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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A NOITE QUE NUNCA ACABA

O trash – no pior sentido da expressão – nunca foi uma proposta estética com grande número de admiradores. Os sete contos que compõem A Noite que Nunca Acaba, do potiguar Carlos Fialho, apostam – de forma radical – no estranhamento, ou melhor, no impacto emocional que acompanha o horror. Além disso, o livro está dividido em duas vertentes temáticas que – por definição – deveriam ser opostas. Ao se utilizar de um “gancho” narrativo, o autor conseguiu realizar a proeza de uni-las de forma coerente, embora o resultado final não seja exatamente agradável.

Os três primeiros contos de A Noite que Nunca Acaba induzem um caminho próximo do realismo agressivo que caracteriza a literatura policial – aquela que bebeu na fonte inaugurada pelo Rubem Fonseca e que, recentemente, foi rejuvenescida pelo paraense Edyr Augusto. A história de três amigos de classe alta, travestidos de justiceiros,que resolvem combater a pedofilia e o tráfico de drogas em Natal, capital do Rio Grande do Norte, potencializa a reação de alguns grupos sociais que – ungidos pelo extremismo moralista – estão descrentes da eficiência do Estado como responsável pelo controle social. Essa postura, gerada por um comportamento político discutível, costuma atrair grupos fascistas que, sob a alegação de obter um mínimo de justiça, cometem crimes tão horrorosos quanto os que dizem combater. Em Anjos, o autor, em ritmo de crônica, introduz os personagens e a motivação para as ações. Caídos narra as ações e a prisão do grupo. Renascidos, o mais longo dos textos, elabora, por vias transversas, uma espécie de redenção religiosa, pois (em razão de um fato incidental) consegue premiar assassinos – que, ao final de algum tempo de encarceramento, são inocentados de todos os crimes que cometeram. A selvageria instrumental é substituída pela selvageria jurídica. Além disso, a cena que ocorre no presídio está absolutamente conectada com a realidade concreta que se reflete na incompetência governamental para controlar o poder “intramuros” que existe no mundo carcerário. 

Em alguns momentos, os textos apresentam repetições nas informações – como se desconfiasse da falta de atenção do leitor ou tivessem sido escritos em períodos cronológicos bem distintos (e, obviamente, não foram revisados depois). Um bom editor evitaria esses deslizes, cortaria vários parágrafos e proporia mudanças estruturais. Apesar disso, os três contos funcionam como artefatos literários.

O segundo bloco também está dividido em três contos. A diferença está na quebra da verossimilhança. A Cidade Morta relata a história de Alex de Sousa, que estava servindo em missão humanitária no Haiti. Antes de voltar para casa, ele vai assistir um ritual de vodu. No meio da cerimônia, acontece algo imprevisto e o sacerdote é morto por seus acólitos – um pouco antes de receber dezenas de tiros, morde o braço de Alex. Na viagem para o Brasil, o soldado se sente mal e morre. Em Natal, durante o velório, ressuscita como zumbi. A partir desse momento, o enlouquecimento se torna a constante. O número de mortos-vivos se multiplica de forma geométrica e atinge mais da metade da população urbana. A situação só readquire alguma normalidade quando as Forças Armadas entram em ação e executam o exército zumbi. Refúgio se concentra no isolamento de alguns dos sobreviventes. Dentro do bar “Cowboy’s”, enquanto esperam por algum tipo de salvação, alguns dos integrantes da fauna alternativa de Natal (inclusive Glauco e Fêfo, dois dos personagens dos três primeiros contos) conversam sobre assuntos variados. A trilogia se completa com Vida Nova. Para surpresa do leitor, o texto relata duas histórias de amor. Para fugir da fúria zumbi, Aurélio e Gibson se escondem dentro de um supermercado – onde cometem várias transgressões para poderem continuar vivendo. Em paralelo, Vivian, também sobrevivente do caos, sonha com noites intensas de sexo com Aurélio – que é seu colega de trabalho. Nesse triangulo, a soma do quadrado dos catetos não corresponde ao quadrado da hipotenusa. A adrenalina resultante da luta contra humanos e zumbis aproxima – afetiva e sexualmente – Aurélio e Gibson. Em um restaurante, ao constatar esse fato, Vivian perdeu o apetite por completo e em vários sentidos. O grand finale é espetacular: uma explosão atômica – que destrói a cidade de Natal –  e une, finalmente, os três personagens. Vivian, em momento anterior, em ironia avant la lettre, comenta que até o apocalipse tem o seu lado bom.

O sétimo conto, Com Outros Olhos, parece ter sido incluído no livro para “fazer volume”.   

Ao terminar a leitura, cabe ao leitor decidir se o autor se utilizou do nonsense de A Noite que Nunca Acaba para se divertir ou se o livro constitui uma cristalização literária de algum tipo de acerto de contas com Natown (sic!), a cidade em que vive, e com alguns segmentos sociais e profissionais (Utilizando o apurado senso de oportunidade que lhes é peculiar, os doutores aproveitaram para fazer talvez a coisa que gostam mais do que salvar vidas e cura doentes: ganhar dinheiro). Independente da resposta ou de outra interpretação que possa ser feita, sobra a ligeira sensação de que a união do terror real (primeira parte) com o terror irreal (segunda parte) apresenta alguma originalidade e muita maluquice. Estômagos mais delicados rejeitarão o volume com a alegação de que os sete contos se caracterizam por profundo mau gosto.

TRECHO ESCOLHIDO


No tempo que passaram encarcerados, os estudantes conviveram com alguns dos piores criminosos do RN. Os relatos do período em que estiveram em Alcaçuz feitos pelos agentes penitenciários e guardas do presídio eram surpreendentes. Os garotos andavam livremente entre a bandidagem. Nos momentos de recreação ou banhos de sol, eram sempre vistos em conversas com os demais detentos, inclusive com alguns de vasto currículo criminal. Era notável, inclusive, a aproximação que os presos vinham tendo com o líder do tráfico que atuava também como chefão do presídio, Augusto da Silva, conhecido como “Cheirinho”. O meliante, sempre taciturno, com cara de poucos amigos, demonstrava especial disposição quando na presença dos três rapazes, até mesmo sorrindo bastante e fazendo brincadeiras com eles. Não era o comum. Outros detentos jovens que chegavam a Alcaçuz costumavam sofrer bastante nas mãos dos mais velhos e, quanto melhores fossem suas condições sociais, mais eram importunados pelos novos colegas, alguns até o limite do suportável, sendo vítimas de intimidações, perseguição sistemática, violências frequentes e até abusos sexuais. Aparentemente, não fora o caso dos universitários.  

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A VIOLÊNCIA E A MALDADE EM CINQUENTA FRASES.

Honoré de Balzac (1799-1850)
O prazer é o grande incentivo para o mal. (Platão)   

O poder é a escola do crime. (William Shakespeare) 

A covardia é a mãe da crueldade. (Mihchel de Montaigne)

A violência é a parteira da história. (Karl Marx)

Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil, muita vez indispensável, alguma vez delicioso. (Machado de Assis)

Quando se esfola um cliente deve-se deixar que alguma pele cresça no lugar, para que se possa esfolá-lo de novo. (Nikita Kruschev)

Não entendo como alguns escolhem o crime, quando há tantas maneiras legais de ser desonesto. (Laurence J. Peters)

Qual é o pior crime: assaltar um banco ou fundar um banco? (Bertolt Brecht)

A sociedade se compõe de duas classes; uma que tem mais apetite que jantares e outra que tem mais jantares que apetite. (Nicolas Chamfort)

Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo. (Emil Cioran)

Eu bem que gostaria de requerer a concessão para operar uma guilhotina. Mas, e os impostos sobre os benefícios? (Karl Kraus)

Joseph Conrad, nascido Józef Teodor
Natecz Korzeniowski, (1857-1924)
Devemos perdoar os inimigos – mas nunca antes deles serem enforcados. (Henrich Heine)

As pessoas boas dormem muito melhor à noite que as pessoas más. Claro, durante o dia as pessoas más se divertem muito mais. (Woody Allen)

O crime é a extensão lógica de um tipo de comportamento perfeitamente respeitável no mundo dos negócios. (Robert Rice)

Existem dois modos de combater; um com as leis, outro com a força. O primeiro é próprio do homem, o segundo, dos animais; mas, como o primeiro modo muitas vezes não é suficiente, convém recorrer ao segundo. (Nicolau Maquiavel)

Pessoas do mesmo ramo raramente se reúnem para se divertir. Quando o fazem, sob o manto do lazer, a conversa termina numa conspiração contra o público. Geralmente, num conluio para aumentar o preço do consumidor ou abaixar o preço do fornecedor. (Adam Smith)

Em todos os movimentos e cruzadas, é justamente o psicopata que se torna o líder. (Robert Lindner)

A primeira lei da economia é a escassez: nunca há o suficiente de coisa alguma para satisfazer plenamente todos que a querem. A primeira lição da política é desconsiderar a primeira lição da economia. (Thomas Sowell)

O crime não compensa? E de que é que vivem carcereiros, policiais, fabricantes de cofres, advogados e juízes? (Millôr Fernandes)

Por trás de uma grande fortuna há um crime. (Honoré de Balzac)

Eugen Bertholt Friedrich Brecht
(1898-1956)
Não há nada pior que o ressentimento dos medíocres. (Jorge Luis Borges)

Amor, amizade e respeito não unem as pessoas da mesma forma que o ódio comum a alguma coisa. (Anton Tchekhov)

Quando há sangue nas ruas, está na hora de comprar imóveis. (Barão de Rothschild)

Não é o criminoso que ganha com o crime; são os jornais. (Lima Barreto)

Cada vez que preencho um cargo faço cem descontentes e um ingrato. (Luis XIV)

Quando um homem quer matar um tigre, chama a isso de esporte; quando é o tigre que quer matá-lo, chama a isso de ferocidade. A distinção entre crime e justiça não é muito grande (George Bernard Shaw)

Um crime bem sucedido e favorecido pela sorte é chamado de virtude. (Sêneca)

A crença em uma origem sobrenatural da maldade não é necessária. Os homens sozinhos são capazes de qualquer maldade. (Joseph Conrad)

Se quisermos prevenir a violência, não precisamos de menos democracia. Precisamos de mais. (Frederic Wertham)

No pessimista se combinam uma bondade ineficaz e uma maldade insatisfeita. (Emil Cioran)

Alexandre Dumas, pére (1802-1870)
Muitas vezes fazemos o bem para impunemente podermos fazer o mal. (François de La Rochefoucauld)

Todos os homens são fraudes. A única diferença é que alguns admitem isso. Eu mesmo nego. (Henry Louis Mencken)

 Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade. (Friedrich Nietzsche)

As pessoas não só aceitam a violência quando perpetuada pela autoridade legítima, como aceitam como legítima a violência contra certas espécies de pessoas, não importa quem a cometa. (Edgar Z. Friedenberg)

A perspicácia da polícia é o dom de considerar todo homem capaz de um furto, e a sorte é que a inocência de muitos não pode ser provada. (Karl Kraus)

A tortura é uma invenção maravilhosa e muito segura de perder um inocente de saúde fraca e salvar um culpado que nasceu robusto. (Jean de La Bruyère)

Há muito tempo cheguei à conclusão de que quase todo crime se deve a um desejo reprimido de expressão estética. (Evelyn Waugh)

O crime de pensar não implica na morte. O crime de pensar é a própria morte (George Orwell)

Mais violência por parte da sociedade gerará mais violência daqueles que ela não consegue controlar. (Karl Menninger)

Emil Cioran (1911-1995)
O médico vê o homem em toda a sua fraqueza; o jurista o vê em toda a sua maldade; o teólogo, em toda a sua imbecilidade. (Arthur Schopenhauer)

Todo crime é vulgar, da mesma maneira que toda vulgaridade é crime. (Oscar Wilde)

O mais irritante no amor é que se trata de um crime que exige um cúmplice. (Charles Baudelaire)

Não é que o crime não compensa. É que, quando compensa, muda de nome. (Millôr Fernandes)

Há serviços tão grandes que só podem ser pagos com a ingratidão. (Alexandre Dumas, père)

O crime do futuro é a fraude. Ele vai exigir maturidade, organização e grande domínio de computação. (Igor Melville)

Como devem temer o castigo aqueles que não perdoam a seus inimigos. (Padre António Vieira)

Adam Smith (1723-1790)
A ambição universal dos homens é viver colhendo o que nunca plantaram. (Adam Smith)

O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro. (Barão de Itararé)

Vinte mentiras fazem uma verdade. (Benito Mussolini)

Detesto as vítimas que respeitam seus carrascos. (Jean-Paul Sartre)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

ANTOLOGIA POSTAL

Fiz a assinatura da coleção de poesia Antologia Postal, editada pela Azougue (em parceria com a Cozinha Experimental). Doze volumes que se propõem a mapear parte do versejar recente – embora alguns dos autores que foram/serão publicados não possam ser qualificados como novidades. No mundo a-pós-a-moderna-idade (seja lá o que isso for!), o conceito de literatura contemporânea se tornou fluído, amorfo e indefinido. Ao mesmo tempo em que cataloga uma série de experiências (de linguagem, de técnica e de invenção), ocorre o tropeçar ou a elevação em itens acessórios (pseudo-inovação, variações sobre o mesmo tema, reinterpretação, ressignificação,...). Como resultado dessa salada, surge a multiplicidade de leituras para o poema – e isso é bom. O ruim é que o contemporâneo está mais próximo do monstro criado por Frankenstein do que de algum anjo da Renascença.  

De cada um dos doze livros serão publicados trezentos exemplares numerados – apenas trezentos (diz o editor) – com capa dura revestida em tecido e acabamento manual. Complementando os poemas, há uma entrevista com o homenageado. Tudo isso ao custo de R$ 600,00. Parcelei em quatro suaves prestações mensais. Consegui pagar todas. Para alegria dos editores. Afinal, nestes tempos sombrios, em que todos se queixam da crise econômica, a quantia envolvida na transação não é exatamente um par de moedinhas.

CURRICULUM

(Rubens Rodrigues Torres Filho)


Ser qualquer um mas ter alma de nobre.

Correr perigos sem temor indigno. 

Paquerar a princesa apetitosa.

Vencer o ogro, transformar o rei em sogro.


e envelhecer amado pelo povo.


Inevitavelmente, antes de assumir o compromisso, tive que perguntar para mim mesmo se não estava me envolvendo em uma nova velha versão da proposta que idealiza o livro como fetiche. Quer dizer, essa coleção tem um caráter de obra de arte portátil (valorizada pela excelente trabalho de edição, que facilita a expansão dos poemas pela página em branco), além de ser (por enquanto) inacessível para o grande público. Será que não estava mergulhando em um projeto similar ao que existe em artes plásticas, ou seja, comprar cópias numeradas e assinadas de litogravuras e/ou xilogravuras? Não consegui encontrar uma resposta satisfatória para esse questionamento. Inclusive porque, na contracorrente, cabe entender que o incentivo a planos similares permitirá que a poesia ganhe uma maior visibilidade. E, consequentemente, atrair novos leitores. 

E antes que alguém imagine algo que não escrevi ou pensei, cabe registrar que estou satisfeitíssimo (assim, no superlativo!) por ter aderido ao projeto. Um dos motivos é que, durante algum tempo, muito tempo, para ser sincero, deixei a poesia de lado. Quer dizer, os clássicos continuaram habitando a minha memória, não são raras as circunstâncias que flagro a mim mesmo entoando – como um mantra – algum verso que anotei mentalmente em algum momento da vida. Mas, em consequência dessa negligência, perdi o contato com alguns dos mais importantes poetas dos últimos cinquenta anos. Está na hora de retomar a relação afetiva com a poesia, disse para mim mesmo. Complementando, não posso deixar de citar um item relativamente significativo nessa conversa: a importância da Internet na divulgação do trabalho de alguns escritores. Foi lendo poemas esparsos aqui e ali que percebi o quanto estava desatualizado e que, em ritmo “antes tarde do que nunca”, deveria mudar o curso do barco e singrar novos mares.

COGITO

(Torquato Neto)


eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim


Os três primeiros livros (Roberto Piva, Torquato Neto e Rubens Rodrigues Torres Filho) foram publicados em 2016. O próximo – que deve começar a ser distribuído em breve – abordará a poesia de Guilherme Zarvos, poeta que, lamento informar, desconheço. Poderia fazer uma busca googleana e ler alguns de seus poemas, me antecipando à chegada do volume. Não farei isso, quero desfrutar do prazer que acompanha as surpresas.

Nos próximos meses os assinantes receberão os volumes dedicados a Alberto Pucheu, Carlito Azevedo, Claudia Roquette-Pinto, Claudio Willer, Eucanaã Ferraz, Francisco Alvim, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Josely Vianna Baptista, Leonardo Fróes, Lu Menezes, Paulo Henriques Britto, Renato Rezende e Ricardo Aleixo. Como o número de poetas é superior ao número de livros a serem publicados, imagino que alguns volumes serão repartidos ou haverá uma segunda assinatura para quem quiser continuar participando da brincadeira.                     

SARDANAPALUS

(Roberto Piva) 


corre a língua
louca na superfície
da coxa em fogo
sua voz
sua anca trêmula
na montanha
da morte
eu & você vivemos
o relâmpago
o momento de amor
desatina
você delira

em suor & azul
metais explodem
no ar &

caem em cinzas
na folhagem
tudo respira o
prazer do mundo
corpos elétricos
se encaixam
& se amparam


Diante dos três primeiros volumes, extasiado pelos poemas, e há alguns que são absolutamente geniais, fiz a pergunta derradeira: qual é o propósito da poesia contemporânea?  Sem cair no maniqueísmo que resulta de discussões em que confrontam o certo e o errado, respondo para mim mesmo que nunca acreditei que a poesia possui (muitos) compromissos com as questões práticas. Ou melhor, sei que essas demandas são importantes, mas não são as únicas, e, dependendo da circunstancia, não são as mais significativas (para a poesia). Então, de que deve se ocupar a poesia? Confesso que não tenho a resposta. Às vezes, muitas vezes, sou tomado pela sensação de que jamais terei. Melhor assim. Para quem flerta com o abismo, a poesia multiplica o prazer da aventura. Ou do perigo. Que se no es lo mismo, pero es igual, como disse alguém em outro contexto.

Independente do grau de sofisticação literária ou da relação afetiva do leitor com o seu poeta favorito, a seleção do material publicado, nos três primeiros volumes da Antologia Postal (Roberto Piva, Torquato Neto e Rubens Rodrigues Torres Filho), não merece ser alvo de reprimenda. Além disso, a reunião de alguns poemas do Piva, inéditos em livro, publicados de forma esparsa (revistas, jornais, antologias,...), fornece para a coleção uma grande relevância arqueológica e historiográfica. Em relação aos poemas selecionados de Torquato Neto e Rubens Rodrigues Torres Filho não há novidades. Mas, a leitura de textos como Go Back e Cogito (Torquato) ou Do Vinho para a Água e Curriculum (Torres Filho) equivale ao encontro com um velho amigo – desses que (independente da distância física) sempre estiveram próximos. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

HISTÓRIA DE QUEM FOGE E DE QUEM FICA

O caudal romanesco Tetralogia Napolitana (integrado pelos volumes A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida), escrito pela italiana Elena Ferrante, conta a história da amizade entre Rafaella (Lila, Lina) Cerullo e Elena (Lenu) Greco. Nascidas em um bairro de classe econômica precária (em Nápoles, Itália), as duas mulheres enfrentam o mundo – cada uma a sua maneira. Lila é colérica, pouco disposta a fazer concessões, extremamente inteligente. Lenu é cordata, muitas vezes insegura, intelectualmente esforçada. De alguma maneira, na infância e na adolescência, a primeira domina a segunda.

Em determinado momento, embora continuem unidas, as amigas se separam. Lila prefere – opondo-se aos conselhos que recebe – fazer um casamento de conveniência com um sujeito que todos sabem ser um mau caráter. Lenu – acreditando que encontrou o melhor caminho para fugir da pobreza – vai para a universidade. São escolhas divergentes e que produzem feridas que jamais cicatrizarão.

O terceiro volume dessa saga, História de Quem Foge e de Quem Fica, focaliza uma pedaço da vida adulta das duas mulheres. Lila continua administrando a vida de forma intempestiva. Embora tenha “comido o pão que o diabo amassou”, após se separar do marido, conseguiu sobreviver. Simultaneamente, manteve o orgulho e os ideais em que acredita (com direito a um flerte com o Partido Comunista Italiano). O mesmo não se pode dizer de Lenu, que não encontrou a felicidade na carreira universitária, no casamento ou no relativo sucesso do romance que escreveu.

Na medida em que o universo social, político e afetivo das duas mulheres se expande, a trama adquire novos contornos. Surgem e desaparecem vários personagens – cada um multiplicando as complicações. O clima político, refletido nas lutas (físicas) entre comunistas e fascistas, revela uma Itália fragmentada, sem saber se apoia as lutas sociais ou se regride à Idade Média. Enquanto Lila consegue visualizar objetivamente o microcosmo opressor em que vive (apesar de não encontrar uma forma de superá-lo), Lenu conduz seus interesses para questões intelectuais alienantes. Independente dos óbvios problemas que existem entre essas duas formas – complementares – de enfrentar o mundo concreto, é possível perceber que o “zeitgest” está repleto de nuances e que jamais pode ser reduzido a esquemas binários (verdade e mentira, certo ou errado, razão e sentimento).

A maternidade também se revela em contraste. Enquanto Lila carrega Gennaro para lá e para cá, sem tentar negar que o menino integra uma parte de sua vida atribulada, o nascimento das filhas de Lenu (Adele e Elsa) catalisa uma série interminável de crises. A maternidade em Lila serve para diminuir o egoísmo e construir uma consciência coletiva; a maternidade em Lenu concretiza o colapso afetivo e profissional. Nos dois casos, o adensamento da substância humana supera a superficialidade dos arranjos sociais.

Além disso, é através do espelho literário que se visualiza a condição feminina. Inumeráveis exemplos são projetados na Tetralogia Napolitana. Como uma herança maldita, transmitida pelas mães às filhas, cabe às mulheres sobreviver em um mundo hostil, onde os homens não se constrangem em agredir, ferir, dominar, destruir. Tanto Lila quanto Lenu querem romper com esse círculo vicioso  a questão fundamental está no método com que cada uma delas escolhe para derrubar o muro da opressão.       

Nápoles
É o exame microscópico das diferenças que existem entre Lila e Lenu que estabelece o ponto mais alto da prosa fluida e estonteante de Elsa Ferrante. Seus livros foram escritos para ser devorados de forma ininterrupta. São leituras guiadas pela ansiedade de descobrir o que está escrito na página seguinte. Mas, sobretudo, são textos iluminados pela presença de Rafaella (Lila, Lina) Cerullo, provavelmente uma das personagens femininas mais interessantes da literatura contemporânea.  

– Vocês professores insistem tanto no estudo porque é com ele que ganham a vida, mas estudar não serve para nada, nem melhora as pessoas, ao contrário, torna-as mais cruéis.
– Elena ficou mais cruel? 

– Não, ela não.
– E por quê? 

Lila meteu o gorro de lã na cabeça do filho: 

– Desde pequenas fizemos um pacto: a cruel sou eu.


Entre dramas e tragédias – Lila em Nápoles, Lenu em Florença –, encontros e desencontros, pobreza e riqueza, maridos e amantes, afeto e violência, descobertas e segredos, nada prepara o leitor para o atordoamento. Não há adjetivo mais exato do que esse para expressar os acontecimentos narrados nas ultimas vinte ou trinta páginas de História de Quem Foge e de Quem Fica. A racionalidade e a segurança, elementos que pareciam ser estruturantes no livro, são substituídas pela inversão de papeis entre Lila e Lenu. A linha reta e o andamento seguro se transformam em algo improvável e confuso. Ou melhor, em algo surpreendente.

Em síntese: toda essa complicação tem um significado muito simples: a leitura do quarto volume da tetralogia (História da Menina Perdida) é necessária – e urgente.


TRECHO ESCOLHIDO


Mas logo em seguida retornou ao salão, decidida a dizer o que pensava para não se sentir diminuída. Agora um jovem de cabelo encaracolado estava falando com grande competência sobre a siderúrgica Itadlsider e o trabalho por empreitada. Lila esperou que o rapaz terminasse e, ignorando o olhar perplexo de Enzo, pediu a palavra. Falou longamente, em italiano, enquanto Gennaro se agitava em seu colo. Começou baixinho, depois prosseguiu em meio ao silêncio geral com uma voz talvez muito alta. Disse provocadora que não sabia nada da classe operária. Disse que só conhecia as operárias e os operários da fábrica em que trabalhava, pessoas com as quais não havia absolutamente nada a aprender senão a miséria. Vocês imaginam – perguntou – o que significa passar oito horas por dia mergulhado até a cintura na água de cozimento das mortadelas? Imaginam o que significa ter os dedos cheios de feridas de tanto descarnar ossos de animais? Imaginam o que significa entrar e sair das câmaras frigoríficas a vinte graus negativos e receber dez liras a mais por hora – dez liras – a título de insalubridade? Se imaginam, o que acham que podem aprender com gente que é forçada a viver assim? As operárias devem permitir que chefetes e colegas passem-lhe a mão na bunda sem dar um pio. Se o patrãozinho sentir necessidade, uma delas deve acompanhá-lo até a câmara de maturação – coisa que já o pai dele fazia, e talvez até o avô – e ali, antes de pular em cima de você, esse mesmo patrãozinho lhe faz um discursinho batido sobre como o cheiro dos salames o excita. Homens e mulheres se submetem a revistas corporais, porque na saída há uma coisa chamada “triagem” que, quando se acende o vermelho em lugar em vez do verde, quer dizer que você está levando escondido salames e mortadelas. A “triagem” é controlada pelo vigia, um espião do patrão, que acende o vermelho não só para possíveis furtadores, mas especialmente para moças bonitas e arredias e para os encrenqueiros. Esta é a situação na fábrica onde eu trabalho. O sindicato nunca entrou ali, e os operários não passam de gente pobre e chantageada, sujeita à lei do patrão, ou seja, eu lhe pago e portanto a possuo e possuo sua vida, sua família e tudo o que está à sua volta, e, se você não fizer do jeito que eu mando, acabo com sua raça.   

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A AMIZADE EM CINQUENTA FRASES

Marcus Tullius Cicero (106 a. C - 43 a. C)
– Tu me eras tão querido! Tua amizade me era mais preciosa que o amor das mulheres. (Samuel, 1:26)

– A amizade é muito mais trágica que o amor: dura mais. (Oscar Wilde)

– A amizade é um amor que nunca morre. (Mário Quintana)

Dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade. (Cícero)

A amizade, depois da sabedoria, é a mais bela dádiva feita aos homens. (François de La Rochefoucauld)

– A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro. (Platão)

A amizade é irmã do amor, mas não na mesma cama. (Sophie Arnould)

Amizade, casamento de dois seres que não podem dormir juntos. (Jules Renard)

As ligações de amizade são mais fortes que as do sangue da família. (Giovanni Boccaccio)

– Amizade é como o dinheiro, mais fácil fazer do que manter. (Samuel Butler)

A amizade é como os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa. (Goethe)

A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude). (Simone Weil)

François de La Rochefoucauld (1613-1680)
– Amigo é aquele que sabe tudo a seu respeito e, mesmo assim, ainda gosta de você. (Kim Hubbard)

– Com o tempo, qualquer amigo muito próximo e querido acaba se tornando tão inútil quanto um parente. (George Ade)

– O amor pode morrer na verdade; a amizade, na mentira. (Abel Bonnard)

– Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta. (Millôr Fernandes)

– Perdoamos facilmente nos amigos os defeitos que não nos incomodam. (François de La Rochefoucauld)

As coisas mais desagradáveis que os nossos piores inimigos nos dizem pela frente não se comparam com as que nossos amigos dizem de nós pelas costas. (Alfred de Musset)

– O amigo nunca é fiel. Só o inimigo não trai nunca. O inimigo vai cuspir na cova da gente. (Nelson Rodrigues)

Se na hora de uma necessidade os amigos são poucos? Ao contrário! Basta fazer uma amizade com alguém para que, logo que este se encontre numa dificuldade, pedir dinheiro emprestado. (Arthur Schopenhauer)

– É preferível não ter amigos do que os ter mais nocivos que inimigos. (William Shakespeare)

– Preferia perder meu melhor amigo ao pior inimigo. Para ter amigos só é preciso boa índole; mas quando um homem não tem inimigos, certamente há algo de desprezível nele. (Oscar Wilde)

– A amizade é, acima de tudo, certeza – é isso que a distingue do amor. (Marguerite Yourcenar)

Oscar Wilde (1854-1900)
Nenhum gesto de amizade, por muito insignificante que seja, é desperdiçado. (Esopo)

– A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas. (Carlos Drummond de Andrade)

– A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas. (Francis Bacon)

A amizade é como a sombra na tarde - cresce até com o ocaso da vida. (Jean de La Fontaine)

– Amigo é o sujeito com quem você conversa sem olhar o relógio. (Ulysses Guimarães)

– O que os homens denominaram amizade é somente uma sociedade, zelo mútuo de interesses e troca de bons ofícios; é comércio, enfim, em que o amor-próprio tem sempre algo a ganhar. (François de La Rochefoucauld)

– As amizades mais profundas vêm desse sofrimento a dois, a três. Nunca dissemos nada de importante, mas criamos uma ponte emocional, subterrânea, com os amigos de infância, que, em geral, sobrevivem às intempéries e à corrosão do tempo. (Paulo Francis)

– Seleciono meus amigos pela aparência, meus conhecidos pelo caráter e meus inimigos pelo intelecto. Um homem deve ser muito cuidadoso na escolha dos inimigos. (Oscar Wilde)

– Mais vergonhoso é desconfiar dos amigos do que ser por eles logrado. (François de La Rochefoucauld)

– A amizade desenvolve felicidade e reduz o sofrimento, duplicando a nossa alegria e dividindo a nossa dor. (Joseph Addison)

Nelson Rodrigues (1912-1980)
Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto. (Francis Bacon)

– Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade. (Marquês de Maricá)

– A amizade é constante em tudo, menos nos assuntos do amor. (William Shakespeare)

– Duas mulheres raramente se tornam íntimas, exceto às custas de uma terceira pessoa. (Jonathan Swift)

Convém tratar a amizade como os vinhos, desconfiando das misturas. (Sidonie Colette)

A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor. (Immanuel Kant)

– Uma amizade fundada em negócios é melhor do que um negócio fundado em amizade. (John D. Rockefeller)

– Há na amizade pura um perfume que aqueles que são medíocres não podem respirar. (Jean de La Bruyère)

Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz... (Machado de Assis)

Alfred de Musset (1810-1857)
A glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você. (Ralph Waldo Emerson)

– A julgar pela maior parte de seus efeitos, o amor mais parece ódio que amizade. (François de La Rochefoucauld)

– De madrugada o melhor amigo do homem é o cachorro-quente. (Millôr Fernandes)

– O melhor amigo do homem é o uísque. O uísque é o cachorro engarrafado. (Vinicius de Moraes)

– A melhor maneira de começar uma amizade é com uma boa gargalhada. De terminar com ela, também. (Oscar Wilde)

Em política, a comunhão de ódios é quase sempre a base das amizades. (Charles Tocqueville)

– A intimidade entre as mulheres é sempre ao contrário: começa com a troca de grandes revelações e termina com a troca de abobrinhas. (Elisabeth Bowen)


Só existe um amigo verdadeiramente sincero – o amigo do alheio. (Millôr Fernandes)