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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O QUINTETO DE BUENOS AIRES



Mi Buenos Aires querido, / cuando yo te vuelva a ver, / no habrá más penas ni olvido, canta Carlos Gardel, certamente idealizando uma cidade que nunca existiu – exceto ficcionalmente. Igualmente ficcional é a Buenos Aires de Manuel Vázques Montalbán.

Há diferenças significativas entre uma e outra visão. A segunda, embora seja uma criação “ad hoc”, está muito próxima da realidade geográfica, social e política. Definitivamente, não é uma fotografia para publicar em rede social. Quando José Carvalho Larios, mais conhecido como Pepe Carvalho, sintetiza a cidade através da trilogia tangos, desaparecidos, Maradona, descontada a ironia ferina, percebe-se que a intenção narrativa não é a de negar a História – mas sim de enfrentá-la.

O Quinteto de Buenos Aires foi publicado em Espanha em 1997 (em 2000 no Brasil). E, na medida em que isso está ao alcance de um romance policial, trata-se de uma narrativa centrada na demolição da argentinidade (mudando uma peça aqui, outra ali, também poderia ser a aniquilação da brasilidade). A linha base do enredo é singela: Pepe Carvalho é contratado para descobrir o paradeiro de seu primo, Raúl Tourón, que está na capital portenha. Depois, deve convencê-lo que deve voltar para Barcelona, Espanha, onde, ao lado seu pai, Evaristo Tourón, estará em segurança. A primeira tarefa é relativamente fácil. A segunda, quase impossível – Raúl retornou ao terceiro mundo, depois de muitos anos, para um ajuste de contas com o passado – quer se vingar de sócios desonestos, prantear o luto pela morte da esposa e encontrar a filha desaparecida.

Manuel Vásquez Montalbán (1939-2003)
Pepe Carvalho, no intervalo entre uma e outra etapa desse trabalho, precisa enfrentar vários desdobramentos. Algumas complicações surgem quase que espontaneamente. O passado político da Argentina atinge a todos os que estão em cena – os braços tentaculares do poder costumam asfixiar aqueles que ousam desafinar a ordem geral.

As cenas de corrupção permeiam a narrativa – que se passa no governo de Carlos Menem. Lograr os outros resume a atividade comercial que movimenta aqueles que possuem algum tipo de projeção social. Diante da possibilidade de colocar as mãos em qualquer quantia, cabe ao indivíduo decidir se participará do acordo ou se ficará de fora. Pactuar é o eufemismo adotado nessas ocasiões. A tradução desse impasse – produzido pelo capitalismo predador – pode ser resumida em vários assassinatos e em diversos momentos de violência explícita. Nada que pareça destoante do propósito concreto embora seja sempre assustador.
O contraponto a essa selvageria aparece na figura de um policial honesto, que quer cumprir com o dever custe o que custar. O inspetor Óscar Pascuali, como compete aos homens da lei, não consegue entender qual é o jogo de que participa – e, evidentemente, há um preço a pagar por esse proceder. Suas atividades estão restritas (em muitos momentos) ao observar passivo dos acontecimentos. Ou seja, ele sempre chega atrasado aos lugares onde ocorrem os eventos mais importantes da narrativa – e tenta corrigir esse desacerto gerando mais violência. É a figura mais patética de todo o romance. E isso não quer dizer pouca coisa. Há uma multidão de personagens nas 458 páginas de O Quinteto de Buenos Aires. Alguns deles fogem do estereótipo que povoa a literatura policial. Como definir um empresário que abandona tudo (negócios, família), assume a homossexualidade e resolve se dedicar à proteção de mendigos, vagabundos, aidéticos e viciados de todas as espécies? Além disso, o grande plano do sujeito é a invasão (de forma pacífica) das Ilhas Malvinas (Falklands Islands) para construir alguns falanstérios, onde abrigará os seus “marginais”. A figura mais sinistra, o Capitão, de quem ninguém sabe o nome exato, surge como um espectro maligno. Remanescente do grupo de militares que participou dos governos ditatoriais (1976-1983), se utiliza das informações que obteve em sessões de tortura para manter algum poder. Como os tempos são “outros” – e o passado foi anistiado – faz inúmeras alianças com empresários e políticos. Também se pode considerar como singulares a dançarina de boate que estuda latim, o boxeador que se suicida por amor, o chef de cuisine Drumond, o propriétaire du restaurant Lucho Reyero e um farsante que se diz filho legítimo de Jorge Luis Borges. Ao lado de todos esses excêntricos surge don Vito Altofini, o sócio argentino de Pepe Carvalho: Um homem de uns sessenta anos, cabelos prateados pela luz fluorescente e fixados com brilhantina um tanto ordinária, excessivamente bem vestido, embora se perceba que o terno não é novo, que a camisa já foi lavada várias vezes; de qualquer modo, as abotoaduras reluzem, assim como o alfinete da gravata, os sapatos e os dentes.

Região central de Buenos Aires
A reunião de toda essa gente esquisita resulta em uma imensa e tresloucada confusão. A trama principal vai sendo deslocada para o acostamento, como se fosse acessória, e os temas secundários vão tomando conta da narrativa. A procura pelo primo desaparecido parece não importar muito – há bastante divertimento em Buenos Aires, uma cidade repleta de argentinos deprimidos.

Uma das chaves do romance aparece em uma declaração de don Vito Altofini: A arte me apaixona. Há açougueiros que são artistas, em qualquer ofício se pode ser artista. Aqueles que sobreviveram ao horror promovido pela ditadura argentina vivem em crise de identidade, não sabem se conseguem explicar o mundo através da arte ou da carnificina. Nesse sentido, ninguém se espanta quando a esposa do Capitão, entorpecida de álcool e passado, ao ouvir um barulho, exclama: Um tiro. Foi um tiro. Quem vocês mataram dessa vez?

No capítulo derradeiro, “Assassinatos no Clube dos Gourmets”, a comédia-pastelão se completa. O que até então era uma narrativa comedida, na medida do possível cada coisa em seu lugar, se transforma em sucursal do inferno – mas, é preciso esclarecer, uma filial muito engraçada. Vários assassinatos (alguns absolutamente ridículos), uma tentativa de suicídio, uma tentativa de homicídio, um cardápio gastronômico fantástico. O epilogo de todo esse horror repete a conhecida liturgia: enquanto os mandantes dos crimes permanecem incólumes, os empregados precisam se justificar na delegacia mais próxima. 

O Quinteto de Buenos Aires é entretenimento de excelente qualidade.



TRECHO ESCOLHIDO

 

Carvalho faz uma cara de esfaimado e dirige-se ao balcão do self-service dos professores. Espera sua vez para servir-se. Então, passa diante de cada um dos pratos como se fizesse uma análise secreta dos prós e dos contras do que o bufê oferece. Decepcionado, volta para a mesa de Alma com a bandeja quase vazia, sem outra comida além de um cacho de uva num pratinho, uma garrafinha de vinho e um pãozinho. Alma observa o espetáculo desolador. 

“Não havia nada à altura do paladar de sua excelência?”

Carvalho senta-se e suspira resignado. 

“A se confirmar minha expectativa de vida, calculei que me restam umas sete mil refeições em condições mais ou menos dignas. Não quero me tapear. O que tem aqui não é comida.”

“E os etíopes? Não sabe que os etíopes estão passando fome?”

“Eu tenho sido espanhol por mais de cinquenta anos, e você me vem com essa de etíopes!”

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

NO ESTILO DE JALISCO


A história do futebol brasileiro muitas vezes se confunde com uma série de fracassos épicos (Copa do Mundo de 1950, Copa do Mundo de 1982, Copa América de 2001, Copa do Mundo de 2016). Assim como o “Maracanazo”, serão necessários séculos para esquecer a derrota para a Alemanha (7 a 1). Em todos esses momentos, o ufanismo grotesco projetava o triunfo e coube aos adversários corrigir exemplarmente a soberba. Como na famosa história de Garrincha, faltou combinar com os russos.
                         
Além dessas tragédias explicitas, há outra, menor, e que tem passado despercebida pela literatura. O melhor texto de ficção sobre o futebol brasileiro foi escrito por... um mexicano. Pois é, o país do futebol não consegue passar do nível de um perna-de-pau quando está jogando no campo da literatura. Isso, evidentemente, não quer dizer que o placar esteja em branco. Claro que não. Mas,... Os gols, digo, os romances produzidos por Márcio Américo (Meninos de Kichute, 2003), André Sant’Anna (O Paraíso é Bem Bacana, 2006), Michel Laub (O Segundo Tempo, 2006), Marcelo Backes (O Último Minuto, 2013) e Sergio Rodrigues (O Drible, 2013), entre outros, não parecem ser suficientes para levar o time à primeira divisão. Um pouco mais de categoria (golaço!) pode ser encontrado no texto de Clara Arreguy (Segunda Divisão, 2005), que parece ser um gol de honra, desses que não modificam o placar final. Em relação aos contos, basta lembrar a esqualidez da coletânea 22 Contista em Campo, organizada por Flávio Moreira da Costa em 2006, ou a exceção que é Maracanã, Adeus: onze histórias de futebol, do Edilberto Coutinho, publicado em 1986. 

No Estilo de Jalisco, de Juan Pablo Villalobos, publicado em 2014, é, na falta de palavra melhor, sensacional. Primeiro, porque se afasta da visão trágica do jogador pobre que encontra no futebol uma forma de avanço social e econômico. Nada contra o clichê, mas a bola também rola por outros gramados. Segundo, o uso da linguagem coloquial, repleta de expressões que misturam o espanhol mexicano com o carioquês resulta em um bom achado literário. O texto fica fluído, palatável. Terceiro, permite uma visão exterior de um período histórico pouco abordado pela literatura brasileira. Em livros de memórias políticas, como Os Carbonários (Alfredo Sirkis, 1980) e O Que é Isso, Companheiro? (Fernando Gabeira, 1979), há passagens sobre o ano de 1970 que são preciosidades. Ao mesmo tempo em que sequestravam embaixadores e cônsules, eles estavam diante da televisão, torcendo pela seleção – que foi usada para camuflar a repressão política. Coisa de doido, que foge da racionalidade de quem pretendia combater o governo militar.


Construído como um imenso (e intenso) bloco narrativo (apesar de estar fatiado em três partes), No Estilo de Jalisco conta a história de Juan. Nascido em Guadalajara (capital do estado de Jalisco), Juan viu vários dos jogos do escrete canarinho na Copa do Mundo de 1970. Ficou impressionado e resolveu se mudar para o Brasil aos 18 anos de idade. O tempo foi passando e ele se tornou parte da paisagem. Vários casamentos, incontáveis aventuras. Deslumbramentos. No intervalo entre uma crise e outra, descobriu uma maneira de ganhar dinheiro com a fama do “dream team” brasileiro de 1970. Como não podia contar com o elenco original, imaginou uma representação teatral dos jogos – ou melhor, das principais jogadas. Em estilo empreendedor, vendeu a ideia para um amigo de infância, empresário do ramo de entretenimento. Dezenas de apresentações foram marcadas em cidades do interior do México.

Essa história é contada na mesa de um bar. Seu interlocutor, Jair, não diz uma única palavra. Como compete a um narratário, sua existência literária tem como prioridade não deixar o narrador falando sozinho.

Entre dezenas de canecas de chope e copos de cachaça, Juan conta como foi escolhendo os jogadores, as dificuldades que teve para convencer os atletas/atores. A melhor parte acontece durante a excursão ao México. O espetáculo se transforma em outra coisa – que ele não consegue definir com precisão. Todo mundo ganhou dinheiro, mas,... a associação com Tigre (o amigo) foi muito diferente daquilo que ele havia projetado.  

Muitas das cenas são engraçadíssimas. Soma de trapalhadas, de “causos”, de confusões. As histórias dos dublês dos jogadores brasileiros e uruguaios (sim, vários uruguaios entram nesse balaio de gatos) são inacreditáveis. Desde jogador alcoólatra até o evangélico que exige uma “doação” ao pastor para poder jogar. Há de tudo – e mais um pouco. 

Juan é um excelente contador de histórias, que nunca perde o fio da meada, embora faça algumas divagações – em lugar de atrapalhar o desenvolvimento da história, esses penduricalhos ajudam na construção da atmosfera etílica em que o livro está assentado. Talvez o único senão esteja na inacreditável lucidez de Juan nas páginas que concluem o texto – depois de “tomar todas”, isso não parece verossímil.

Ao final de No Estilo de Jalisco, a grande piada – a vida não fornece sossego para aqueles que querem ser mais espertos do que os espertos. Uma bela metáfora do futebol brasileiro.


Juan Pablo Villalobos morou no Brasil entre 2007 e 2014. Publicou em português, além de No Estilo de Jalisco (2014), Festa no Covil (2012), Se Vivêssemos em um Lugar Normal (2013) e Te Vendo um Cachorro (2015).


TRECHO ESCOLHIDO

 

Na Copa de 78, por exemplo, o desastre foi maiúsculo. Olha o ridículo. O cálculo era que na primeira fase a gente ganhava da Tunísia, empatava com a Polônia e perdia da Alemanha. Ficaríamos com três pontos que dariam um passe para a segunda fase. Sabe o que aconteceu? A gente perdeu os três jogos por goleada. Tem até uma piada famosa da partida contra a Alemanha. O primeiro tempo acabou 3 a 0 pra Alemanha e o goleiro mexicano teve de ser substituído por lesão. Então quando acabou o jogo, o goleiro reserva foi correndo para o vestiário e falou para o goleiro titular que tinha ficado ali sem saber o que acontecia no gramado:

– Empatamos!

O goleiro titular pulou de felicidade:

– 3 a 3?

– Não, disse o goleiro reserva, eu também tomei três.


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O ROCK-AND-ROLL E OS ROQUEIROS EM QUARENTA FRASES



Frank Vicent Zappa (1940-1993)

– Funciona assim: pegue qualquer melodia, seja ela qual for, Beethoven ou música havaiana, toque na guitarra, adicione baixo e bateria, e as pessoas chamarão de rock ‘n’ roll. (Frank Zappa)

– Se você quer ser guitarrista, comece por um violão e aprenda bem até chegar à guitarra. Primeiro é preciso conhecer essa vadia. Ir para a cama com ela. Se não tiver uma garota por perto, durma com ela. Tem a forma perfeita. (Keith Richards)

– Rock tem que ser ofensivo. Tem que soar como pregos arranhando um quadro-negro. (Iggy Pop)

– Quando você faz sucesso com uma banda de rock-and-roll, têm que conviver justamente com as pessoas de quem você queria fugir ao fundar uma banda de rock-and-roll. (Renato Russo)

– Somos mais populares do que Jesus. Não sei o que vai durar mais: rock ‘n’ roll ou cristianismo. (John Lennon)

– O punk rock está morto... E eu matei o maldito. (Billie Joe Armstrong)

– Eu nunca serei um desses caras que tocam um solo maior do que deveria ser. Meus solos complementam a música. A música é mais importante, não o solo. (Slash)

– Prefiro ser louco em um mundo onde os normais constroem bombas. (Raul Seixas)

– Se tentassem dar outro nome ao rock-and-roll, poderiam chama-lo de Chuck Berry. (John Lennon)

Keith Richards (1943 -????)
– Eu tenho o maior medo desse negócio de ser normal. (John Lennon)

– Bandas que dizem preferir tocar em lugares menores, falam isso porque não conseguem lotar um estádio. (Paul Stanley)

– No dia em que Jimi Hendrix morreu, larguei o futebol e resolvi ser guitarrista. (Joe Satriani)

– Morra jovem, permaneça belo. (Kurt Cobain)

– O rock-and-roll retarda o envelhecimento! (Bruce Springsteen)

– Elvis Presley é o big bang do rock-and-roll, o começo de tudo. (Bono Vox)

– O rock ‘n’ roll é o maior amor da minha vida, pois foi através dele que cheguei a todos os outros. (Ozzy Osbourne)

– Rock ‘n’ roll é o blues escapando da blitz, em excesso de álcool e velocidade. (Paulo Merçon)

– As pessoas acham que rock-and-roll é só sobre rebelião adolescente, mas porque não podem existir velhos rebeldes também? (Lemmy Kilmister)

– A música não mente. Se quisermos mudar o mundo, isso terá que acontecer através da música. (Jimi Hendrix)

Billie Joe Armstrong (1972 - ????)
– Temos sido acusados de fazer o mesmo álbum uma dúzia de vezes. Isto é uma mentira suja. A verdade é que fizemos o mesmo álbum 14 vezes. (Angus Young)

– Sinto-me mal por ter ajudado a criar uma música que está deixando as pessoas surdas. (Peter Townshend)

– Quando as pessoas começam a copiar o seu estilo, você sabe que alguma coisa está acontecendo. (James Hetfiel)

– Nunca tive problemas com as drogas. Só com a polícia... (Keith Richards)

– Não sou eu. São as músicas. Eu sou só o carteiro. Eu entrego as músicas. (Bob Dylan)

– Se você quer trepar, vá à faculdade. Mas se você quiser aprender alguma coisa, vá à biblioteca. (Frank Zappa)

– Quando você está crescendo, há dois lugares institucionais que te afetam mais do que qualquer outro: a igreja, que pertence a Deus, e a biblioteca pública, que pertence a você. (Keith Richards)

– Drogas são horríveis. Elas acabam com o seu coração, seu fígado e seu cérebro. E o pior de tudo é que deixam você igual aos seus pais. (Frank Zappa)

– Enquanto houverem garotos chateados, o heavy metal continuará existindo. (Ozzy Osbourne)

– Rock ‘n’ roll não se aprende, nem se ensina. (Raul Seixas)

– Tenho dois objetivos: me divertir e mudar o mundo. Como um astro do rock, posso fazer as duas coisas. (Bono Vox)

Kurt Donald Cobain (1967-1994)
 – Melhor queimar do que apagar aos poucos. (Kurt Cobain)

– Se as portas da percepção forem abertas, as coisas irão surgir como realmente são: infinitas. (Jim Morrison)

– Nós não somos arrogantes, nós só achamos que somos a melhor banda do mundo. (Noel Gallager)

– O cara que disse que dinheiro não compra felicidade, não sabia onde fazer as compras. (David Lee Roth)

– É possível para um homem ser monogâmico. Também é possível parar de respirar – mas não por muito tempo. (Gene Simmons)

– Chegamos a um ponto em que estávamos dormindo com duas ou três garotas por noite e tínhamos que parar. Pelo menos foi o que disse a minha esposa. (Lars Ulrich)

– Sexo, drogas e rock-and-roll: livre-se das drogas e terá bastante tempo para os outros dois. (Steven Tyler)
 
Joseph "Joe" Satriani (1956 - ????)
– Nunca tive uma overdose no banheiro de outra pessoa. Acho que é o cúmulo da falta de educação. (Keith Richards)

– Um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler. (Frank Zappa)

– Rock é a forma de expressão mais brutal, feia, desesperada e suja que já tive o desprazer de ouvir. (Frank Sinatra)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE



Chronos sempre foi um deus impiedoso. Ele se vinga dos mortais através das lembranças – que são recorrentes. Simultaneamente, com a ajuda de Mnemosine, manipula os fatos. Tudo o que (não) aconteceu fica envolto em névoa. A imaginação costuma se manifestar nesses instantes e, por conta de algumas “liberdades poéticas”, torna tudo mais saboroso, menos brutal.    

Em um tempo impreciso, quando os romances policiais tinham importância, ou melhor, mais importância, ler Agatha Christie (1890 – 1976) ajudava a compor um perfil social. Não era aquilo tudo, mas dava para o gasto. Os homens da minha geração (quer dizer, quase todos), junto com centenas de gibis e alguns “catecismos” (Carlos Zéfiro), tinham vários exemplares das narrativas de A Gata Triste (que era como muitos a chamavam). Eram livros perfeitos para dar de presente em festas de aniversário. Salvo engano, ganhei exemplares de O Caso dos Dez Negrinhos (que uma edição politicamente correta recente transformou em E Não Sobrou Nenhum), Um Corpo na Biblioteca, Morte no Nilo, Os Crimes ABC, além de vários outros títulos.

Mais tarde, bem mais tarde, nessa aventura que envolve a leitura, descobri que O Assassinato de Roger Ackroyd, escrito em 1926, é um texto de suma importância para a teoria literária. Ao permitir que o assassino seja o narrador, a brincadeira de gato e rato (descobrir/esconder quem praticou o crime) se transforma: em lugar de ser apenas uma charada complicada, o enredo se concentra em esclarecer a motivação. Essa mudança de perspectiva (do banal para o psicológico) foi incorporada rapidamente por outros escritores (de gêneros narrativos diferentes) e forneceu um novo fôlego ao romance contemporâneo.

Naquele tempo de adolescente sempre tinha um bobalhão que desdenhava a rainha dos mistérios e sacava do bolso um Raymond Chandler ou, em caso do sujeito ser um pedante irrecuperável, um daqueles volumes de mistérios de Ellery Queen. Fazia parte da festa. E a gente – sem a mínima mágoa – pedia, com educação, empréstimo. Que, generosamente, era concedido. Mas, nem sempre.  

Todas essas histórias, que estavam presas na escuridão da memória, vieram à tona porque fui ao cinema ver a mais nova versão de Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express. Dir. Kenneth Branagh, 2017). No elenco estão, entre outros, Kenneth Branagh, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz, Josh Gad, Derek Jacobi, Willen Dafoe, Daisy Ridley, Tom Bateman e Judy Dench. Sintomaticamente, a versão anterior (Murder on the Orient Express. Dir. Sidney Lumet, 1974) também está repleta de “estrelas”: Albert Finney, Lauren Bacall, Anthony Perkins, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Sean Connery, John Gielgud, Vanessa Redgrave,... E antes que passe batido, entre as muitas versões que teve o livro, cabe mencionar Murder on the Oriente Express, feita para a televisão, em 2001, com Alfred Molina, Meredith Baxter, Leslie Caron, Amira Casar, Tasha de Vasconcelos, Amira Casar, David Hunt, Adam James e outros.

Na nova adaptação, o elenco identifica o primeiro ruído. O espectador fica siderado com tantas figuras conhecidas que se esquece de que o grande entrave no diálogo que a literatura trava com o cinema é a ausência de espaço para respirar. Filmes podem ser sintetizados em uma fórmula bastante simples: uma serie de ações que vão preenchendo a imaginação de forma ininterrupta. O desfecho (quase) sempre tem característica de “gran finale”, de apoteose. O espectador (muitas vezes) fica atordoado. Leva um tempo para que o fôlego volte ao normal. E isso significa que as discussões críticas sempre ocorrem na fase post-mortem. Somente os cinéfilos mais fervorosos são capazes de parar a projeção para fazer algum tipo de análise (e isso, evidentemente, não ocorre nas salas comerciais de cinema). A leitura, trilhando sentido oposto, pode ser interrompida a qualquer instante – o tempo não está relacionado com o interesse do leitor. Em alguns casos a reflexão melhora com essas pausas anárquicas.

(Evidentemente, esse raciocínio não pode ser considerado como definitivo ou exemplar. Ao contrário, está repleto de “furos”. E não serei eu quem vai enumerá-los.) 

Em Assassinato no Expresso do Oriente, Kenneth Branagh forneceu uma estatura shakespeariana para Hercule Poirot. O tom de voz, a (im)postura nobiliárquica, o bigode exótico, o figurino adequado, a leitura de romances franceses – a soma dos detalhes ampliando o mito. Infelizmente, o detetive belga não possui o necessário physic du role para tanto esforço. E esse é o segundo ruído. O cinema não aceita heróis banais. Além da inteligência aguçada, precisam ter músculos. Sem vencer uma boa luta corporal, o herói fica desmoralizado – e o produtor do espetáculo começa a imaginar que alguém pedirá a devolução do dinheiro gasto com o ingresso. Em suma, o Poirot da literatura não é o Poirot do cinema.   

Ao acreditar que o enredo é de conhecimento geral (um homem desagradável é morto em um ambiente de difícil acesso) e que o espectador está ali, com os olhos fixos na tela, para ver uma representação de grande qualidade, Branagh apostou no maneirismo. E a grande mística do cinema, a ilusão, evaporou. Ou seja, a empatia com o público diminuiu na medida em que o que a atmosfera deixou de ser realista para se tornar artificial. Teatro filmado não é a “sétima arte” – por maiores que sejam as interpretações dramáticas do elenco.

O roteiro do filme espelha mais confusão. Os fatos narrativos não estão colocados em uma ordem inteligível, ninguém entende o que está acontecendo e a câmera gasta frames revelando a disposição burguesa dos pratos no vagão-restaurante. O desastre ferroviário não reflete a redoma que a natureza produziu naquelas circunstâncias – a interrupção da viagem equivale a uma janela temporal, que permite a solução do crime. Os personagens secundários são mera figuração – “escadas” para que Branagh (Poirot) se projete e domine a cena. Por fim, o método analítico do detetive que deveria ser dedutivo, estabelecendo a conexão racional entre cada uma de suas descobertas, lembra o coelho que o mágico desastrado quase deixa fugir da cartola. A solução do mistério surge por necessidade de encerrar o espetáculo – antes que o vexame se torne maior. O espectador não é convidado a acompanhar o raciocínio, não participa da trama – e, claro, não se envolve.

Assassinato no Expresso do Oriente está longe de ser um filme razoável. E não é sequer um bom entretenimento. Lembrando aquele menino que adorava ir na matinèe de domingo no Cine Tamoio para ver faroestes, mistérios, gladiadores e outras bobagens, sai da sala de cinema frustrado. 
    

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A SABEDORIA EM SESSENTA PROVÉRBIOS




  
– A união do rebanho obriga o leão a ir dormir com fome. (provérbio africano)

– É preferível ser dono de uma moeda do que ser escravo de duas. (provérbio grego)

– Diga a verdade e saia correndo. (provérbio eslavo)

– Não aconselhes o tolo: em qualquer caso ele te culpará depois. (provérbio árabe)

– O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute. (provérbio japonês)

– Viver bem é a melhor vingança. (provérbio basco)

– É possível fazer um leque de aço – jamais uma espada de seda. (provérbio japonês)

– É inútil preocupar-se com os cabelos quando a cabeça está a perigo. (provérbio russo)

– Uma panela de leite é arruinada por uma gota de veneno. (provérbio inglês)




– As palavras boas não quebram nenhum osso. (provérbio francês)

– O mal será sempre o mal – ainda que todos o pratiquem; o bem será sempre o bem – ainda que ninguém o pratique. (provérbio oriental)

– Pode-se cortar todas as flores, mas não se pode impedir o retorno da primavera. (provérbio hindu)

– Ao término do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa. (provérbio italiano)

– A raposa tanto vai ao ninho que um dia deixa o focinho. (provérbio português)

– Aquele que procura um amigo sem defeitos, fica sem amigos. (provérbio turco)

– Quem quer aprender sempre encontrará um professor. (provérbio alemão)

– A melhor oração é a paciência. (provérbio budista)

– Quando o rato ri do gato, há um buraco por perto. (provérbio africano)

– A rosa só tem espinhos para quem quer colhê-la. (provérbio chinês)

– Defeito que agrada o sultão vira virtude. (provérbio árabe)

– Se você conhece o inimigo e a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória sofrerá também uma derrota. Se você não conhece o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas. (provérbio japonês)

– Você não pode ter a manteiga e o dinheiro da manteiga. (provérbio francês)

– Em um restaurante, escolha uma mesa perto de um garçom. (provérbio italiano)


– A paz eterna dura apenas até a próxima guerra. (provérbio russo)

– Todos os gatos adoram peixe, mas odeiam ficar com as patas molhadas. (provérbio inglês)

– Quando o ódio e a vergonha se casam, a filha deles é a crueldade. (provérbio russo)

– A cama é a ópera dos pobres. (provérbio italiano)

– Os visitantes dão sempre prazer, se não quando chegam, pelo menos quando partem. (provérbio português)

– Conforme a vida que leva, um homem pode morrer velho aos 30 anos ou jovem aos 80. (provérbio francês)

– Não pressione demais o covarde que ele vira valente. (provérbio árabe)

– Antes ser covarde por um momento que morto pelo resto da vida. (provérbio irlandês)

– Alguns são tidos como corajosos só porque tiveram medo de sair correndo. (provérbio inglês)

– Quando as teias de aranha se juntam, elas podem amarrar um leão. (provérbio africano)

– Os ricos teriam que comer dinheiro se, por sorte, os pobres não fornecessem a comida. (provérbio russo)

– A árvore quer sossego, mas o vento não para de soprar. (provérbio japonês)

– Se quiser que os outros pensem que você é muito inteligente, simplesmente concorde com eles. (provérbio italiano)

– Meia verdade e uma mentira inteira. (Provérbio iídiche)



– Mais vale acender uma única e minúscula vela do que maldizer a escuridão. (provérbio chinês)

– Não faça nenhuma pergunta e eu não lhe direi nenhuma mentira. (provérbio inglês)

– Não gozes com o mal do teu vizinho, porque o teu vem a caminho. (provérbio português)

– Ninguém testa a profundidade de um rio com os dois pés. (provérbio africano)

– Saber demasiado é envelhecer precocemente. (provérbio russo)

– A inveja é a falta de fé em si mesmo. (provérbio árabe)

– Criança é um anjo cujas asas diminuem à medida que lhe crescem as pernas. (provérbio francês)

– O sorriso custa menos que a eletricidade e fornece mais luz. (provérbio escocês)

– O silêncio é um amigo que nunca trai. (proverbio chinês)

– Um inimigo inteligente é melhor que um amigo estúpido. (provérbio africano)
  

– Passarinho que come pedra sabe o cu que tem. (provérbio pernambucano)

– Saber suportar a cólera é poupar-se de um século de lamentos. (provérbio chinês)

– Os ingleses conquistaram o mundo porque não aguentavam mais a própria cozinha. (provérbio francês)

– As águas passam, as pedras ficam. (provérbio romeno)

– A árvore, quando está sendo cortada, observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira. (provérbio árabe)

– A árvore não nega a sua sombra nem ao lenhador. (provérbio chinês)

– Não se esquenta uma casa com a promessa de lenha. (provérbio russo)


– Quando a sorte entrar em casa, ofereça-lhe uma cadeira para se sentar. (provérbio italiano)

– Deus me dê paciência e um paninho para a embrulhar. (provérbio português)

– Deus não pode estar em todos os lugares – por isso fez as mães. (provérbio judaico)

– A chuva bate na pele do leopardo, mas não tira as suas manchas. (provérbio africano)

– Quem quer ficar bêbado não conta os copos. (provérbio árabe)

– O livro é como um imenso jardim que você pode levar no seu bolso. (provérbio árabe)

– Ler um livro pela primeira vez é conhecer um novo amigo. Ler um livro pela segunda vez é encontrar um velho amigo (provérbio chinês)