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segunda-feira, 22 de maio de 2017

CONVERSAS DE BOTEQUIM

O mundo pode ser visualizado a partir da mesa do botequim. Basta a cerveja estar gelada e os preços serem acessíveis. Um prato com tira-gostos também ajuda nas elucubrações filosóficas. Evidentemente, a palavra elucubrações jamais deve ser pronunciada nesse tipo de ambiente. Em contrapartida, pode-se falar sobre qualquer outro assunto, incluindo sexo, drogas e samba, o resultado do jogo do bicho, a previsão do tempo e os tropeços afetivos.

Conversas de Botequim, livro organizado por Henrique Rodrigues e Marcelo Moutinho, reúne vinte contos baseados nas músicas de Noel Rosa. Em outras palavras, vinte histórias de amor que terminaram mal. Nenhuma novidade. Há quem sustente a tese (controversa) de que a felicidade não combina com a literatura, a música e as artes em geral. Em contrapartida, os desastres (sejam dramas, sejam comédias) são festejados e descritos em toneladas de papel e hectolitros de tinta ou em orquestrados lamentos. O Brasil é o reino da dor-de-corno (no imaginário popular corre a ideia de que quem não é corno, um dia será).

Organizado em ordem alfabética pelo prenome dos autores, o livro inicia com Aldir Blanc e termina com Veronica Stigger. No meio da lista estão alguns dos escritores que integram o time principal da literatura brasileira contemporânea: Flávio Izhaki, Ivana Arruda Leite, Marcelino Freire, Socorro Acioli,...

A maior parte das vinte narrativas ocupa duas, três páginas. Coerente com a ideia de que o conteúdo supera a forma, em nenhuma delas há grandes experimentos estilísticos. Ao contrário, há uma busca constante pela linguagem coloquial, pela transmissão eficiente da mensagem. As exceções são Dama do Cabaré (Luisa Geisler) e Feitio de Oração (Rafael Gallo), que fogem (mas não muito) do estereótipo narrativo.

Noel Rosa (1910-1937)
De minha parte, sem desmerecer as outras narrativas, gostei muito dos textos escritos por Aldir Blanc, Alexandre Marques Rodrigues, Cintia Moscovich, Luiza Geisler e Sergio Leo. Em ritmo de samba-canção ou de bolero, são histórias que gravitam em torno das diversas formas de fracasso amoroso.

É com o corpo que se compreende as coisas, diz o narrador de Feitio de Oração, de Rafael Gallo. É através do corpo que a vida se manifesta em um mundo tumultuado, repleto de pressões e horrores. O corpo em decomposição está presente – de maneira surpreendente – no conto de Aldir Blanc (Feitiço da Vila). O corpo doente surge – de forma dolorosa – no conto de Alexandre Marques Rodrigues (Com que Roupa). O corpo desprezado se manifesta no conto de Cintia Moscovich (Pra que Mentir?). O corpo excitado marca ponto no conto de Luiza Geisler (Dama do Cabaré). O corpo insatisfeito – que quer ser outro – aparece no conto de Sergio Leo (Tarzan, o filho do Alfaiate). Evidentemente, o livro está repleto de atividades e sentimentos incorpóreos.

Conversas de Botequim consegue transpor a barreira entre a música e a literatura. As vinte narrativas compõem diversas variações do mesmo tema. São melodias harmônicas. E que devem ser lidas em qualquer hora, em qualquer lugar. E que, independente do momento, nos encaminham às discotecas particulares ou ao You Tube, onde a voz riscada de Noel Rosa nos surpreende contando um pouco das complicações que envolvem o existir.    

 
Henrique Rodrigues, Noel Rosa e Marcelo Moutinho

TRECHO ESCOLHIDO


Se antes Sônia nunca deu bola para cantadas de pedreiro, agora mesmo é que ignorava completamente. Inclusive ali na obra nova por onde passa todos os dias enquanto segue para o ponto. Logo que subiram as primeiras vigas, ela se demorou um pouco mais olhando a estrutura do prédio, o que deve ter chamado a atenção dos trabalhadores como um convite para os constantes e tortuosos elogios.

Apesar de passar sem pressa e manter o olhar frio o suficiente para não demonstrar nenhuma resposta aos galanteios, Sônia não consegue ignorar a movimentação dos funcionários que estão acudindo um colega:

– Sardinha, acorda, Sardinha! Alguém aí estanca o sangue!

Enquanto se aproxima, os peões abrem caminho em silêncio, cheios de respeito. Sônia sente pena de Sardinha, todo ensanguentado. Tenta se lembrar das aulas de primeiros socorros, mas antes que faça qualquer coisa, ele desperta, ainda zonzo pelo tijolo na testa. A cena a faz se lembrar novamente da Duda, e o que ela teria feito no lugar.

Antes de seguir seu caminho, sem pronunciar frase alguma, Sônia apenas estende a mão e o ajuda a se levantar. 

(trecho de Mulher Indigesta, de Henrique Rodrigues) 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

NOSSAS NOITES

Envelhecer com delicadeza – esse deveria ser o objetivo fundamental da vida. Infelizmente, há dificuldades, percalços, problemas. E poucas pessoas (principalmente os mais jovens) conseguem entender o quanto de horror está presente na história daqueles que conseguiram ultrapassar a barreira dos 65 anos. Como consequência desse equívoco cotidiano, muitas vezes desnecessário, a tristeza costuma acompanhar a velhice.

No caso do romance curto Nossas Noites, escrito por Kent Haruf, não há novidades, mas... Em apenas 157 páginas, uma tempestade de emoções – que não se manifesta como uma exposição da devastação física da velhice. Ao contrário, tudo se passa lentamente, agradavelmente, como se fosse uma brisa.

Um dia, a viúva Addie Moore bate na porta do viúvo Louis Waters e faz uma proposta singela: O que você acharia de ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo? Os dois estão próximos dos 70 anos de idade e moram no condado de Holt, no estado do Colorado. A cidade é pequena e todos sabem tudo sobre a vida de cada um dos moradores. O que não sabem, inventam. 

Louis, no início, não sabe como agir. Depois, aceita o convite. Um dia após o outro, eles deitam na mesma cama, apagam as luzes e conversam. E assim, antes do sono surgir, vão contando um para o outro (e para os leitores) os fatos mais significativos de suas vidas. Addie fala sobre a morte da filha mais velha, que morreu atropelada aos 11 anos; ele relata sobre a vez que abandonou a esposa e a filha para ir viver com outra mulher. São histórias cotidianas e que são narradas sem muita pressa. A maior alegria do casal está no compartilhar da intimidade, no calor que um corpo transmite ao outro.

Os problemas não tardam a surgir. Alguns vizinhos começam a comentar a situação – que lhes parece incompreensível, absurda, indecente. Salvo raras exceções, criticam a união, que – guardadas as devidas proporções – poderia ser comparada com algum tipo de adultério, uma traição com os mortos.

Kent Haruf (1943-2014)
Depois, surge em cena Jamie, o neto de seis anos de Addie. Os pais do menino estão prestes a se separar. No meio desse tumulto, cabe à avó cuidar temporariamente da criança. Jamie muda a rotina do casal. Ao mesmo tempo, os une um pouco mais. Na companhia do menino redescobrem os pequenos prazeres de morar em uma cidade do interior: jogar softball, ir à feira agrícola, visitar os amigos, acampar, sair para jantar, brincar com um cachorro.

A poesia está presente em cada um dos 43 capítulos do livro, que utiliza a linearidade narrativa e diálogos ágeis e fluentes. Mais do que uma leitura saborosa – apesar das páginas finais se mostrarem ásperas –, Nossas Noites consegue tratar dois temas espinhosos (a solidão e a velhice) com naturalidade. Bela narrativa.


TRECHO ESCOLHIDO


Uma manhã, enquanto ainda estava fresco, os três levaram Bonny para o campo para que ela pudesse correr. Botaram o tubo de proteção na sua pata e foram de carro até o oeste da cidade, até uma estrada plana de cascalho e terra batida. Na beira da vala ao lado da estrada havia girassóis, ervas-saboeiras e tufos de capim florido. Jamie saiu com a cadela do banco de trás do carro e tirou a guia da coleira. Ela ficou olhando para ele, à espera.

Vai lá, disse Louis. Pode correr. Chispa. Ele bateu palmas.

Ela deu um pulo e saiu correndo pela estrada, entrando e saindo da vala, sua pata protegida fazendo estalidos no chão duro da estrada enquanto corria. O menino correu atrás dela. Addie e Louis seguiram atrás dos dois, andando devagar, atentos a eles. Nenhum carro passou pela estrada enquanto eles estavam lá.

Foi uma boa ideia arranjar essa cachorra, disse Addie.

Ele parece feliz, de fato.

Por causa dela e também porque já se adaptou a morar aqui conosco. A dúvida é se ele vai continuar feliz quando voltar para casa.

Os dois voltaram correndo. O menino estava ofegante e com o rosto vermelho. Ela consegue correr direitinho com a pata machucada, disse ele. Vocês viram como ela corre?

A cadela olhou para o menino, e eles saíram correndo de novo. O tempo já estava esquentando, era o meio de julho. Não havia nuvens no céu e o trigo dos campos ao lado da estrada já tinha sido ceifado, o restolho todo ajeitadinho depois de tosquiado. No campo seguinte, o milho formava fileiras retas verde-escuras. Um dia claro e quente de verão. 

terça-feira, 9 de maio de 2017

UM AMOR INCÔMODO

A morte é uma forma de desvendar o inusitado. Em alguns casos, na medida em que alguns fatos são expostos, aquele(a) que deixou de existir se transforma em alguém diferente da imagem que estava trancada no santuário das recordações eternas. A decepção e o espanto se integram ao cenário, o tempo e o espaço se desintegram. Tudo fica nebuloso e longe das certezas. A vida, momento em que o sangue pulsa dentro do corpo, não recolhe impostos do passado – mas exige o pagamento de inúmeras taxas por cada dia da existência.

Quando Delia retorna à Nápoles para o enterro de sua mãe, Amália, que morreu afogada, o mundo estratificado em que ela vivia fica de ponta-cabeça. Descobre que a mãe era outra – completamente diferente daquela mulher que ela conhecia como “a” mãe. Envolta em uma nuvem de deslumbramento (uma forma complexa de revelação), que se espalha pela planície textual como se fosse uma tempestade de areia, Delia (que também é a narradora) se envolve em uma teia de complicações – surpresas, transtornos, perturbações.

A linha-mestra do romance Um Amor Incômodo, da italiana Elena Ferrante, publicado na Itália em 1992, expõe, com uma linguagem seca, cruel, verossímil, a violência familiar e as dificuldades econômicas e sociais da geração que viveu no pós-guerra. Sem economizar na dramaturgia do sensível, nas pequenas tragédias cotidianas que causam grandes estragos, no caos que resulta das relações amorosas inconclusas, a narrativa mergulha no interior da psique humana – volatizando tudo o que parecia sólido.

As casas não guardam fantasmas, mas retêm os efeitos das últimas ações em vida. Assim também ocorre com os afetos. Sem muitas dificuldades para se expressar, a narradora vai empilhando informações, acrescentando detalhes, mostrando – pedagogicamente – a maneira com que as distâncias físicas, temporais e emocionais afastam aqueles que, em algum momento, estiveram próximos. O reencontro entre esses personagens ocorre como remendo, como substituição de algo que se perdeu para sempre.

No centro de tudo estão as lembranças de um tempo pretérito, momento em que o pai de Delia, um artista plástico medíocre e que não consegue suportar que outro homem manifeste interesse por sua esposa, corroído pelo ciúme, comete uma serie de tolices.

Meu pai era um homem insatisfeito”. (...) “Uma vez cismou que um homem na multidão a tocara. Estapeou-a na frente de todos; na nossa frente. Fiquei dolorosamente assombrada. Eu tinha certeza de que ele mataria o homem e não entendia por que, em vez disso, a esbofeteara. Ainda hoje eu não sei por que o fizera. Talvez para puni-la por ter sentido no tecido do vestido, na pele, o calor do corpo de outro homem.


Esse ciclo de violência doméstica se mostra constante, como se, para ele, o marido, fosse possível diminuir o ciúme através das pancadas que desfere no corpo da esposa. Não são poucas vezes que, sem motivo aparente, procura machucar a mulher que diz amar.

(...) eu contava a mim mesma sobre o sangue. Na pia. Gotejava do nariz de Amalia em um fluxo denso, a princípio vermelho, depois clareando em contato com a água da torneira. Também descia ao longo do braço dela, até o cotovelo. Ela tentava estancá-lo com a mão, mas escorria pela palma e deixava rastros vermelhos como arranhões. Não era sangue inocente. Para meu pai, nada de Amalia jamais parecera inocente.


Como resposta ao horror (Nos sons que eu articulava de forma desconfortável havia o eco das brigas violentas entre Amalia e meu pai, entre meu pai e os parentes dela, entre ela e os parentes do meu pai.), Delia relata que os pais se separaram – embora o marido não tenha aceitado com naturalidade essa decisão. Amália e as três filhas foram expulsas de casa, sem nenhum direito ou dinheiro.

Para Delia, o tempo se alimenta de lembranças – que surgem, a cada instante, com força inexplicável, inadiável, irreversível. Essa forma de reconstruir o passado permite uma nova perspectiva de observação: Gostei inesperadamente, com surpresa, daquela mulher que, de alguma maneira, tinha inventado sua história até o fim, brincando por conta própria com tecidos vazios. Imaginei que ela não tivesse morrido insatisfeita e suspirei com inesperada satisfação. Também permite uma avalanche de recordações desagradáveis. Reencontrar o pai significa vivenciar – mais uma vez – o quanto as relações paterno-filiais estão centralizadas em bases antagônicas.

– Por que você não foi ao enterro?

– Quando alguém morre, morre.

– Devia ter ido.

– Você irá ao meu?

Pensei por um instante e respondi:

– Não.

As grandes bolsas embaixo dos olhos dele ficaram vermelhas.

– Você não irá porque vou morrer depois de você – murmurou ele.

Depois, sem que eu conseguisse prever, me deu um murro.

Recebi o golpe no ombro esquerdo e tive dificuldade em controlar a parte de mim aniquilada por aquele gesto. A dor física, por sua vez, não me pareceu grande coisa.

– Você é uma vagabunda igual à sua mãe – disse, ofegante, e se agarrou à cadeira para não cair. – Vocês me deixaram aqui como um bicho.”


A ficção de Elena Ferrante não comporta multidões. A ação narrativa está concentrada nos múltiplos desdobramentos da trama, evitando personagens fortes, desses que roubam a cena. Somente à narradora é permitido o protagonismo. Por isso, as figuras do pai, de Filippo (irmão de Amalia) e Antonio (amigo de infância de Delia e filho de Caserta) são patéticas. Eles somente aparecem no texto para ajudar no esclarecimento de vários detalhes do enredo.

Um Amor Incômodo lembra – da maneira mais agressiva possível – que algumas relações afetivas são constituídas de ressentimento, violência e ciúme. Por isso mesmo, nunca terminam bem. Nesse sentido, as cenas finais, onde as fantasias são substituídas pela realidade, mostram o quanto o ser humano é perverso.   

Nápoles

A versão cinematográfica, L'Amore Molesto, foi dirigida por Mario Martone, em 1995. 


TRECHO ESCOLHIDO


O que me freou (foi) aquela expressão: companheiro de brincadeiras. Que brincadeiras? Eu fazia certas brincadeiras com ele só para ver se eu sabia brincar da mesma maneira que, na minha imaginação, Amália brincava secretamente. Minha mãe pedalava o dia todo na Singer como uma ciclista em fuga. Em casa, vivia submissa e esquiva, escondendo os cabelos, as echarpes coloridas, as roupas. Mas eu suspeitava, exatamente como meu pai, que fora de casa ela ria de outra maneira, respirava de outra maneira, orquestrava os movimentos do corpo para deixar todos com os olhos arregalados. Virava a esquina e entrava na loja do avô de Antonio. Deslizava em volta do balcão, comia doces e amêndoas açucaradas, ziguezagueava sem se sujar entre balcões e formas. Depois chegava Caserta, abria a portinha de ferro, e eles desciam juntos para o porão. Ali minha mãe soltava os longuíssimos cabelos negros, e aquele movimento brusco enchia de centelhas o ar escuro que cheirava a terra e mofo. Então os dois se deitavam no chão, de bruços, e se arrastavam, rindo. O porão, na verdade, estendia-se como um espaço comprido e baixo. Só era possível avançar de quatro, entre restos de madeira e ferro, caixas e mais caixas cheias de velhas garrafas de molho de tomate, hálitos de morcegos e ruídos de ratos. Caserta e minha mãe se arrastavam, vigiando as grandes janelas de luz branca que se abriam a intervalos fixos à esquerda deles. Eram respiradouros atravessados por nove barras e gradeados por uma retícula que impedia a passagem dos ratos. De fora, as crianças olhavam para a escuridão e as poças de luz, imprimindo no nariz e na testa a marca da grade. Eles, por sua vez, lá de dentro, as vigiavam para ter certeza de que não estavam sendo vistos. Bem escondidos nas áreas mais escuras, tocavam reciprocamente entre as pernas um do outro. Eu, enquanto isso, me distraía para não chorar e, como o avô de Antonio não esboçava nenhuma proibição, mas esperava vingar-se de Amalia deixando que eu morresse de indigestão, me entupia de caramelos, de alcaçuz e de creme raspado do fundo da tigela no qual era fabricado. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A GATA, UM HOMEM E DUAS MULHERES


Todos os triângulos amorosos são imperfeitos. Não importa se esse tipo de situação conta com o consentimento de todos os envolvidos ou se uma ou duas das três partes acumula algum tipo de ressentimento ou ódio. O escritor japonês Jun’ishiro Tanizaki (1886-1965) procurou desenvolver essa ideia em duas novelas – que foram reunidas pela Editora Estação Liberdade em um volume com título quilométrico: A Gata, Um Homem e Duas Mulheres e O Cortador de Juncos.

Na primeira novela, A Gata, Um Homem e Duas Mulheres, fica comprovado que, depois que um casal se separa, algumas coisas continuam pendentes. A partilha dos bens se mostra mais problemática do que a separação dos corpos. Shozo Ishii foi casado com Shinako durante quatro anos. Foi. Vitima de um complô organizado por sua mãe, Orin, que detesta Shinako, ele trocou de esposa. Ao se unir à sua prima, Fukuko, aceitou substituir um casamento com algum afeto por uma união de conveniência econômica.

A grande paixão de Shozo é Lily, a gata. Ele adora passar o tempo com o animal – aparentemente, ele gosta mais do felino do que da esposa – qualquer esposa. Essa situação constitui o seu maior problema. Seja por ciúme, seja pelos odores que um animal doméstico impregna na casa, as três mulheres que participam de sua vida (Shinako, Fukuko, Orin) fazem restrições ao felino. Todas – de uma forma ou de outra – querem que ele se desfaça de Lily.

A novela inicia no momento em Fukuko recebe uma carta de Shinako, solicitando que a gata lhe seja entregue. Alega que o felino lhe fará companhia, nos dias de solidão. Evidentemente, um motivo falso. Shinako detesta bichos de estimação. Seu objetivo têm raízes mais profundas – e se mostra certeiro. Depois de ler a correspondência, Fukuko passa a ver Lily como uma rival. A antropomorfização do animal causa danos irreversíveis. A harmonia conjugal desaparece – possibilitando, inclusive, agressões físicas. Shozo, que não gosta de assumir responsabilidades, se vê diante de uma encruzilhada, onde, independente do caminho que escolher, o único perdedor será ele.

A trama – centralizada na gata – inicia como tragédia doméstica e termina em comédia. A ausência de coerência dos relacionamentos afetivos e das obsessões sempre se mostra engraçada. Ou melhor, patética.


A segunda novela, O Cortador de Juncos, utiliza uma abordagem muito diferente. Quer dizer, há intersecções com a primeira, mas os pontos de contato são outros. No inicio do texto há um trecho descritivo que não atrai muito. São 20 páginas de comentários sobre literatura, geografia e história do Japão. Ou seja, o texto ficcional demora a engrenar. É necessário paciência para superar esse pequeno obstáculo.

A narrativa adquire consistência quando dois homens desconhecidos se encontram às margens do rio Yodo, em Okamoto. Durante a conversa, enquanto observam a lua, um deles conta uma história de amor muito peculiar, envolvendo o seu pai, Shinnosuke, e o relacionamento que teve com duas irmãs, Oyu e Oshizu.

Shinnosuke se apaixona por Oyu, que é viúva. Ou seja, por algum tempo ela está impedida de se casar outra vez. Para manter as aparências, e ficar próximo de Oyu, Shinnosuke propõe casamento para Oshizu. A irmã mais nova, acostumada a se submeter aos interesses da irmã mais velha, e percebendo o que move o seu pretendente, aceita a proposta – mas exige que o casamento seja de fachada (ela quer se manter casta). Evidentemente, seguindo a lógica humana, quase todos os planos são feitos para fracassar. Shinnosuke jamais consegue despertar o interesse carnal de Oyu – que, no momento oportuno, prefere se casar com outro.

O tom melancólico, intermediado por uma tragédia ocorrida com o filho de Oyu, é interrompido pela cena final – que apresenta um elemento fantasmagórico, próximo das narrativas góticas. Não é a única surpresa.

Vários dos livros de Jun’ichiro Tanizaki foram traduzidos no Brasil. Os mais conhecidos são Há Quem Prefira Urtigas (1929), As Irmãs Makioka (1943), A Chave (1956) e Diário de um Velho Louco (1961).

Jun’ishiro Tanizaki (1886-1965)

TRECHO ESCOLHIDO


Enquanto lia a carta lentamente, palavra por palavra, Fukuko espiava de soslaio para ver o que Shozo e Lily estavam fazendo. Shozo bebericava um saquê e beliscava uns picles de cavalinha no vinagre. Depositou o copinho da bebida após tomar um gole, e disse:

– Lily!

Enquanto isso, apanhou com o hashi um dos peixes em conserva e o segurou bem alto. Levantando-se com as patas de trás e apoiando as patas dianteiras na borda da mesinha baixa e oval, Lily observou os petiscos no prato. Essa posição se parecia com a de uma pessoa encostada em um balcão de bar. Também se assemelhava à das gárgulas da Catedral de Notre-Dame. Assim que Shozo levantou o petisco, a gata se pôs a farejar, excitada; os olhos pareciam os de uma pessoa assustada, enormes e astutos, fitando o peixe. Porém, Shozo estava decidido a não largar a isca tão facilmente:

– Olha o peixe!

Aproximando a cavalinha do focinho do bicho, levou-a em seguida à própria boca. Sorvendo todo o vinagre que havia no peixe e mastigando as espinhas mais duras, ele apanhou o petisco mais uma vez da boca e o mostrou à gata, aproximando e afastando, erguendo e abaixando o peixe. Levada por esses movimentos, Lily afastou-se da mesinha, erguendo as patas dianteiras. Perseguiu o peixe apoiada apenas nas patas de trás, como um bebê que está aprendendo a andar. Quando o petisco estava bem acima de sua cabeça, ficou parada, preparando-se para dar o bote. Nesse momento, as patas dianteiras tentaram alcançar a presa, mas ela errou por um triz, tentando pular novamente. Este ritual se repetia a cada vez, e a gata demorava de cinco a dez minutos até conseguir o petisco.

Durante a brincadeira, Shozo ia bebericando saquê.

– Lily! – chamava-a enquanto pegava o próximo peixe.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

ZAZIE NO METRÔ

Jeanne Lalochère, que reside no interior, está com um namorado novo. Para poder usufruir (de maneira tranquila, lenta e deliciosa) todas aquelas coisas que um casal costuma fazer quando está dividindo a cama, ela precisa (no bom sentido) se livrar da filha, que deve ter uns 12 ou 13 anos. Coisa pouca, uns dois dias. Seu irmão, Gabriel, que vive na capital dos franceses, foi o contemplado. Melhor do que isso, só o primeiro prêmio da loteria. Só que não. Zazie, apesar da pouca idade, adora infernizar a vida dos outros. Ninguém merece o seu respeito. Ou melhor, todos recebem, sem o menor constrangimento, o seu desrespeito. Com uma personalidade malévola e agressiva, não é surpresa que um personagem a defina assim: Você faria duas montanhas saírem no tapa. Zazie fala palavrões com naturalidade e faz perguntas embaraçosas. Ou seja, ela é uma selvagem – que só aceitou ficar sob a guarda do tio porque queria passear no metrô.

Infelizmente, o metrô de Paris está em greve. E a cidade está à beira do colapso. É nesse cenário quase apocalíptico (por diversos motivos) que Raymond Queneau ambienta Zazie no Metrô, um clássico da literatura de humor (e de seriedade). Costurando várias aventuras simultâneas, induzindo estar contando uma história e, de repente, revelar outra – mas que é contínua à primeira –, o narrador do romance (onisciente, terceira pessoa) mostra que a literatura consiste, basicamente, em acumular truques de mágica, em iludir o leitor.  

Gabriel precisa entreter a sobrinha. Tarefa impossível. Mesmo assim a leva para conhecer os principais pontos turísticos de Paris. Além de o ilustre parisiense ter dificuldades para identificar os locais em que se encontra (parece desconhecer a cidade), a cada instante ocorre um incidente. A menina é uma encrenqueira profissional. Dessas que adoram mostrar desprezo pelos atos civilizatórios.

Enquanto Zazie se aborrece (ou se diverte, é difícil distinguir os seus sentimentos) passeando pelas ruas da cidade, o narrador, esbanjando hectolitros de bom-humor e quilômetros de ironia, nos apresenta parte da fauna local, que abrange desde aqueles que não tomam banho até uma multidão ávida por camomila e pâté de campagne, caramelos e sêmen-contra, gruyère e ventosas. De contrapeso, aparecem em cena diversos personagens que estão à margem da vida social burguesa: turistas em excursão, policiais, um motorista de taxi, um dono de bar, um sapateiro, uma viúva e um tarado (que usa vários disfarces, inclusive o de inspetor de polícia). Para completar a festa, há um papagaio (Laverdure), que repete interminavelmente a frase: Falar, falar, você só sabe fazer isso.

Gabriel é um homem alto, musculoso, casado com Marceline. Ele carrega no bolso um lenço impregnado de perfume (Barbouze, da Fior) e, sempre que pode, bebe incontáveis doses de granadina (licor, não alcoólico, de tons vermelhos, feito com groselha ou sementes de romã). Para ganhar a vida, o sujeito montou um espetáculo de dança. Por alguma razão bizarra, ver um homem desajeitado em trajes de “drag queen” (Gabriella) diverte os frequentadores da boate gay Mont-de-Piété.

Se Zazie não fosse sua sobrinha, Gabriel provavelmente distribuiria um par de chineladas na bunda da menina, ou a abandonaria em algum lugar distante ou, na melhor das hipóteses, a jogaria nas águas do Sena, batismo pedagógico e necessário para acalmar a pestinha. Em ritmo enfant terrible, ela não fornece o mínimo sossego para o artista do teatro de variedades. Zazie adora incomodá-lo com questões desconcertantes, principalmente sobre suas (dele) preferências sexuais. Você é ou não é hormossecsual? Não importa quantas vezes o tio responda que não é homossexual, a menina repete a pergunta com frequência. Quer desestabilizá-lo. É o seu prazer mais perverso. Ela pouco se importa com os sentimentos do tio. Ela quer incomodar.

O ápice da narrativa ocorre quando Gabriel, inicialmente vítima de rapturistas, leva o ônibus da turba (dirigido por Fiódor Balanovitch) para ver o seu show (ao mesmo tempo, o valoroso varão aproveita a oportunidade e a ingenuidade dos estrangeiros para ganhar alguns trocados). Após o trambique, lá pelas quatro ou seis da madrugada, Gabriel e seus amigos  (avec Zazie) vão a um restaurante: querem encerrar a noitada com um prato de sopa de cebola. No caminho, após desmascararem o farsante tarado, a turma é interceptada por dois policiclistas, que denunciam, aos berros, a briga instaurada: – Arruaça noturna (...), algazarra lunar, baderna sonívora, rega-bofe estrondoso.

Dentro do restaurante, outro combate, garçons e clientes desfalecidos após socos e sopapos, confusão generalizada e uma nova investida do farsante tarado que recruta outras forças policiais para praticar a justa injustiça. Como em um daqueles filmes de faroeste, a cavalaria aparece no último momento e salva os sitiados, inclusive todas as penas do papagaio, mostrando uma saída que não estava no cardápio. Allons enfants de la Patrie / Le jour de gloire est arrivé

Depois de mil peripécias, a narrativa revela desfecho exemplar:

O hoteleiro chamou um taxi, e seis e meia ela estava na estação. Obliterou o bilhete e desceu para a plataforma. Pouco depois, vinha Zazie, acompanhada por um sujeito que levava a malocha dela.

– Olha só! – disse Jeanne Lalochère. – Marcel.

– Como você pode notar. 

– Mas ela está dormindo em pé!

– Eles aprontaram. Desculpe. E eu também peço desculpas, pois vou nessa.

– Entendo. Mas e o Gabriel?

– Não tá muito bem. Tô indo. Témais, menina.

– Tchau – disse Zazie, muito ausente.

Jeanne Lalochère a fez subir na cabine.

– E então, você se divertiu bastante?

– Médio.

– Viu o metrô?

– Não.

– Então, quê que você fez?

– Envelheci.


Zazie no Metrô, embora seja uma narrativa linear, dessas com começo, meio e fim (nessa ordem), está repleta de experimentos linguísticos, verdadeiro parque de diversões para quem gosta de trocadilhos, frases de duplo ou triplo sentido, rupturas da sintaxe, uso (ir)regular de figuras de linguagem, referências de metalinguagem, multiplicação dos efeitos homográficos e homófonos, gírias, expressões em várias línguas (inglês, latim, alemão), palavras-valises, expressões grafadas de acordo com a dicção sonora (simulando o falar popular). Simultaneamente, o texto foi construído para mostrar a extensão do nonsense e dos efeitos cômicos. Por exemplo, ao descrever a localização das bolas em uma partida de carambola, o narrador utiliza a notação do jogo de xadrez. Em outro momento, para embaralhar todas as fichas e instaurar a confusão total, Marceline se transforma em Marcel – reflexo gemelar da dicotomia Gabriel/Gabriella. Nada é o que parece ser. E isso garante a diversão.
 
Raymond Queneau (1903-1976)
P.S. 1: Há duas traduções brasileiras de Zazie no Metrô. A primeira, publicada pela Rocco, data de 1985 e foi feita por Irène Monique Harlec Cubic. A segunda, da Cosac Naify, foi realizada em 2009 por Paulo Werneck.  
P.S.2: Há uma versão para o cinema: Zazie dans le Métro (Dir. Louis Malle, 1960).


TRECHO ESCOLHIDO


Agora eram tropas de garçons surgindo de todos os lados. Difícil acreditar que houvesse tantos. Saíam das cozinhas, porões, escritórios, depósitos. A massa compacta absorveu Gridoux, depois Turandot, aventurando-se entre eles. Tal qual um coleóptero atacado por uma colônia mirmídone, tal como um boi assaltado por sanguessugas, Gabriel se sacudia, resfolegava, se debatia, projetando em direções variadas projéteis humanos que iam quebrar mesas e cadeiras ou rolar entre os pés dos clientes.


O barulho dessa controvérsia acabou acordando Zazie. Percebendo o tio como presa da malta refeitória, ela berrou: coragem, titio! E munindo-se de uma garrafa jogou-a de qualquer jeito no fuzuê. Assim é grandioso o espírito militar entre as filhas de França. Seguindo esse exemplo, a viúva Mouaque disseminou cinzeiros ao seu redor. Assim o espirito da imitação pode levar os menos dotados a realizar coisas. Ouviu-se então um estrondo considerável: Gabriel acabava de se afundar em meio à louça, elevando entre os escombros sete garçons exaltados, cinco clientes que haviam tomado partido e um epilético.


Levantando-se num só movimento, Zazie e a viúva Mouaque se aproximaram do magma humano que se agitava nos escombros e na louça. Uns golpes de sifão bem aplicados eliminaram da competição algumas pessoas de crânio frágil. Graças a isso, Gabriel pôde se levantar, rasgando por assim dizer a cortina formada por seus adversários, revelando no mesmo golpe a presença avariada de Gridoux e Turandot, estendidos no chão. Alguns jatos aquagasosos dirigidos sobre a cachola deles pelo elemento feminino e padioleiro os devolveram à situação. A partir de então, o desenlace da luta já não era mais duvidoso.


Enquanto os clientes desligados ou indiferentes se eclipsavam de mansinho, os encarniçados e os garçons, sem fôlego, se amoleciam sob o muque severo de Gabriel, o punho siderante de Gridoux, o pé virulento de Turandot. Uma vez esmagados, Zazie e Mouaque os apagaram da superfície do Aux Nyctalopes e os arrastaram até a calçada, onde amadores benevolentes, por simples bondade de alma, os empilharam. Só Laverdure não tomava parte da hecatombe, desde o início da peleja dolorosamente atingido no períneo por um fragmento de sopeira. Jazendo no fundo de sua gaiola, ele murmurava gemendo: noitada encantadora, noitada encantadora; traumatizado, ele havia virado o disco.


Mesmo sem a cooperação dele, a vitória logo foi total.

 


quarta-feira, 12 de abril de 2017

OS PAPÉIS DE ASPERN

Henry James, em Horas Italianas, escreveu que Veneza de todas as cidades do mundo é a mais fácil de visitar sem ir lá. Esse pensamento supõe que a imagem mental supera a experiência concreta. Evidentemente, não é o caso do escritor, que se hospedou na cidade – em diversas oportunidades – e a usou como objeto literário (em relatos autobiográficos e ficcionais). Provavelmente a mais importante demonstração do amor que Henry James dedicou à Veneza seja a novela Os Papéis de Aspern (The Aspern Papers), publicada originalmente em 1888, e que, salvo engano, possui duas traduções brasileiras: 1984 (Maria Luiza Penna. Global Editora) e 2015 (Chico Lopes. Editora Penalux).

Os Papéis de Aspern combina duas grandes questões literárias: o anjo da anunciação e o mito faustiano. No primeiro caso, uma situação familiar aparentemente equilibrada sofre grandes mudanças quando em contato com um estranho. O segundo tema se refere à discussão sobre quais são os limites éticos de um indivíduo diante do objeto do desejo. Em ambas as circunstâncias não há salvação para todos os envolvidos.

A suspeita de que alguns manuscritos (poemas, cartas, anotações) do poeta Jeffrey Aspern estão de posse de Juliana Bordereau (que mora em um Palazzo, em Veneza), faz com que um editor não nomeado (inclusive porque se apresenta através de pseudônimo) viaje para a Itália. Ciente de que a Senhora Bordereau (que mora com sua sobrinha, a Senhorita Tina) não dispõe de uma renda econômica substancial, o homem aluga parte do casarão – alega precisar de um lugar tranquilo para ler e escrever. Além disso, se compromete a revitalizar o jardim.

O editor (que também é o narrador do texto) procura, durante os três primeiros meses, descobrir o paradeiro do tesouro bibliográfico. As poucas informações que consegue obter não o levam a alguma conclusão positiva. Simultaneamente, utilizando-se de charme, galanteria e maços de flores consegue atrair o afeto (e algo mais) da Senhorita Tina – que tem cerca de 50 anos. Embora inicialmente não vise esse propósito, o editor acaba se beneficiando da rede de sedução que arma em torno de uma mulher carente.

Em determinado momento, a Senhora Bordereau resolve mudar as regras do jogo. O que antes era contenção se transforma em algo mais palpável – revelando que ela (uma idosa quase inválida) possui maior domínio da situação do que o editor. Sem acusar, textualmente, ter a posse dos documentos, sugere que eles podem ser obtidos se o comprador estiver disposto a pagar um valor estratosférico. Para aumentar a cobiça do editor, mostra-lhe uma parte do espólio: um pequeno retrato oval de Jeffrey Aspern, e que foi pintado pelo pai da Senhora Bordereau. Em seguida, pronuncia o preço. O editor não possui tamanha quantia.

As cenas mais significativas da novela ocorrem nos capítulos 8 e 9. Mas, antes de chegar até lá, o leitor precisa ter paciência para atravessar um mar de frases que parecem não ter fim. São centenas de vírgulas, pontos-e-vírgulas, travessões, apostos, digressões, informações adicionais. Apesar da sensação de que “quase nada acontece” por páginas e mais páginas, em cada parágrafo do texto há um turbilhão de filigranas que somente o leitor atento consegue perceber.

A perspectiva de obter os documentos a qualquer preço faz com que o editor rompa com os limites da boa conduta. Essa quebra da ordem produz a gênese da catástrofe e, de certa forma, a morte de Juliana Bordereau.  A inutilidade de todo o esforço do editor se torna óbvia. No entanto, a ganância ganha uma sobrevida: a Senhorita Tina faz uma contraproposta para o editor, no momento em que ele anuncia que vai embora.

Um estranho espasmo brotou em seu rosto quando ela me viu pegar meu chapéu. – Imediatamente – você quer dizer hoje? – O tom das palavras era trágico – era um protesto de desolação.

– Oh, não; não enquanto eu possa ser de grande utilidade para você.

– Bem, só mais um ou dois dias – dois ou três – ela arfou. Depois, controlando-se, acrescentou de outro modo: – Ela quis me dizer uma coisa – no último dia – uma coisa muito particular. Mas não conseguiu.

– Uma coisa muito particular?

– Uma coisa a mais sobre os papeis.

– E você supõe – você tem alguma ideia?

– Não, eu tentei pensar – mas não sei. Pensei toda espécie de coisa.

– Por exemplo?

– Bem, se você fosse um parente, tudo seria diferente.

Fiquei pensando. – Se eu fosse um parente...

– Se não fosse um desconhecido. Então, seria o mesmo para mim e para você. Tudo que é meu seria seu, e você poderia fazer o que quisesse. Eu não seria capaz de impedi-lo – e você não teria responsabilidade alguma.



Tudo têm preço. Resta saber se há comprador. E, em caso afirmativo, se ele dispõe de cacife para sustentar a aposta. Muitas vezes, são das águas tranquilas que surgem as surpresas. O que parece sensatez se revela obtusidade e o que poderia ser bobagem se transforma em deslumbramento. A vida (ficcional ou não) nunca corresponde ao que é projetado como objetivo. E, por maior ou menor que seja o encantamento, em algum momento impreciso o arrependimento (instantâneo ou tardio) se instala – como se fosse o dono da casa.

(...) O quarto parecia girar em torno de mim quando ela disse isso, e uma escuridão real por um momento baixou sobre meus olhos. Quando a sensação passou, Miss Tina estava ali imóvel, mas a transfiguração havia acabado, e ela havia se transformado novamente numa pessoa simples, apagada, idosa. Foi nessa caracterização que ela disse o seguinte: – Não posso ficar com você, não posso! – E foi nessa caracterização que deu as costas para mim, como eu dera as costas para ela e caminhando para a porta de seu quarto. Aí ela fez o que eu não fizera quando a abandonara – uma pausa longa o suficiente para me lançar um olhar. Eu nunca o esqueci e, às vezes, sofro ao lembrá-lo, embora ele não fosse ressentido. Não, não havia ressentimento, nada de áspero ou vingativo na pobre Miss Tina, pois quando, mais tarde, enviei a ela, como paga pelo retrato de Jeffrey Aspern, uma quantia de dinheiro maior que a que eu esperava obter, escrevendo-lhe que o vendera, ela as recebeu com gratidão; ela nunca a restituiu. Escrevi a ela que vendera o retrato, mas, naquela época mesma, confessei a Mrs. Prest – encontrei esta outra amiga em Londres, naquele outono – que ele está pendurado no alto de minha mesa de escrever. Quando o olho, mal posso suportar minha perda – quero dizer, a perda dos preciosos papéis.


A riqueza descritiva dessa cena contrasta com a ambiguidade da última frase. Tudo o que parecia um manancial de certezas se dissolve no mistério – e convida à releitura. 

Entre os personagens de Os Papéis de Aspern, Veneza talvez seja um dos mais importantes. A geografia da cidade vai sendo revelada em cada página do livro. Por exemplo, o editor passeia de gôndola por lugares emblemáticos com o Lido, o Malamocco, o Grande Canal, a Piazza San Marco. Todas essas cenas são descritas com precisão e ternura – como compete a um bom ficcionista.

Segundo Henry James, a ideia de escrever Os Papéis de Aspern surgiu de uma conversa que ele ouviu em Florença. Era algo sobre uma senhora (80 anos), que morava com a sobrinha (50 anos). Supostamente ela possuía algumas cartas trocadas entre Byron e Shelley – fato que despertou a cobiça de um aventureiro. Tomando esse tema como mote, Henry James transferiu as ações para Veneza, expandiu o enredo e acrescentou diversas camadas narrativas e psicológicas.

Henry James, Jr. (1843-1916)


P.S.) A edição da Penalux é artigo fino: capa dura, diagramação competente, boas ilustrações. Mas, há um pequeno senão. O tradutor, Chico Lopes, optou por manter no original os pronomes de tratamento das personagens femininas. Independente das razões que o fizeram tomar essa decisão, possivelmente mais coerente seria optar por Senhora Bordereau (em lugar de Miss Bordereau), Senhorita Tina (em lugar de Miss Tina) e Senhora Prest (em lugar de Mrs. Prest).