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domingo, 1 de setembro de 2019

A ÚLTIMA MULHER



Os leitores dos doze romances escritos por Luiz Alfredo Garcia-Roza nunca se decepcionaram com o delegado Espinosa. Em tempos grotescos e imorais, onde há confusão de identidade entre policiais e bandidos, entre inocentes e pecadores, a forma com que Espinosa observa o mundo parece fora de foco. Mais do que um funcionário público empenhado em desvendar crimes e mortes, o delegado valoriza a ética, as relações afetivas e o bom senso. 

A Última Mulher, difícil dizer de outra forma, é o episódio final da serie. Garcia-Roza, internado em um hospital, está em coma faz alguns meses. Sua esposa, Lívia, costuma atualizar a situação nas redes sociais. 

(...) algum dia tudo isso iria acabar e ele seria apenas uma sombra, um vestígio do que verdadeiramente havia sido: um bom policial. As palavras que concluem o romance curto (117 páginas) possuem sabor de despedida. Em uma narrativa em que o Delegado Espinosa atua como coadjuvante, essa observação soa como uma metáfora melancólica, como que a dizer que nada é permanente e que é hora de ceder o lugar para outros personagens, outras histórias, outros escritores.

Rita, a última mulher do título, protagoniza os episódios mais importantes da trama.

Acostumada com as asperezas da rua, onde costuma ganhar a vida vendendo o corpo, Rita encontra no cafetão Ratto o alicerce. Como as histórias de amor não costumam ter finais felizes, logo surge um obstáculo.

As coisas caminhavam bem, sem maiores conflitos, até o dia que a polícia notou que ele e o Japa prosperavam. Certa noite, sozinho em um beco escuro, sem possibilidade de pedir auxílio, Ratto foi abordado por um policial.

– Proxenetismo, aliciamento e corrupção de menores, formação de quadrilha. Você sabe o que isso significa, seu ratinho de merda? Você vai passar o resto da vida atrás das grades.

Ratto engoliu em seco e perguntou à voz miúda:

– O que nós podemos fazer para nada disso acontecer?

– Nós, não. Você. Te espero amanhã, nessa mesma hora, com cinquenta por cento da grana que tiraram no mês passado. Se eu perceber que estão tentando me enganar, vai ter sido a última vez. 


Toda a estrutura da narrativa está sintetizada nessa cena. O sócio de Ratto, conhecido como Japa, um advogado de porta de cadeia, vive bêbado 24 horas por dia. Eles costumam dividir a féria mensal, depositando uma parte em conta bancária (que é esvaziada de uma hora para outra, deixando Ratto sem um tostão).

Como Ratto não quer se tornar presa dos policiais, resolve desaparecer de cena. Aluga um quarto em um hotel vagabundo na Ladeira dos Tabajaras, tomando o maior cuidado para não chamar a atenção.

Sentindo a falta do parceiro, e temendo que alguma desgraça tenha acontecido, Rita resolve procurá-lo. Suas incursões na Lapa e em Copacabana, na Cinelândia e na Avenida Atlântica descrevem um Rio de Janeiro mítico, onde o submundo e a malandragem reinam. Infelizmente, essa é uma falsa impressão. No embate entre a transgressão e a corrupção, alguns elos da corrente costumam apresentar corrosão a todo instante. Isso significa que o leitor precisa acompanhar, ao longo do texto, várias mortes violentas. O mistério se adensa e fica difícil determinar o que acontecerá. A curiosidade faz com a leitura não seja interrompida.  

Nas escaramuças entre gato e rato, o desejo de destruição se apresenta como abismo. Enquanto Ratto se esconde – mas não de Rita ou de Espinosa, Wallace (esse é o nome do policial) está à espreita, preparando o bote final. E que não demora a acontecer. Nas histórias em que os marginalizados combatem as instituições, apesar do resultado favorável em algumas batalhas, o desfecho da guerra se torna previsível.

Uma onda maior que as demais fez Rita dar meia-volta e retornar com passos mais rápidos, voltando a cabeça repetidamente para trás. Em algum momento, trombou com um homem. No lado esquerdo as ondas passavam molhando a mureta; à direita, apenas a imensa pedra escura que subia dezenas de metros acima de seu corpo miúdo. Não tinha como fugir.

– Wallace manda lembranças – o homem disse.

Rita se desesperou e olhou para todos os lados à procura de Ratto, mas ele não estava lá.   


Luiz Alfredo Garcia-Roza


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

ADIOS CUBA. BIENVENUE FRANCE!


A vida de quem optou por ser “meio intelectual, meio de esquerda”, como definiu o Antônio Prata, nunca foi fácil. Houve um tempo em que os fascistas adoravam me mandar para Cuba. Adoravam. Sempre agradeci a honra. Parece ser um bom destino turístico, a oportunidade ideal para conhecer – ao vivo e em cores – aqueles cenários descritos com intensidade nos romances de Guillermo Cabrera Infante, José Lezama Lima e Leonardo Padura Fuentes.

Habana Vieja

Fascinado com a ideia, ciente de minhas limitações econômicas, solicitei – humildemente – que vários desses próceres da democracia brasileira contribuíssem com “algum” para pagar as passagens, a hospedagem e os mojitos e daiquiris que pretendia beber no El Floridita e no La Bodeguita del Medio. Será que estava pedindo muito? Houve quem discordasse do meu pedido, dizendo (ou melhor, gritando) que, se o meu objetivo era visitar a Disneylândia dos comunistas, que viajasse por conta própria, pagando cada centavo de meu desatino. Triste, pavorosamente triste. Em lugar de se livrarem de mim por dois ou três meses, sim, eu sei que é pouco tempo, mas temos que trabalhar com o possível quando o ideal está distante, essa gente que cultiva o ódio em seus corações de pedra respondeu ao apelo singelo e sincero com adjetivos criativos: “esquerdinha caviar”, “pequeno burguês”, “traidor da miséria” e outros alegres confeitos, alguns, inclusive, fazendo menção às alegrias que incendiaram a vida pregressa da senhora minha mãe.



Então, temporariamente, resolvi adiar a visita a El Molecón, Varadero e Pinar del Rio. Queria me perder nos labirintos de Habana Vieja e me encontrar na Plaza de La Revolución. Tudo isso ao som das músicas de Silvio Rodríguez, Bola de Nieve ou do Habana Social Club. Também ambicionava contrastar o sul do oceano Atlântico com as águas do Caribe. Deixarei de contar (escrever) algumas histórias e não comprarei os livros que me obrigarão a pagar excesso de bagagem nos aeroportos. São muitas perdas – difíceis de contabilizar – nesse catálogo de prejuízos emocionais.   

Quando estava quase acreditando que a bondade humana não passa de uma utopia rota e desgastada pelo egoísmo, recebi uma mensagem dizendo: “agora melhorou para você”. Anexo, um arquivo em que um desses malucos de plantão mandava os desafetos para... Paris! Allons enfants de la Patrie / Le jour de gloire est arrivé!, declamei em alto e bom som!


A troca de farpas entre dois políticos renovou minhas esperanças de viajar. Imediatamente se abriram as portas para criar alguma campanha de crowdfunding. Seria bárbaro (no bom sentido) passear pelas ruas da “cidade luz”. Imaginei longas caminhadas por Saint German des Pres. Sonhei com visitas ao Musée D’Orsay e ao Père-Lachaise – de onde postaria fotos dos túmulos de Balzac, Proust, Oscar Wilde e Jim Morrison. Comprar livros na Shakespeare and Company será evento trivial. Imprescindível assistir algum show no Folies Bergere – simulando aquelas cenas que Henri de Toulouse-Lautrec imprimiu no imaginário contemporâneo. Igualmente indispensável será frequentar o Les Deux Magots, onde poderei beber inúmeras taças de Bordeaux. Doses de cognac, armagnac e pernod também estão nos planos, possivelmente em algum bistrô simpático localizado nas margens do Sena.

Como vantagem adicional, a França fica (mais ou menos) perto de cidades que eu gostaria de conhecer, como Dubrovnik (Croácia), Toledo (Espanha) e Copenhagen (Dinamarca). Na Gare du Nord as distâncias desaparecem e os trens alimentam os sonhos.

Evidentemente, tudo isso é parte de um projeto elaborado por um sujeito deslumbrado, desses que conhecem a Europa apenas em gravuras e mapas (quer dizer... mas isso é assunto para outra hora). Quem pode condenar essa joie de vivre?

Musée D’Orsay

Dando prosseguimento ao plano, começo a pensar em distribuir panfletos virtuais pela Internet afora, na vã expectativa de que algumas almas sejam sensíveis com esse desejo suburbano e contribuam financeiramente para impulsionar o meu temporário exílio em território d’além mar.

Um empecilho é o domínio do idioma. Je ne parle pas français. Aquelas aulas que não frequentei na Alliance Française, quando morei em Florianópolis, farão falta. Outra dificuldade será a moradia. Aos exilados cabe se perder em algum “arrondissement” lá nos cafundós, bem perto de onde Judas perdeu as botas. Como o destino é insondável, talvez seja nesses lugares que o amor vai me encontrar e encantar. Talvez.

Enfim, tudo isso são bobagens menores. Principalmente porque, em todo esse passeio (real ou imaginário), estou cantando – da forma mais desafinada possível – alguns versos de uma canção interpretada por Zaz (nascida Isabelle Geoffroy):

Je veux d’l’amour, d’la joie, de la bonne humeur
C’est pas votre argent qui f’ra mon bonheur
Moi j’veux crever la main sur le cœur

(Eu quero amor, alegria, bom humor
Não é o seu dinheiro que me fará feliz
Quero morrer com a mão no coração).

domingo, 18 de agosto de 2019

QUANDO MEUS AVÓS PRESENTEAVAM OS NETOS

Meus avós, Silvano e Henriqueta, costumavam presentear os inúmeros netos no natal e nos aniversários.

(Pausa para um esclarecimento necessário. Nunca tivemos [meus irmãos e eu] a mínima intimidade com os avós naturais. Do lado de minha mãe, faleceram antes que tivéssemos oportunidade de conhecê-los. Do lado de meu pai,... Ah, eles não eram pessoas acessíveis. Simplificando, minha mãe era “filha de criação” do casal citado acima – que adotaram, em momentos diferentes, várias crianças).

Nunca ganhamos dinheiro, brinquedos ou roupas. Isso não fazia parte do ritual. Os presentes eram outros. Meus avós costumavam oferecer ao homenageado latas de pêssegos em calda ou sabonetes. Nunca mudava. Ou era uma coisa ou outra. Minha mãe orientava os filhos para agradecer e sair rapidamente de cena. Reclamações nunca foram permitidas.

Muitas vezes tentei entender o significado desses presentes. Meu avô era conhecido por ser “pão-duro”. Seria essa a explicação ideal? Estou inclinado a pensar que não. A chave de interpretação pode ser outra. Como eles viveram grande parte da vida, no interior (em uma pequena propriedade, lá nos Morrinhos, coração da Coxilha Rica, distante 40 quilômetros do centro da cidade), sabonetes e pêssegos em calda eram raridades naquele lugar. Imagino que – por um processo psíquico elementar – quisessem oferecer aos netos as preciosidades que poucas vezes lhes foi possível consumir.

Descontando o comentário banal sobre o que motivava o ato de presentear os netos, cabe dizer que as recordações daqueles dias longínquos voltaram à tona duas vezes recentemente em uma espécie particular de parodia. 

Na primeira, um exemplo trivial de quem não tem “madeleine” recorda o passado com o que estiver ao alcance do nariz. Em uma dessas lojas de departamento, que vendem de tudo e mais um pouco, ao me aproximar do caixa, senti um aroma gostoso. Não consegui controlar a compulsão e acrescentei duas caixas de sabonetes perfumados (limão siciliano) às compras. Quis – tantos anos depois – substituir o Lux de Luxe (aquele que era usado por nove entre dez estrelas de cinema), o Palmolive ou o Cashmere Bouquet da infância? Não sei. É possível.  

O segundo episódio foi intermediado pela empregada de minha mãe. Ao telefone, falou: “Dona Vina pediu para lhe avisar que está com vontade de comer a sobremesa da Vó Henriqueta”. Preso pela história comum que tantas vezes quisemos reprimir, fui ao supermercado comprar pêssegos em calda e creme de leite – que foram devorados como se fosse a mais saborosa das iguarias.

Por mais terrível que possa parecer, o tempo costuma nos separar daqueles que amamos. Sobram algumas lembranças fragmentadas  que ficam hibernando em alguma parte da memória. Às vezes,  elas reaparecem e nos nocauteiam. 

domingo, 11 de agosto de 2019

A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS TE VER


Alguns escritores conseguem “extrair leite de pedra”. Pegam um assunto qualquer, acrescentam observações pessoais, lembram histórias paralelas, destacam elementos que pareciam estranhos à questão, estabelecem as diferenças entre o céu e o inferno, e, por milagre ou prestidigitação (que se não é a mesma coisa, possui efeito similar), redigem um tratado pouco convencional sobre o tema. Definitivamente, essa qualidade literária encontra na espanhola Rosa Montero uma expressiva representante.

Em A ridícula ideia de nunca mais te ver a proposta está bem delineada. Através de um pretexto, a morte do esposo, Rosa Montero abre a torneira da escrita e inunda a vida de Marie Curie (nascida Marya “Manya” Skodowska, 1867-1934). O luto, desta maneira, se manifesta na vida do Outro. Puro exercício de alteridade. Desses em que ninguém consegue esconder a curiosidade, seja pelo inusitado, seja porque uma pergunta se sobrepõe: qual foi o elo que ligou a imaginação narrativa e o que está sendo revelado? Não há resposta “linear” para essa questão. O que o leitor percebe é que a dor da ausência na vida das duas mulheres permitiu a construção da ponte literária. Uma ponte pênsil, evidentemente. Dessas que balançam a cada passo, as madeiras e os cabos acenando para o abismo.

Rosa Montero
Rosa Montero raramente menciona Pablo Lizcano, o marido morto. É visível a maneira com que o colocou em segundo plano. A santa deste livro é Marie Curie. Sempre a achei uma mulher fascinante, algo com que quase todo mundo concorda, aliás, porque é um personagem incomum e romântico que parece maior do que sua própria vida. Pierre Curie também não obtém muito destaque. No texto, o “momento de glória” do cientista ocorre quando é atropelado por uma carruagem, o crânio esfacelado por uma das rodas do veículo.

A ridícula ideia de nunca mais te ver foi escrito sob a égide feminista. Ao destacar – de forma incessante – as qualidades de Madame Curie, Rosa Montero repete um mantra contemporâneo: a história das mulheres sempre foi mal contada. Ou melhor, as conquistas femininas sempre foram diminuídas ou usurpadas pelos homens.      

É preciso levar em conta que, até o século XX, as mulheres tiveram bem poucas opções de trabalho. As operárias trabalhavam o dobro e ganhavam a metade de que seus maridos recebiam, mas as de classe média nem mesmo podiam ser empregadas, salvo em alguns poucos ofícios de perfil escorregadio: preceptora, dama de companhia... Não havia outra saída senão fazer isso ou escolher uma das três ocupações tradicionais: freira, puta ou viúva. Digamos que, ao longo dos séculos, esses três lugares foram praticamente os únicos que as mulheres puderam ocupar para reger suas vidas por si próprias e fazer uma boa carreira profissional. Abadessa no convento. Cortesã de luxo. Viúva alegre e altiva, capaz de levar adiante a empresa ou o império do esposo falecido.


“Manya” Skodowska


Marie Curie ganhou dois (dois!) prêmios Nobel. Em 1903, dividiu o de Física com Pierre Curie e Antoine Henri Becquerel (pesquisas sobre radiação). Em 1911, ganhou o de Química (descoberta dos elementos rádio e do polônio). Também foi a primeira mulher a ser admitida como professora na Universidade de Paris. No mundo das ciências – predominantemente masculino – Marie Curie estava em desvantagem. Além de ser uma mulher inteligente, também não tinha nascido na França. A união de machismo e xenofobia costuma causar estragos irreparáveis. Não foi o caso. Marie Curie passou por cima dos preconceitos e provou estar em patamar superior.  

Pierre e Marie Curie
Entre pesquisas teóricas e práticas, sempre trabalhando em condições precárias, Marie Curie ainda teve tempo para criar duas filhas. A mais velha, Irene, casada com outro cientista, Jean Frédéric Joliot, também ganhou o Nobel de Química, em 1935. As pesquisas do casal comprovaram a existência do nêutron e da radioatividade artificial.

Evidentemente, brincar com fogo, digo, com radioatividade, custa caro. E naqueles tempos de pioneirismo em uma das áreas mais perigosas da ciência, os sistemas de segurança eram praticamente inexistentes. Não foram mortes agradáveis ou tranquilas. Ao comentar os últimos dias de vida de Marie Curie, Rosa Montero anota: A debilidade e a fadiga a perseguiram durante décadas, e aos sessenta anos mais parecia uma velha de oitenta. (...) seus últimos anos foram muito dolorosos. O rádio a deixou quase cega, e entre 1923 e 1930 fez quatro operações de catarata. A partir de 1932, as lesões das suas mãos pioraram. Morreu em 1934, aos 66 anos, de uma anemia perniciosa causada sem dúvida pela radiação.

Provavelmente foi esse aspecto – a heroicidade romântica – que despertou em Rosa Montero um sentimento difuso que inicia com a admiração e termina com algum tipo de devoção religiosa. Pontuando diversos episódios da história de Marie Curie, o livro se aproxima perigosamente da hagiografia. Felizmente, a vida da biografada não permite esse desacerto. Partes do diário que escreveu logo depois da morte de Pierre, assim como alguns episódios pessoais, fornecem material suficiente para lhe fornecer humanidade. O grande pecado de Marie Curie se chamou Paul Langevin. A questão básica não está em uma viúva procurar por um novo parceiro amoroso, mas em que o escolhido fosse casado. Para os jornais e para a comunidade científica, Marie era uma devoradora de homens que havia destruído um casal com quatro filhos. Pobre Langevin! Foi seduzido pela “viúva negra”! O que ninguém percebe é que Langevin era um crânio em física e matemática, mas parece que na vida real era bastante idiota. Ou seja, um carente afetivo, desses que ensaiam ir embora e uma semana depois estão batendo na porta, implorando para voltar.

O desdobramento dessa complicação oscila entre o drama e a comédia. Na primeira parte, a Real Academia Sueca (ou algum de seus representantes) enviou um comunicado, solicitando que Marie não fosse a Estocolmo receber o Nobel. Evidentemente que a mulher fria como um peixe (na definição de Albert Einstein) não se deixou abater por essa tolice. Em carta aos suecos, escreveu: (...) o premio foi concedido pela descoberta do rádio e do polônio. Creio não haver qualquer relação entre meu trabalho cientifico e os fatos de minha vida privada.... Na segunda parte, há inúmeras publicações nas páginas de fofocas dos jornais e revistas, vários duelos (onde todos os contendores escaparam sem sofrer sequer um arranhão) e uma cena patética. Vários anos depois desses episódios, Langevin pediu que Marie Curie desse um emprego para uma de suas filhas ilegítimas. Claro que ela atendeu a solicitação.  

Por fim, há uma ironia do destino. Uma das netas de Marie (filha de Irene) se casou com um dos netos de Langevin. Marie Curie não viveu tempo suficiente para ver esse acontecimento, mas se assim fosse, talvez cantarolasse uns versos de Caetano Veloso: Deus é um cara gozador / Adora brincadeira.

A ridícula ideia de nunca mais te ver é um livro misto, desses que misturam a biografia de um personagem e memorias pessoais. A viúva Rosa Montero não se esconde atrás da terceira pessoa ao retratar a vida da viúva Marie Curie. Ao contrário, aceita o desafio. Com um estilo fluído, de fácil leitura, quase uma conversa entre amigos, nunca perde a oportunidade de fazer algum comentário ou acrescentar dezenas de histórias e indicações literárias.


TRECHO ESCOLHIDO

Tenho o costume de dar o manuscrito dos meus livros a uns poucos amigos para que o leiam e o critiquem, assim posso levar em conta suas opiniões antes da última revisão do texto. É um exercício bastante recomendável: você fica tão absolutamente imerso na obra que está escrevendo que precisa desses olhares de fora para poder ganhar certa perspectiva. Um desses amigos, o escritor Alejandro Gândara, me disse: “No livro estão Marie e Pierre, e do outro lado está você. Mas Pablo não está. Há um desequilíbrio.”


Bem, acho que entendo a que se refere e suponho que ele tem razão. Mas é sempre tão difícil escrever abertamente sobre o mais intimo. Pelo menos para mim. Não gosto da narrativa autobiográfica, quer dizer, não gosto de praticá-la. Ler é outra coisa: há grandes autores que, partindo da sua própria vida, são capazes de criar obras-primas, como Proust e seu Em busca do tempo perdido ou Conrad em Coração das trevas. Mas eu sempre precisei recorrer à imaginação para poder expressar minhas alegrias e tristezas. Personagens de ficção são marionetes do inconsciente.


A conexão entre a realidade biográfica e ficção é um território ambíguo e pantanoso onde inúmeros autores se meteram. Para mencionar um, Truman Capote, que, pretendendo se tornar o Marcel Proust americano, publicou numa revista os três primeiros capítulos da sua suposta grande obra, Súplicas atendidas, fazendo com que todas as suas amigas da alta sociedade rompessem com ele, pois se viram retratadas e traídas a tal ponto que uma delas, Anne Woodward, suicidou-se. O fato é que Capote se tornou um viciado, nunca terminou Súplicas atendidas e se entregou desenfreadamente ao álcool e às drogas, um estilo de vida que o levou à morte da noite para o dia. Ou seja, não saber equilibrar direito ficção e realidade pode ter consequências devastadoras.


terça-feira, 23 de julho de 2019

O PENSAMENTO DE CHRISTIAN JOHANN HENRICH HEINE (1797-1856) EM VINTE E DUAS FRASES.



– Aqueles que começarem a queimar livros, logo acabarão queimando pessoas.

– Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos – mas não antes de terem sido enforcados.

– Deus nos deu a língua para que possamos dizer coisas amáveis aos nossos amigos e duras verdades aos nossos inimigos.

– Muitas vezes digo à vida: não me dês tanto, para que não possas me tirar tanto.

– Não há nada mais silencioso que um canhão carregado.

– O amor é uma velha história e, no entanto, sempre nova.

– Ainda não se descobriu a bússola para navegar no alto mar do casamento.

– Nunca vi um asno falante, mas encontrei muitos humanos que falam como asnos.

– Os romanos nunca teriam tempo de conquistar o mundo se tivessem que – antes – aprender o latim. 

– O historiador é o profeta que olha para trás.

– A morte é o ar fresco da noite; a vida, o dia sufocante.

– Se queres viajar até as estrelas, não procure por companhia.

– A flecha deixa de pertencer ao arqueiro quando abandona o arco. A palavra já não pertence a quem a profere, uma vez que ultrapassa os lábios.

– Onde as palavras acabam, começa a música.

– Poucas vezes compreendi os outros. Poucas vezes os outros me compreenderam. Porém, quando nos encontramos na lama, nos compreendemos rapidamente.

– Dentre todas as invenções, a do sono é a mais preciosa.

– Todo delito que não se converte em escândalo não existe para a sociedade.

– Quem na vida nunca foi louco, nunca foi sábio.

– Nunca admito o ato ou o fato, mas apenas o espírito humano. O ato, o fato, são vestimentas e a história não é mais do que o velho guarda-roupa do espírito humano.

– A verdadeira loucura talvez seja a sabedoria que, cansada de ver as vergonhas do mundo, tomou a resolução de enlouquecer.

– O inteligente se previne de tudo. O idiota faz observações sobre tudo.

– Deus vai me perdoar: é o seu ofício.