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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O DONO DO JOGO

No universo esportivo, o xadrez é o campeão na produção de malucos. De cada dez jogadores, no mínimo três, talvez quatro, possuem algum tipo de distúrbio mental. E raramente são “probleminhas”, desses que se corrige com meia dúzia de sessões de terapia no psicólogo. Nem mesmo o tênis, famosíssimo por produzir “figurinhas carimbadas” no mundo das excentricidades, consegue rivalizar com o jogo de tabuleiro. De acordo com o campeão mundial (1985-2000) Garry Kasparov, Xadrez é tortura mental.

Por outro lado, George Steiner, em um ensaio clássico, Uma Morte de Reis, afirma, com todas as letras, que somente teve conhecimento de três momentos intelectuais em que a genialidade se manifesta na juventude: a música, a matemática e o xadrez. Descontando certas particularidades, as três formas “artísticas” caminham na mesma direção. E isso sinaliza para que um raio de esperança se projete no manicômio geral. Na contramão, muitos jogadores de xadrez conseguiram (mais ou menos) romper com o estereótipo que liga o jogo com as insanidades. Por exemplo, o inglês John Nunn tornou-se doutor em matemática (ele é responsável por importantes contribuições teóricas), o alemão Robert Hūbner é doutor em arqueologia, o russo Mark Taimanov era concertista internacional de piano e o letão Mikhail Tahl ostentava o título de mestre em literatura russa. As contribuições do engenheiro russo Mikhail Botvinik nas áreas de robótica e inteligência artificial (ainda hoje) não podem ser ignoradas. Então, descontadas as exceções, a questão, obviamente, está em canalizar as qualidades do jogo (cognição intelectual, principalmente em relação ao cálculo e à espacialidade) com o mínimo de dano cerebral. Nem sempre isso é possível.

Reykjavik, Islândia, 1972
Quem tiver curiosidade para conhecer uma versão da vida do campeão mundial de xadrez (1972-1975) Robert James Fischer deve assistir O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice. Dir. Edward Zwick, 2015). E, obviamente, procurar, logo depois, pela bibliografia adequada, pois o filme apresenta alguns desvios factuais. Por questões relacionadas com roteiro, há um nítido enfoque na patologia paranoide que alimentou parte da genialidade do jogador estadunidense.

Fischer (interpretado por Tobey Maguire) tinha uma obsessão: tornar-se campeão mundial. Para que isso se transformasse em realidade, não mediu esforços. Em seus delírios persecutórios, criou centenas de culpados por alguns de seus malogros. Algo similar ao dividir o mundo entre aqueles que estavam do seu lado e os que estavam contra. Simultaneamente, o zênite dessa história ocorre durante o ápice da “Guerra Fria”, que foi o embate ideológico e econômico entre a União das Republicas Socialistas Soviéticas e Estados Unidos. Como cada uma das partes puxou a brasa para sua sardinha, incluindo nesse pacote telefonemas do Henry Kissinger, clamando para que Fischer fosse defender a “democracia”, o match do século adquiriu uma importância política que, em outras circunstancias, não passaria de uma série de partidas entre dois lunáticos.

Bobby Fischer, em 1957 (14 anos).
O embate ocorreu entre os dias 11 de junho e 03 de setembro de 1972, em Reykjavik, capital da Islândia. O adversário de Fischer foi o russo Boris Vassielevich Spassky (interpretado por Liev Schreiber) – e que o filme transformou em uma sombra anódina, quase um robô, eternamente de óculos escuros e cercado por guarda-costas. O score dos jogos anteriores entre os dois era assustador: três a zero para o russo (Mar del Plata, 1960; Santa Mônica, 1966 e Siegen, 1970). E que aumentou no inicio do “match”: Fischer cometeu um erro crasso na primeira partida e não compareceu na segunda. Pelas regras vigentes na época, o estadunidense deveria ser desclassificado por abandonar a competição. Depois de muitas conversações e de concessões aos pedidos absurdos de Fischer, que reclamava de tudo e de todos (incluindo várias discussões sobre dinheiro, poltronas, luzes e câmeras de televisão), as partidas foram reiniciadas. E o que aconteceu em seguida foi uma espécie de tsunami. Fischer se impôs com grande facilidade. Com exceção da décima-primeira partida, quando Spassky recuperou um pouco da dignidade, a devastação foi completa. Os fatos estão sintetizados no resultado final: 12,5 x 8,5 (sete vitórias de Fischer, três de Spassky e onze empates).

William James Lombardy
No filme, ao redor de Fischer orbitam duas pessoas: o seu “segundo”, o padre William James Lombardy (interpretado por Peter Sarsgaard), campeão mundial juvenil de 1957, o único estadunidense que havia vencido Spassky anteriormente, e o advogado Paul Marshall (interpretado por Michael Stuhlbarg). Os dois são testemunhas dos diversos surtos psicóticos de Fischer – que, em outro contexto, provavelmente deveria ser internado em alguma instituição para pessoas com problemas mentais.

Do ponto de vista enxadrístico, as partes mais divertidas do filme são as partidas que Fischer e Lombardy jogam nos intervalos dos torneios. Sejam em ritmo “blitz” ou “às cegas”, retratam um mundo onde qualquer outro tipo de entretenimento é excluído – aos jogadores só interessa o jogo! Enfim, como escreveu Ricardo Reis (também conhecido como Fernando Pessoa), Ardiam casas, saqueadas eram / As arcas e as paredes / Violadas, as mulheres eram postas / Contra os muros caídos, / Trespassadas de lanças, as crianças / Eram sangue nas ruas.../ Mas onde estavam, perto da cidade, / E longe do seu ruído, / Os jogadores de xadrez jogavam / o jogo de xadrez. Nesse sentido, o roteiro de O Dono do Jogo foi construído através de uma forma que insinua que Fischer perdeu para Spassky, em Santa Mônica, em 1966, porque cometeu uma transgressão: em lugar de se concentrar na partida, fez sexo pela primeira vez no dia anterior. Total bobagem. Aliás, alguns biógrafos dizem que Fischer havia resolvido a questão sexual seis anos antes, em Buenos Aires, talvez o pior torneio de sua vida (ficou em 14º lugar e das dezenove partidas que jogou, venceu três, perdeu cinco e empatou onze). Conta a lenda que depois desse desastre passou a considerar as mulheres como uma distração a ser evitada!

Boris Vassielevich Spassky,
em 1948 (onze anos)
Como curiosidade enxadrística, O Dono do Jogo é um filme que não pode ser desprezado, embora ignore diversas questões – como o fato de que tanto Fischer quanto Spassky não tiveram a figura paterna presente em suas infâncias e que o xadrez foi uma maneira de superar essa falta. Guardadas as devidas diferenças, eles eram faces da mesma moeda. Outro aspecto relevante, para quem têm um mínimo de conhecimento da história do jogo, está em certas anomalias apresentadas pelo filme. Por exemplo, colocar Fischer reclamando que os russos faziam “jogo de equipe” em 1962, na competição realizada em Varna, Bulgária, configura uma idiotice. A Olimpíada de Xadrez é um torneio por equipes!


P.S.: para quem tiver curiosidade, a dupla cinema e xadrez pode ser encontrada em: Lances Inocentes (Searching for Bobby Fischer. Dir. Steven Zaillian, 1993), Fresh – Inocência Perdida (Fresh. Dir. Boaz Yakin,1994), O Último Lance (The Luzin Defence. Dir. Marleen Gorris, 2000. Baseado em uma novela de Vladimir Nabokov), Xeque-Mate (Joueuse. Dir. Caroline Bottaro, 2009), Jogada de Rei (Life of a King. Dir. Jake Goldberger, 2014).

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

OUTRAS CINQUENTA E CINCO MÁXIMAS E REFLEXÕES DO MARQUÊS DE MARICÁ

– Não é livre quem não tem suficiente inteligência para haver ou defender a liberdade.

– A razão no homem é como a luz do pirilampo: intermitente, pequena e irregular.

– A sabedoria é reputada geralmente pobre, porque se não podem ver os seus tesouros.

– É mais seguro escrever do que falar. Falando, improvisamos; para escrever, refletimos.

– Os sábios enganam-se pensando que são compreendidos por todos, os ignorantes presumindo que todos ignoram o que eles sabem.

– É fácil governar os homens pelo terror; mas é difícil fazê-lo por muito tempo e impunemente.

– O princípio das democracias não é a virtude, mas o ciúme ou a inveja: desejando cada um ser rei, todos se opõem e não consentem que o haja.

– Quem atraiçoa o seu rei não é leal a mais ninguém.

– Quando se faz da traição virtude, ela vegeta em toda parte e sufoca a lealdade.

– Sucede nas revoluções como nas loterias: a perda é de muitos, o ganho de poucos e, em geral, os mais indignos.

– Há verdades que é mais perigoso publicar do que foi difícil descobrir.

– Nos partidos políticos a calunia é moeda corrente que circula sem o menor escrúpulo nem reserva.

– Desprezamos ordinariamente as opiniões alheias quando se não conformam com as nossas.

– Os nossos inimigos contribuem mais do que se pensa para o nosso aperfeiçoamento moral. Eles são os historiadores de nossos erros, vícios e imperfeições.

– O silêncio ainda que mudo é frequentes vezes tão venal como a palavra.

– Vivemos como andamos, querendo guardar equilíbrio e escorregando frequentes vezes.

– A maledicência pode muitas vezes corrigir-nos, a lisonja quase sempre nos corrompe.

– A ignorância tem seus bens privativos, como a sabedoria seus males peculiares.

– Quando a consciência nos acusa, o interesse ordinariamente nos defende.

– Queixam-se muitos de pouco dinheiro, outros de pouca fortuna, alguns de pouca memória, nenhum de pouco juízo.

– Há muita gente infeliz por não saber tolerar com resignação a sua própria insignificância.

– Como a luz em uma masmorra faz visível todo o seu horror, assim a sabedoria manifesta ao homem todos os defeitos e imperfeições da sua natureza.

– O prazer da vingança é semelhante a alguns frutos, cuja polpa é doce na superfície e azeda junto ao caroço.

– Os cortesões vivem sonhando e morrem de pesadelos.

– Os benfeitores imprudentes fazem beneficiados ingratos.

– A virtude remoça os velhos, o vício envelhece os moços.

– Há homens que de repente crescem e avultam, como os cogumelos, pela corrupção.

– A mocidade é temerária; presume muito porque sabe pouco.

A Sagração de Dom Pedro II,
óleo sobre tela de Araújo Porto-Alegre, 1840
– Em tese geral não há homem feliz sem mérito, nem desgraçado sem culpa.

– Há mentiras que são enobrecidas e autorizadas pela civilidade.

– Fingimos desprezar a morte para ocultar o horror que ela nos causa.

– Poucas mulheres se reconhecem feias; nenhum homem, tolo.

– As sociedades humanas deixam de existir ou se dissolvem quando os vícios e crimes sobrepujam as virtudes.

– O amor, como o menino, começa brincando e acaba chorando.

– Os velhacos têm por admiradores todos os tolos, cujo número é infinito.

– O pobre lastima-se de querer e não poder, o avarento se ufana de que pode – mas não quer.

– Ordinariamente tratamos com indiferença aquelas pessoas de quem não esperamos bens nem receamos males.

– Os homens se disfarçam– como as mulheres se enfeitam – para agradarem ou enganarem.

– Folgamos com os erros alheios como se eles justificassem os nossos.

– Há certos passatempos e prazeres ilícitos que censuramos nos outros, mais por inveja do que por virtude.

– O luxo, assim como o fogo, tanto brilha quanto consome.

– Há homens que se tornam importunos, desejando laboriosamente parecer corteses.

– Quase sempre atribuímos os nossos revezes à fortuna e bem raras vezes aos nossos desacertos.  

– Todos se queixam. Uns dos males que padecem, outros da insuficiência, incerteza ou limitação dos bens de que gozam.

– Uma grande reputação é talvez mais incômoda que a insignificância pessoal.

– Quando a fortuna nos maltrata, recorremos à filosofia ou à religião para que nos console e conforte.

O Baile da Ilha Fiscal,
óleo sobre tela de Francisco Figueiredo, 1905
– Há muita gente para quem o receio dos males futuros é mais tormentoso que o sofrimento dos males presentes.

– Os empregos que por intrigas e facções se alcançam, por facções e intrigas se perdem.

– Os maus queixam-se de todos, os bons de poucos, os melhores de ninguém ou de si próprios.

– Agrada mais o nosso amor-próprio a companhia que nos diverte que a sociedade que nos instrui.

– A ignorância nos empregados públicos é talvez mais danosa do que a sua improbidade. Em um jardim causa menos detrimento um ladrão do que um jumento.

– A nossa imaginação gera fantasmas que nos espantam em toda a nossa vida.

– Quando não podemos gozar a satisfação da vingança, perdoamos as ofensas para merecer ao menos os louvores da virtude.

– Não é raro aborrecermos aquelas mesmas pessoas que mais admiramos.


– Ordinariamente nos fingimos distraídos quando nos não convém parecer atentos.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AQUI, NO CORAÇÃO DO INFERNO


Uma menina adolescente, de idade indefinida, 14, 15 anos, moradora de uma cidade minúscula, Santana do Morro Verde, localizada em lugar impreciso, resolve contar uma história estranha, que parece não ter pé nem cabeça, mas que, de uma forma ou de outra, anuncia – lentamente – uma constelação de questões significativas, e que, em algum momento, se tornarão fundamentais. Essa é a espinha dorsal de Aqui, no Coração do Inferno, novela escrita por Micheliny Verunschk. A menina, inominada no princípio, enfrenta as diferenças entre a realidade e a ficção criando um espaço narrativo particular, onde encaixa personagens complicados como o seu pai, o delegado, e o prisioneiro, um menino de uns 14 anos, algemado na cozinha, acusado de matar várias pessoas. Também informa que pesa sobre o réu a acusação de canibalismo. Durante quatro dias de chuva, que interdita a estrada que liga o vilarejo com a civilização, o tempo cronológico fica suspenso, quer dizer, ele continua a escorrer como a areia dentro da ampulheta, mas institui uma desconexão, cria uma redoma, isolando o centro dos acontecimentos do mundo exterior. Nesse interstício, que parece natural, mas que não o é, pois, apesar do isolamento, nada se mantém em suspensão, ocorre o desenrolar do fio narrativo, começo, meio e fim, nesta ordem, embora o desfecho seja dissonante ou desafinado, discordante do andamento de todo o resto, pois conjuga a surpresa, a última peça do quebra-cabeça mostrando o que não havia sido antevisto. É como se fosse deflagrado um tiro, onde o que assombra não é o barulho do disparo, mas o clarão, o relâmpago artificial, o momento em que o espaço-tempo se modifica, revelando que alguém foi atingido. Enquanto a tempestade não se esgota, o texto se esparrama por 121 páginas e 21 capítulos e centenas de parágrafos. Com a limpidez coloquial da prosa que se confunde com a poesia, a linguagem se impondo sobre o enredo, muitas vezes desviando o olhar do leitor, mostrando alguns dos elementos menos importantes e que estão em cena, a narrativa avança vorazmente. Eu acho que nem tudo precisa ser explicado numa história. Se precisasse, não faria sentido existir a imaginação, afirma a narradora, criando novas expectativas ou realçando velhas certezas. A união entre o antes e o depois completa a narrativa circular – e nesse traçado, que tinha tudo para ser parábola ou elipse, a inteligibilidade aparece de tocaia, surpreendendo o leitor: são as páginas finais que garantem a sustentação para um texto que parecia estar escorado na areia movediça. Mas, antes, bem antes das cenas finais, a educação sentimental da narradora oscila entre o abismo sedutor projetado pelo rapaz algemado na cozinha e a transparência sexual oferecida por Luís, um colega de escola. Entre este e aquele, não há como dizer não para a oportunidade, ninguém desperdiça ou nega o sabor agridoce da vida, clausura de freira não rima com a curiosidade. Então, o que tinha que acontecer aconteceu (e não importa se aconteceu mesmo ou não, nessa tessitura somente é verdade o que é narrado ficcionalmente). Mas, também sucedem outras coisas, muitas outras, a existência humana não se modifica porque uma garota resolveu tomar uma atitude diante dos fatos da vida ou gosta de se levantar no meio da noite para vasculhar os inquéritos que o pai traz para casa. Somando tudo, a união das pontas soltas da linha, quando encontram o resto da tapeçaria narrativa, revela um desenho cruel, a maldade acompanhando todas as histórias. Dizem que o destino nunca chega atrasado aos seus compromissos. Aqui, no Coração do Inferno (novela e novelo que simulam uma espécie de faroeste caboclo) aborda as profundezas da História do Brasil com coragem e sensibilidade.



TRECHO ESCOLHIDO 


Papai quer dizer que ele tá fodido. Mas não diz. Ou que a gente tá ferrado. Todo mundo. O Brasil inteiro, o país do futuro. Acho engraçado. Quando eu era mais nova, eu achava que o Brasil era um lugar bem longe, um lugar que eu não alcançava nunca, era uma palavra repetida várias vezes na TV, uma palavra repetida várias vezes por papai. Coisas como a carestia no Brasil, a censura no Brasil, o governo do Brasil, um lugar longe demais, que exigia amor ou abandono. Então eu comecei a entender que o Brasil é aqui, no coração do inferno, com as aulas do professor de português e do professor de história. E foram eles que disseram pra gente na sala de aula, vocês precisam ler para aprender o Brasil. E precisam sair de casa, ir pra rua, pra feira, ouvir as pessoas, pra aprender o Brasil. Os dois disseram, numa aula que deram juntos. Eu presto muita atenção. O problema é que papai traz trabalho pra casa e isso embaralha muita coisa, eu acho. As gavetas dele são muito misturadas e isso é uma merda porque, por mais cuidadosa que eu seja, o que tenho mesmo que fazer é reproduzir o caos dele pra que tudo continue no lugar mesmo que, no intimo, nada esteja mais.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

CINQUENTA E CINCO MÁXIMAS, PENSAMENTOS E REFLEXÕES DO MARQUÊS DE MARICÁ

– Há tolos malignos que fazem mais dano e males que velhacos consumados.

– Há muitos homens que, para escaparem de si mesmos, importunam aos outros com visitas.

– Somos muito generosos em oferecer por civilidade o que bem sabemos que por civilidade se não há de aceitar.

– A companhia dos livros dispensa com grande vantagem a dos homens.

– Não há inimigos desprezíveis, nem amigo totalmente inútil.

– A força sem inteligência é como o movimento sem direção.

– Somos benfazentes mais vezes por vaidade que por virtude.

– Os homens afetam desinteresse para melhor promoverem os seus interesses.

– Muitos homens são louvados porque são mal conhecidos.

– Uma grande qualidade ou talento desculpa pequenos defeitos.

– O interesse adota e defende opiniões que a consciência reprova.

– Os nossos maiores inimigos existem dentro de nós mesmos: são os nossos erros, vícios e paixões.

– A vida humana seria incomportável sem as ilusões e prestígios que a circundam.

– O medo faz mais tiranos que a ambição.

Mariano José Pereira da Fonseca
(1773-1848), Marquês de Maricá
– Nada incomoda tanto aos homens maus como a luz, a consciência e a razão.

– A maior prova da insignificância ou santidade de um sujeito é não ter um só inimigo ou invejoso.

– Os patriotas dizem em voz alta que é doce morrer pela pátria, mas em segredo reconhecem que é mais doce viver para ela e à custa dela.

– Sempre haverá mais ignorantes que sabedores enquanto a ignorância for gratuita e a ciência dispendiosa.

– Os bens que a ambição promete são como os do amor, melhor imaginados do que conseguidos.

– Não é a fortuna, mas juízo somente, o que falta a muita gente.

– Querendo parecer originais, nos tornamos ridículos ou extravagantes.

– As opiniões de um século causam risos ou lástimas em outros séculos.

– Mudai um homem de classe, condição e circunstancias, vós o vereis mudar imediatamente de opiniões e de costumes.

– A sinceridade é muitas vezes louvada, mas nunca invejada.

– Há crimes felizes que são reputados heroicos e gloriosos.

– Os homens mais respeitados não são sempre os mais respeitáveis.

– Os homens, por não desagradar aos maus de quem se temem, abandonam muitas vezes os bons a quem respeitam.

– Quando a cólera ou o amor nos visita, a razão se despede.

– O invejoso é tirano e verdugo de si próprio: ele sofre porque os outros gozam.

– O silencio é o melhor salvo-conduto da mais crassa ignorância, como da sabedoria mais profunda.

– Os bens que a virtude não dá ou não preserva são de pouca duração.

– Não é dado ao saber humano conhecer toda a extensão da sua ignorância.

– Ninguém mente tanto nem mais do que a História.

– A imaginação é o paraíso dos afortunados e o inferno dos desgraçados.

– É mais útil algumas vezes a extirpação de um erro que a descoberta de muitas verdades.

– O pródigo pode ser lastimado, mas o avarento é quase sempre aborrecido.

– Mudamos de paixões, mas não vivemos sem elas.

– A velhice reflexiva é um grande armazém de desenganos.

– Nas revoluções políticas, os povos ordinariamente mudam de senhores sem mudarem de condições.

– Os benefícios mal empregados se convertem em malefícios. 

– Os elogios de maior crédito são os que os nossos inimigos nos tributam.

– Os vícios nos velhos são inimigos acastelados que a morte pode somente expurgar.

– Fingimo-nos esquecidos quando nos não convém parecer lembrados.

– Queixam-se os ricos de poucos cômodos nas suas casas; nas dos pobres, ainda que pequenas, sempre sobeja muito espaço.

– Há muita gente que procura apadrinhar com a opinião pública as suas opiniões e disparates pessoais.

– Não se pode formar bom conceito de quem não tem boa opinião de pessoa alguma.

– Em certas circunstâncias o silêncio de poucos é culpa ou delito de muitos.  

– A riqueza dos tolos é o patrimônio dos velhacos.

– Dói mais ao nosso amor-próprio sermos desprezados, do que aborrecidos.

– Os velhos ruminam o pretérito, os moços antecipam e devoram o futuro.

– A ambição é um enredo que nos enreda por toda a vida.

– O órgão que mais abusamos na mocidade é ordinariamente a sede de nossos males na velhice.

– As virtudes são econômicas; mas os vícios, dispendiosos.

– A impunidade é segura, quando a cumplicidade é geral.


– Os maus não podem viver em solidão: têm medo e horror de si mesmos. 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO

A história das mulheres sempre foi a história de quem se submete ao poder masculino. Essa afirmativa, atualmente, não pode (nem deve) ser considerada como exata. Mas,... Houve um tempo (que não está distante, nem desaparecido) em que as mulheres, por diversos motivos (sobrevivência financeira, emocional, social,...), precisavam abdicar de seus sonhos em favor de uma vida insípida, recatada e voltada ao mundo doméstico e domesticado.

Um desses casos está retratado na figura da protagonista de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, romance de Martha Batalha. Na década de 40 do século passado, momento histórico em que o mundo feminino estava atrelado aos grilhões do casamento, quase todos os sonhos de liberdade de Eurídice Gusmão foram sufocados. Casada com Antenor, um funcionário do Banco do Brasil, mãe de dois filhos, Afonso e Cecília, em determinado momento Eurídice assume uma persona que destoa da mulher forte e inventiva que ela era: Aquela era a mulher comportada, do jeito que Antenor queria. Uma mulher dedicada à casa e às crianças, e que agora se deitava na mesma hora que ele, e não se levantava mais cedo para se entreter com a máquina de costura. Uma mulher que permanecia calada ao seu lado enquanto ele assistia à TV, e que lhe oferecia a testa olhando ligeiramente para baixo, quando ele saía ou chegava do trabalho. Era tudo o que Antenor sempre quis.

Quer dizer, o que ele sempre quis foi esquecer que na noite de núpcias houve um incidente – mas que repercutiu por toda a vida do casal. Eurídice não sangrou. Antenor, nas Noites de Choro e Uísque, costumava reclamar da vagabunda que não se manteve pura para o marido na noite de núpcias. Eurídice precisou carregar por toda a vida essa culpa por algo que, embora lhe fosse atribuído, não constituía a verdade, pois nunca havia se deitado com homem antes do casamento.   

No universo familiar, Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa ou que era hora de acordar para a escola. Nos poucos momentos em que ela tentou romper com a posição passiva que lhe foi determinada pela estrutura familiar as reações antagônicas foram tão intensas que nada lhe restou senão a apatia, o embotamento mental e o cansaço.  

Inicialmente, na juventude, quis estudar flauta. O pai impediu que os estudos musicais fossem adiante. Depois de casada, tentou ser uma grande cozinheira. Copiou as receitas que elaborou em um caderno, talvez pudesse publicar um livro. O marido ao ver tamanho esforço, riu das pretensões da esposa: Deixe de besteiras, mulher. Quem compraria um livro feito por uma dona de casa? Em determinado momento, comprou uma máquina de costuras. Ao perceber que tinha facilidade para costurar, montou um ateliê em casa. O marido, ao tomar conhecimento do empreendimento, vociferou: Então eu me mato de trabalhar naquele banco pra você ter do bom e do melhor e descubro essa feira livre aqui em casa? E, para deixar bem claro a sua visão do mundo, arrematou: Uma boa esposa não arranja projetos paralelos. Uma boa esposa só tem olhos para o marido e os filhos. Eu tenho que ter tranquilidade pra trabalhar, você tem que cuidar das crianças.

Largo do Estácio, Rio de Janeiro, anos 40
Imolada todas as vezes que tentou romper com o casulo, Eurídice acabou murchando. A Parte De Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice prevaleceu. A lucidez somente foi readquirida quando reencontrou a irmã mais velha, Guida – que carregava pela mão um filho quase adolescente.

Guida apostou no amor. Fugiu de casa com o namorado. Viveu um conto de fadas – nos primeiros meses de casamento. Depois, foi abandonada pelo marido. Grávida, sem dinheiro ou qualificação profissional, precisou superar muitos obstáculos. Foi Filomena, prostituta aposentada, que se sustentava cuidando dos filhos de outras mulheres, quem a salvou da miséria. Guida organizou a creche e criou, apesar das dificuldades, o filho. A derrocada final ocorreu vários anos depois, quando Filomena adoeceu. A sífilis cobrou, com juros, os excessos do passado.

Cinelândia, Rio de Janeiro, anos 40
Ao ver a irmã, Eurídice recuperou parte do prazer de viver. Em seguida, (...) a adição de Guida e Chico ao resto da família foi feita de forma natural. Era como se aqueles convidados fossem esperados há tempos, como se fossem aquilo que faltava para a família Gusmão Campelo ficar completa.

As histórias desencontradas das duas irmãs, Eurídice e Guida, e que se passa entre os anos 40 e 60 do século XX, poderiam ser descritas como um conjunto de tragédias ficcionais da pequena burguesia carioca. Exceto por um detalhe, poderiam. Há um componente de veracidade em todos esses episódios que não pode ser desprezado. Como alerta a narradora, no capítulo introdutório: Muitas das histórias descritas neste livro de fato aconteceram e, para que não restem dúvidas, um esclarecimento final: (...) Eurídice e Guida foram baseadas na vida das minhas, e das suas avós. Com um pé na realidade e outro na ficção, o livro mostra o que há de monstruoso quando a criatividade é podada pelo autoritarismo.   

Somente mais tarde, muito mais tarde, Guida e Eurídice conseguem construir algum espaço próprio e, assim, respirar um pouco de ar puro. Ou melhor, conseguem fornecer um pouco de visibilidade à vida invisível das mulheres.     

 Em tempo: 
1) há um personagem secundário muito interessante, Zélia  e que poderia ser aproveitada em outra narrativa. Rainha da fofoca e da maledicência, ela vive na vida dos outros a vida que nunca teve.
2) embora não seja exatamente uma narrativa feminista, e sim um romance de costumes, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão revela que a  violência simbólica, instituída pelo phallus, torna fracos todos os homens. Ou seja, eles não dispõem de uma couraça contra as adversidades. Todos aqueles que entram em cena, no romance, estão desprotegidos contra as adversidades da vida. O machismo de Antenor se desmancha no homem patético, que, de pijama e chinelo, se prepara para dormir cedo. Marcos, o primeiro marido de Guida, típico “filhinho de papai”, pode ser resumido em um único adjetivo: covarde. João, o farmacêutico, não passa de um miserável que se aproveita da desgraça alheia. A personalidade de Antônio, o segundo marido de Guida, é frouxa – ele é um dependente emocional da mãe. O orgulho de Manuel, pai de Guida e Eurídice, o impede de perdoar Guida. Os meninos (Francisco, Afonso) não possuem voz. Enfim, não há salvação para os homens.


TRECHO ESCOLHIDO


As tardes na sala de estar, encarando a estante de livros. De vez em quando Das Dores saía da cozinha para olhar a patroa, os pés esparramados nos chinelos, os braços apoiados na barriga, um deles segurando a colher de pau. Eurídice nem notava, ou fingia não notar. A empregada voltava um pouco triste para a cozinha, balançando a cabeça em negativo. Quando Cecília e Afonso chegavam Eurídice disfarçava e olhava para outros lugares, e quando Antenor chegava ela disfarçava ainda mais, que não queria dar satisfações ao marido.


Talvez tenha sido a constância. Anos e anos sentando-se no mesmo lugar, encarando o vazio na forma de estante. Ou talvez tenha sido porque tinha que ser. O fato é que nessa nova temporada de olhares perdidos Eurídice começou a se sentir diferente. Era uma sensação bastante leve no começo, quase como uma cosquinha. Percebeu que a sensação só aparecia quando ela estava sentada no mesmo lugar, olhando para o mesmo ponto.


Eurídice passou a sentar-se em seu posto menos para olhar o nada e mais para esperar a sensação chegar. A sensação chegava, e encontrava no silencio o espaço para crescer. E foi assim que a sensação aumentou até ser vista por Eurídice, e Eurídice viu que a sensação era isso. A sensação era o dom de ver.


Eurídice viu a estante de livros na estante de livros.


Ela viu a estante de livros.


Levantou-se e passeou a mão direita pelas lombadas. Dostoiévski, Tolstói, Flaubert, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Antonio Candido. Virginia Wolff e George Eliot, Simone de Beauvoir e Jane Austen. Machado e Lima Barreto, Hemingway e Steinbeck. Alguns livros ela tinha lido e esquecido, outros tinha comprado e esquecido de ler. Alguns foram acrescentados por Antenor, que comprava livros como quem compra lanternas: é bom ter em casa os maiores pensadores do mundo, para se um dia precisarmos deles.


Era uma biblioteca sólida. Voltou para o sofá na companhia de um livro, e pela primeira vez em muito tempo dedicou às páginas sua total atenção. Depois pegou outro, e mais outro, e foi ligando os pontos imaginários que faziam de todos aqueles textos apenas um.


Dessa vez Eurídice colocou um de seus vestidos de sair para ir ao Centro comprar uma máquina de escrever. De volta à casa ela abriu espaço na mesa do escritório que até então tinha sido de Antenor. Mandou Das Dores encontrar outro lugar para as apostilas de contabilidade que ele teimava em guardar desde os dezoito anos. Colocou sobre a mesa a máquina de escrever Olivetti e ficou procurando as letras pelo resto da tarde. Tec tec tec era um barulho bom de se ouvir, Das Dores pensou. Enquanto o barulho existisse ninguém na casa estaria olhando para a estante de livros.


Tec tec tec foi o som daqueles tempos. No começo eles eram um pouco lentos, tipo um tec aqui e outro ali. Depois se transformaram num único e constante som, um tectectectectectec que preenchia a tarde inteira, e era tão intenso que deixou de ser percebido como ruído.