realidade, essa poderia ser uma síntese aceitável do romance O Fogo na Floresta, de Marcelo Ferroni. O problema – sim, isso é um problema – é que a literatura brasileira contemporânea adora ficar se esfregando em devaneios econômicos, em conflitos superficiais, e se esquece de abordar questões mais importantes e menos dramáticas.

No ano de 2010, dois anos antes das Olimpíadas de Londres, a editora Guanabara (nome fictício, embora não pareça) estabelece um plano de metas para publicações e vendas. Em linhas gerais, é por esse caminho – os bastidores do mundo editorial – que se movimenta parte da trama. O ambiente insalubre e a luta intestina corroem todo e qualquer instante de tranquilidade ou criatividade que possa surgir. A mistura antagônica de diversos ingredientes (ambição, inveja, incompetência, etc.) impede que a lucidez prevaleça. Na guerra cotidiana pela sobrevivência não há lugar para os inocentes. A precariedade se instala.

Simultaneamente, a vida sentimental e econômica de Heloísa Peinado, a protagonista, está encapsulada em várias outras histórias. Oscilando entre a ambição desmedida e a alienação, ela tenta driblar as armadilhas geradas por um casamento infeliz. A incomunicabilidade com o marido causa uma espécie de catatonia. Filha de um tempo em que algumas mulheres consideram a maternidade um empecilho para o sucesso profissional, ignora os cuidados que o filho pequeno requer. Ao seu redor a realidade objetiva desaparece. Esse ambiente caótico pode ser traduzido em uma equação banal: obter um pouco de felicidade instantânea é igual ao rompimento de algumas barreiras éticas e morais.

Na primeira oportunidade, Heloísa trai o marido. É uma forma de sair da rotina, de romper com a inércia, de instaurar a alegria. E engana-se quem pensa em estruturas românticas ou em desatinos causados pelo amor. Heloísa não entende essas banalidades. Embora não manifeste, ela está ciente de que o amante é um arrivista inepto, um desses sujeitos que imagina grandes golpes comerciais e que não dispõe de habilidade para executá-los. O que ela quer é a novidade. Ou melhor, a fuga de um ambiente opressor.

Heloísa representa a catástrofe (o desastre inconsequente)  se alastrando como o fogo na floresta.

Com relação à carpintaria do romance, há o uso de recursos interessantes: a narrativa foi descosturada e é apresentada em cinco capítulos e inúmeros fragmentos. O uso alternado do tempo (passado remoto, passado mais próximo, presente) também ajuda no dinamismo. A intersecção de um capítulo sobre um navio que fica encalhado na Antártida faz o leitor se perguntar: o que isso faz aqui? Obviamente, precisa-se continuar a leitura para descobrir o que está acontecendo. Infelizmente, é só fogo de palha – o que não invalida o truque. Outra sacada (ou sacanagem) com algum fundamento está no reencontro entre Heloísa e um colega de colégio ("Big" é citado no primeiro capítulo). Mas, nesse caso, há total desperdício da situação – Heloísa não está conectada com as lições oferecidas pela vida.

A grande restrição está localizada em outro lugar de O Fogo na Floresta: o uso narrativo de uma série de marcas comerciais. As ocorrências são inúmeras: Consul (p. 34, 64), McDonald’s (p. 50, 65), Moët Chandom (p. 53), Taittinger (p. 53), Claro (p. 62 e seguintes), Ponto Frio (p. 63), Pringles com Coca Zero (p. 154), Tok&Stok (p. 167), Adidas (p. 212), Quatro Rodas (p. 246). Se a ideia era produzir algum tipo de contato com o mundo da classe média, o leitor não percebe essa sutileza. O uso de outdoors narrativos, misturando itens de alto e baixo padrão, sem muito critério, torna irrelevante qualquer reflexão sobre o tema. Além disso, esse artifício sequer é novo – foi utilizado “ad nauseam” por escritores medianos como Bret Easton Ellis, em O Psicopata Americano (1991) e Glamorama (1998) ou Lolita Pille, em Hell Paris – 75016 (2002) e Buble Gum (2004).

Salvo uma ou outra cena, aqui e ali, O Fogo na Floresta é mais do mesmo. E entenda-se que “o mesmo” se satisfaz em descrever o que já está descrito em centenas de outras narrativas – embora com roupagens e linguagens diferenciadas.  


P.S: Na “orelha”, um redator muito criativo afirma que Heloísa é uma herdeira direta de Emma Bovary. Heresia.   



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

SOBRE GATOS



Os gatos são – provavelmente – os animais domésticos mais fáceis de serem antropomorfizados pela ficção. Neles encontramos (imaginamos) todas as características (qualidades e defeitos) que consideramos como atributos humanos: coragem, determinação, egoísmo, rebeldia, maluquice, fofura, altivez, preguiça, sensualidade, ausência de escrúpulos,... A lista se estende por centenas de adjetivos. Gatos e indivíduos são – de certa forma – semelhantes. Também são muito diferentes. Talvez a principal distinção esteja na forma com que um vê o outro. Enquanto os humanos escolhem os felinos como animais de estimação, os gatos aceitam os humanos como escravos (que devem protegê-los, amá-los e alimentá-los – não necessariamente nessa ordem).  

Há cerca de 250 raças de gatos domésticos (Felis silvestris catus) e, dependendo de alguns fatores (alimentação, habitação, cuidados veterinários, etc.), eles vivem entre quinze e vinte anos. No imaginário contemporâneo, onde há espaço para representações sentimentais das melhores e das piores idiossincrasias humanas (maldade, esperteza, preguiça, lealdade, carinho, etc.), os gatos aparecem como personagens emblemáticos das revistas em quadrinhos, dos desenhos animados e dos contos de fadas: Thomas (Tom & Jerry), Frajola, , Garfield, Gato Felix, Gato de Botas, Manda-Chuva (e sua turma: Batatinha, Xuxu, Bacana, Espeto e Gênio), entre outros.

Conta a lenda que, quando os seres humanos resolveram se fixar na terra e viver da agricultura, a produção e o armazenamento de cereais (grãos) atraiu várias espécies de roedores. Nesse momento, os gatos domésticos, que são exímios caçadores, se tornaram imprescindíveis. No Egito antigo recebiam atenção e devoção – eram considerados como representantes dos deuses na Terra. Também recebiam esse tratamento na Pérsia. Na Europa ajudaram no combate à peste negra. No início da Idade Média, quando a superstição se mostrou mais forte do que a razão, houve uma reversão comportamental: os gatos foram acusados de serem portadores de maus espíritos. Muitas vezes, na companhia de pessoas acusadas de bruxaria, foram queimados em praça pública. Surpreendentemente, essa herança irracional se projeta na atualidade: há quem considere que os gatos (principalmente os pretos) estão ligados ao azar ou à má sorte. Pura superstição – cabe dizer. Em todo caso, não se pode desprezar que os hispânicos costumam dizer que Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay.

Doris Lessing (1919-2013), ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura 2007, autora de vários romances de incontestável qualidade, era apaixonada pelos gatos domésticos. Filha de um oficial britânico, que era transferido constantemente, precisou morar em diversos lugares do mundo. Nasceu na Pérsia (atual Irã) e residiu (na infância e adolescência) na Rodésia do Sul (atual Zimbábue). Mais tarde, adotou a Inglaterra como lar. Em todos esses lugares, que são muito diferentes entre si, os felinos foram companheiros de praticamente todos os momentos. Os três textos que integram o livro Sobre Gatos, com tradução de Julia Romeu, relatam, em tom memorialista, sem se ater à ordem cronológica, a história de alguns dos animais que deram cor à sua (dela) vida.


Há histórias de todo tipo. Desde a necessidade de “se livrar” de uma ninhada (doações, extermínio) até depoimentos de amor explicito por animais que ultrapassam as barreiras zoológicas e se tornam, digamos, integrantes da família. No entanto, por mais que isso pareça importante, não há como ignorar que Na infância, as pessoas, os animais, os eventos surgem, são acolhidos e desaparecem, sem que nenhuma explicação seja oferecida ou requisitada. Ter um animal de estimação implica em perda, em recordações, em cicatrizes, em luto.

Depois de certa idade – e, para alguns de nós, isso pode ocorrer muito cedo – não existem novas pessoas, animais, sonhos, rostos, acontecimentos: tudo já aconteceu antes, já apareceu antes, com outra máscara, outras roupas, outra nacionalidade, outra cor; mas é igual, igual, tudo é eco e repetição; e não há nem dor que não seja uma recorrência de algo há muito esquecido que se expressa numa angústia inacreditável, em dias de lágrimas, solidão consciência da traição; e tudo por um gato pequeno, magro e moribundo. 

 


A aspereza das palavras de Doris Lessing remete a um caso emblemático, ocorrido na infância. Doente, a menina foi alojada nos fundos da casa. A gata, uma persa cinza-azulada, costumava dormir com ela. Como o encanamento na fazenda era precário, um dia a gata caiu em uma bacia de água quente, que estava no quarto. O dano foi grande. O corpo queimado resistiu – durante algum tempo. Ficou nos meus braços por uma semana, ronronando, ronronando, numa vozinha rouca e trêmula que foi se tornando cada vez mais fraca, até silenciar; lambeu minha mão; abriu os enormes olhos verdes quando a chamei e lhe implorei que vivesse; fechou os olhos e morreu.

Não surpreende que o parágrafo seguinte expresse uma promessa: 

Pronto. Nunca mais. E durante anos fiquei comparando gatos em casas de amigos, gatos em lojas, gatos em fazendas, gatos na rua, gatos em muros, gatos na memória como aquela criaturinha doce e cinza-azulada que ronronava e que para mim era o gato, o Gato, impossível um dia de ser substituído.


Levou 25 anos para que essa promessa fosse quebrada. Em Londres ocorreram várias mudanças.  Os gatos passaram a ser sinônimo de alegrias e boas lembranças. E, claro, de algumas dificuldades. Caixas de areia, períodos de cio, disputas por territorialidade, instinto predador, doenças, a morte – a vida urbana também se apresenta complicada para os felinos.  

São muitos momentos afetivos. São muitos momentos aflitivos. São situações engraçadas, trágicas, insólitas e humanas. Impossível, por exemplo, ignorar as epopeias de Rufus e “El Magnífico” (também chamado de Butch, Butchkin, General Pinknose, o terceiro). Eles foram, provavelmente, os dois gatos mais amados de Doris Lessing. De maneira particular, cada um deles foi um espécie de filho muitas vezes malcriado, mas filho!

Rufus morava por perto. Onde? Ninguém nunca soube. Talvez fosse um sem-teto. Foi no verão de 1984. Primeiro, uma tigela de água – ele bebeu tudo e pediu mais. Depois, deram a ele algum alimento. Era um gato laranja (uma cor maravilhosa, cor de fogo, como uma raposa). Estava malcuidado, o pelo sujo, o corpo repleto de cicatrizes. Aos poucos, como se estivesse sido convidado, ele foi se aproximando. Brincávamos dizendo que era o nosso gato externo. Na casa havia outros dois gatos.

O calor acabou e começou a chover. O gato laranja ficou na varanda, debaixo da chuva, com o pelo escurecido pela água que caía, olhando para mim. Abri a porta da cozinha e ele entrou. Eu disse para ele que podia usar aquela cadeira; aquela era a sua cadeira e ele não podia pedir mais. O gato subiu na cadeira, se deitou e me olhou fixamente. Tinha o ar de alguém que precisa aproveitar ao máximo o que o Destino lhe oferece antes que a oferta seja retirada.


Rufus estava doente. A luta pela sobrevivência havia sido dolorosa. Nós o escovamos. Limpamos seu pelo.  Demos um nome a ele. E o levamos ao veterinário, reconhecendo, dessa forma, que tínhamos um terceiro gato. O que se seguiu foi a invasão – lenta, gradual, amorosa (apesar da oposição dos outros dois gatos). Impossível resistir ao charme de um animal que conhece os mecanismos da sedução. Apesar de seus últimos dias revelarem um retrato da decadência, Rufus foi um guerreiro.  
        
Com “El Magnífico” foi tudo bem diferente, porque todas as histórias são singulares – mesmo quando parecem iguais.

Ele gosta quando relaxamos juntos. Mas não é uma coisa fácil de fazer. Não adianta me sentar perto dele quando estou com pressa, ou pensando no que deveria estar fazendo na casa ou no jardim, ou no que deveria estar escrevendo. Há muito tempo, quando ele era filhote, aprendi que esse gato exigia a total atenção de alguém, pois sabia quando minha mente estava dispersa, e não adiantava fazer carinho nele mecanicamente, pensando em outra coisa, e muito menos lendo um livro. No segundo em que eu não estava mais presente, com foco absoluto nele, Butchkin se afastava. Quando me sento para estar com ele, isso significa que preciso desacelerar, me livrar da angústia e da urgência. Quando faço isso – e ele tem que estar no humor certo também, sem sentir dor, sem estar inquieto –, Butchkin sutilmente me mostra que compreende que estou tentando me aproximar dele, do gato, da essência do gato, encontrando o que há de melhor nele. Humana e gato, tentamos transcender aquilo que nos separa.    


Sobre Gatos é uma elegia, um poema em prosa, o comprovar do quanto é exata a definição de Leonardo da Vinci: o menor dos felinos é uma obra de arte.
   

P.S. 1) Em Os Possessos – aventuras com os livros russos e seus leitores, de Elif Batuman, há uma revelação estranha. Sófia [Sônia] Andréieva, esposa de Liev Nikoláievich Tolstói, era ailurofóbica (não gostava de gatos). O controle dos roedores na propriedade da família, Iásnaia Poliana, era realizado por... acredite se quiser, cobras.     

P.S.2) Para aqueles que se interessam pelo abordagem ficcional do tema, há boa diversão em Os Melhores Contos de Cães e Gatos (Org. Flávio Moreira da Costa. Ediouro), Sete Vidas: sete contos mínimos de gatos (Heloisa Seixas. Cosac & Naify), Os Gatos (Patricia Highsmith. L&PM), Entre Arranhões e Lambidas: haicais & gatos (Alvaro Posselt. Blanche), Um Gato Indiscreto e outros contos (Saki. Hedra), Eu Sou um Gato (Natsume Soseki. Estação Liberdade), A Gata, Um Homem e Duas Mulheres (Jun'ichiro Tanizaki. Estação Liberdade), Relatos de um Gato Viajante (Hiro Arikawa. Alfaguara), entre outros.

P.S.3) Uma revisão mais acurada tornaria Sobre Gatos um livro melhor.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

OITO POEMAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (31/10/1902 – 17/08/1987)







MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


 AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.




MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.



POEMA DE SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.





 QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.




NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra



NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate




sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A JACA DO CEMITÉRIO É MAIS DOCE


Santiago Hernández, protagonista do romance A Jaca do Cemitério é Mais Doce, de Manuel Herzog, nasceu tragicômico. Semelhante ao bailarino que tropeça durante o clímax da dança e beija o solo gelado do salão, causando risos e piadas nos demais convidados ao convescote, ele poderia cantar os versos de uma velha canção, Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso / E hoje descrente de tudo me resta o cansaço / cansaço da vida, cansaço de mim.

Pobre destino de alguém que, por vias transversas, lembra outro indivíduo de nome Santiago. Em comum há a suspeita de terem sido traídos. Ou melhor, sentem que as suas entranhas estão sendo corroídas pelo ácido que surge do imaginar que a musa das emoções mais profundas em algum momento trocou humores com outro homem. A possibilidade de ela ter gostado/gozado se transforma em um sentimento insuportável. 

Indícios do mal estavam inscritos no doce corpo doce de Natércia, anagrama de Caterina, nome traduzido de sua bisavó, Katarzyna Gralówna, conhecida como a Polaca, e que exercia honestamente (na medida do possível) a profissão mais antiga da humanidade no porto de Santos. Também a mãe de Natércia, Delfina, se perdeu nos braços de um pernambucano – mulher sem marido acaba caindo na vida, não foi o caso, mas o pecado não se resume em seis letras desemparelhadas. Com tais antecedentes, como ignorar os fatos?

 É um cheiro forte, (...) o amor em excesso chega a feder, feito jaca, escreve o narrador – que em muitos momentos quase se confunde com Santiago. Não seria surpresa se isso fosse, posto que Santiago descreve as suas desventuras em um diário – que, em dado momento, aparece nas mãos de Marcleide, a empregada doméstica. A isso também se acresce, durante as 135 páginas do livro, um número bastante significativos de duplos. Ou de sombras. Sobras de personagens que se desdobram em outros, como se quisessem confundir ou cindir a narrativa.

Duplos são esquizofrênicos. Ou será que os esquizofrênicos é que são duplos? Algumas perguntas não possuem resposta. Há particularidades em cada desvario, a mente adora se desviar da linearidade, o fascínio pelos cenários desconhecidos, o jogo tenso, teso, entre o yin e o yang, as duas faces da mesma moeda, elementos que se desdobram em espiral, ninguém sabe onde começa ou termina, fita de Möbius. Talvez seja por isso, em dado momento, com a pompa e a circunstância que é devida ao evento, que adentra ao proscênio a figura peculiar de Germano Quaresma, doppelgänger do escritor Manuel Herzog, e que, não satisfeito em embaralhar as cartas desse jogo sem regras, se transforma no investigador de polícia José de Alencar Segundo. Nem mesmo Simão Bacamarte (que não é personagem dessa história!) seria capaz de desatar essa maçaroca. Como se não bastasse, nesse mundo repartido entre o corpo e o espectro, Santiago acumula a tristeza na companhia de dois gatos: Chantilly (branco) e Morcego (preto).

Com as mulheres, há uma ligeira misoginia. Ligeira? Gritos e pontapés metafóricos caracterizam a relação com Marcleide. Mitiko e Cremilda são válvulas de escape sexual. A única que obteve atenção e devoção foi Natércia. Feito um cachorrinho de estimação, ele pulou, deitou, se fingiu de morto, correu atrás de gravetos, acuou de felicidade. E, obviamente, pagou contas. Para que tamanho esforço?

Vivaldo, um vivaldino que havia sido expulso da polícia, estava namorando Natércia. Foi isso, mas com outras palavras, e bem menos educadas, o que Cavalo-do-Índio segredou-lhe em momento de crueldade com o colega de serviço. Não há cristão (ou muçulmano ou budista ou ateu ou...) que consiga suportar o peso de um bom par de chifres. A masculinidade sofre desses desvios de conduta. E o soco na cara do comborço foi revidado com um tiro na perna – a marca da injuria passou a ser carregada por todo o sempre. Então, Santiago (que nunca foi santo), alegando defesa da honra, contrata bandido de plantão para liquidar a questão. A morte de Natércia foi dano colateral, estava junto com o canalha, o sangue dos dois se uniu no asfalto e isso se agregou ao sentimento de culpa.

Outros tantos eventos se seguiram. Alguns, importantes. Outros, nem tanto. A existência é confeccionada com minúcias, colcha de retalhos com as sobras do trivial. E mesmo que os descrentes garantam que a vida, qualquer vida, se parece com todas as outras vidas, imagem multiplicada no espelho, não há como negar corporeidade ao espetáculo que é contado, descrito, narrado como se fosse original, sem igual.

O homem perde tudo, até a dignidade, como os mendigos, mas a curiosidade fica, é uma praga, diz Santiago em algum momento do livro, como se estivesse a purgar os pecados, como se estivesse arrependido de entregar ao leitor todos os detalhes macabros de sua vida, principalmente a ilusão patética de desmembrar lentamente o cadáver de Natércia para alimentar a composteira. Na impossibilidade física de realizar a vingança mesquinha, transfere o ódio para um manequim (mais um duplo!). Só falta nos dizer que tudo (inclusive a vida) é merda e à merda todos retornaremos.

Dialogando com Machado de Assis e Nelson Rodrigues (um pouco menos), A Jaca do Cemitério é Mais Doce aborda – de maneira pouco usual a perda da realidade. O humor amargo, pouco espesso, agarra o leitor e embriaga.    

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A ARTE EM QUARENTA FRASES



René Magritte

 – A arte é o remédio e o melhor deles. (Machado de Assis)

– A arte existe para que a verdade não nos destrua. (Friedrich Nietzche)

A arte é o espelho e a crônica da sua época. (William Shakespeare)

– A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível. (Leonardo da Vinci)

Só o amor e a arte tornam a existência tolerável. (W. Somerset Maughan)

– A arte só oferece alternativas para quem não está prisioneiro dos meios de comunicação de massa. (Umberto Eco)

– A tarefa atual da arte é introduzir o caos na ordem. (Theodor Adorno)

– Não existe obra de arte sem a colaboração do demônio. (Andre Gide)

Marcel Duchamps
 – Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno (Antonin Artaud)

– Não consigo imaginar como alguém que não escreve, pinta ou compõe pode passar pela vida (Graham Greene)

Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte. (Johann Wolfgang von Goethe)

Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma. (George Bernard Shaw) 

– A arte começa onde a imitação acaba. (Oscar Wilde)

A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo. (Vladimir Maiakóvski)

– Toda arte é autobiográfica: a pérola é a autobiografia da ostra. (Federico Felini)

Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa. (Ariano Suassuna)

– O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte superior é libertar. (Fernando Pessoa)

Salvador Dali
 – Em arte, procurar não significa nada. O que importa é encontrar. (Pablo Picasso) 

A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação. (Eça de Queiroz)

É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente. (Simone de Beauvoir)

– Se mais de 10% da população gostar de um quadro, ele deveria ser queimado. Deve ser muito ruim. (George Bernard Shaw)

– O segredo da grande arte é ser tão pessoal e estreita que, pela força do seu exclusivismo, fala com o mundo inteiro. (Paulo Francis)

– A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio. (Ariano Suassuna)

É preciso ser um homem do seu tempo e um artista póstumo. (Jean Cocteau)

– A vanguarda de ontem é o chique de hoje e o clichê de amanhã. (Richard Hofstadter)  

– Qualquer idiota é capaz de pintar um quadro. Mas só um gênio é capaz de vendê-lo. (Samuel Butler)

Pablo Picasso
 – As obras de arte dividem-se em duas categorias: as de que gosto e as de que não gosto. Não conheço outro critério. (Anton Tchekhov)

– A arte de interrogar não é tão fácil como se pensa. É mais uma arte de mestres do que de discípulos; é preciso ter aprendido muitas coisas para saber perguntar o que não se sabe. (Jean-Jacques Rousseu) 

O amor e a arte não abraçam o que é belo, mas o que justamente com esse abraço se torna belo. (Karl Kraus) 

Todo o segredo da arte é talvez saber ordenar as emoções desordenadas – mas ordená-las de tal modo que se faça sentir ainda melhor a desordem. (Charles Ramuz)

As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas. (Rainer Maria Rilke) 

A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma. (Auguste Rodin)

De todas as coisas humanas (...) a única que tem o seu fim em si mesma é a arte. (Machado de Assis)

Francisco de Goya
 – Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver. (Bertolt Brecht)

A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são. (Fernando Pessoa)

Toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores. (Friedrich Nietzsche)

– A arte abstrata é um produto dos incompetentes, vendida pelos inescrupulosos e comprada pelos imbecis. (Al Capp)

A vida é a arte de tirar conclusões suficientes a partir de premissas insuficientes. (Samuel Butler)

– A lei seca da arte é esta: "Ne quid nimis”, nada além do necessário. Tudo o que supérfluo, tudo aquilo que podemos suprimir sem alterar a essência é contrário à existência da beleza. (José Ortega y Gasset)

Toda a arte é completamente inútil. (Oscar Wilde)

Vincent van Gogh


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

BLADE RUNNER 2049



Morrer pelo que é certo é a coisa mais humana que podemos fazer, diz a líder dos replicantes rebeldes para o também replicante K (Ryan Gosling), em cena emblemática de Blade Runner 2049 (Dir. Denis Villeneuve, 2017), uma espécie de sequência do clássico Blade Runner (Dir. Ridley Scott, 1982), que, por sua vez, é vagamente inspirado no romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip Kindred Dick (1928-1982).

O paradoxo se manifesta instantaneamente. Replicantes são androides, ou melhor, são seres bio-humanos, que evoluíram dos robôs da série Nexus.  Eles imitam os humanos, e foram criados para, grosso modo, servir de mão de obra descartável. Cabe-lhes obedecer, sem colocar em dúvida as tarefas que recebem – nada muito distante da situação vivenciada pelos escravos entre os séculos XV e XVII.  

A existência de K obedece a esse postulado. Encarregado pela polícia de Los Angeles de caçar e exterminar alguns tipos de replicantes, frutos de uma tiragem mais recente e que estão causando “problemas”, ele procura cumprir objetivamente todas as missões que lhe são designadas. No entanto, se há bastante movimento na vida profissional de K, no aspecto particular impera o vazio – exceto nos momentos em que ele interage com a imagem de Joi (Ana de Armas), uma espécie de namorada virtual (e que só existe na forma hologramática).

Ocorre um curto-circuito emocional depois que K mata um replicante, Sapper Morton (Dave Bautista) – e em vários níveis. Dentro de uma caixa, que estava enterrada perto de uma árvore, são encontradas várias informações sobre as mutações que estão ocorrendo com os replicantes – e que, de uma forma ou de outra, colocam em risco o poder humano. Como ocorre nas sociedades totalitárias, não há espaço para a diversidade. Torna-se necessário eliminar quaisquer focos de resistência ao padrão unificador.

Essa mudança de parâmetros coloca sob os holofotes uma questão essencial. Os replicantes não possuem subjetividade. Eles não compartilham daqueles elementos singulares que distinguem os indivíduos (valores, crenças, opiniões, lembranças). Então, como explicar a rebelião que está em curso? Como entender que alguns replicantes tenham adquirido consciência de que a vida está revestida de um valor inestimável? Máquinas são máquinas – exceto nos casos em que a inteligência artificial seja autônoma para produzir um novo nível de inteligência.

(Nota 1: quem discordar dessa tipo de pensamento deve ler Homo  Deus: uma breve história do amanhã, de Yuval Noah Harari, onde as previsões sobre a composição da sociedade futura são aterradoras.)


Simultaneamente, K recupera uma lembrança da infância. Um pequeno cavalo esculpido em madeira se transforma em uma espécie de “Madeleine” proustiana ou “Rosebud” (de Cidadão Kane. Dir. Orson Welles, 1941). Esse caso exemplar de autoengano se revela decisivo para o andamento narrativo. Aquele que deveria se comportar como inumano vê o passado relampejar diante de seus olhos como elemento primordial da existência. De maneira completamente fora do controle de seus fabricantes, o androide adquire consciência de está se tornando humano e que a sua vida – a partir desse instante – está em perigo.

Acrescenta-se o fato de que K não sabe (e não tem condições de saber) de que essa memória não é sua. Ela faz parte de um implante. Então, entre o acreditar que está destinado a executar uma tarefa singular para o destino de todos e, logo depois, se desiludir com a descoberta de que tudo o que acredita (e o motiva) é uma farsa, a vida de K se torna intensa, imensa, maravilhosamente preenchida por uma experiência real, verdadeira, humana.      

Em um mundo distópico, caracterizado por grandes espaços desertos, ruínas urbanas e grandes avanços tecnológicos, Blade Runner 2049 (assim como a versão de 1982) trava um diálogo constante com o faroeste – gênero cinematográfico especular/espetacular da colonização estadunidense e constantemente reproduzido por Hollywood. As cenas de ação do filme (tiroteios, lutas físicas) estão atreladas ao mito do herói e, consequentemente, ao maniqueísmo (a divisão entre o bem e o mal sempre foi a maneira mais fácil de relativizar qualquer ação humana). A vantagem de Blade Runner 2049 está exatamente em se afastar desse esquema dualista, através do desafio intelectual. As dúvidas que o filme suscita são mais interessantes do que as respostas que apresenta. 
 

 (Nota 2: não é necessário ver/rever o Blade Runner de 1982 para entender o de 2017. Também não é necessário ler o texto de Philip Kindred Dick.  São histórias diferentes, independentes, e que estão ligadas por fios muito tênues.)  



(Nota 3: uma das cenas mais divertidas do filme é completamente acessória. A pós-modernidade cinematográfica está representada na jukebox holográfica – a projeção luminosa de Frank Sinatra [ou de Elvis Presley e Marilyn Monroe] mostra que o passado constituí a sombra de que o homem e a máquina não conseguem se separar.)