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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

TÔ FRITO!


A história da gastronomia está repleta de histórias de incontáveis desastres. Para espanto geral, nem todos terminaram em tragédia. Só alguns. E que são rapidamente esquecidos. Em compensação, por caminhos tortuosos, algumas dessas catástrofes resultaram em pratos saborosos. Ou experiências didáticas.

As jornalistas Luciana Fróes e Renata Monti organizaram um livro com algumas dessas histórias que tiveram final feliz. Tô Frito! (uma coletânea dos mais saborosos desastres na cozinha) reúne depoimentos de 20 chefs e “restaurateurs” brasileiros. Esses relatos, transitando em uma faixa muito extensa de narrativas (do bizarro ao patético, do drama à comédia), conseguem entregar ao leitor um “prato” suculento – desses que possuem sabor de quero mais.

Comprovando que em qualquer cozinha – seja em restaurante, seja em casa – não faltam momentos em que desanda a maionese, o glacê, o suflê ou qualquer coisa que esteja no fogão, torna-se impossível não rir com Roberta Ciasca quando ela relata o sumiço de alguns frangos e batatas destinados a um almoço. A descrição da noite de inauguração do restaurante “Entretapas”, de Jan Santos, é hilária. O mesmo vale para o primeiro restaurante de Claude Troisgros. Para tentar ampliar a freguesia, Rogério Fasano promoveu um chá da tarde – pesadelo é um adjetivo suave para explicar o acontecimento. Nessa linha, quando tudo parece que vai dar errado, mas que – surpresa! – o resultado é outro, está a torta Terremoto, de Flávia Quaresma.

A vida de um Chef de Cuisine não é tão glamorosa quanto parece. Por exemplo, Alex Atala conta que quase teve o seu braço amputado em Singapura. Convidado para preparar um jantar no Ritz Carlton, esqueceu de proteger um dedo machucado. Ao limpar um tamboril, acabou sendo infectado por uma bactéria invasiva. Resultado: além do susto, quatro cirurgias e várias cicatrizes.

Renata Monti e Luciana Fróes
E aquela situação em que a equipe (por algum motivo) fica desfalcada? Improvisar é preciso. Precioso. Inclusive porque os momentos de terror se transformam – mais tarde – em lições de aprendizado e de profissionalismo. É o que ensinam Jan Santos, Zazá Piereck e Roberta Ciasca. O mesmo se pode dizer de Guga Rocha que, em ritmo tirar coelho de cartola, conseguiu, em determinado momento, transformar as condições mais adversas em sucesso.

As aventuras gastronômicas (ou melhor, de contrabando) de Rogério Fasano deveriam ser filmadas como parte de alguma comédia-pastelão. A cena em que ele quase foi preso por causa de algumas alcachofras ou aquela quando passou pela alfandega com uma peça de pastrami escondida dentro de uma mala são clássicas e deveriam ser objeto de estudo – por diversos motivos – nas faculdades de gastronomia do Brasil.

Provavelmente, a maior contribuição gastronômica que se pode observar em alguns dos relatos de Tô Frito! é a inclusão de diversos ingredientes brasileiros. Tapioca, farinha de banana, carne de sol, pão de queijo, abóbora – não há limites para a criatividade. 

No terreno das relações políticas há a descrição de diversos momentos em que o preconceito se mostra presente. Exemplar nesse sentido são as histórias “das cachaças” (relatada por Edméa Falcão) e a da prostituta (contado por Alex Atala). Como essas narrativas estão envoltas em leveza, como se fossem “causos” corriqueiros, há um atenuar dos efeitos nocivos que representam.

Claude Troisgros conta que quem trabalha com alimentos – em algumas situações – precisa se adaptar aos mais diferentes ingredientes. E nem todos são comestíveis (quer dizer,...). Com bom humor ele conta duas histórias envolvendo um gato e diversas baratas. São imprevistos que precisam ser previstos em um mundo em que as surpresas são constantes.

Resumo do livro: Tô Frito, longe de ser um livro destinado apenas ao pessoal que trabalha na cozinha, é divertidíssimo. E de fácil leitura.


TRECHO ESCOLHIDO


Certo dia, lá no Garcia &rodrigues, um funcionário aparece para me avisar:

– A família do Ed Motta está lá no café, querem falar pessoalmente com o senhor.

Subo as escadas na correria, preocupado com meu amigo, e me sento à mesa com a mãe, uma tia falante, além do médico da família e Edna, sua mulher, parecendo não acreditar muito naquela intervenção.

– Gostaríamos que o senhor proibisse a vinda do Ed aqui – disse a esposa.

Apesar de o pedido me parecer insólito, determinei em reunião com a equipe a proibição da entrada de Ed. Vida de restaurateur é repleta de saia-justa.

Passaram-se umas duas semanas de embargo. E um dia novamente aparece um funcionário, para me avisar da presença de um menino de rua na loja com uma lista de compras e dinheiro na mão, pedindo itens como presunto San Daniele, 250 gramas de foie gras, queijo Pont-l’Évêque e por aí vai – uma lista pra lá de caprichada. A presença do menino não era nenhum problema, mas aquela encomenda me fez lembrar, curiosamente, de um outro cliente...

Assumi meu lado investigador, e o rapaz logo revelou o mandante por trás do apetitoso rol. Lá estava o nosso Ed Motta, escondidinho do outro lado da Ataufo de Paiva, atrás de uma fileira de táxis.

Liguei para a Edna, com o Ed ao meu lado, e o jeito foi suspender a proibição, na época ainda não se dizia “Fazer o quê?”, mas foi exatamente o que eu pensei. 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O DIA EM QUE A MINHA VIDA MUDOU

Não tenho muita intimidade com a literatura infantojuvenil. Fui – muito tempo atrás – leitor da coleção Terra-Mar-e-Ar (Emílio Salgari, Júlio Verne, Robert Louis Stevenson, etc.). Depois, em algum momento do ensino médio, li os contos e crônicas publicados em Para Gostar de Ler. E parei por ai. Isso significa que os livros da coleção Vagalume (que iluminaram uma geração depois da minha) não fizeram (não fazem) parte da minha biblioteca afetiva. Provavelmente perdi algo que jamais recuperarei.

Ao longo da vida presenteei os filhos de amigos com livros (Ziraldo, Rute Rocha e Pedro Bandeira, entre outros). Mas (tentando não ofender os escritores), preciso dizer que nenhum desses livros chamou a minha atenção. Tendo como objeto de estudo a literatura adulta, ignorei todas as outras literaturas. A exceção aconteceu com a belíssima edição de 4 Contos”, do e. e. cummings – cuja compra (preciso confessar!) ocorreu mais pela admiração que tenho pelo estadunidense do que pelo conteúdo do livro. De qualquer forma, cumpre declarar que as histórias que ele escreveu para a filha e para o neto são geniais e estão valorizadas pelas ilustrações de Eloar Guazzelli.

A menos de um mês ouvi alguns burburinhos em torno de um livro com título quilométrico: O Dia em que a Minha Vida Mudou por Causa de um Chocolate Comprado nas Ilhas Maldivas, escrito pela Keka Reis (ilustrações de Vin Vogel). Sou um curioso. E isso significa que fiz o que foi necessário para conseguir um exemplar.

Gostei. Gostei muito. É um livro engraçado – pelo menos para mim, que já ultrapassei a barreira do meio século faz um tempão. Além disso, é uma celebração do poder da linguagem – que desliza pelas páginas do livro com uma leveza que encanta.

As aventuras de Mia (a narradora) não diferem das aventuras de outras meninas pré-adolescentes. Mas se todas as histórias se parecem, o diferencial está na forma com que elas são transmitidas ao leitor. E, nesse departamento, Mia consegue cativar. As suas angústias são repassadas de uma maneira especial – e estão bem próximas do mundo “real”.

Tudo começa quando Mia recebe um bilhete do Bereba durante a aula de ciências. O que parecia certeza desmorona. O melhor amigo (amigo com O maiúsculo) contribui para que ela tenha uma revelação crucial: a transição entre uma e outra fase da vida não ocorre de maneira pacifica. Mas quem está preparado para essa tempestade? Mia não está. Definitivamente, não está. Então, no momento em que, como mágica, Bereba se transforma em Paulo, muitas lágrimas rolam pela sua face – o banheiro é sempre um bom esconderijo nesses momentos. 

Além dessa tragédia pessoal, há o mundo social. Por exemplo, Jade é um capítulo à parte. O mesmo vale para a Julia F. (não confundir com a Júlia P. e a Júlia A.), que surge em cena para atrapalhar aquilo que até cinco minutos antes do bilhete parecia não ter a mínima importância.

O Dia em que a Minha Vida Mudou parece espelhar um drama. É apenas aparência. Por trás de toda confusão há um pouco de exagero. Ou melhor, um pouco de comédia. É isso que nos faz projetar o que vai acontecer com Mia nos próximos livros.

P.S: É um palpite. Apenas um palpite. Tenho comigo que Mia vai protagonizar outros livros.


TRECHO ESCOLHIDO


O sinal tinha tocado e as pessoas não voltaram. Por quê? O que tinha acontecido? Será que a Jade tinha mostrado o bilhete para todo mundo? Será que o Bereba tinha se apaixonado pelo cabelo cabeludo da Júlia F.? Eu tinha desistido de escrever a carta para minha mãe – definitivamente ela não ia me dar um celular –, e me concentrei para me lembrar do intervalo em que fiquei sozinha com o Bereba. Isso ia me distrair. Lembrar do intervalo que ele preferiu ficar comigo em vez de ir com todos os alunos para a pracinha pela primeira vez. Isso significava muito. Isso significava tudo. O que isso significava mesmo? A classe toda começou a voltar. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

DUNKIRK

Analisando algumas imagens de guerra, Susan Sontag, em Diante da Dor dos Outros, concluiu que Desde quando as câmeras foram inventadas, em 1839, a fotografia flertou com a morte. Esse raciocínio também vale para o cinema, embora, com o passar do tempo, os filmes de guerra (por diversas razões) tenham sido quase extintos ou migrado do culto do herói (que se sacrifica na defesa de algum ideal) para instrumentos de propaganda ideológica (vide, por exemplo, Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow  2010 – e Sniper Americano, de Clint Eastwood  2015).

Centralizado em um dos grandes momentos da II Guerra Mundial, a evacuação de parte do exército inglês, que estava sitiado na praia de Dunquerque, norte da França, Dunkirk (Dir. Christopher Edward Nolan, 2017) tem como propósito principal mostrar os horrores que acompanham o irracionalismo da guerra.

Com um elenco que alterna bons atores (Fionn Whitehead e Mark Rylance, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, 2016), estrelas decadentes (Kenneth Branagh) e chamarizes de público (Harry Styles, integrante do grupo pop One Direction), o filme não decepciona – principalmente para o espectador que vai ao cinema para ver cenas de ação.

No que se refere à carpintaria narrativa, Dunkirk possui várias características. A primeira, e a mais importante, é o uso da fragmentação, através da superposição de três planos narrativos (terra, mar e ar). Esse artifício pirotécnico contribui para eliminar a existência de um (ou vários) protagonista(s) – evidenciando que o foco principal do filme é a guerra. As conexões entre esses elementos foram resolvidas de forma eficiente na mesa de edição.

Christopher Nolan, durante as filmagens
Outra questão distintiva importante está na deliberada negação de fornecer um rosto ao inimigo. Com exceção de uma cena quase ao final, em nenhum momento se percebe a presença do exército alemão. Somente os ingleses e uns poucos franceses aparecem em cena. De certa forma, o diretor (que também é o roteirista) sugere que a maldade, independente da forma com que é percebida, está sempre presente na vida humana.

Por fim, as inúmeras cenas de ação (combates aéreos, naufrágios de navios, tiroteios) permitem a agilidade narrativa necessária para absorver a atenção do espectador. E impedir a reflexão crítica.

Em um artigo publicado no jornal The Guardian, a escritora indiana Sunny Singh destaca a necessidade de uma narrativa (baseada em fatos “reais”) estar conectada com o conceito de verossimilhança. Não basta contar uma boa história, urge torná-la próxima dos acontecimentos históricos.

A ausência de soldados de origem indiana e de negros nos batalhões que estão retratados em Dunkirk constitui um exemplo importante, segundo Singh, de whitewashing (substituir alguns personagens fictícios ou históricos – asiáticos, indianos, negros – por personagens de cor branca). Ou seja, a produção do filme optou por ignorar a História cultural de um país colonizador e que saqueou diversas regiões do mundo. Para completar, Singh destaca que o filme é uma fantasia brexitiana descarada, onde o desrespeito aos povos não-europeus se destaca de forma excludente e preconceituosa.  

Singh finaliza o seu texto com uma lição de teoria narrativa: 

Todo contador de histórias – romancistas, poetas, jornalistas e cineastas são, em última instância, apenas isso – sabe o poder que tem. Histórias podem desumanizar, demonizar e excluir. Tais histórias são essenciais para pavimentar o caminho para a violência física e material contra aqueles que aprendemos a odiar. Mas histórias também são o único caminho para humanizar quem é considerado desumano; para evocar piedade, compaixão, simpatia, até amor por aqueles que são estranhos e estrangeiros. Histórias decidem a diferença entre a vida e a morte. E é por isso que Dunkirk – e, de fato, qualquer história – nunca é apenas uma história.


Difícil discordar dessa abordagem. Citando Susan Sontag outra vez, Por longo tempo algumas pessoas acreditaram que, se o horror pudesse ser apresentado de forma bastante nítida, a maioria das pessoas finalmente apreenderia toda a indignidade e insanidade da guerra. Christopher Nolan provavelmente discorda dessa interpretação. Inclusive porque preferiu mostrar uma visão distorcida de algumas minúcias históricas. Em outras palavras, Dunkirk é um bom filme de entretenimento. Apenas isso. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

FERRUGEM


Escrever da maneira mais límpida possível. Sem truques de prestidigitação, sem dribles ou malabarismos desconcertantes, sem se estender desnecessariamente, sem sugerir que há alguma coisa escondida nas entrelinhas. O exercício da simplicidade. Menos é mais.

Oscilando entre o poético e o patético, entre as escolhas desafortunadas e as diversas cores que compõem as alegrias do existir, os 13 contos que integram Ferrugem, de Marcelo Moutinho, seguem esse proceder. Nos momentos em que ocorrem variações temáticas (futebol, família, adolescência, amores frustrados), a ideia é – apenas! – contar uma boa história.

Cabe ao leitor abrir o livro e deixar que as narrativas contaminem os olhos e a mente. Por exemplo, em um dos melhores contos do livro, Domingo no Maracanã, Bia descobre uma espécie particular de Aleph (um portal onde ela consegue visualizar acontecimentos que não se concretizaram). Contrastando com a vertente contemporânea que prefere se concentrar na “vida como ela é”, a narrativa abre espaço para a fantasia e o sonho. Nesse mesmo tom (uma perspectiva repleta de leveza e lirismo), Gandula apresenta um final verossímil e trivial. Mas, antes das últimas linhas, a vida de João – que parecia destinada às glórias futebolísticas – se consolida no ofício mais desvalorizado entre as quatro linhas do campo esportivo. Significativamente, não é um conto sobre o fracasso, é um relato sobre a redenção, sobre o caráter lúdico da vida.

O estranhamento também se faz presente em alguns contos. Jantar a Dois revela uma tessitura sutil. Em lugar de descrever o combate doméstico diário, onde imperam gritos e acusações sem substância, o leitor encontra uma imagem repleta de silêncios. A maneira com que o casal transformou suas vidas em rotina e falta de emoção é descrita com naturalidade. Eles estão unidos pela desunião. Ou pela ferrugem que corroeu o que havia de humano entre eles.

Todas as histórias de amor são ridículas, como comprovam 362 e As Praias Desertas. No primeiro, porque unilateral. Somente Custódio está apaixonado. Camila sequer sabe da existência dele. São encontros espaçados pelas idas e vindas do trabalho e comentados com o ceticismo da cobradora do ônibus – que narra a história. Aliás, em alguns momentos, parece que o desencontro está inserido no conto apenas para emoldurar a voz da cobradora – que é a personagem forte da narrativa. No segundo, o que está em jogo são as lembranças de um relacionamento que se perdeu no tempo. Enquanto espera por alguém que nunca vai chegar, a mulher vai espalhando fragmentos e ilusões na planície textual. 

Assim como o motorista que perde a direção e causa um desastre de proporções inimagináveis, a vida estruturada do professor de contabilidade é tragada pelo inimaginável. Como relato, Sauna está mais próximo do mundo concreto do que da ficção.

A violência (real, imaginária, simbólica) que acompanha a passagem da infância para a vida adulta está descrita em Xodó. Trata-se de um primeiro contato com a sexualidade e suas perversões. Também destaca as sutilezas que envolvem a cumplicidade entre irmãos – e que rompem a isonomia que deveria existir dentro do relacionamento fraterno.

Salvo engano, dois dos contos (e que gravitam em torno da música) foram publicados em outros livros. Something está em O Livro Branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bônus track (organização de Henrique Rodrigues) e Três Apitos faz parte de Conversas de Botequim – 20 contos inspirados em canções de Noel Rosa (coletânea organizada por Henrique Rodriguez e Marcelo Moutinho).

Something estabelece a imprecisão dos sentimentos. Três Apitos reafirma esses equívocos. Enquanto em um há a procura pelos significados escondidos atrás da letra da canção dos Beatles, no outro há a desconstrução da lírica de Noel Rosa. Enquanto o primeiro estabelece a separação como complemento das relações amorosas, o segundo confirma que a felicidade de um casal está muito distante da vida cotidiana. De tudo, fica um pouco, comenta um dos personagens de Something. Compreendi que pouco importa de onde veio, por onde veio, se o preservativo furou. O HIV está dentro do meu corpo, constata a narradora de Três Apitos.

Outros três contos completam o livro: Caiu Uma Estrela na Minha Sala, Rei e Dezembros.


TRECHO ESCOLHIDO


Seu Chico não perguntou sobre o desempenho do filho. Nem Dona Dina. O semblante do garoto, ao chegar em casa, era um dicionário com todas as respostas possíveis.


João sabia que outro teste só dali a um ano. Que não dava para postergar o trabalho, o cursinho, em nome de treinamento. Se nas peladas ele era o tal, primeiro escolhido sempre, em clube profissional a música toca diferente. Todo mundo lá é solista, concluiu.


A dispensa doeu, mas doeu menos do que a ligação recebida três dias depois. O técnico explicava que o campeonato estadual começaria em um mês, que cada clube deveria indicar quatro garotos para trabalhar como gandulas, e que depois do teste pensou no nome dele, João, que era tão veloz, tão disciplinado.


O impulso inicial foi falar não. Mandar o treinador para o inferno. João no entanto respirou e pediu um tempo para pensar. Até amanhã respondo, ok? Ok, moleque.  

terça-feira, 20 de junho de 2017

O MEDO EM QUARENTA E CINCO FRASES

– Minha mãe pariu irmãos gêmeos, eu e o medo. (Thomas Hobbes)

O medo é o pai da moralidade. (Friedrich Nietzsche)

As coisas que nos assustam são em maior número do que as que efetivamente fazem mal, e afligimo-nos mais pelas aparências do que pelos fatos reais. (Sêneca)

Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte. (Arthur Schopenhauer)

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a baixar a bandeira da imaginação. (Andre Breton, in Manifesto Surrealista)

– Agora um homem fala francamente somente com sua esposa, à noite, com o cobertor por cima da cabeça. (Isaac Babel)

Nada inspira mais coragem ao medroso do que o medo alheio. (Umberto Eco)

O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo. (Liev Tolstoi)

– O medo tem muitos olhos e enxerga coisas nos subterrâneos. (Miguel de Cervantes)

– Tão covarde que não apagava a luz quando ia sair de casa, com medo de que houvesse alguém escondido no claro. (Millôr Fernandes)

Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela. (George Bernard Shaw)

Tenho mais medo de três jornais do que de cem baionetas. (Napoleão Bonaparte)

Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. (Fernando Sabino)

Foi por medo de avião / que eu segurei / pela primeira vez a tua mão. (Belchior)

Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem. (Jean-Paul Sartre)

– Das paixões ínfimas, o medo é a mais maldita. (William Shakespeare, in Henrique VI)

A paciência em muitos casos não é mais senão medo, preguiça ou impotência. (Marquês de Maricá)

– Os fantasmas são fruto do medo, disse esta, sentenciosamente. Quem não tem medo não vê fantasmas. (Machado de Assis, in “Sem Olhos”)

O medo dos poderes invisíveis, inventados ou imaginados a partir de relatos, chama-se religião. (Thomas Hobbes)

– Cada um se confina em seu medo – sua torre de marfim. (Emil Cioran)

Se tens medo da solidão, não te cases. (Anton Tchekhov)

– Covarde. s.m. Alguém que, numa situação perigosa, pensa com as pernas. (Ambrose Bierce, in Dicionário do Diabo)

Não aprendeu a lição da vida quem não domina o medo de cada dia. (Ralph Waldo Emerson)

– Diga a verdade e saia correndo. (Provérbio eslavo)

O cão não ladra por valentia; e sim por medo. (Provérbio chinês)

O medo tem alguma utilidade; mas a covardia, não. (Mahatma Gandhi)

– Nada é mais assustador que uma porta fechada. (Alfred Hitchcock)

– Onde está o mérito, se os heróis nunca têm medo? (Alphonse Daudet)

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz. (Platão)

– Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo. (Luis Fernando Veríssimo)

A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo. (Voltaire)

Consciência é uma palavra usada pelos covardes, para incutir medo aos fortes. (William Shakespeare)

A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte. (Albert Einstein)

Foi um grande conselho o que ouvi certa vez, dado a um jovem: "Faça sempre o que tiver medo de fazer". (Ralph Waldo Emerson)

O maior erro que você pode cometer, é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum erro. (Elbert Hubbard)

Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar. (William Shakespeare)

Não tenho medo da morte. O que me aterroriza é a aproximação dela. (Oscar Wilde)

Quem foi mordido de cobra até de minhoca tem medo. (Barão de Itararé)

– Medo é a marcha ré da coragem. (Millôr Fernandes)

– O medo da esterilidade leva o escritor a produzir acima de suas possibilidades e a acrescentar às mentiras vividas muitas outras que toma emprestadas ou forja. Sob toda “Obra Completa” jaz um impostor. (Emil Cioran)

– O medo cego, que tem como guia a razão que vê, tem pé mais firme do que a razão cega que tropeça sem medo. (William Shakespeare, in Tróilo e Cressida)

–  Apresso-me a rir de tudo, com medo de ser obrigado a chorar. (Pierre Beaumarchais)

As alegrias do amor são sempre proporcionais ao medo de as perdermos. (Stendhal)

Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos. (Bertrand Russell)

Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito. (Bertolt Brecht)


– Não tenho medo de nada. A não ser de minha mulher. (Soichiro Honda)

 Ilustrações: Francisco José de Goya Lucientes (1746-1828)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO

Muitos escritores contemporâneos procuram transmitir aos seus leitores um conjunto de experiências pessoais. São narrativas que reúnem trechos autobiográficos e diversos conselhos sobre a arte literária. Dependendo da habilidade do autor e do marketing empregado pela editora, esses livros costumam se destacar na lista dos mais vendidos durante algum tempo. Depois, como compete ao fluxo das mercadorias, são esquecidos. Quer dizer, são substituídos. Faz parte do show. Ou das regras comerciais.

Romancista como Vocação, de Haruki Murakami, segue esse propósito – e, possivelmente, terá uma vida útil idêntica a de outros livros similares. Inclusive porque não acrescenta elementos significativos para a teoria da literatura. Também não contém ensinamentos capazes de despertar a vocação em novos escritores.  Como Murakami – quando decidiu publicar o livro – não estabeleceu como meta esses dois propósitos, seu objetivo se mostra mais singular, menos ambicioso. Ao comentar alguns dos episódios que se destacaram na sua trajetória pelo mundo literário, Murakami adotou o velho estilo “chove, mas não molha”.  

Isso ele faz e de forma coloquial, como se estivesse conversando com o leitor. Para alcançar esse efeito, Murakami não economiza no uso de metáforas, referências musicais (jazz, rock, clássicos) e esportivas (beisebol). Os interstícios são preenchidos por várias historietas complementares. Nesse último caso, em alguns momentos há reticências. Ele não se detém nas razões que o fizeram se casar antes dos 20 anos e, consequentemente, quase abandonar a universidade – levou sete anos para concluir o curso de letras.  Em compensação, não poupa palavras para destacar que foi dono de um bar de jazz em Tóquio. Atrás do balcão, nos momentos de descanso de um trabalho árduo, ele pode ler muito e escutar milhares de discos. A forma detalhada com que descreve esse período da vida (e que antecede a publicação de seu primeiro livro) revela que esteve mais próximo da felicidade do que em todo o período que passou na universidade.

O livro está dividido em onze capítulos (provavelmente escritos em períodos diferentes), onde são abordados diversos assuntos de interesse de um escritor que – embora diga ser modesto e deteste conflitos – ambiciona ser amado por todos os leitores e críticos literários do mundo. Felizmente, esse delírio se mostra inexequível. Murakami se derrama em reclamações contra os críticos literários. Apesar do sucesso de seus livros no mundo (o destaque é Norwegian Wood), ele gostaria de receber elogios (muitos elogios). Mas,... O seu estilo narrativo está na contramão de uma literatura que não costuma se curvar a certos elementos ocidentais. Essa postura inconformada está explícita no capítulo XI (Ir para o exterior. Novas fronteiras.), onde relata, de forma irreconhecível para um escritor contido e humilde (na aparência), as suas relações com o mercado literário estadunidense. Provavelmente é o capítulo mais tolo do livro.   

Murakami começou a escrever romances aos trinta anos, em 1978. Ele estava assistindo uma partida de baseball, quando teve um insight – e que deflagrou uma carreira literária composta por diversos romances de indiscutível qualidade: O som agradável do taco atingindo a bola ecoou em todo o estádio. Ouviram-se alguns aplausos. Nesse momento pensei subitamente, sem nenhum contexto e sem nenhum fundamento: É, talvez eu também possa escrever romances. Surpreendentemente, Ouça a Canção do Vento – que foi escrito durante as madrugadas, na mesa da cozinha – ganhou um prêmio oferecido pela revista Gunzô. Foi esse primeiro sucesso que o impulsionou para uma carreira de romancista. 

O método de trabalho de Murakami é rígido. Próximo do mecânico. E abrange, além da disciplina espartana, horas de exercícios físicos – elemento explorado no livro Do que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida. Sem querer gerar controvérsias, sua visão do mundo literário está muito distante do estereótipo romântico do escritor que atravessa as madrugadas em bares ou em boates de quinta categoria, se encharcando em álcool, sexo e drogas (não necessariamente nessa ordem).

Em um dos momentos mais interessantes do livro, Murakami faz duas declarações destinadas a causar turbulência no mundo literário. Depois de afirmar que escrever romances não é um trabalho apropriado para pessoas muito inteligentes e de mente afiada, ele ampliou o debate emitindo outra declaração complicada: Em geral os críticos literários são mais inteligentes e perspicazes do que os romancistas. Independente da correção dos conceitos, poucas pessoas que trabalham com literatura concordam com esse tipo de posicionamento ambíguo. A vaidade dos escritores (que muitas vezes odeiam os críticos) e a falta de humildade dos críticos (que muitas vezes detestam os escritores) costumam entrar em colisão, independente da qualidade do material literário produzido pelas duas partes. Além disso, Murakami quase que implora, em alguns trechos, por um minuto de atenção dos críticos literários (principalmente os japoneses).

O ponto alto do livro está no capítulo VIII (Sobre escolas), onde desmistifica o idealismo que envolve a vida escolar. Murakami declara com todas as letras que a sua experiência durante esse período foi insípida: Eu não levava os estudos a sério por um motivo bem simples: primeiro, achava muito chato. Estudar não despertava o meu interesse, ou melhor, havia muitas outras coisas mais divertidas do que isso, como ler, escutar música, assistir filmes, nadar no mar, jogar beisebol, brincar com os gatos... depois de crescer mais um pouco, varava a noite jogando mahjong com os amigos, saí com garotas... essas coisas. Comparado com isso, estuda era bem chato.

Resumindo: Romancista como Vocação é um livro mediano, sem muitos atrativos – exceto, claro, se você for um fã ardoroso de Haruki Murakami. 


TRECHO ESCOLHIDO


Vou falar do meu caso. Pensando agora, o maior consolo que tive na época em que frequentava a escola foram alguns bons amigos e os muitos livros que li.


E por falar em leitura, li tudo o que encontrava à minha frente, livros dos mais variados tipos. Todos os dias, eu me ocupava em saborear e digerir cada um deles (muitos eu não consegui digerir) e praticamente não sobrava tempo para pensar sobre outras coisas. Às vezes penso que foi melhor assim. Se eu olhasse à minha volta, se refletisse sobre as coisas, as contradições e as mentiras, e investigasse seriamente aquilo com que não me conformava, talvez eu tivesse sofrido mais, me sentido pressionado a um beco sem saída.


Ao mesmo tempo, o fato de ter lido avidamente vários tipos de livro me serviu para relativizar a minha perspectiva, e isso teve um grande significado para mim durante a adolescência.Foi como se u tivesse vivido as diversas emoções narradas nos livros, dentro da imaginação, eu me movia livremente no tempo e no espaço, via várias paisagens curiosas. Várias palavras passaram pelo meu corpo e, como consequência, a minha perspectiva se tornou múltipla. Ou seja, eu não só observava o mundo do ponto onde me encontrava, como também conseguia observar minha própria imagem que observava o mundo de um lugar um pouco afastado e de forma relativamente objetiva.


Se observarmos as coisas apenas de nosso ponto de vista, o mundo parecerá cada vez mais irreparável. O nosso corpo enrijecerá e perderemos a agilidade e a mobilidade. Mas quando conseguirmos observar o lugar onde estamos sob diferentes ângulos, ou seja, quando conseguimos confiar a nossa existência a um sistema diferente, o mundo se torna tridimensional e flexível. Acho que isso é importante para todo mundo. O fato de eu ter aprendido isso através da leitura foi bastante significativo para mim.


Se não existissem livros, se eu não tivesse lido vários deles, provavelmente minha vida seria mais triste e dura do que ela é hoje. Ou seja, para mim, a leitura foi uma grande escola. Uma escola construída sob medida para mim e administrada de forma personalizada. Nela, aprendi muitas coisas importantes por conta própria. Sem regras conservadoras, sem avaliação com notas, sem disputas intensas por uma boa classificação. Naturalmente, sem bullying. Eu estava inserido em um grande sistema, mas ao mesmo tempo tinha conseguido garantir o meu próprio sistema.


O que imagino como o espaço para a recuperação do indivíduo é parecido com isso. Mas ele não deve contar somente com a leitura. O espaço tem que ser personalizado, e lá as crianças devem poder encontrar o que combina com elas, o que está à sua altura, e desenvolver suas habilidades no próprio ritmo. Acho que se as crianças que não conseguem se familiarizar com o atual sistema educacional, que não conseguem se interessar muito pelos estudos na sala de aula, encontrarem esse espaço para a recuperação do indivíduo, elas conseguirão superar o muro do sistema. Mas, para isso, é necessário o apoio da comunidade e da família, que precisa compreender e avaliar corretamente essa atitude, ou seja, o modo de viver como indivíduo.

 

Meus pais eram professores de língua japonesa (minha mãe parou de trabalhar quando se casou) e, por isso, quase nunca reclamaram do fato de eu ler muito. Eles não estavam satisfeitos com minhas notas, mas não diziam: “Estude para a prova em vez de ficar com esses livros”. Talvez eles tenham dito isso algumas vezes, mas não ficou guardado na minha memória, então não devem ter feito isso com frequência. Acho que esse é um dos motivos pelos quais preciso agradecer aos meus pais.