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quarta-feira, 26 de julho de 2017

FERRUGEM


Escrever da maneira mais límpida possível. Sem truques de prestidigitação, sem dribles ou malabarismos desconcertantes, sem se estender desnecessariamente, sem sugerir que há alguma coisa escondida nas entrelinhas. O exercício da simplicidade. Menos é mais.

Oscilando entre o poético e o patético, entre as escolhas desafortunadas e as diversas cores que compõem as alegrias do existir, os 13 contos que integram Ferrugem, de Marcelo Moutinho, seguem esse proceder. Nos momentos em que ocorrem algumas variações temáticas (futebol, família, adolescência, amores frustrados), a ideia é – apenas! – contar uma boa história.

Cabe ao leitor abrir o livro e deixar que as narrativas contaminem os olhos e a mente. Por exemplo, em um dos melhores contos do livro, Domingo no Maracanã, Bia descobre uma espécie particular de Aleph (um portal onde ela consegue visualizar acontecimentos que não se concretizaram). Contrastando com a vertente contemporânea que prefere se concentrar na “vida como ela é”, a narrativa abre espaço para a fantasia e o sonho. Neste mesmo tom (uma perspectiva repleta de leveza e lirismo), Gandula apresenta um final verossímil e trivial. Mas, antes das últimas linhas, a vida de João – que parecia destinada às glórias futebolísticas – se consolida no ofício mais desvalorizado entre as quatro linhas do campo esportivo. Significativamente, esse não é um conto sobre o fracasso, é um relato sobre a redenção, sobre o caráter lúdico da vida.

O estranhamento também se faz presente em alguns contos. Jantar a Dois revela uma tessitura sutil. Em lugar de descrever o combate doméstico diário, onde imperam gritos e acusações sem substância, o leitor encontra uma imagem repleta de silêncios. A maneira com que o casal transformou suas vidas em rotina e falta de emoção é descrita com naturalidade. Eles estão unidos pela desunião. Ou pela ferrugem que corroeu o que havia de humano entre eles.

Todas as histórias de amor são ridículas, como comprovam 362 e As Praias Desertas. No primeiro, porque unilateral. Somente Custódio está apaixonado. Camila sequer sabe da existência dele. São encontros espaçados pelas idas e vindas do trabalho e comentados com o ceticismo da cobradora do ônibus – que narra a história. Aliás, em alguns momentos, parece que o desencontro está inserido no conto apenas para emoldurar a voz da cobradora – que é a personagem forte da narrativa. No segundo, o que está em jogo são as lembranças de um relacionamento que se perdeu no tempo. Enquanto espera por alguém que nunca vai chegar, a mulher vai espalhando fragmentos e ilusões na planície textual. 

Assim como o motorista que perde a direção e causa um desastre de proporções inimagináveis, a vida estruturada do professor de contabilidade é tragada pelo inimaginável. Como relato, Sauna está mais próximo do mundo concreto do que da ficção.

A violência (real, imaginária, simbólica) que acompanha a passagem da infância para a vida adulta está descrita em Xodó. Trata-se de um primeiro contato com a sexualidade e suas perversões. Também destaca as sutilezas que envolvem a cumplicidade entre irmãos – e que rompem a isonomia que deveria existir dentro do relacionamento fraterno.

Salvo engano, dois dos contos (e que gravitam em torno da música) foram publicados em outros livros. Something está em O Livro Branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bônus track (organização de Henrique Rodrigues) e Três Apitos faz parte de Conversas de Botequim – 20 contos inspirados em canções de Noel Rosa (coletânea organizada por Henrique Rodriguez e Marcelo Moutinho).

Something estabelece a imprecisão dos sentimentos. Três Apitos reafirma esses equívocos. Enquanto em um há a procura pelos significados escondidos atrás da letra da canção dos Beatles, no outro há a desconstrução da lírica de Noel Rosa. Enquanto o primeiro estabelece a separação como complemento das relações amorosas, o segundo confirma que a felicidade de um casal está muito distante da vida cotidiana. De tudo, fica um pouco, comenta um dos personagens de Something. Compreendi que pouco importa de onde veio, por onde veio, se o preservativo furou. O HIV está dentro do meu corpo, constata a narradora de Três Apitos.

Outros três contos completam o livro: Caiu Uma Estrela na Minha Sala, Rei e Dezembros.


TRECHO ESCOLHIDO


Seu Chico não perguntou sobre o desempenho do filho. Nem Dona Dina. O semblante do garoto, ao chegar em casa, era um dicionário com todas as respostas possíveis.


João sabia que outro teste só dali a um ano. Que não dava para postergar o trabalho, o cursinho, em nome de treinamento. Se nas peladas ele era o tal, primeiro escolhido sempre, em clube profissional a música toca diferente. Todo mundo lá é solista, concluiu.


A dispensa doeu, mas doeu menos do que a ligação recebida três dias depois. O técnico explicava que o campeonato estadual começaria em um mês, que cada clube deveria indicar quatro garotos para trabalhar como gandulas, e que depois do teste pensou no nome dele, João, que era tão veloz, tão disciplinado.


O impulso inicial foi falar não. Mandar o treinador para o inferno. João no entanto respirou e pediu um tempo para pensar. Até amanhã respondo, ok? Ok, moleque.  

terça-feira, 20 de junho de 2017

O MEDO EM QUARENTA E CINCO FRASES

– Minha mãe pariu irmãos gêmeos, eu e o medo. (Thomas Hobbes)

O medo é o pai da moralidade. (Friedrich Nietzsche)

As coisas que nos assustam são em maior número do que as que efetivamente fazem mal, e afligimo-nos mais pelas aparências do que pelos fatos reais. (Sêneca)

Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte. (Arthur Schopenhauer)

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a baixar a bandeira da imaginação. (Andre Breton, in Manifesto Surrealista)

– Agora um homem fala francamente somente com sua esposa, à noite, com o cobertor por cima da cabeça. (Isaac Babel)

Nada inspira mais coragem ao medroso do que o medo alheio. (Umberto Eco)

O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo. (Liev Tolstoi)

– O medo tem muitos olhos e enxerga coisas nos subterrâneos. (Miguel de Cervantes)

– Tão covarde que não apagava a luz quando ia sair de casa, com medo de que houvesse alguém escondido no claro. (Millôr Fernandes)

Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela. (George Bernard Shaw)

Tenho mais medo de três jornais do que de cem baionetas. (Napoleão Bonaparte)

Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. (Fernando Sabino)

Foi por medo de avião / que eu segurei / pela primeira vez a tua mão. (Belchior)

Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem. (Jean-Paul Sartre)

– Das paixões ínfimas, o medo é a mais maldita. (William Shakespeare, in Henrique VI)

A paciência em muitos casos não é mais senão medo, preguiça ou impotência. (Marquês de Maricá)

– Os fantasmas são fruto do medo, disse esta, sentenciosamente. Quem não tem medo não vê fantasmas. (Machado de Assis, in “Sem Olhos”)

O medo dos poderes invisíveis, inventados ou imaginados a partir de relatos, chama-se religião. (Thomas Hobbes)

– Cada um se confina em seu medo – sua torre de marfim. (Emil Cioran)

Se tens medo da solidão, não te cases. (Anton Tchekhov)

– Covarde. s.m. Alguém que, numa situação perigosa, pensa com as pernas. (Ambrose Bierce, in Dicionário do Diabo)

Não aprendeu a lição da vida quem não domina o medo de cada dia. (Ralph Waldo Emerson)

– Diga a verdade e saia correndo. (Provérbio eslavo)

O cão não ladra por valentia; e sim por medo. (Provérbio chinês)

O medo tem alguma utilidade; mas a covardia, não. (Mahatma Gandhi)

– Nada é mais assustador que uma porta fechada. (Alfred Hitchcock)

– Onde está o mérito, se os heróis nunca têm medo? (Alphonse Daudet)

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz. (Platão)

– Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo. (Luis Fernando Veríssimo)

A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo. (Voltaire)

Consciência é uma palavra usada pelos covardes, para incutir medo aos fortes. (William Shakespeare)

A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte. (Albert Einstein)

Foi um grande conselho o que ouvi certa vez, dado a um jovem: "Faça sempre o que tiver medo de fazer". (Ralph Waldo Emerson)

O maior erro que você pode cometer, é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum erro. (Elbert Hubbard)

Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar. (William Shakespeare)

Não tenho medo da morte. O que me aterroriza é a aproximação dela. (Oscar Wilde)

Quem foi mordido de cobra até de minhoca tem medo. (Barão de Itararé)

– Medo é a marcha ré da coragem. (Millôr Fernandes)

– O medo da esterilidade leva o escritor a produzir acima de suas possibilidades e a acrescentar às mentiras vividas muitas outras que toma emprestadas ou forja. Sob toda “Obra Completa” jaz um impostor. (Emil Cioran)

– O medo cego, que tem como guia a razão que vê, tem pé mais firme do que a razão cega que tropeça sem medo. (William Shakespeare, in Tróilo e Cressida)

–  Apresso-me a rir de tudo, com medo de ser obrigado a chorar. (Pierre Beaumarchais)

As alegrias do amor são sempre proporcionais ao medo de as perdermos. (Stendhal)

Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos. (Bertrand Russell)

Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito. (Bertolt Brecht)


– Não tenho medo de nada. A não ser de minha mulher. (Soichiro Honda)

 Ilustrações: Francisco José de Goya Lucientes (1746-1828)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO

Muitos escritores contemporâneos procuram transmitir aos seus leitores um conjunto de experiências pessoais. São narrativas que reúnem trechos autobiográficos e diversos conselhos sobre a arte literária. Dependendo da habilidade do autor e do marketing empregado pela editora, esses livros costumam se destacar na lista dos mais vendidos durante algum tempo. Depois, como compete ao fluxo das mercadorias, são esquecidos. Quer dizer, são substituídos. Faz parte do show. Ou das regras comerciais.

Romancista como Vocação, de Haruki Murakami, segue esse propósito – e, possivelmente, terá uma vida útil idêntica a de outros livros similares. Inclusive porque não acrescenta elementos significativos para a teoria da literatura. Também não contém ensinamentos capazes de despertar a vocação em novos escritores.  Como Murakami – quando decidiu publicar o livro – não estabeleceu como meta esses dois propósitos, seu objetivo se mostra mais singular, menos ambicioso. Ao comentar alguns dos episódios que se destacaram na sua trajetória pelo mundo literário, Murakami adotou o velho estilo “chove, mas não molha”.  

Isso ele faz e de forma coloquial, como se estivesse conversando com o leitor. Para alcançar esse efeito, Murakami não economiza no uso de metáforas, referências musicais (jazz, rock, clássicos) e esportivas (beisebol). Os interstícios são preenchidos por várias historietas complementares. Nesse último caso, em alguns momentos há reticências. Ele não se detém nas razões que o fizeram se casar antes dos 20 anos e, consequentemente, quase abandonar a universidade – levou sete anos para concluir o curso de letras.  Em compensação, não poupa palavras para destacar que foi dono de um bar de jazz em Tóquio. Atrás do balcão, nos momentos de descanso de um trabalho árduo, ele pode ler muito e escutar milhares de discos. A forma detalhada com que descreve esse período da vida (e que antecede a publicação de seu primeiro livro) revela que esteve mais próximo da felicidade do que em todo o período que passou na universidade.

O livro está dividido em onze capítulos (provavelmente escritos em períodos diferentes), onde são abordados diversos assuntos de interesse de um escritor que – embora diga ser modesto e deteste conflitos – ambiciona ser amado por todos os leitores e críticos literários do mundo. Felizmente, esse delírio se mostra inexequível. Murakami se derrama em reclamações contra os críticos literários. Apesar do sucesso de seus livros no mundo (o destaque é Norwegian Wood), ele gostaria de receber elogios (muitos elogios). Mas,... O seu estilo narrativo está na contramão de uma literatura que não costuma se curvar a certos elementos ocidentais. Essa postura inconformada está explícita no capítulo XI (Ir para o exterior. Novas fronteiras.), onde relata, de forma irreconhecível para um escritor contido e humilde (na aparência), as suas relações com o mercado literário estadunidense. Provavelmente é o capítulo mais tolo do livro.   

Murakami começou a escrever romances aos trinta anos, em 1978. Ele estava assistindo uma partida de baseball, quando teve um insight – e que deflagrou uma carreira literária composta por diversos romances de indiscutível qualidade: O som agradável do taco atingindo a bola ecoou em todo o estádio. Ouviram-se alguns aplausos. Nesse momento pensei subitamente, sem nenhum contexto e sem nenhum fundamento: É, talvez eu também possa escrever romances. Surpreendentemente, Ouça a Canção do Vento – que foi escrito durante as madrugadas, na mesa da cozinha – ganhou um prêmio oferecido pela revista Gunzô. Foi esse primeiro sucesso que o impulsionou para uma carreira de romancista. 

O método de trabalho de Murakami é rígido. Próximo do mecânico. E abrange, além da disciplina espartana, horas de exercícios físicos – elemento explorado no livro Do que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida. Sem querer gerar controvérsias, sua visão do mundo literário está muito distante do estereótipo romântico do escritor que atravessa as madrugadas em bares ou em boates de quinta categoria, se encharcando em álcool, sexo e drogas (não necessariamente nessa ordem).

Em um dos momentos mais interessantes do livro, Murakami faz duas declarações destinadas a causar turbulência no mundo literário. Depois de afirmar que escrever romances não é um trabalho apropriado para pessoas muito inteligentes e de mente afiada, ele ampliou o debate emitindo outra declaração complicada: Em geral os críticos literários são mais inteligentes e perspicazes do que os romancistas. Independente da correção dos conceitos, poucas pessoas que trabalham com literatura concordam com esse tipo de posicionamento ambíguo. A vaidade dos escritores (que muitas vezes odeiam os críticos) e a falta de humildade dos críticos (que muitas vezes detestam os escritores) costumam entrar em colisão, independente da qualidade do material literário produzido pelas duas partes. Além disso, Murakami quase que implora, em alguns trechos, por um minuto de atenção dos críticos literários (principalmente os japoneses).

O ponto alto do livro está no capítulo VIII (Sobre escolas), onde desmistifica o idealismo que envolve a vida escolar. Murakami declara com todas as letras que a sua experiência durante esse período foi insípida: Eu não levava os estudos a sério por um motivo bem simples: primeiro, achava muito chato. Estudar não despertava o meu interesse, ou melhor, havia muitas outras coisas mais divertidas do que isso, como ler, escutar música, assistir filmes, nadar no mar, jogar beisebol, brincar com os gatos... depois de crescer mais um pouco, varava a noite jogando mahjong com os amigos, saí com garotas... essas coisas. Comparado com isso, estuda era bem chato.

Resumindo: Romancista como Vocação é um livro mediano, sem muitos atrativos – exceto, claro, se você for um fã ardoroso de Haruki Murakami. 


TRECHO ESCOLHIDO


Vou falar do meu caso. Pensando agora, o maior consolo que tive na época em que frequentava a escola foram alguns bons amigos e os muitos livros que li.


E por falar em leitura, li tudo o que encontrava à minha frente, livros dos mais variados tipos. Todos os dias, eu me ocupava em saborear e digerir cada um deles (muitos eu não consegui digerir) e praticamente não sobrava tempo para pensar sobre outras coisas. Às vezes penso que foi melhor assim. Se eu olhasse à minha volta, se refletisse sobre as coisas, as contradições e as mentiras, e investigasse seriamente aquilo com que não me conformava, talvez eu tivesse sofrido mais, me sentido pressionado a um beco sem saída.


Ao mesmo tempo, o fato de ter lido avidamente vários tipos de livro me serviu para relativizar a minha perspectiva, e isso teve um grande significado para mim durante a adolescência.Foi como se u tivesse vivido as diversas emoções narradas nos livros, dentro da imaginação, eu me movia livremente no tempo e no espaço, via várias paisagens curiosas. Várias palavras passaram pelo meu corpo e, como consequência, a minha perspectiva se tornou múltipla. Ou seja, eu não só observava o mundo do ponto onde me encontrava, como também conseguia observar minha própria imagem que observava o mundo de um lugar um pouco afastado e de forma relativamente objetiva.


Se observarmos as coisas apenas de nosso ponto de vista, o mundo parecerá cada vez mais irreparável. O nosso corpo enrijecerá e perderemos a agilidade e a mobilidade. Mas quando conseguirmos observar o lugar onde estamos sob diferentes ângulos, ou seja, quando conseguimos confiar a nossa existência a um sistema diferente, o mundo se torna tridimensional e flexível. Acho que isso é importante para todo mundo. O fato de eu ter aprendido isso através da leitura foi bastante significativo para mim.


Se não existissem livros, se eu não tivesse lido vários deles, provavelmente minha vida seria mais triste e dura do que ela é hoje. Ou seja, para mim, a leitura foi uma grande escola. Uma escola construída sob medida para mim e administrada de forma personalizada. Nela, aprendi muitas coisas importantes por conta própria. Sem regras conservadoras, sem avaliação com notas, sem disputas intensas por uma boa classificação. Naturalmente, sem bullying. Eu estava inserido em um grande sistema, mas ao mesmo tempo tinha conseguido garantir o meu próprio sistema.


O que imagino como o espaço para a recuperação do indivíduo é parecido com isso. Mas ele não deve contar somente com a leitura. O espaço tem que ser personalizado, e lá as crianças devem poder encontrar o que combina com elas, o que está à sua altura, e desenvolver suas habilidades no próprio ritmo. Acho que se as crianças que não conseguem se familiarizar com o atual sistema educacional, que não conseguem se interessar muito pelos estudos na sala de aula, encontrarem esse espaço para a recuperação do indivíduo, elas conseguirão superar o muro do sistema. Mas, para isso, é necessário o apoio da comunidade e da família, que precisa compreender e avaliar corretamente essa atitude, ou seja, o modo de viver como indivíduo.

 

Meus pais eram professores de língua japonesa (minha mãe parou de trabalhar quando se casou) e, por isso, quase nunca reclamaram do fato de eu ler muito. Eles não estavam satisfeitos com minhas notas, mas não diziam: “Estude para a prova em vez de ficar com esses livros”. Talvez eles tenham dito isso algumas vezes, mas não ficou guardado na minha memória, então não devem ter feito isso com frequência. Acho que esse é um dos motivos pelos quais preciso agradecer aos meus pais. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

CONVERSAS DE BOTEQUIM

O mundo pode ser visualizado a partir da mesa do botequim. Basta a cerveja estar gelada e os preços serem acessíveis. Um prato com tira-gostos também ajuda nas elucubrações filosóficas. Evidentemente, a palavra elucubrações jamais deve ser pronunciada nesse tipo de ambiente. Em contrapartida, pode-se falar sobre qualquer outro assunto, incluindo sexo, drogas e samba, o resultado do jogo do bicho, a previsão do tempo e os tropeços afetivos.

Conversas de Botequim, livro organizado por Henrique Rodrigues e Marcelo Moutinho, reúne vinte contos baseados nas músicas de Noel Rosa. Em outras palavras, vinte histórias de amor que terminaram mal. Nenhuma novidade. Há quem sustente a tese (controversa) de que a felicidade não combina com a literatura, a música e as artes em geral. Em contrapartida, os desastres (sejam dramas, sejam comédias) são festejados e descritos em toneladas de papel e hectolitros de tinta ou em orquestrados lamentos. O Brasil é o reino da dor-de-corno (no imaginário popular corre a ideia de que quem não é corno, um dia será).

Organizado em ordem alfabética pelo prenome dos autores, o livro inicia com Aldir Blanc e termina com Veronica Stigger. No meio da lista estão alguns dos escritores que integram o time principal da literatura brasileira contemporânea: Flávio Izhaki, Ivana Arruda Leite, Marcelino Freire, Socorro Acioli,...

A maior parte das vinte narrativas ocupa duas, três páginas. Coerente com a ideia de que o conteúdo supera a forma, em nenhuma delas há grandes experimentos estilísticos. Ao contrário, há uma busca constante pela linguagem coloquial, pela transmissão eficiente da mensagem. As exceções são Dama do Cabaré (Luisa Geisler) e Feitio de Oração (Rafael Gallo), que fogem (mas não muito) do estereótipo narrativo.

Noel Rosa (1910-1937)
De minha parte, sem desmerecer as outras narrativas, gostei muito dos textos escritos por Aldir Blanc, Alexandre Marques Rodrigues, Cintia Moscovich, Luiza Geisler e Sergio Leo. Em ritmo de samba-canção ou de bolero, são histórias que gravitam em torno das diversas formas de fracasso amoroso.

É com o corpo que se compreende as coisas, diz o narrador de Feitio de Oração, de Rafael Gallo. É através do corpo que a vida se manifesta em um mundo tumultuado, repleto de pressões e horrores. O corpo em decomposição está presente – de maneira surpreendente – no conto de Aldir Blanc (Feitiço da Vila). O corpo doente surge – de forma dolorosa – no conto de Alexandre Marques Rodrigues (Com que Roupa). O corpo desprezado se manifesta no conto de Cintia Moscovich (Pra que Mentir?). O corpo excitado marca ponto no conto de Luiza Geisler (Dama do Cabaré). O corpo insatisfeito – que quer ser outro – aparece no conto de Sergio Leo (Tarzan, o filho do Alfaiate). Evidentemente, o livro está repleto de atividades e sentimentos incorpóreos.

Conversas de Botequim consegue transpor a barreira entre a música e a literatura. As vinte narrativas compõem diversas variações do mesmo tema. São melodias harmônicas. E que devem ser lidas em qualquer hora, em qualquer lugar. E que, independente do momento, nos encaminham às discotecas particulares ou ao You Tube, onde a voz riscada de Noel Rosa nos surpreende contando um pouco das complicações que envolvem o existir.    

 
Henrique Rodrigues, Noel Rosa e Marcelo Moutinho

TRECHO ESCOLHIDO


Se antes Sônia nunca deu bola para cantadas de pedreiro, agora mesmo é que ignorava completamente. Inclusive ali na obra nova por onde passa todos os dias enquanto segue para o ponto. Logo que subiram as primeiras vigas, ela se demorou um pouco mais olhando a estrutura do prédio, o que deve ter chamado a atenção dos trabalhadores como um convite para os constantes e tortuosos elogios.

Apesar de passar sem pressa e manter o olhar frio o suficiente para não demonstrar nenhuma resposta aos galanteios, Sônia não consegue ignorar a movimentação dos funcionários que estão acudindo um colega:

– Sardinha, acorda, Sardinha! Alguém aí estanca o sangue!

Enquanto se aproxima, os peões abrem caminho em silêncio, cheios de respeito. Sônia sente pena de Sardinha, todo ensanguentado. Tenta se lembrar das aulas de primeiros socorros, mas antes que faça qualquer coisa, ele desperta, ainda zonzo pelo tijolo na testa. A cena a faz se lembrar novamente da Duda, e o que ela teria feito no lugar.

Antes de seguir seu caminho, sem pronunciar frase alguma, Sônia apenas estende a mão e o ajuda a se levantar. 

(trecho de Mulher Indigesta, de Henrique Rodrigues) 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

NOSSAS NOITES

Envelhecer com delicadeza – esse deveria ser o objetivo fundamental da vida. Infelizmente, há dificuldades, percalços, problemas. E poucas pessoas (principalmente os mais jovens) conseguem entender o quanto de horror está presente na história daqueles que conseguiram ultrapassar a barreira dos 65 anos. Como consequência desse equívoco cotidiano, muitas vezes desnecessário, a tristeza costuma acompanhar a velhice.

No caso do romance curto Nossas Noites, escrito por Kent Haruf, não há novidades, mas... Em apenas 157 páginas, uma tempestade de emoções – que não se manifesta como uma exposição da devastação física da velhice. Ao contrário, tudo se passa lentamente, agradavelmente, como se fosse uma brisa.

Um dia, a viúva Addie Moore bate na porta do viúvo Louis Waters e faz uma proposta singela: O que você acharia de ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo? Os dois estão próximos dos 70 anos de idade e moram no condado de Holt, no estado do Colorado. A cidade é pequena e todos sabem tudo sobre a vida de cada um dos moradores. O que não sabem, inventam. 

Louis, no início, não sabe como agir. Depois, aceita o convite. Um dia após o outro, eles deitam na mesma cama, apagam as luzes e conversam. E assim, antes do sono surgir, vão contando um para o outro (e para os leitores) os fatos mais significativos de suas vidas. Addie fala sobre a morte da filha mais velha, que morreu atropelada aos 11 anos; ele relata sobre a vez que abandonou a esposa e a filha para ir viver com outra mulher. São histórias cotidianas e que são narradas sem muita pressa. A maior alegria do casal está no compartilhar da intimidade, no calor que um corpo transmite ao outro.

Os problemas não tardam a surgir. Alguns vizinhos começam a comentar a situação – que lhes parece incompreensível, absurda, indecente. Salvo raras exceções, criticam a união, que – guardadas as devidas proporções – poderia ser comparada com algum tipo de adultério, uma traição com os mortos.

Kent Haruf (1943-2014)
Depois, surge em cena Jamie, o neto de seis anos de Addie. Os pais do menino estão prestes a se separar. No meio desse tumulto, cabe à avó cuidar temporariamente da criança. Jamie muda a rotina do casal. Ao mesmo tempo, os une um pouco mais. Na companhia do menino redescobrem os pequenos prazeres de morar em uma cidade do interior: jogar softball, ir à feira agrícola, visitar os amigos, acampar, sair para jantar, brincar com um cachorro.

A poesia está presente em cada um dos 43 capítulos do livro, que utiliza a linearidade narrativa e diálogos ágeis e fluentes. Mais do que uma leitura saborosa – apesar das páginas finais se mostrarem ásperas –, Nossas Noites consegue tratar dois temas espinhosos (a solidão e a velhice) com naturalidade. Bela narrativa.


TRECHO ESCOLHIDO


Uma manhã, enquanto ainda estava fresco, os três levaram Bonny para o campo para que ela pudesse correr. Botaram o tubo de proteção na sua pata e foram de carro até o oeste da cidade, até uma estrada plana de cascalho e terra batida. Na beira da vala ao lado da estrada havia girassóis, ervas-saboeiras e tufos de capim florido. Jamie saiu com a cadela do banco de trás do carro e tirou a guia da coleira. Ela ficou olhando para ele, à espera.

Vai lá, disse Louis. Pode correr. Chispa. Ele bateu palmas.

Ela deu um pulo e saiu correndo pela estrada, entrando e saindo da vala, sua pata protegida fazendo estalidos no chão duro da estrada enquanto corria. O menino correu atrás dela. Addie e Louis seguiram atrás dos dois, andando devagar, atentos a eles. Nenhum carro passou pela estrada enquanto eles estavam lá.

Foi uma boa ideia arranjar essa cachorra, disse Addie.

Ele parece feliz, de fato.

Por causa dela e também porque já se adaptou a morar aqui conosco. A dúvida é se ele vai continuar feliz quando voltar para casa.

Os dois voltaram correndo. O menino estava ofegante e com o rosto vermelho. Ela consegue correr direitinho com a pata machucada, disse ele. Vocês viram como ela corre?

A cadela olhou para o menino, e eles saíram correndo de novo. O tempo já estava esquentando, era o meio de julho. Não havia nuvens no céu e o trigo dos campos ao lado da estrada já tinha sido ceifado, o restolho todo ajeitadinho depois de tosquiado. No campo seguinte, o milho formava fileiras retas verde-escuras. Um dia claro e quente de verão.