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segunda-feira, 20 de março de 2017

O RUÍDO DO TEMPO


A troika mais famosa da literatura inglesa se uniu em um pacto ideológico para ressuscitar o período histórico conhecido como Guerra Fria. O mais cosmopolita, Ian McEwan, utiliza falsos romances de espionagem para disfarçar a obsessão (Amsterdam, O Inocente, Serena). Martin Amis adota um estilo menos polido, sem se preocupar em esconder o ódio pelo governo soviético, como comprovam Koba, the Dread (sobre Stálin) e Casa de Encontros. O dissimulado Julian Barnes, dono de uma técnica literária sofisticada, jamais ignorou os temas políticos (O Porco-Espinho, por exemplo), mas,... Sempre se esforçou para ficar à margem das discussões mais específicas. Parecia ter escrúpulos. Ou estava interpretando uma versão patética de Pôncio Pilatos, aquele que não desejava sujar as mãos com sangue.

Essas restrições foram rompidas abruptamente com O Ruído do Tempo, romance que ficcionaliza parte da vida do compositor de música clássica Dmitri Dmitrievich Shostakovich (1906-1975). Ao abrir mão da delicadeza e da elegância que caracteriza a sua prosa (O Papagaio de Flaubert, O Sentido de um Fim, Altos Voos e Quedas Livres), Barnes preferiu baixar o nível e construir um panfleto político. Definitivamente, não é o seu melhor momento.

Dmitri Dmitrievic Shostakovich

Dmitri Dmitrievich nasceu no governo do Czar Nikolai Aleksandrovich Romanov (Nicolau II) e sobreviveu ao poder de Vladimir Ilyich Ulyanov (Lenin), 1917-1924, Iossef Vissarionovich Djugashvili (Stálin), 1924-1953, Nikita Sergeyevich Khrushchev, 1953-1964 e a metade do mandato de Leonid Ilyich Brezhnev, 1964-1982. Durante os seus 71 anos de vida, Shostakovich descobriu que esse não foi o melhor período histórico para ser um artista na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Embora tenha feito de tudo para ficar longe do envolvimento partidário ou do servilismo burocrático, todas as suas manobras de fuga em relação a seguir as determinações do Estado foram inúteis. Muitas de suas músicas foram censuradas, sob a alegação de ser confusão em vez de música ou não estar integrada ao conceito de arte definido pelo Comissário do Povo Andrei Aleksandrivich Jdanov (1896-1948). O Estado tem braços longos e ninguém consegue escapar do abraço da morte.

“Em tempos mais antigos, quando magia e religião eram predominantes, era plausível que os monstros tivessem consciência. Agora, não. O mundo tinha avançado, tinha se tornado mais científico, mais prático, menos dominado pelas velhas superstições. E os tiranos também avançaram. Talvez a consciência não tivesse mais uma função evolutiva e, então, houvesse sido exterminada. Se alguém penetrasse por baixo da pele do tirano moderno, camada por camada, veria que a textura não muda, que granito contém mais granito; e que não há caverna em que se esconda uma consciência a ser descoberta.”


Julian Barnes
Um velho ditado russo, O lobo não pode falar do medo do cordeiro, sintetiza uma das mais importantes questões que separam a política e a arte. Simultaneamente, as crises (políticas, econômicas e culturais) destroem quaisquer tentativas de racionalidade. Nesses momentos, a lucidez é tóxica – e causa danos irreparáveis. Somente aqueles que possuem instinto de sobrevivência conseguem ultrapassar um terreno repleto de armadilhas mortais.

Dmitri Dmitrievich tentou, a sua maneira, obter as necessárias salvaguardas. Não foi tarefa simples. Em todas as oportunidades. E foram várias. O desgaste emocional, intelectual e profissional o levou à beira do precipício diversas vezes. A ideia de suicídio era constante – embora viver fosse superior à hipótese de abandonar tudo e morrer.

“Ele era um homem morto. Contou a Nita tudo o que havia sido dito e, por baixo da aparente tranquilidade, viu que concordava que ele era um homem morto. Sabia que devia proteger todos ao seu redor, e para isso precisava ficar calmo, mas não conseguia controlar o nervosismo. Queimou tudo o que poderia ser incriminador – só que depois de ser rotulado de inimigo do povo e ter o nome associado ao de um assassino conhecido, tudo se tornava incriminador. Teria que queimar o apartamento inteiro. Ele temia por Nita, pela mãe, por Galya, por qualquer pessoa que tivesse entrado ou saído do apartamento.”



O narrador do romance de Julian Barnes (terceira pessoa, onisciente) não procura entender esse esforço. Também não percebe as dificuldades que existem em um governo autoritário, que não tolera qualquer desvio de comportamento ou de quebra da ordem estabelecida. Em diversos momentos, ao descrever os fatos cotidianos, profere o veredito máximo da acusação contra Dmitri Dmitrievich: covarde, alcoólatra, colaboracionista. E o faz em voz alta, para que todos escutem, para que não haja dúvidas sobre o que está sendo pronunciado. Ao difamar a memória de um artista que não pode mais se defender, o narrador se mostra autoritário, sem permitir que haja um mínimo esboço de defesa. Em outras palavras, age exatamente como o poder que quer denunciar.

“Tinha assinado uma carta pública nojenta contra Soljenitsyn, embora o admirasse e relesse constantemente seus romances. Então, alguns anos depois, houve outra carta nojenta denunciando Sakharov. Sua assinatura apareceu ao lado das de Khachaturian, Kabalevski e, naturalmente, Khrennikov. Parte dele esperava que ninguém acreditasse – ninguém podia acreditar – que ele realmente concordava com o que estava escrito naquelas cartas. Mas as pessoas acreditaram. Amigos e músicos se recusaram a cumprimentá-lo, viraram as costas. Havia limites para a ironia: não adiantava assinar cartas enquanto segurava o nariz ou cruzava os dedos nas costas, acreditando que os outros iriam adivinhar que não concordava com aquilo. E então ele tinha traído Tchekhov e assinara denúncias. Havia traído a si mesmo e a boa opinião que outros ainda tinham dele. Vivera tempo demais.”



Quando Stálin morreu e o governo passou de “carnívoro” para “vegetariano”, nada mudou. A pressão não diminuiu. A diferença, se é que se pode chamar de diferença, está no fato de que o poder começou a adotar outros métodos. O stalinismo não desapareceu, ficou mais sofisticado. Se Dmitri Dmitrievich sucumbiu ao sistema, foi porque não tinha mais condições psicológicas de resistir. Era isso ou colocar em perigo aqueles que ele amava. Infelizmente, o narrador se recusa a entender essa obviedade. Ele queria que Dmitri Dmitrievich fosse um herói – por muitos motivos, uma impossibilidade.

“Também aprendera sobre a destruição da alma humana. Bem, a vida não é um passeio no campo, como diz o ditado. Uma alma pode ser destruída de três maneiras: pelo que os outros faziam; pelo que os outros obrigavam alguém a fazer; e pelo que alguém escolhia voluntariamente fazer. Qualquer um desses métodos era suficiente; embora o resultado fosse irresistível quando todos os três fossem combinados.”


O poder político costuma deixar cicatrizes. E ruídos – ensurdecedores. Como um maestro despótico, rege a vida humana sem piedade – exigindo o máximo de cada um de seus músicos. Ao menor deslize, tocar uma nota fraca, por exemplo, o chão se abre aos seus pés e a queda – nesse abismo provisório – produz danos irreversíveis.   

“(...) tinha vivido o suficiente para se decepcionar consigo mesmo. Isto era frequente com os artistas: ou sucumbiam à vaidade, achando-se melhores do que eram realmente, ou então à decepção. Atualmente, tendia a se achar um compositor chato, medíocre. A insegurança dos jovens não é nada comparada à insegurança dos velhos. E esta, talvez, fosse a maior vitória deles. Em vez de matá-lo, tinham permitido que vivesse, e ao permitir que vivesse, o tinham matado. Essa era a ironia final, irrefutável, da sua vida: o fato de que, permitindo que ele vivesse, o tivessem matado."


O Ruído do Tempo, do ponto de vista técnico, possui inúmeras qualidades. Provavelmente a mais significa está relacionada com a divisão fragmentária – com parágrafos longos – do texto permite que o leitor visualize com nitidez o enredo – e tente compreender alguns dos fatos mais importantes das décadas de 40. 50 e 60 do século passado. Impressiona o poder de síntese de Barnes, que consegue resumir em 173 páginas toda uma vida. Em compensação, a abordagem ideológica, que visivelmente deprecia Dmitri Dmitrievich Shostakovich, compromete todo o trabalho. 

terça-feira, 14 de março de 2017

DOM CASMURRO

Não tenho certeza de quantas vezes li Dom Casmurro, de Machado de Assis. Provavelmente mais de seis. Para não entrar em contradição, ou produzir alguma mentira grosseira, vamos aceitar que seis é um bom número, afinal sete é conta de mentiroso (como dizia minha avó) e cinco me parece pouco. Foram leituras realizadas em circunstâncias diferentes. Desde a simples curiosidade para conhecer um livro importante da literatura brasileira até o sadismo de analisar, sob a ótica acadêmica, a patologia comportamental de um homem que acredita ser vítima do adultério. Ou melhor, de um indivíduo que se sente traído duplamente: pela esposa e por seu melhor amigo. De qualquer maneira, foram vários encontros com o romance e todos muito proveitosos.

Minha última leitura aconteceu recentemente, logo depois que comprei uma nova edição do livro. É um volume bonito. E caro. Muitas pessoas dirão que é mais caro do que bonito. Questão de opinião, evidentemente. De minha parte – não posso deixar de confessar –, sinto grande prazer em folhear a publicação. O gozo se amplia sensorialmente com a textura e o cheiro do papel. As intervenções gráficas de Carlos Issa são visualmente interessantes. Ele usou diversos recursos artísticos (letraset, tinta, lápis, fita adesiva) sobre fotografias antigas. O projeto gráfico, de Tereza Bettinardi, faz referências à edição princeps da Livraria Garnier, de 1899 – e ficou muito bonito. Por fim, os volumes com capa dura ampliam esse fetiche que chamam de bibliofilia.

Com relação à carpintaria literária de Machado de Assis, o elemento que mais me agrada é a fragmentação. Como as narrativas mais importantes do “bruxo do Cosme Velho” foram publicadas, inicialmente, em jornal, sob a forma de folhetim, ele tinha incrível domínio do “gancho”; ou seja, desse truque que é construir a narrativa de tal forma que a atenção do leitor não desapareça e, mais importante, que ele fique ansioso para ler o próximo capítulo    que só virá na próxima publicação (se vier!). Ao mesmo tempo, a técnica da fragmentação (pequenos capítulos) possibilita a introdução de novas situações narrativas, outros personagens e um melhor controle cronológico (o tempo narrativo vai e volta do passado com frequência). É um jogo. As peças do quebra-cabeça são distribuídas lentamente pelo texto. O desenho final, que parece estar fora do alcance do leitor, somente se revela, na sua plenitude, na última página. 

Dom Casmurro ficou famoso por um rótulo machista: o possível adultério de Maria Capitolina Pádua, a Capitu. Durante muitos anos, no século passado, era comum promover juris simulados entre os alunos do segundo grau para discutir se a dona dos “olhos de ressaca” havia traído o marido. Mas, eliminando a visão de que as mulheres são capazes de atrocidades indescritíveis, não há nada no romance que comprove, cartesianamente, que aconteceu isso ou aquilo. Há apenas suspeitas. Imagens produzidas pela insegurança de Bentinho ou... Por algo mais.

São dois os momentos cruciais. O primeiro ocorre no enterro de Ezequiel Escobar, que morreu afogado. (...) Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas. A escolha cuidadosa das palavras pelo narrador parece ser o preâmbulo de uma peça jurídica de acusação, onde Capitu jamais terá voz ou direito de defesa. O advogado Bento de Albuquerque Santiago se transforma em promotor – aquele que não tem misericórdia pelo acusado, que quer a condenação máxima!

O segundo episódio ocorre quando Bentinho vê no filho, que também se chama Ezequiel, algumas semelhanças físicas com Escobar.

Aproximei-me de Ezequiel, achei que Capitu tinha razão; eram os olhos de Escobar... (...) Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quase, até que a família pendura o quadro na parede, em memória do que foi e já não pode ser. Aqui podia ser e era. (...) Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã ou pedir-me à noite a benção do costume. Todas essas ações eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matá-los a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. 


Somando essas impressões, cabe ao narrador em primeira pessoa, Bentinho, decretar que a traição aconteceu. John Gledson, um dos estudiosos mais instigantes da obra de Machado de Assis, sugere outra interpretação: Bentinho nutre por Escobar sentimentos mais significativos que os de amizade. No tempo em que foram colegas de seminário pode (ou não) ter acontecido algo que o narrador subtraiu. Assim – embora Gledson não tenha escrito isso –, em uma abordagem contemporânea, dessas que misturam psicanálise de botequim e um incerto preconceito sexual, ao ver a imagem física do amigo no rosto do filho, ele fica furioso com a infidelidade de... Escobar! Pouco lhe importa que a mulher o tenha traído, o que não aceita é que essa deslealdade tenha sido praticada por aquele por quem ele tinha sentimentos intensos (porém recalcados). Trocando em miúdos, toda a sua raiva, canalizada para Capitu, está sedimentada em fontes homoeróticas. Evidentemente, esse raciocínio torto, e completamente discutível, ainda precisa ser mais bem analisado e discutido.

No plano concreto, Capitu e Ezequiel, o filho, são vítimas do ostracismo. Uma vez decretada a sentença, cabe o exílio. Eles são enviados para a Europa, sem direito à passagem de volta. Dessa forma arbitrária e autoritária, Bentinho se isola do que imagina ser a desgraça e passa a viver entre a solidão, o mau-humor e a melancolia.

Alguns anos depois, Ezequiel regressa ao Rio de Janeiro. É recebido friamente por seu pai: Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai. Na mente de Bentinho, não resta espaço para dúvidas. Ele vive de certezas.

Para completar o cenário de vingança, depois de seis meses, o rapaz vai viajar e morre de febre tifoide. Como Bentinho reage à morte do filho? (...) foi enterrado nas imediações de Jerusalém, onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição, tirada do profeta Ezequiel, em grego: “Tu eras perfeito nos teus caminhos”. Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava; pagaria o triplo para não tornar a vê-lo.

A última frase (pagaria o triplo para não tornar a vê-lo) é de uma crueldade incomensurável. Mas, o horror se torna maior no parágrafo seguinte: 

Como quisesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, e achei que era exato, mas tinha um complemento: “Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia de tua criação”. Parei e perguntei calado: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?” Ninguém me respondeu. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro.


Jantei bem e fui ao teatro, diz Bentinho, sem esboçar a mínima culpa. A rejeição da paternidade ocorre através do ódio e da dissimulação. O irônico dessa situação está no fato de uma das maiores acusações contra Capitu é exatamente a dissimulação (Olhos de cigana oblíqua e dissimulada, segundo a célebre definição de José Dias).

Dom Casmurro sofre do pior dos defeitos do realismo do século XIX: centraliza na figura feminina a culpa por todos os pecados do mundo. Ver, entre outros exemplos dessa prática, Madame Bovary (Gustave Flaubert), Naná (Emile Zola), O Primo Basílio (Eça de Queiróz), As Ligações Perigosas (Choderlos de Lacros) e Anna Karenina (Liev  Nikolayevich Tolstoi).

Escrito na forma de bildungsroman (romance de formação), o livro conta, em ordem não cronológica, a história de Bentinho desde a infância até a velhice. Na medida em que os fatos vão se desenrolando diante dos olhos do leitor, revelando e escondendo – lentamente – algumas coisas, insinuando outras, a possibilidade da traição da esposa é um dos itens que compõem a narrativa. Capitu é apenas um dos personagens. Simples assim. Por outro lado, cabe lembrar que as histórias de Maria da Glória Fernandes Santiago, Pedro de Albuquerque Santiago, Cosme, João Pádua e Fortunata, Justina, Sacha e, sobretudo, José Dias (um dos personagens mais pitorescos de Machado de Assis) são soterradas pela avalanche de acusações contra Capitu.

O delírio de Bentinho não tem limites – independente de ser verdadeiro ou fantasia. Cabe aos novos leitores de uma das mais brilhantes narrativas da literatura brasileira superar essa obsessão e propor outros olhares.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A TETA RACIONAL

Em um universo literário, onde se misturam dezenas de questões relacionadas com os afetos familiares, principalmente os que estão relacionados com mães, pais e filhos, os dez contos que integram A Teta Racional, de Giovana Madalosso, conseguem quebrar a espinha dorsal dos sentimentos e, simultaneamente, derrubar o muro que separa a hipocrisia de algumas das questões mais perturbadoras. Em cada uma das narrativas, com uma sinceridade que assusta os leitores despreparados para enfrentar as catástrofes, a(s) narradora(s) abre(m) a caixa de ferramentas e produz(em) um estrago considerável.

Contemplando a volatilidade dos afetos, a maternidade em primeiro plano, não há a mínima preocupação com o endeusamento do que está sendo descrito. A vida como ela é exige doses maciças de honestidade. Sem desculpas esfarrapadas, sem condescendências, sem estereótipos. Algo similar ao dizer que Mater Dolorosa é a puta que o pariu. Sem cuspe. Sem elegância. Da forma mais crua possível. Postura de lutador de boxe. Ignorando o sossego. Ou o anestésico. No máximo, revelando as benesses terapêuticas do distribuir uma meia dúzia de bons socos na acomodação.       

A maternidade coloca em xeque a organização do mundo. Ou melhor, coloca em dúvida a importância dos homens. Essa é ideia que movimenta XX + XY, conto que apresenta a perspectiva da mulher que, depois da gravidez, recusando a ajuda do pai da criança, precisa cuidar do filho. Ela escolhe esse percurso – sem emitir lamentos. Ao mesmo tempo, ao narrar a aventura, não esconde as dificuldades – que surgem a todo instante. Precisando enfrentar um mundo antagônico, onde trocar fraldas e, no meio da noite, tentar fazer a criança parar de chorar são questões diárias, a mulher consegue sobreviver. Apesar do cansaço. Ela descobre, da pior maneira possível, que na vida não há trégua. Nada é mais complicado do que ser autossuficiente e bem-sucedida ao mesmo tempo.  

Às vezes eu ficava olhando para o meu filho e pensando o que ia dizer quando ele me perguntasse como conheci o pai dele. Ou, pior ainda, o que ia dizer se ele me perguntasse em que situação foi concebido. Porque a verdade, claro, não envolve flores nem serenatas. Tampouco amizade ou o singelo desejo de maternidade por trás de uma inseminação. A verdade, eu teria que dizer para ele, é que a mamãe andava tão a fim de dar que abriu as pernas para um cara de quem ela nem sabia o nome.


No conto homônimo ao título do livro, essa mesma mulher (ou outra) se supera diante dos problemas que surgem na segunda frente de batalha: o trabalho. Para demonstrar que é uma profissional competente, por alguns instantes precisa esquecer que do outro lado do espelho está a maternidade.   

Estou trancada no banheiro da agência ordenhando. Ajeito a peça plástica em volta do mamilo, aperto a válvula com força, vejo o leite esguichar pela cânula e cair dentro da mamadeira. Eu poderia fazer isso de olhos fechados. Poderia fazer isso de olhos fechados assobiando o hino do Brasil. Faço isso quatro vezes por dia, cinco vezes por semana. Depois guardo a mamadeira na geladeira da copa e, à noite, volto para casa carregando os frascos a tiracolo, como um entregador de leite. No dia seguinte, a babá serve tudo para o meu bebê.


Por que será que até amar tem que ser tão difícil?, pergunta a narradora, em um desses momentos em que tudo parece ser crise, tumulto, incerteza. Enquanto tenta entender esse impasse, surge em cena – como um doppelgänger – o enfrentamento com a própria mãe. Que, obviamente, conjuga outra cartilha. Quer dizer, mesmo naquilo em que são semelhantes, as duas mulheres possuem valores opostos. Em Suíte das Sobras, o conflito torna-se uma constante. Somente o improvável consegue reaproximar duas pessoas tão diferentes.          

Sentamos debaixo de um desses balanços. Eu sei por que ficamos o almoço todo em silencio, só ouvindo o balanço ranger, cansadas demais para puxar algum assunto que forjasse o nosso desconforto. Desde que acordamos, o clima entre nós estava estranho, uma espécie de ressaca do que dissemos e, principalmente, do que não chegamos a dizer uma para outra no farol. Além disso, não dava mais para esconder: havia dezesseis anos de afastamento entre nós. Era impressionante o quanto eu podia ser tão intima e tão distante de uma pessoa ao mesmo tempo. Enquanto comia, fiquei pensando sobre o que ela e minha irmã deviam conversar: roupas, negócios, amigos em comum, e que é a partir de estruturas assim, corriqueiras, que se constrói o amor.


Mesmo percebendo que a intolerância precisa ser afastada para que a intimidade surja, ainda há grandes dificuldades, muitas feridas abertas. Inexplicavelmente, o mesmo não acontece quando se trata do relacionamento da filha com o pai. Em Jardim, a cumplicidade aparece em tom menor, quase inadvertida, com a delicadeza de um bonsai.

A amizade – um tipo de afeto que não precisa se restringir às obrigações familiares –, ou melhor, a celebração da amizade está espelhada em A Paraguaia. Trafegado entre o logos (razão) e o pathos (paixão, sofrimento, dor), as duas amigas, colegas no curso de jornalismo, percebem que Eros tem as melhores cartas na mão (e na manga). Ou seja, elas procuram viver, enquanto podem, la loca vida loca dos bares, das festas, dos namoros inconsequentes.

Entramos no carro e abrimos o embrulho. A taca era enorme, valia pelo menos o dobro do que pagamos. A paraguaia se olhou no retrovisor. Perguntei se ela estava pensando em sair com o Cadão. Quem sabe, ela disse. Contei para ela sobre a maconha dentro da caixa de som. Ela riu. Se for sair com ele, vai ser só uma vez, apenas para dizer que tenho um traficante sem dedo no currículo. E aumentou o som.


São tantos equívocos, são tantas as complicações, que o desfecho desse conto – muitos anos depois – parece um clichê. Obviamente, há sutilezas. Nem tudo pode ser definido pela primeira impressão.

O estranhamento (momento de perplexidade) surge em Roleta-Russa” e Idiota Outra Vez, duas narrativas que colocam em discussão a homossexualidade masculina. Na primeira, uma travesti, HIV positivo, é convidada para participar de uma orgia. Na segunda, situada na Turquia, a identidade religiosa contrasta com a identidade de gênero. Nos dois casos, falta felicidade para esses personagens – eles não pertencem ao espaço em que se movimentam.          


Embora o enredo de cada um dos dez contos de A Teta Racional não possa ser classificado como inovador, a grande qualidade do livro está no não-conformismo de seus personagens que (unindo raiva e afeto) em nenhum momento desistem de fracassar socialmente – e da maneira mais esplendorosa possível.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O CASAMENTO: CINQUENTA FRASES (MALDOSAS)


– Nenhum homem deveria se casar antes de ter estudado anatomia e dissecado o corpo de uma mulher. (Honoré de Balzac)

– Há casamentos bons, mas não os há deliciosos. (François de La Rochefoucauld)

– O casamento é a única aventura ao alcance dos covardes. (Voltaire)

– O casamento é uma tragédia em dois atos: civil e religioso. (Barão de Itararé)

– Todas as tragédias terminam em morte e todas as comédias em casamento. (Lord Byron)

– A felicidade conjugal é extremamente difícil. Mas, quando existe, é extraconjugal! (Millôr Fernandes)

– O fardo do casamento é tão pesado que precisa de dois para carregá-lo – às vezes, três. (Alexandre Dumas, fils)

– Há homens e mulheres que fazem do casamento uma oportunidade de adultério. (Carlos Drummond de Andrade)

– Se você tem medo da solidão, não se case. (Anton Tchekhov)

– Sabe o que significa voltar para casa à noite e encontrar uma mulher que lhe dá amor, afeto e ternura? Significa que você entrou na casa errada, só isso. (Henny Youngman)

– Acredito no nó indissolúvel do casamento – desde que ele esteja bem atado em volta do pescoço da mulher. (W. C. Fields)

– O melhor no casamento são as brigas. O resto é mais ou menos. (Thornton Wilder)

– O casamento já levou mais de um homem ao sexo. (Peter de Vries)

– O único encanto do casamento é tornar uma vida de decepções algo absolutamente imprescindível para ambas as partes. (Oscar Wilde)

– A tragédia do casamento é que, enquanto todas as mulheres se casam pensando que seu homem irá mudar, todos os homens se casam pensando que sua mulher nunca mudará. Ambos invariavelmente se desapontam. (Len Deighton)

– Voltar a casar é o triunfo da esperança sobre a experiência. (Samuel Johnson)

– O problema com certas mulheres é que elas ficam excitadas com qualquer bobagem – e aí se casam com ela. (Cher)

– Casar-se é como comprar uma coisa que se passou anos admiramos na vitrine. Você pode adorar a compra e só então descobrir que ela não combina com o resto da casa. (Jean Kerr)

– O casamento é uma aliança entre duas pessoas – uma que nunca se lembra dos aniversários e outra que nunca os esquece. (Ogden Nash) 

– Quando uma mulher se casa, troca as atenções de muitos homens pela desatenção de um só. (Helen Rowland)

– O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É preciso muito cinismo para que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos. (Nelson Rodrigues)

– Quando estiver a fim de se casar com um sujeito, convide a ex-mulher dele para almoçar. (Shelley Winters)

– O casamento ocasiona múltiplas dores, mas o celibato não oferece nenhum prazer. (Samuel Johnson)

– Quando se vê com quem algumas mulheres se casaram, dá para entender como elas odeiam ter que trabalhar para viver. (Helen Rowland)

Algumas pessoas querem saber qual é o segredo do nosso longo casamento. É simples: jantamos fora duas noites por semana. Um belo jantar à luz de velas, com música suave, perfeita para dançar. Ela vai às terças-feiras e eu às sextas. (Henny Youngman)

– Um dos objetivos da benção nupcial é a de punir ambas as partes. (H. L. Mencken)

– Nunca me casei, porque nunca precisei. Tenho três bichinhos que, juntos, perfazem um marido: um cachorro que rosna de manhã, um papagaio que fala palavrões o dia todo e um gato que volta de madrugada para casa. (Maria Corelli)

– Todo homem se descobre sete anos mais velho na manhã seguinte ao casamento. (Francis Bacon)

– Fui casado por um juiz. Deveria ter pedido um júri. (George Burns)

– O casamento vem do amor, assim como o vinagre do vinho. (Lord Byron)

– O amor é uma insanidade temporária que se cura com o casamento. (Ambrose Bierce)

– Casamento é legal, mas acho que é levar o amor um pouco longe demais. (Texas Guinam)

– O casamento é um souvenir do amor. (Helen Rowland)

– O casamento é como enfiar a mão num saco de serpentes na esperança de puxar uma enguia. (Leonardo da Vinci)

– Quanto mais um homem sabe, e quanto mais viaja, mais arriscado está de casar com uma moça da roça. (George Bernard Shaw)

– O casamento é uma cerimônia em que dois se tornam um, um se torna nada e nada se torna suportável. (Ambrose Bierce)

– O casamento é o meio de vida mais comum para as mulheres – e a quantidade de sexo indesejado que elas suportam deve ser maior no casamento do que na prostituição. (Bertrand Russell)

– Se os homens soubessem como as mulheres passam o tempo quando estão sozinhas, nunca se casariam. (O. Henry)

– Minha mulher vai ficar uma fera quando souber. Ela não me permite sair por aí casando com outras pessoas. (Damon Runyon)

– O casamento é uma cerimonia em que anéis são colocados, um no dedo da garota, e, outro, no nariz do cavalheiro. (Herbert Spencer)

– Um homem e uma mulher se casam porque não sabem o que fazer consigo mesmos. (Anton Tchekhov)

– Resta saber se o casamento é um dos sete sacramentos ou um dos sete pecados capitais. (John Dryden)

– Todos os casamentos são felizes. Tentar viver juntos depois é que causa os problemas. (Shelley Winters)

– As pessoas falam muitas bobagens sobre casamentos felizes! O homem pode ser feliz com qualquer mulher, contanto que não a ame. (Oscar Wilde)

– Muitos homens se casam por cansaço; as mulheres, por curiosidade. Ambos se decepcionam. (Oscar Wilde)

– Não consigo me acasalar em cativeiro. (Gloria Steinem)

– A opulência e a felicidade um dia se casaram – quando a relação acabou a opulência estava na miséria e a felicidade, desgraçada. (Millôr Fernandes)

– Claro que o casamento é apenas um hábito – péssimo, por sinal. Mas o problema é que lamentamos a perda até mesmo dos piores hábitos. Talvez sejam estes que mais nos fazem falta: são parte essencial de nossa personalidade. (Oscar Wilde)

– O casamento não se compõe apenas de uma comunhão espiritual e de abraços apaixonados; compõe-se também de três refeições por dia, lavara louça e lembrar-se de pôr o lixo para fora. (Joyce Brothers)

– O casamento é a última forma de escravidão legalmente aceita. (do filme 27 Dresses)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

MANSFIELD PARK, DE JANE AUSTEN, EM QUARENTA E TRÊS FRAGMENTOS

– Não há no mundo tantos homens ricos quanto mulheres bonitas que os mereçam.

– Ela sabia tão bem poupar o seu quanto gastar o dos amigos.

– Se esse homem não tivesse doze mil [libras] por ano, seria um sujeito bastante estúpido.

– Todos devem pensar numa futura união, desde que o casamento lhes traga algumas vantagens.

– E como tudo se aproveita quando o amor começa a insinuar-se, valia a pena apreciar até a bandeja de sanduíches que o Sr. Grant fazia a honra de servir.

– Devia fazer muito bem aos chefes de família obrigarem as pobres criadas e aos lacaios a abandonarem o trabalho e o prazer para fazer as orações aqui duas vezes por dia, enquanto eles inventavam desculpas para se ausentar.

– O nada da conversa tem suas gradações, espero, assim como o nunca.

– Entrar na faculdade de Direito! Fala com a mesma naturalidade como se dissesse para eu entrar neste bosque.

– Sou um ser muito prático, franco, e talvez me expressasse de maneira infeliz numa conversa de meia hora, repleta de argumentos engenhosos, e não conseguisse dizer nada que me fizesse sobressair.

– Sentar-me à sombra num lindo dia, vendo tanto verdor é o melhor remédio.

– A inovação, se não é um erro pelo seu significado, sempre o será pela despesa.

– Aproximou-se com olhares de alegria que pareciam um insulto.

– A presteza e o silêncio ocultavam-lhe a mente ausente e ansiosa.

– Ciúme e amargura ficaram em suspenso: o egoísmo perdeu-se na causa comum.

– O fato de Henry Crawford segurar-lhe a mão em um momento como aquele, um momento de prova e importância tão singulares, valia séculos de dúvida e ansiedade.

– Tentava participar do alvoroço sem nada ter com o que se preocupar, esforçando-se por se fazer imprescindível numa ocasião que requeria apenas tranquilidade e silêncio.

– Foi obrigado a dar-se por satisfeito com a convicção de que quando se tratava do prazer momentâneo daqueles aos quais amava, a bondade dela às vezes lhe superava o bom senso.

– Parecia quase tão receosa de ser notada e elogiada quanto às outras mulheres têm de ser desdenhadas.

– Tornou-se fria o bastante para buscar todo o reconforto que lhe podiam proporcionar o orgulho e a vingança.

– Em algumas regiões sabemos que a variedade consiste nas árvores que mudam as folhas, mas nem por isso é menos surpreendente que o mesmo solo e o mesmo sol nutram plantas que diferem na regra e lei básicas de sua existência.

– Nem sempre se devem julgar nossas estações pelo calendário. Às vezes, podem-se tomar liberdades maiores em novembro que em maio.

– Uma grande renda é a melhor receita para a felicidade.

– Seja honesto e pobre, por quaisquer meios, mas não o invejarei. Acredito que sequer o respeitarei. Tenho muito mais respeito pelos que são honestos e ricos.

– Seu grau de respeito pela honestidade, do rico ou do pobre, é precisamente com o que não tenho de me preocupar. Não pretendo ser pobre. A pobreza é a exata situação que decidi combater. A honestidade, em um nível intermediário, na situação mediana em relação às circunstancias materiais, constitui tudo pelo qual almejo que você não encare com desprezo.

– Nada me diverte mais do que ver a tranquilidade com que todos estipulam a riqueza dos que têm menos que eles próprios.

– O amor fraternal às vezes quase tudo é, em outras, pior que nada.

– Tente encarar como uma dessas adversidades que todo marinheiro enfrenta, como o mau tempo e a vida difícil, com a vantagem de que terminará um dia, chegará um tempo em que não terá de suportar nada parecido.

– A ausência de alguns não deve impedir a diversão de outros.

– Mas acabamos por conhecer Shakespeare sem saber como. Faz parte da natureza de todo inglês. Seus pensamentos e belezas encontram-se tão espalhados pelo mundo todo que roçamos neles em toda parte e nos tornamos íntimos do dramaturgo e poeta por instinto. Ninguém com um pouco de cérebro abre grande parte de uma de suas obras sem logo captar-lhe o fluxo dos pensamentos.

– Creio que não deveria ser considerado como algo certo que um homem tem de ser aceito necessariamente por toda mulher de quem por acaso venha ele a gostar.

– Ainda mostrava uma mente extraviada e aturdida, e sem a menor desconfiança de que fosse assim; sombria, mas imaginando que irradiava luz.

– Sua felicidade era do tipo calmo, profundo, intimo e, embora jamais uma tagarela, nos momentos em que tinha sentimentos mais fortes, sempre tendia ao silêncio.

Tentava ser útil, a irmã percebia, e que tudo, ruim como era, seria pior sem sua intervenção.

– Não sinto ciúmes de individuo algum. O que me dá ciúmes é a influência do mundo elegante e opulento, são os hábitos luxuosos que temo.

– Ela criou para seu uso um estilo muito respeitável e detalhista em lugares-comuns, de modo que lhe bastava um assunto insignificante para ampliá-lo.

– Era como uma brincadeira de sentir medo.

– Vivia de cartas e passava o tempo todo entre os sofrimentos de hoje e aguardava os de amanhã.

– Há tanto tempo separadas e situadas em posições sociais tão diferentes, os laços de sangue se haviam transformado em pouco mais que nada.


– Verniz e dourados podem esconder muitas manchas.

– Varria toda a paisagem com o olhar, os prados e plantações do mais viçoso verde; as árvores, embora ainda não de todo coberta de folhas, mostravam-se naquele estágio encantador em que a gente sabe que mais beleza se aproxima e em que, embora muito fato se proporcione à visão, muito mais permanece para a imaginação.

– Do fundo do coração, desejava-lhe o bem e, com toda a sinceridade, esperava que ela logo aprendesse a pensar com mais correção e não tivesse de dever o mais valioso dos conhecimentos que qualquer um de nós pode adquirir: o conhecimento de nós mesmos e de nossas obrigações, às lições de desgosto.

– Uma felicidade tão grande que, se não houvesse deixado amargas lembranças depois da partida, talvez ele corresse o perigo de aprender a abençoar o mal que proporcionara tanto bem.

– Curiosidade e vaidade se uniram, e a tentação de um prazer imediato foi forte demais para um espirito desabituado a fazer qualquer sacrifício à retidão.