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quarta-feira, 25 de abril de 2018

O PENSAMENTO SELVAGEM DE WOODY ALLEN EM CINQUENTA FRASES





– Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto; outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.

– Na Califórnia não se joga o lixo fora. Eles o reciclam na forma de programas de tv.

– Certa vez tomei a atitude política mais firme de minha vida: passei 24 horas sem comer uvas.

– A realidade é dura, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife.   

– Só há um tipo de amor que dura, o não correspondido.

– O mundo se divide em pessoas boas e pessoas más. As pessoas boas têm um sono tranquilo. As pessoas más se divertem muito mais.

– Sempre achei que iria levar anos para fracassar da noite para o dia.  

– A vantagem de ser inteligente é que podemos fingir que somos imbecis, enquanto que o contrário é completamente impossível.  

– Se eu acho que sexo é sacanagem? Só quando é bem feito.

– Não é que eu tenha medo de morrer. Apenas não quero estar vivo quando isso acontecer.

– Só há pouco descobri que meu grande problema é um desejo intenso de retornar ao útero. Qualquer útero.

– Se você fala com Deus, é porque está orando. Mas, se Deus fala com você, você está louco.

– O dinheiro é melhor que a pobreza, nem que seja por razões financeiras.

– Noventa por cento do sucesso se baseia simplesmente em insistir.

– Você pode viver até os cem anos se abandonar todas as coisas que fazem com que você queira viver até os cem anos.

– O sexo sem amor é uma experiência vazia. Mas como experiência vazia, é uma das melhores.  

– Certo dia, atrasei-me ao voltar da escola e meus pais pensaram que eu havia sido sequestrado. E aí entraram imediatamente em ação: alugaram meu quarto.

– E se tudo for uma ilusão e nada existir? Nesse caso, não há dúvida de que paguei demais por aquele carpete novo.

– Não despreze a masturbação – é fazer sexo com a pessoa que você mais ama.

– Amar é sofrer. Para evitar sofrer, não se pode amar. Mas, então, sofre-se por não se amar.

– Minha primeira mulher era muito infantil quando nos casamos. Um dia, eu estava tomando banho na banheira e ela afundou todos os meus barquinhos sem o menor motivo.

– O futuro me preocupa porque é o lugar onde penso passar o resto da minha vida.  

– As pessoas tem uma imagem de mim associada a usar jeans ensebados, tênis furados e a morar no Village. Isso não combina com o meu Rolls-Royce.

– O pessimista afirma que já atingimos o fundo do poço; o otimista acredita que é possível cair mais.   

– Fiz análise de grupo quando era jovem porque não podia pagar uma análise individual. Cheguei a ser capitão do time de vôlei dos Paranoicos Latentes. Todos nós, os neuróticos, tirávamos o domingo de manhã para fazer algum esporte. Era sempre os Roedores de Unha contra os Mijões na Cama.

 – Eu e minha mulher ficamos em dúvida entre tirar férias ou nos divorciarmos. Optamos pela segunda hipótese. Duas semanas no Caribe podem ser divertidas, mas um divórcio dura para sempre.     

– Todas as minhas tentativas de suicídio foram um fiasco. Eu vivia abrindo as janelas e fechando o gás.

– Eu adorava minha primeira mulher. Só pensava em pô-la sob um pedestal.  

– Meu cérebro é o meu segundo órgão favorito.

– Eu estava saindo com uma garota, íamos nos casar e então houve um conflito religioso. Ela era atéia e eu, agnóstico. Não sabíamos em qual religião não iríamos criar os nossos filhos.

Por que escovar os dentes quatro vezes ao dia e fazer sexo duas vezes por semana? Por que não o contrário?   

– Encontrei minha ex-mulher num restaurante e, com meu temperamento devasso, adejei sensualmente para ela, sussurrando: “Que tal se fôssemos lá para casa e fizéssemos amor mais uma vez?”
“Só por cima do meu cadáver”, ela respondeu.
“Não vejo por que não”, eu disse. “Sempre foi assim.”

– Sou um heterossexual convicto, mas ser bissexual dobra automaticamente as suas chances de um encontro no sábado à noite.

– Se Deus existe, porque Ele não dá um sinal de Sua existência? Como, por exemplo, abrir uma bela conta em meu nome em um banco suíço.  

– Finalmente tive um orgasmo. Mas o médico disse que era do tipo errado.

– Há uma lei em Nova York, segundo a qual só se concede um divórcio no caso de adultério de um dos cônjuges. Bem, eu me ofereci para a tarefa.  

– Meu pai trabalhou na mesma empresa durante doze anos. Eles o demitiram e o substituíram por uma maquininha deste tamanho, que faz tudo o que meu pai fazia, só que muito melhor. O deprimente é que minha mãe também comprou uma igual.

– Quando eu era pequeno, meus pais descobriram que eu tinha tendências masoquistas. Aí passaram a me bater todo dia, para ver se eu parava com aquilo.

– Algumas vezes, um clichê é a melhor forma de explicar um ponto de vista.  

– Às vezes me perguntam por que trabalho tanto. É porque, quando ficar velho, quero pôr meus pais num asilo.

– Depois do divórcio, fiz um trato com minha mulher. Se eu me casasse de novo e tivesse filhos, eles ficariam com ela.    

– Os burocratas existem para transformar a solução num problema.

– Eu era muito jovem para ter um carro. Então transava com as moças no banco de trás da minha bicicleta.

– O crime organizado na América rende 40 bilhões de dólares. É muito dinheiro, principalmente quando se considera que a Máfia quase não tem despesas de escritório.

– Quando eu tinha seis anos, meus pais se mudaram – mas eu os encontrei de novo.

– Quando comecei a escrever, tentei vender a história de minha vida sexual para uma editora. Eles a compraram e a transformaram num joguinho de armar para crianças. 

– Em nossa noite de núpcias, minha mulher parou em pleno ato e me aplaudiu de pé.

– Por que Deus não fala comigo? Se Ele pelo menos tossisse!

– O que é melhor? Amar ou ser amado? Nenhum dos dois, se a sua taxa de colesterol for muito alta.

– A vida se divide em horrível e miserável.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

A PEÇA INTOCADA


Luci (Maria Dias) Collin não estava na minha lista de escritoras brasileiras que merecem atenção. Por alguma razão, tive pouco contato com as suas narrativas. Vasculhando as estantes, encontrei alguns contos em antologias, nada que – para o meu gosto – possa classificar como acima da média. Talvez o olhar tenha sido ofuscado por outros textos, talvez a leitura tenha ocorrido em dia ruim, talvez o que não pode ser explicado deva ficar assim mesmo, sem explicação.  

Luci (Maria Dias) Collin está na minha lista de escritoras brasileiras que merecem atenção. A história é longa e mirabolante, e vai ficar para outro dia, o que importa é que gostei dos contos que integram A Peça Intocada, livro impresso por editora independente, “indie” para os íntimos. Nunca tive notícias da Arte e Letra Editora ou, se as tive, descartei, fazer o quê? Segundo o Google, a empresa é também café & livraria, em Curitiba, PR. Então, tá. Anotei o endereço, um dia desses faço visita.

Gostei do volume. Produção artesanal, capa dura, exemplar numerado, papel rústico, diagramação retrô. A dedicatória é o plus que todo escritor razoavelmente interessado na literatura brasileira contemporânea deveria levar em consideração: para / Elvira Vigna e Maria José Silveira / pelas palavras. Não sei que palavras são essas, poderia imaginar que se trata de uma retribuição pela amizade ou pelo conjunto da obra das duas escritoras citadas. Poderia fabular um monte de coisas, coisas aos montes, palavras possuem essa serventia. Prefiro continuar com as dúvidas, incentivo para a fantasia, em outra oportunidade, se for possível, pergunto a quem de direito. Ou não. Sei lá.

A prosa de Luci Collin é angulosa, cheia de arestas, todo cuidado é pouco, risco de obter algum machucado, nunca se sabe, sensibilidade é tesouro particular. Ao mesmo tempo, no meio do texto, percebe-se a ausência de economia em questões de humor, de ironia. Multiplicam-se as estocadas, em sutil tocata, o intervalo das frases contrapondo-se ao que está escrito antes, ampliando o que surge depois. Surpresas para o olhar do leitor. Estranho e delicioso.

Entre os 15 contos, a autora marca bons pontos nessa competição sem regras que chamam de literatura. Em Jogando cartas com T. S. Eliot, a desconstrução da verossimilhança, o reino da imaginação, a vitória do nonsense. O ilustre ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1948 está de passagem por Curitiba. Diante de tamanha celebridade, os dirigentes da urbe se despem da dignidade e revelam o quanto há de ridículo na vida pública. Em contrapartida, o poeta recita alguns de seus versos em resposta à prosa que protagoniza. Diversão – não há outro adjetivo.

Outro momento especial está na história do menino que deve ler, diante dos colegas de escola, uma redação sobre o que aconteceu de importante/interessante nas suas (dele) férias. Enquanto alguns alunos foram viajar para locais que o rapaz somente conhece de gravuras e fotografias publicadas em revistas, coube-lhe amargar exílio dentro de casa, as únicas distrações possíveis eram os programas de televisão e os livros da biblioteca pública. Como explicar que a sua família vive com dificuldades, que ele nunca teve relógio, que não conhece o pai e os avós, que pão com sardinha ou miojo quase se equivalem a manjares? Melhor ficar quieto, escondido no fundo da sala, sem que ninguém o perceba. A cada nome chamado para a leitura, um rosário de promessas. Não farei isso, deixarei de fazer aquilo, até lavar a louça aparece nesse cardápio de boas intenções. Mesmo assim, para não ser vítima de cilada, urge combater o inevitável com um pouco de criatividade. Reunir o que é excesso nos outros e compor uma nova narrativa, lugar onde a ilusão assume o lugar do inexistente.

Paródias também aparecem em cena, Os Rudimentos do Jovem Berthe quer, em formato epistolar, Vezes despir a frase, decompor os tempos, espalhar as roupas intimas secretas as tensões dos verbos. E, nesse ritmo de valsa ou de poesia, o andamento narrativo segue na direção do desentendimento – que é o destino natural de todos os relacionamentos, estejam envoltos no intercâmbio de fluídos corpóreos ou na troca de longas cartas que não dizem o que deveriam dizer, que jamais dirão algo próximo do que deveriam dizer.        

E com essa observação chegamos a outro ponto crucial nas narrativas de Luci Collin: alguns dos contos não possuem enredo, a escritora vai alinhavando alguns elementos frasais, aposta no tecer a teia, as ideia vão se somando ou se anulando, a enumeração complementa, em determinado momento surge a tessitura, o triunfo da aranha, e tudo começa a fazer sentido. Efeitos de prestidigitação construindo o alumbramento.

Outra característica: uma relação de amor e ódio com Curitiba. Ao mesmo tempo em que relaciona algumas das qualidades da aldeia em que vive, Luci Collin dispara torpedos contra o provincianismo. As cenas com as velhinhas em Coré Etuba: Tati Kéva! são exemplares, na medida em que mostram que, ao lado do progresso urbanístico e cultural, parte da população cultiva uma mentalidade atrasada, típica do século XVIII. Igual entendimento se repete em diversos trechos do livro, o(a) narrador(a) citando futebol na televisão aos domingos, música na vitrola, álbuns de fotografias, joelhos esfolados, as mulheres que só amam por dinheiro, os homens que só conseguem amar com dinheiro, pastéis, Kombi, corações partidos e senhoras que vão à missa.  

A Peça Intocada é um livro desigual. Alguns contos são de fácil entendimento. Outros precisam do tempo de maturação. Algumas das narrativas são alegres, simpáticas, o tom coloquial se esparramando pela planície textual. Outras estão envoltas em uma nuvem de melancolia, o olhar vago, a procurar por explicações. Quem almeja alcançar a consistência das palavras inscritas em cada um dos quinze contos descobre que, ao final da leitura de cada uma das histórias, a fragilidade humana prevalece. Mas também há momentos emblemáticos, força não é produto que se compra no supermercado mais próximo.

O protagonista do conto Matiz das armadilhas, depois de mil peripécias, o corpo partido em várias fraturas, declara, no leito do hospital, com toda a singeleza possível: Depois daqueles pudinzão todo não dá pra voltar pra ovo frito.      

A literatura de Luci Collin é um pudinzão.

terça-feira, 17 de abril de 2018

ROLETA RUSSA


No entrecruzamento de duas formas artísticas, o ruído se torna inevitável. Entende-se ruído por algo que incomoda, por alguma coisa que parece estar no lugar errado (e está!). No caso específico do “casamento” entre literatura e o cinema, por exemplo, o barulho se tornou uma constante. Em alguns momentos, o filme destrói o livro; em outros, o filme está vários degraus acima do texto. E ainda há os casos em que o resultado final sequer se parece com a narrativa que serviu de inspiração. Alfred Hitchcock tinha uma tese curiosa sobre essa ligação amorosa: livros ruins é que dão filmes bons. Muitos comentaristas de cinema rejeitam esse pensamento. A realização cinematográfica depende mais da técnica do que do roteiro, dizem, lembrando que uma direção frouxa causa maiores danos do que alguma “liberdade poética” que possa ser utilizada no desenvolvimento fílmico. O estadunidense Gore Vidal divergia violentamente dessa ideia. Em um ensaio clássico, Quem faz o cinema? (incluído no livro De Fato e de Ficção), defende a ideia de que o roteirista é mais importante que o diretor e que a carpintaria estrutural de uma história supera quaisquer artifícios artísticos que possam surgir no set de filmagem ou na mesa de edição. O pessoal da literatura – que defende a sacralidade do texto original – não concorda com essas duas hipóteses. Embora aceitem o corte de algumas cenas, ficam furiosos com os enxertos e são irredutíveis contra qualquer alteração na espinha dorsal do enredo.

Em um mundo onde todos se decepcionam (porque estão, simultaneamente, certos e errados), o ponto comum está na concordância de que a literatura e o cinema trabalham com linguagens diferentes e que a fidelidade absoluta inexiste em qualquer adaptação.
 
Recentemente, um romance de espionagem foi adaptado pelo cinema. Imediatamente, o livro se tornou um best-seller. Não há como impedir as ligações perigosas que o capitalismo produz nas relações de consumo. O divertido, nessa história, está em um fato básico: os dois produtos são de péssima qualidade. O livro, Red Sparrow, escrito por Jason Matthews, em 2013, foi publicado no ano seguinte no Brasil com um título estranho: Roleta Russa. Parece que algum gênio do marketing acreditou que “Pardal Vermelho” (ou Russo) não era uma opção aceitável. Com o lançamento do filme, publicaram uma segunda edição da narrativa, agora com um nome mais fácil de ser consumido pelo público que se deixa conduzir pelo entretenimento: Operação Red Sparrow. Logo abaixo do título, um slogan publicitário (revelando a ausência de escrúpulos editoriais e econômicos): Pronta para seduzir, treinada para matar.

A crítica especializada em cinema detestou o filme. Parece que sobram cenas de nudez e faltam qualidades artísticas em atores e equipe técnica.

Sobre o livro, cabe destacar inúmeros problemas de redação (ou de tradução) e o desperdício de uma boa ideia. A história de uma bailarina que, em função de um “acidente” de trabalho, precisa se tornar uma espécie de Mata Hari contemporânea poderia resultar em uma boa narrativa. Infelizmente o castelo desaba. Na ânsia febril de demonstrar que as equipes de espionagem estadunidenses são mais competentes que as russas, a protagonista (Dominika Egorova) vai sendo devorada lentamente por um narrador “professoral” que, em nome de "valores" superiores, decreta as diferenças entre o bem e o mal.

Treinada pela Sluzhba Vneshney Razvedki, SVR (Serviço de Inteligência Estrangeiro), organismo que substituiu o Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, KGB (Comitê de Segurança do Estado), Egorova recebe ordens de seduzir Nathaniel (Nate) Nash, agente da Central Intelligence Agency, CIA. Deve descobrir a identidade de um alto funcionário russo que está passando informações confidenciais ao inimigo. Por sua vez, o estadunidense é induzido a agir com o mesmo propósito – alguns segredos militares estão sendo entregues aos russos. Arma-se um jogo de gato e rato, onde se torna difícil definir quem é quem. Essa tensão sofre um incremento quando surge em cena a atração amorosa e sexual.

Longe de ser uma versão de Romeu e Julieta, o romance perde a essência logo depois. Lá pela metade da narrativa, Dominika aceita ser uma informante da CIA  inconformada com diversos acontecimentos se transforma em uma traidora. A morte de uma amiga serve de "gatilho" para a decisão, que não requereu grandes dramas de consciência. Nesse momento, o entretenimento literário passa a ser uma ferramenta de doutrinação ideológica.  Em outras palavras, todas as 423 páginas do romance estão alicerçadas em um único propósito: afirmar que os estadunidenses são superiores – no campo da ética, da técnica e da inteligência – aos russos.

Essa “verdade” é enunciada a todo instante. Mesmo quando se apresenta como contradição. Basta confrontar os informantes.  Enquanto o General Vladimir (Volodia) Korchnoi, se mostra cuidadoso, astuto e confiável, a Senadora Stephanie Boucher, prima pela arrogância, pela rebeldia e pela falta de cuidado com a segurança. O maniqueísmo destrói qualquer verossimilhança. Os russos são cruéis, utilizam assassinos profissionais, torturam, mentem e não se detém diante de quaisquer obstáculos. Os americanos se comportam de igual maneira, mas com uma diferença fundamental: segundo o narrador, lutam pela “democracia” e pela “liberdade”. Rir dessas bobagens parece ser o único procedimento aceitável para o leitor que possui algum senso crítico.

O clima de guerra fria, ressuscitando os anos 60 e 70, faz com que todos os elementos narrativos importantes evaporem nas páginas finais do livro. Sobra apenas a barbárie. Dominika, que parecia ser o protótipo da mulher que consegue superar os empecilhos causados pelas atividades masculinas, se transforma em fantoche das ações políticas. A decepção se instala.

 TRECHO ESCOLHIDO

 

No balé, os alunos mais experientes sabem tanto de anatomia, articulações e lesões quanto um médico. Insuflado pelos hormônios e os ardores do sexo, Konstantin esperou pacientemente até sua vez de formar par com Dominika. Certo dia, numa sala apinhada de alunos, ele fazia um pas de deux com sua parceira quando pisou forte no calcanhar dela durante uma ponta, fazendo que o pé vergasse para frente. Dominika desabou no chão no mesmo instante e se encolheu de tanta dor, as cores sangrando à sua frente. Foi levada à enfermaria sob o olhar assustado das colegas que praticavam a barra – Sonya era a mais pálida de todas. Ao olhar para ela antes de sair, Dominika intuíra toda a verdade ao ver a expressão de culpa, o miasma cinzento que a envolvia numa espiral invisível aos demais. Seu pé agora era um volume preto e roxo que se dobrava para trás, grotesco, e a dor, lancinante, irradiava para a perna.

 

– Fratura-luxação de Lisfranc no mediopé – sentenciou o médico.

 

Após uma série de exames ortopédicos, uma cirurgia de emergência e uma bota de gesso até a altura do tornozelo, Dominika foi dispensada da academia. Num piscar de olhos sua carreira de bailarina havia chegado ao fim. Os comentários de que ela seria a próxima Ulanova ficaram no passado. As professoras, os preparadores e os mestres de balé já nem olhavam mais para ela.

 

Àquela altura Dominika já aprendera a represar sua inclinação para a fúria, mas agora não havia o que fazer. Era pedir demais. Num momento de histeria, cogitou denunciar Konstantin e Sonya pela sabotagem. Não havia dúvidas que eles também seriam dispensados assim que a armação viesse à tona. Mas no fundo ela sabia que nao seria capaz disso. Dominika ainda contemplava o próprio futuro, atordoada, quando recebeu o telefonema da mãe.  

segunda-feira, 16 de abril de 2018

YASUNARI KAWABATA (1899 – 1972)



A tristeza estampada no rosto magro. A cabeleira altiva. O olhar concentrado no horizonte. O cigarro entre os dedos. O uso contínuo do quimono como um escudo contra as adversidades do mundo. Yasunari Kawabata era um poema em forma humana.

No dia 16 de abril de 1972, durante uma crise de depressão, Kawabata se suicidou. A viúva, Hideko, negou essa hipótese. Alegando que foi um acidente doméstico (inalação de gás de cozinha), lembrou que o escritor havia se manifestado diversas vezes contra essa forma de violência. Em contrapartida, alguns biógrafos destacam que dois amigos, Ryūnosuki Akutagawa (1892-1927) e Yukio Mishima (1925-1970), também se suicidaram – e que cada uma dessas mortes teve um significado psicológico de difícil mensuração.







A orfandade sempre acompanhou Kawabata. As mortes dos pais e dos avós na infância e no início da adolescência foram traumáticas. Precisou ir viver com parentes. Depois foi estudar em um internato. A escolha da literatura como profissão ampliou o isolamento. Aquele que escreve elimina tudo o que está ao redor e constrói um mundo particular – e que somente se torna acessível quando o escritor decide compartilhar o texto com os leitores.

Durante o período em que estudou na Universidade Imperial de Tóquio, participou do grupo que criou o jornal Bungei Jidai (Anais Literários) – que procurava promover o movimento literário Xinkankakuha (Sensações Literárias). A ideia era romper com o realismo japonês e promover as vanguardas europeias e a objetividade científica. Foi nessa época que se tornou amigo de Riichi Yokomitsu (1898-1947).
 
Kan Kikuchi, Yasunari Kawabata, Teppei Kataoka, 
Riichi Yokomitsu,  Shinzaboro Iketani. (esq. para dir.)

Entre 1935 e 1937 publicou, de forma gradual, O País das Neves – que é considerada a sua primeira narrativa importante. A história de amor entre Shimamura e Komako, cristalizada nos abandonos e reconciliações, na indecisão e no instinto, inaugura uma literatura introspectiva, repleta de sentimentos complicados, e que procura projetar nos personagens o turbilhão que dilacera o intimo de cada ser humano. Ao descrever a passagem incontrolável das estações climáticas, a fúria do mar, as distâncias que separam a vida urbana do mundo rural, também relatou os mistérios que estão abrigados no interior de cada um dos personagens.

Yukio Mishima e Yasunari Kawabata

Depois do final da II Guerra Mundial, participou de diversas manifestações políticas conservadoras. Possivelmente foi influenciado pelo estilo combativo e neofascista de seu grande amigo – embora bem mais moço – Yukio Mishima.

Entre os seus livros mais conhecidos, destacam-se O Mestre de Go (publicado entre 1951 e 1954), Mil Tsurus (1949-1952), A Casa das Belas Adormecidas (1961), Kyoto (1962) e Beleza e Tristeza (1964). A edição completa de Contos da Palma da Mão foi publicada postumamente, em 1972.

Bungei Jidai: Shinzaburo Iketani, Yasunan Nakagawa, 
Kinsaku Ishihama, Yasunari Kawabata e Tadao Suga (esq. para dir.)

Kawabata foi o primeiro escritor japonês a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1968. Esse feito somente se repetiu em 1994, com Kenzaburo Oe.     

No plano estético, Kawabata esteve próximo da perfeição. Em suas narrativas, o carinho e suavidade se destacam em prosa poética e contrastam com os temas mais recorrentes: a solidão, a filosofia oriental, a sexualidade e a beleza feminina. As tragédias humanas (que não se separam da presença angustiante da morte) são uma constante. Simultaneamente, a leveza e a delicadeza das histórias exigem atenção redobrada, pois os detalhes são de crucial importância. A ação narrativa é lenta, ele gostava de “pintar com as palavras” – como destacam alguns admiradores de sua literatura.