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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

OS ÚLTIMOS QUARTETOS DE BEETHOVEN E OUTROS CONTOS

Luis Fernando Veríssimo é um mestre do humor classe média. Seus textos se caracterizam pela erudição superficial, uma citação aqui, outra acolá, perfumarias que – aparentemente – se mostram suficientes para enganar os pares e os impares que o incensam – mesmo quando ele comete erros colossais. Em Os Últimos Quartetos de Beethoven e Outros Contos, a frase inicial do texto O Expert comprova o argumento: O Nabokov tem uma história parecida, mas sobre xadrez. Depois de ler o texto de Veríssimo, quem conhece um mínimo de literatura percebe que houve grave confusão. Ou seja, ele confundiu Stefan Zweig com Vladimir Nabokov. O episódio do prisioneiro que furta o livro de xadrez faz parte da Schachnovelle (no Brasil, Xadrez, editado pela Nova Fronteira, 1993, páginas 133-134), escrita pelo mestre austríaco. O russo também escreveu sobre o jogo, com destaque para a genial novela Zashchita Luzhina (no Brasil, A Defesa, publicado pela L&PM, 1986), mas, que conste dos autos, ele não é o autor do texto que lhe foi atribuído! 

Os Últimos Quartetos de Beethoven e Outros Contos é um livro divertido, desses que unem na mesma confusão ingredientes tão importantes como sexo, violência, morte, histórias de amor e de ódio (que muitas vezes são as mesmas, salvo pequenas variações). Leitura ideal para um dia na praia ou no final de tarde, em feriado. Sem compromisso com a seriedade ou com algum conteúdo que não seja a leviandade lúdica, os dez contos que o integram cumprem a sempre bem-vinda tarefa de aliviar as tensões, provocar gargalhadas, recriar situações em que o leitor constata que o absurdo se faz presente na vida com mais frequência do que possa imaginar a vã filosofia.

O conto inicial, O Pôster, coloca em xeque os valores éticos diante de uma situação-limite. O que fazer diante da possibilidade de ser promovido? Que escrúpulos desaparecerão? Como a história humana (versão capitalista) se resume em estabelecer o preço dos objetos de consumo...

A melancolia do conto homônimo ao título do livro estabelece um pouco de seriedade. Mas, o quadro geral (submissão da turma adolescente ao charme de Livia, o inevitável sanatório como desfecho) fornece motivo para sorrisos amarelos, de canto de boca, a inevitável constatação de que a existência é ridícula e tola. Esse mesmo sentimento está presente – com significativa intensidade – em A Mancha, descrição contundente de um retorno ao passado opressor, a possibilidade de um ex-preso político reconstruir uma página de sua história pessoal.  

Literariamente, os melhores textos são Obsessão, Memórias e A Mulher que Caiu do Céu. No primeiro, um relato de violência doméstica, dessas somente possíveis entre marido e esposa, destaque para as duas frases finais, comprovação de que o ressentimento não diminui com o convívio familiar: A gente aguenta tudo, não é delegado, menos elas quererem saber mais do que a gente. Arrogância intelectual, não. No segundo, os instantes finais de homem que está sofrendo um enfarte, em que, além não lembrar onde está o remédio que o pode salvar, mistura fatos tão desconexos como emplasto de Vik Vaporub, o cheiro de loção de seu pai, figurinhas de bala e Gisela (Ah, a Gisela!). O último gira em torno de uma fantasia bastante criativa. O anjo da morte, em lugar de exercer suas funções profissionais, resolve – afetuosamente – poupar o candidato a uma vaga no céu (ou no inferno). Com graça e humor, Veríssimo desconstrói o mito religioso e realiza a sátira com a eficiência que caracteriza parte significativa de seus textos.

Enfim, para que ninguém diga que não se falou de flores, Os Últimos Quartetos de Beethoven e Outros Contos é garantia de entretenimento. Para ler, rir e esquecer em alguma prateleira da estante.          
     




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A MAÇÃ ENVENENADA

Há sempre um preço a pagar para quem encontra a beleza enfrentando seus demônios, declara o narrador e protagonista da novela A Maçã Envenenada, de Michel Laub. De forma implícita, ele está avisando ao leitor que não há como resgatar em bons termos a fatura estética. A perfeição plástica (seja lá o que isso for) custa caro – no caso de estar à venda. Raramente está. De qualquer maneira, o novo texto de Laub não está relacionado com a discussão de conceitos acadêmicos, mas sim como um evento artístico pode interferir na vida de um personagem.

Em 1993, o grupo de rock Nirvana se apresentou no estádio do Morumbi. Na mesma época, a estudante de engenharia Immaculée Ilibagiza passou 90 dias escondida dentro de um banheiro, na companhia de outras sete mulheres. Foi a maneira que encontrou para sobreviver, quando eclodiu o genocídio que devastou Ruanda. O narrador e protagonista de A Maçã Envenenada, nesse período, está cumprindo serviço militar (CPOR) e tem uma namorada chamada Valéria.

Em abril de 1994, Kurt Cobain se suicidou; Immaculée Ilibagiza percorreu o mundo ministrando palestras e escrevendo em favor dos direitos humanos; e o inominado narrador e protagonista, depois de um acidente de trânsito, está morando em Londres.  Seguindo a regra geral dos brasileiros auto-exilados, exerce diversas profissões, inclusive a venda de sanduíches em escritórios da região de Covent Garden.

Entre um período e outro, o mundo desaba. Pelo menos para quem está relatando todas as histórias. Sentindo prazer em misturar uma serie de sentimentos pouco plausíveis e discussões baratas, o narrador e protagonista faz de sua narrativa um muro de lamentações – ornamentado por lições edificantes sobre as injustiças que corroem o mundo (a morte de Kurt Cobain, o desastre político em África, o CPOR, o acidente de carro, a vida inteira que poderia ter sido e que não foi) ou por perguntas que exigiriam a leitura de trezentos volumes de filosofia para serem respondidas. Esse impasse narrativo, fundamental para o entendimento textual, respinga em algumas gotas de autoficção, indicando a possibilidade de misturar a vida pessoal do autor com a tessitura literária – crime que, se ocorreu, não está ao alcance do entendimento do leitor comum.   

A Maçã Envenenada está dividido estruturalmente em três partes e 101 pequenos capítulos – fragmentos de uma imagem maior e que somente adquirem algum sentido quando visualizados como todo. Esse recurso funciona de forma eficiente, embora seja uma prática corrente da literatura próxima do minimalismo e que é, de uma forma ou de outra, praticada por Laub (ver, por exemplo, a carpintaria literária de O Segundo Tempo e O Gato Diz Adeus).

De qualquer maneira, o estilo adotado por Laub não é nenhuma novidade na literatura brasileira contemporânea. Contos longos e novelas costumam ser promovidas à categoria de romance   como se escrever um romance fosse constatação inequívoca do talento. A metáfora proposta pelo título do último "romance” (119 páginas não são suficientes para caracterizar o gênero) de Michel Laub adquire alguma substância quando se percebe a quantidade de agrotóxicos que alguns "escritores" estão  utilizando para  "salvar" a literatura brasileira. De qualquer forma, salvo raríssimas exceções, o Brasil não dispõe de escritores capacitados para escrever um texto mais extenso, com maior densidade dramática e literária.  

P.S.1: Parte da diversão de ler A Maçã Envenenada está em reconhecer que alguns trechos (o vendedor de sanduíches em Londres) foram antecipados em um conto antigo, O Percurso, publicado na antologia temática  organizada por Isabella Marcatti e Manoel Ricardo de Lima, A Visita (São Paulo: Barracuda, 2005).

P.S.2: Michel Laub publicou os "romances" Música Anterior (2001), Longe da Água (2004), O Segundo Tempo (2006), O Gato Diz Adeus (2009) e Diário da Queda (2011).


terça-feira, 29 de outubro de 2013

MADRUGADA SUJA

O português Miguel Sousa Tavares colheu os seus merecidos quinze minutos de fama com um romance de incontornável qualidade: Equador. O trabalho seguinte, Rio das Flores, também é bom e visivelmente superior a No Teu Deserto – uma narrativa frouxa.

Madrugada Suja, o quarto romance, mistura humor e melancolia em poções desmedidas, um pouco desta, menos daquilo, sem se importar muito com o andamento narrativo desigual – que flerta descaradamente com uma das significativas contradições dos romances realistas do século XIX, isto é, o conflito entre o bucolismo da área rural e os mecanismos de sedução do mundo urbano. Em todas as páginas da narrativa também há uma discussão (quixotesca) em torno das diferenças morais entre o certo e o errado.  

O enredo gira em torno da vida de Filipe Madruga, arquiteto paisagista, e que só tem o avô como parente vivo (que reside nas lonjuras portuguesas de Medronhais da Serra). Funcionário público menor, aos poucos vai descobrindo elementos da própria história: (...) aos trinta anos, a vida ainda mal começara a doer! A mais significativa revelação está contida na carta que sua mãe, Maria da Graça, endereçou a Francisco, o marido, pouco tempo antes de morrer. Depois de jurar amor eterno ao marido, confessou adultério e que Filipe é filho do comborço. A carta jamais chegou ao conhecimento do destinatário, pois foi retida por Filomena, mãe de Francisco – que no interesse da harmonia familiar acreditou que não cabia promover a segunda morte da esposa de seu filho.

A isso se acrescenta incidente próximo da tragédia, ocorrido nos tempos em que Filipe frequentava a Universidade de Évora. Por razões que estão fora de seu controle e dos valores que defende, não consegue evitar que o fantasma do passado o visite – e de forma brutal. Ao emitir parecer desfavorável à construção de um resort de luxo, acaba arrastado por uma serie de acontecimentos vertiginosos – que multiplicam a sensação de impotência. Por isso, movido pela racionalidade ou pelo desespero, adota o procedimento mais radical possível. Um náufrago agarrando uma bóia encontrada à deriva e mesmo antes de se afogar, Filipe, ao procurar pelo pai biológico, interfere na vida política de Portugal. A conversa entre os dois é tensa, repleta de arestas: 

– Sabes de uma coisa? – Luis Morais debatia-se ainda com a sua derrota. – Tu tiveste a sorte de nascer meu filho e o azar de não teres sido educado por mim.
– Não, está enganado – respondeu Filipe, calmamente. – É exactamente ao contrário: tive o azar de nascer teu filho e a sorte de não ter sido educado por si.

Rompido o cordão umbilical que os une, restam destroços, desentendimentos, complicações. Tanto que, ao se despedir, Filipe determina o que está em jogo: Não sei qual é o seu limite. O meu é o de não deixar que a tristeza de fazer isso seja mais forte do que o remorso de não o ter feito. Peço desculpas, mas não vi outra saída.

Para o pecado cometido na juventude também não há saída. Entretanto, no último momento, uma porta se abre inesperadamente, mostrando o caminho da salvação.  

Repleto de diálogos ágeis e cortantes, Madruga Suja reafirma a lição de que a literatura não perde a qualidade quando faz a defesa intransigente de valores éticos e morais.



TRECHO ESCOLHIDO 

Quando soube do escândalo do padre Anselmo, deu-me um baque, uma moléstia de coração, que me pregou à cama por três dias, receitado de chás de cebola e infusões de alecrim. Não que eu conseguisse entender exactamente o que significa o facto terrível de a professora Fátima ter sido apanhada de saias em baixo na sacristia com o padre Anselmo – ele de saias em cima, pois era o tempo em que os padres ainda não usavam calças. Eu não entendia exactamente o significado carnal, brutal, do acontecimento, mas pressagiava que o meu caso futuro com a professora Fátima não tinha futuro. Entendi que tinha sido traído – a primeira de outras vezes na minha vida. E a sensação foi horrível: a cabeça azoava por todos os lados, o peito parecia querer rebentar, as tripas viraram-se do avesso e, por mais de uma vez, pensando na obscena cena da sacristia, ergui-me cambaleante na minha cama de enfermo e vomitei a alma sobre os espessos lençóis de linho do enxoval da minha mãe. Assim, eu vomitava a alma de que o Anselmo era suposto cuidar e sofria no corpo de que a professora Fátima se haveria de ocupar: será que existe forma mais cruel de um rapaz se começar a tornar adulto?

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

TRÊS FILÓSOFOS DO FUTEBOL (30 FRASES)

 Antonio Franco de Oliveira, o Neném Prancha
O importante é o principal, o resto é secundário.

Quem pede tem preferência; quem se desloca, recebe. 

Bola tem que ser rasteira, porque o couro vem da vaca e a vaca gosta de grama. 

Futebol é muito simples: quem tem a bola ataca; quem não tem defende. 


Jogue a bola pra cima, pois enquanto ela estiver no alto não há perigo de gol. 

Se macumba resolvesse, o campeonato baiano terminava sempre empatado. 

Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma partida. 

Jogador de futebol, tem que ir na bola com a mesma disposição com que vai num prato de comida. Com fome, para estraçalhar. 

Penalti é uma coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube.. 

O goleiro deve andar sempre com a bola, mesmo quando vai dormir. Se tiver mulher, dorme abraçado com as duas. 

Jogador bom é que nem sorveteria: tem várias qualidades. 

Futebol moderno é que nem pelada. Todo o mundo corre e ninguém sabe para onde. 

O Didi joga bola como quem chupa laranja, com muito carinho. 

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Nelson Rodrigues
Não há em toda a literatura brasileira um personagem que saiba bater um escanteio. 

Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos... 

Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia. 

Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro. 

Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar.

Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos. 

Grandes são os outros, o Fluminense é enorme. 

O escrete é a pátria de calções e chuteiras. 

Todos os torcedores de futebol se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Têm o mesmo comportamento e xingam, com a mesma exuberância e os mesmos nomes feios, o juiz, os bandeirinhas, os adversários e os jogadores do próprio time. Há, porém, um torcedor, entre tantos, entre todos, que não se parece com ninguém e que apresenta uma forte, crespa e irresistível personalidade. Ponham uma barba postiça num torcedor do Botafogo, dêem-lhe óculos escuros, raspem-lhe as impressões digitais e, ainda assim, ele será inconfundível.

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Vicente Matheus
Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático.

O Sócrates é invendável e imprestável. 

O futebol é uma faca de dois legumes. 

Se entra na chuva para se queimar.

Comigo ou sem migo o Corinthians será campeão. 

O difícil, vocês sabem, não é fácil... 

Espero que os corinthianos compareçam para naufragar nas urnas o meu nome.

Aquele jogador que contratamos, corre devagar. 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A SABEDORIA DE GEORGE BERNARD SHAW EM SESSENTA FRASES


A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos.

A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la com os jovens.

O jornal é um instrumento incapaz de discernir entre uma queda de bicicleta e o colapso da civilização.

O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada.

O segredo do sucesso é ofender o maior número de pessoas.

– A diferença entre um assaltante e um homem de bem é que o assaltante rouba dos ricos. 

  Pode haver dúvidas sobre quem seriam as pessoas mais indicadas para educar as crianças. Mas não há dúvidas de que os pais são as piores.

De todas as perversões sexuais a castidade é a mais perigosa.

O ódio é a vingança do covarde.

A virtude não passa de tentação insuficiente.

Não existe amor mais sincero do que aquele pela comida.

Há duas tragédias na vida. Uma é a de não obter tudo o que se deseja ardentemente; a outra, a de obtê-lo.

A dança: uma expressão perpendicular de um desejo horizontal.

A ciência nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez.

Cabe à mulher casar-se quanto antes e ao homem ficar solteiro o maior tempo que poder.

Uma mulher preocupa-se com o futuro até encontrar um marido, enquanto um homem apenas se preocupa com o futuro depois de encontrar uma mulher.

O matrimônio não é loteria. Na loteria algumas vezes ganha-se.

  Os americanos são pessoas que ficam felizes quando conseguem acrescentar uma casa à sua garagem.

  O americano 100% é 99% idiota.
  
Uma vida inteira de felicidade! Nenhum homem vivo conseguiria suportá-la. Seria o inferno.

A minha maneira de brincar é dizer a verdade. É a brincadeira mais divertida do mundo.

A democracia muitas vezes significa o poder nas mãos de uma maioria incompetente.

Presume-se que a mulher deve esperar, imóvel, até ser cortejada. Mais ou menos como a aranha espera a mosca.

Nunca resisto a tentações, porque eu descobri que coisas que são ruins para mim não me tentam.

Não faças aos outros o que gostarias que fizessem a ti. O gosto deles pode não ser o mesmo.

Do modo como a concebemos, a vida em família não é mais natural para nós do que uma gaiola é para um papagaio.

O silêncio é a mais perfeita expressão do desprezo.

Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.

Nenhuma pergunta é tão difícil de ser respondida quanto aquela cuja resposta é óbvia.

Alguns homens vêem as coisas como são, e dizem Por quê? Eu sonho com as coisas que nunca existiram e digo Por que não?

Professores de grego são pessoas privilegiadas: poucos deles sabem grego e, os que sabem, não sabem mais nada.

A sabedoria dos homens é proporcional não à sua experiência, mas à sua capacidade de adquirir experiência.

O segredo para ser infeliz é ter tempo livre para se preocupar se se é feliz ou não.

O progresso é impossível sem mudança. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada.

Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma.

Cuidado com o homem que não devolve a bofetada: ele não a perdoou, nem permitiu que você se perdoasse.

  Pouquíssimas pessoas podem dar-se ao luxo de ser pobres.

 Inocente é o sujeito que não foi apanhado em flagrante.

O homem razoável se adapta ao mundo; o irascível tenta adaptar o mundo a si próprio. Assim, o progresso depende do homem irascível.

Uma boa esposa é um grande consolo para o homem em todos os contratempos e dificuldades - que ele nunca os teria se tivesse continuado solteiro.

Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.

Enquanto tiveres um desejo, terás uma razão para viver. A satisfação é a morte.

A reputação de um médico se faz pelo número de pessoas famosas que morrem sob seus cuidados.

Não há satisfação em enforcar um homem que não faz objeção a isso.

Quando um homem quer matar um tigre, chama a isso desporto; quando é o tigre que quer matá-lo, chama a isso ferocidade. A distinção entre crime e justiça não é muito grande.

O pior pecado contra nosso semelhante não é o de odiá-los, mas de ser indiferentes para com eles.

– De quanto mais coisas um homem se envergonha, mais respeitável ele se torna.

 Aprendi mais com a primeira mulher burra por quem me apaixonei do que com tudo que meu cérebro me ensinou.

  As coisas que as pessoas mais querem saber nunca são da conta delas.  

  Os filhos se tornaram tão caros que, hoje em dia, só os pobres podem se dar ao luxo de tê-los.  

  Há homens que não perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade.

Temos tempo bastante para pensar no futuro quando já não temos futuro em que pensar.

Se ao menos os pais soubessem como chateiam os filhos!

– Há uma única religião, embora haja centenas de versões.


  Minha objeção aos instrumentos de sopro é a de que eles prolongam a vida de quem os toca.

  Posso perdoar a Alfred Nobel a invenção da dinamite, mas só um demônio teria concebido o prêmio Nobel.

Quando um idiota faz alguma coisa de que se envergonha, diz que está apenas cumprindo seu dever.

A escravatura humana atingiu o seu ponto culminante na nossa época sob a forma do trabalho livremente assalariado.

Se todos os economistas fossem postos lado a lado, nunca chegariam a uma conclusão.

A falta de dinheiro é a raiz de todo o mal.












quinta-feira, 10 de outubro de 2013

ALICE MUNRO



Aos 82 anos de idade, a escritora canadense Alice Anne Munro (nascida Laidlaw) se tornou, na manhã do dia 10 de outubro de 2013, a décima-terceira mulher a receber o Prêmio Nobel de Literatura. O seleto grupo das ganhadoras é composto por Selma Lagerlöf (Suécia, 1909), Grazia Deledda (Itália, 1926), Sigrid Undset (Noruega, 1928), Peal Sydenstricker Buck (EUA, 1938), Gabriela Mistral (Chile, 1945), Nelly Sachs (Suécia, 1966), Nadine Gordimer (África do Sul, 1991), Toni Morrison (EUA, 1993), Wislawa Szymborska (Polônia, 1996), Elfriede Jelinek (Áustria, 2004), Doris Lessing (Grã-Bretanha, 2007) e Herta Müller (Romênia/Alemanha, 2009).

Ao anunciar o nome de Alice Munro, a Academia Sueca chamou-a de mestre dos contos contemporâneos. Essa afirmação ratifica a opinião de Cynthia Ozick que considera Munro uma espécie de Tchekov da língua inglesa. Aliás, muitos escritores e críticos significativos se curvam ao talento da canadense. Segundo David Homel, Ela escreve sobre mulheres e para mulheres, mas não amaldiçoa os homens. O eternamente midiático Jonathan Franzen, no ensaio De Onde Vem Essa Certeza de que Você Mesmo Não é o Mal?, que está incluído na interessante coletânea Como Ficar Sozinho (Companhia das Letras, 2012) não faz economia de elogios para descrever o quanto a literatura de Munro o impressiona: A leitura de Munro me deixa num estado reflexivo no qual penso sobre a minha vida: sobre as decisões que tomei, as coisas que fiz e que não fiz, o tipo de pessoa que sou, a perspectiva da morte. Ela faz parte daquele punhado de escritores, alguns vivos, a maioria morta, que tenho em mente quando digo que a ficção é a minha religião. Porque enquanto estou imerso num conto de Munro, estou atribuindo a um personagem totalmente fictício o tipo de respeito solene e de interesse enraizado que me atribuo em meus melhores momentos como ser humano.    

Munro não costuma frequentar seminários, congressos literários ou eventos promocionais. Recentemente, em entrevista ao jornal New York Times, anunciou a aposentadoria. Depois uma operação cardíaca e de um câncer, quer se dedicar à família: parece natural fazer aquilo que outras pessoas de 80 anos fazem, declarou.

Alice Munro nasceu em Wingham, província de Ontário, em 10 de julho de 1931. Casou com Michel Munro, aos 20 anos de idade, e foi morar em Vancouver. Separou-se em 1972 e voltou para Ontário. Casou com Gerald Fremlin, em 1976. As três filhas são frutos do primeiro casamento.

A carreira de escritora solidificou a partir do segundo casamento. Publicou 14 livros de contos, sendo que apenas quatro possuem tradução no Brasil: Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento (Editora Globo, 2004), Fugitiva (Cia das Letras, 2006), Felicidade Demais (Cia das Letras, 2010) e O Amor de Uma Boa Mulher (Cia das Letras, 2013). O filme Longe Dela (Away from Her. Dir. Sarah Polley, 2006) foi baseado nos contos de Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento.

Um dos momentos representativos da prosa escrita por Alice Munro está retratado no conto Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento (que integra o livro homônimo). Para se livrar de uma vida opressiva de empregada, Johanna decide mudar as regras do jogo. Iludida por cartas que acreditava terem sido escritas por um admirador, Ken Boudreau, resolve procurá-lo. Quer casar. Por isso, compra um vestido de noiva e despacha a mobília por trem. Depois de uma viagem estafante, encontra o pretendente doente. Cuida dele, limpa a casa, desfaz hábitos nocivos, impede a desordem financeira. E permite que ele se apaixone.     

A prosa descritiva, pouco afeita aos efeitos modernosos dos fluxos de consciência e dos monólogos interiores, reconstrói pacientemente a intimidade doméstica. As personagens femininas são fortes, determinadas. Na busca de algum impulso vital, recusam o niilismo e o puritanismo. São contos caudalosos, média de 50 páginas os mais concisos, repletos de detalhes. O interesse do leitor se mantém por dezenas de páginas em função do domínio absoluto do enredo e dos diálogos, que acrescentam – explicita e implicitamente – dezenas de informações.

Alice Munro ganhou três vezes o Governor General’s Literary Awards (1968, 1978, 1986) e o Man Booker International Prize (2009), entre outros prêmios. 

Lista dos livros de Alice Munro: 

Dance of the Happy Shades, (1968)
Lives of Girls and Women (1971)
Something I’ve Been Meaning to Tell You (1974)
The Beggar Maid (antes Who Do You Think You Are?) (1978)
The Moons of Jupiter (1982).
The Progress of Love (1986)
Friend of My Youth (1990)
Open Secrets (1994)
The Love of a Good Woman (1998)
Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage (2001)
Runaway (2004)
The View from Castle Rock (2006)
Too much happiness (2009)
Dear Life (2012)