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quarta-feira, 30 de maio de 2018

SETE A UM


O dia 08 de julho de 2014 se tornou um divisor de águas para os brasileiros. No estádio Mineirão, em Belo Horizonte, a seleção de futebol que dizem representar o Brasil perdeu, na semifinal da Copa do Mundo, para a seleção alemã pelo inacreditável placar de 7 x 1.  O vexame poderia ter sido maior, bem maior. Cavalheirescamente, os adversários diminuíram o ritmo no segundo tempo. De qualquer forma, coube aos brasileiros que estavam em campo baixar a cabeça e ir para casa – chorando –, porque a derrota foi lendária! Como se não bastasse, há quem diga que o “mineiraço” foi mais humilhante que o “maracanaço” (16 de julho de 1950), quando a seleção brasileira, na final, perdeu o título para o Uruguai (2 x 1).

Em contrapartida, sem querer fazer grandes análises sociológicas, cabe lembrar que o Brasil ignora o senso crítico. Glorificamos os momentos de sucesso e “fazemos de conta” que as frustrações não aconteceram. A negação é uma das mais festejadas características da “pátria de chuteiras”.  

A literatura costuma acompanhar esse procedimento – e não só no que se refere ao nobre esporte bretão. A verdade é que somos péssimos perdedores. Nunca soubemos lidar com o que nos é desfavorável. Predomina o triunfalismo e a heroicidade nos relatos históricos e ficcionais. São raros os momento em que se ousou colocar em cena um personagem deslocado ou que foi capaz de conviver com algum tipo de dúvida. Somente as certezas prevalecem.

No Brasil, oitenta por cento da literatura sobre futebol se concentra em biografias de jogadores, histórias de clubes e análises sobre a estética que emoldura o esporte. A ficção sempre foi artigo escasso, uns três ou quatro romances e uns vinte ou trinta contos. Todos destacando o colorido e a beleza. Não há lugar para o fracasso. 

Há algumas exceções, claro. São tão raras que se confundem com o zero em alguns gráficos estatísticos.   

Coube a alguns baianos e alemães modificarem o panorama. Sintomaticamente, foi lá, em 2014, no litoral da Bahia, que a seleção germânica estabeleceu o seu quartel-general e comandou o show. A afinidade não pode ser negada.    



Como uma releitura da pergunta clássica (onde você estava no dia em que o Brasil perdeu para a Alemanha?), o livro Sete a Um (organizado por Lidiane Nunes e Tom Correia) propõe um retrato ficcional do dia fatídico. São oito contos e um, na falta de melhor expressão, ensaio autobiográfico.

No bem-humorado texto da Dagrun Hintze, a ilustre diretora de teatro coloca em cena as loucuras que costumam acontecer na vida de quem é torcedor de alguma equipe de futebol. E ela começa relatando uma das melhores histórias do livro. Na juventude, no meio de um “amasso” com o namorado, sugeriu que fossem para um lugar mais aconchegante. No caso, o apartamento do sujeito. O rapaz respondeu com um inesperado Nada de se precipitar! Decepção é uma palavra muito suave para definir a situação. No dia seguinte, a precipitação deixou de ser importante e eles puderam resolver a questão sem qualquer obstáculo! A explicação para essa confusão só se tornou conhecida um ano depois – quando eles estavam morando juntos, (...) ele tomou coragem para me dizer por que, na época, não tinha logo me levado para sua casa. Por causa da roupa de cama do Borussia Dortmund. Sim, a demência futebolística não possui limites. E, de qualquer forma, como disse o jogador e técnico inglês Gary Winston Lineker: O futebol é um esporte muito simples: 22 jogadores correm atrás da bola durante noventa minutos e, no final, os alemães sempre vencem.  

Não é bem assim, mas... Por enquanto, das vinte edições da Copa do Mundo, os alemães venceram quatro vezes (1954, 1974, 1990 e 2014). Quem é que pode adivinhar o futuro?

Hans-Ulrich Treichel, em Foucault, Freud, Futebol, utilizando tom diplomático, evitou colocar o dedo na ferida e contou uma história longínqua, dessas que poderiam ter se perdido se não fosse o poder de observação do escritor. Com doçura, humor e um pouco de melancolia, em ritmo de autoficção, começa destacando a sua ligação com o futebol através de álbuns de figurinhas e termina relatando as dificuldades de um adolescente para chamar a atenção das meninas. A narrativa ocorre na Alemanha, mas poderia ser no Brasil – desde que certos ajustes fossem feitos. A paixão pelo esporte transcende a geografia.

Dos textos brasileiros, O Hexa de Meu Pai, de Elieser Cesar, chama a atenção pelo lirismo e pela delicadeza. Diante do pai, corroído por um câncer horroroso, o narrador (e o restante da família) decide mentir sobre o resultado do jogo entre Brasil e Alemanha. Ele não quer ampliar a dor do homem que está próximo da morte. O nonsense da situação (que evoca, ao longe, o filme Adeus, Lenin!, dirigido por Wolfgang Becker, 2003) impede que a narrativa se transforme em um drama pesado. Na manhã seguinte, morreu, cercado pelos filhos, com o rosto salpicado pelas lágrimas de minha mãe e sereno como um velho canário que deixara para sempre a gaiola onde cantara a vida toda. Tomara que lá, no céu, onde não entra mentira, meu pai não venha a descobrir a verdade.

A vida amorosa também corre risco de levar uma “sacolada” de gols. É o que acontece com o narrador de Gertrud, de Luís Pimentel. Ao escolher assistir os jogos da Copa do Mundo, o narrador negligencia o namoro com a alemã (que estava no Brasil para cursar alguma pós-graduação não identificada). Infração grave, diriam os deuses do amor. Como o inferno sempre está próximo, o castigo não demorou. No dia do jogo, a namorada solicitou, ele liberou e o apartamento foi superpovoado por alemães (que surgiram não se sabe de onde). Todos assistindo o jogo. Todos fazendo festa, exceto o anfitrião. Quando o juiz apitou pela última vez, e a lambança acabou no Estádio do Mineirão, a confusão começou em minha casa. Os alemães pareciam estar novamente invadindo territórios alheios em período de guerra, agitando bandeiras, tocando cornetas, subindo no sofá e gritando da janela. Paciência tem limite! Os bárbaros foram expulsos do recinto – infelizmente a bárbara alemã acompanhou a turba. E o futebol promoveu mais uma separação.

Em A Vida é um Eterno Descenso, de Claudia Tajes, o protagonista é um “empresário” de futebol, que imagina ter acertado – metaforicamente – na loteria. Só que não. Kenedi, futuro craque, foi vendido para um time da Ucrânia – mas recusa a viagem. O motivo? A namorada está grávida. O problema maior é que a criança também pode ser filha do empresário. Dandara (nascida Conceição) fez, durante algum tempo, jornada dupla. Disposto a ganhar a partida no grito, o sujeito utiliza-se de recursos pouco éticos. Obviamente, se esqueceu de combinar com os russos. Além de saber que o time do Luiz Felipe Scolari levou a goleada, tomou um revés, com direito a surra da família de Kenedi. Acordei do lado de fora do prédio, encolhido no chão, sem sapatos, com a sensação de ter um quilo de guisado de segunda no lugar do cérebro.
 
Marcus Borgón escolheu um ângulo diferenciado. O narrador de O Resto do Mundo, garçom de um bar que montou telão para transmitir o jogo, precisa se equilibrar entre os pedidos, as piadas grosseiras e a raiva de ver a turba infantilizada perdendo a dignidade diante de da televisão. O espírito “do contra” ele herdou do pai, que trabalhava com mudanças e transporte de material de construção. Em época de Copa do Mundo, ninguém faz mudança, reforma ou edificação. Todos ficam catatônicos, apenas os jogos transmitidos pela televisão interessam. A voz do pai, furioso, ecoa na mente do garçom como um mantra: Vocês estão festejando a própria desgraça. Alguns anos depois, lembrando a fúria paterna, ele repete o comportamento e torce contra. Não torce pela Alemanha, torce contra a equipe verde-amarela: No intervalo, os comentaristas se esforçam para explicar o inexplicável. Todos falavam em pane, apagão. Para mim foi uma catarse. Aquele buzinaço insuportável definhando, como um disco em rotação mais lenta. O salão apaziguado. O infortúnio do Outro é uma forma de alegria (Schadenfreude). No fim, a compensação: O cozinheiro separava as carnes. O 7x1 ficara entalado. Muita comida sem ser tocada. Não teríamos que sortear. Costumávamos dividir as sobras. No início aquilo me causava repulsa. Mas a fome nos devora a dignidade.


Alguns calos doem mais do que os outros. Perder a namorada é sempre traumático. Em Glorinha Toda Solta, de Carlos Barbosa, a descrição de uma derrocada amorosa supera o acontecimento histórico. Glorinha preferiu dormir nos braços de outro a continuar suportando as idiossincrasias de um professor que gosta de matar a sede e a saudade no bar do Florêncio. O que se segue é discurso, afinal falar sozinho foi o que restou ao protagonista/narrador do conto, a mulher se divertindo com outras paisagens e outros sabores. Glorinha estava solta no mundo para, talvez, esquecer-se de mim, do fisco que representei para ela no embate da turma. Solta no mundo, quem sabe, para construir uma nova história, uma história vencedora e profícua. Ou não estivesse toda solta, mas aconchegada em novos braços e afetos, e nem precisasse mais vender perfumes e bijuterias de porta em porta. De tudo e mais um pouco, sobrou canalizar a raiva,  no jogo final, contra a Argentina: Gol da Alemanha, porra!

Quase toda a humanidade foi destruída por uma hecatombe. Sobrou cerca de um décimo da população. Um grupo de pesquisadores trabalhou para preservar o que o planeta criara em milênios, no campo das artes, ciências, tecnologia, esportes, indústria, cultura, fatos históricos e tudo o mais. Com esse enredo, Mayrant Gallo propôs uma reflexão apocalíptica em O que Houve Depois. O narrador, responsável pela história das glórias brasileiras no futebol, vai se encontrar – em Paris, em segredo – com o seu equivalente alemão. A grande dúvida (e temor) está na possibilidade dos germânicos salvarem o 7 x 1 – lembrando eternamente a humilhação que impuseram à seleção canarinho. Quando os dois homens se encontram, as diferenças se tornam evidentes. O mundo não gira em torno do ego. O futebol não tem a importância que os brasileiros lhe atribuem.

Como se fosse uma bola solta dentro da grande área, Lima Trindade chuta a política na direção do gol.  Oito de Julho faz um recorte dos protestos contra a Copa do Mundo. O narrador não consegue ver o jogo. Suas preocupações estão na batalha que ocorre nas ruas próximas ao Mineirão. Em lugar dos passes, das firulas, dos dribles e dos gols, o seu universo se resume em coquetéis molotov, gás lacrimogênio, golpes de cassetetes, correrias, desencontros, insanidade. A fumaça ardia em meus olhos. A mochila estava aberta e, sem eu perceber, enquanto corria, meus pertences se perdiam na fuga. É essa perda gradual de pertences, de cidadania, de democracia, que o conto nos conta. A truculência da polícia e o vandalismo de alguns manifestantes se confundem. Há momentos em que fica difícil discernir quem é o mocinho e quem é o bandido. Talvez não haja distinção. Talvez todos sejam selvagens – e o placar do jogo seja um reflexo esclarecedor dessa situação.         

Resumo da ópera e do livro: na véspera de uma nova Copa do Mundo é sempre salutar olhar para trás e ver que o futuro foi escrito no passado. Aquele que se nutre de sonhos corre o risco de cair da cama. Os contos incluídos no Sete a Um não pretendem fazer previsões – inclusive porque a bola de cristal está no conserto. O que podemos encontrar no livro são outras coisas: humor, amor, dribles, trapalhadas e alguns gols literários.             
    

segunda-feira, 7 de maio de 2018

ALVES & CIA



Depois da traição matrimonial, nada mais pode ser encarado com seriedade. Os momentos ridículos se sucedem aos milhares. Não importa se há ocorrência de algum tipo de reação (intempestiva ou não), não importa o olhar escandalizado dos familiares, não importa se os amigos e os vizinhos fingem nada saber. Tudo se transforma em comédia. Tudo. 
 
Em uma pequena novela, e que foi publicada postumamente, em 1925, Alves & Cia, Eça de Queiroz (1845-1900), conta a história de Godofredo da Conceição Alves, um indivíduo que se sentia pertencendo a essa tribo grotesca de maridos traídos, que não podiam entrar em casa sem que, de dentro, escapasse um amante. Razões para tal pensar não lhe faltavam, pois coube-lhe o azar de flagrar a caríssima consorte aos beijos com outro. E o que há de mais mirabolante nesse desagradável episódio é que o comborço,  Machado, era seu (dele) sócio.

Com ares de humilhado e ofendido, aos gritos exigiu que a esposa retornasse à casa de seu (dela) pai. Não havia mais motivos para viverem juntos. O casamento estava acabado.

José Maria de Eça de Queiroz (1845 - 1900)
Godofredo, como cabe a todo marido traído, ficou sem chão. A solidão era a recompensa que recebia depois de vários anos adorando aquela mulher pérfida! Simultaneamente, entrou em depressão, pensou em suicídio, a vida tinha perdido o sentido, era um homem derrotado. Mas, seja porque o caso não era para tanto, seja porque foi tomado por falta de coragem, desistiu desse plano estapafúrdio. E, como se o desgosto não fosse o suficiente, recebeu a visita de Neto, o pai da traidora. Diante do sogro discursou, fez exposição de motivos, quase exigiu solidariedade. O velho, conhecedor desses rompantes pouco inteligentes, ouviu a peroração durante algum tempo. Em dado momento, tomou a palavra e rebateu os argumentos do genro com inúmeras considerações sobre a aventura humana. Tergiversando, mostrou que a situação não era propícia para rompantes. Por fim, fez o Godofredo perceber que a sua filha, em razão dos acontecimentos, ficara desamparada e que a sociedade logo saberia dos detalhes, um escândalo sem proporções. Talvez por cansaço, talvez porque viu nas palavras do sogro uma ameaça, Godofredo aceitou pagar uma mesada à esposa, a título de compensação pelo rompimento matrimonial. 

Nos dias seguintes, a agonia de Godofredo se intensificou. Depois de muito pensar, resolveu que a situação assaz vexaminosa exigia uma atitude enérgica. Disposto a lavar a honra com sangue, imaginou um duelo. Para que isso se concretizasse, enviou um bilhete ao Machado exigindo um encontro para resolver a pendência. Frente a frente, os dois homens tiveram dificuldades para conversar. No início. Logo esse embaraço foi superado. As condições propostas pelo marido ofendido para dar um término à questão foram rechaçadas. Godofredo ficou falando sozinho.

A multiplicidade de erros não terminou com esse fracasso. Godofredo foi pedir conselhos ao Medeiros e ao Carvalho, velhos confrades de pândega e negociatas. Evidentemente, eles se solidarizaram. Era uma lástima. No entanto, consideraram que um duelo de morte configurava um evidente exagero. Não lhes cabia servir de testemunhas em uma maluquice de tal porte. A diplomacia poderia evitar os excessos, sugeriram ao desconsolado companheiro. E, com tal argumento, se autonomearam embaixadores. Resultado: foram ter algum tipo de entendimento com os representantes da causa de Machado. Diversas reuniões ocorreram, onde se discutiu as versões do caso, o teor das cartas que os amantes trocaram entre si e um sem fim de detalhes. Era necessário esclarecer os acontecimentos.

Enquanto isso, Godofredo sofria as dores do isolamento. Ao colocar a solução do caso nas mãos dos amigos, perdeu as rédeas da situação. Nesse momento, resta ao leitor observar com mais atenção o protagonista do dramalhão e concluir que a tolice é a sua (dele) característica mais marcante. Quando os representantes plenipotenciários da demanda lhe informaram que as partes, durante as conversações, haviam concluído que o caso todo estava longe de ser uma traição no sentido mais vil do ato e que fora apenas um “namorico”, Godofredo não se indignou contra tal resolução. Fez as reclamações de praxe, mas, no intimo, já estava convencido de que a fúria fora debelada. Estava manso como um cordeiro. Precisava, apenas, de um incentivo para deixar de lado o desfecho trágico. Aceitou, resignadamente, as recomendações de fazer uma viagem durante alguns meses, deixando que o tempo depurasse as tempestades e trouxesse de volta os dias de sol.

O narrador dessas peripécias poderia encerrar o caso com esse apaziguamento. Afinal, todos se salvaram. Quer dizer, nem todos. Godofredo ao voltar, viu a esposa algumas vezes na rua. Houve constrangimento, mas também houve o despertar da velha chama, brasa dormida, fagulha que estava escondida entre as cinzas daquele incêndio nefasto. Não lhe foi possível resistir. Tolice por tolice, concluiu que um leito aquecido é o melhor remédio para as noites frias. Reatou. Colocou ordem na sua vida desregulada.

Como se não bastasse, também fez as pazes com Machado. Deixou a cólera no passado – embora, vez ou outra, tivesse algum ataque de ciúme ou lembrasse da ignomínia. Por fim, voltou a receber o rapaz em sua (dele) casa, como se fosse um integrante da família.

Na cena final, muitos anos depois, os amigos confraternizam:

Bate então no ombro do seu amigo, lembra-lhe o passado, diz-lhe:

– E nós que estivemos para nos bater, Machado! A gente em novo sempre é muito imprudente... E por causa de uma tolice, amigo Machado!

E o outro bate-lhe no ombro também, responde sorrindo:

– Por causa duma grande tolice, Alves amigo.


Alves & Cia, mais do que uma farsa burguesa, revela, com doses homéricas de ironia e cinismo, o quão tola pode ser a vida de quem se deixa levar pelas aparências e pelo ordenamento social.

Concluída a leitura do livro, cabe esclarecer que a delegação presidida por Medeiros e Carvalho não era gratuita. Eles não mediram esforços para impedir o duelo porque estavam legislando em causa própria: para qualquer um dos dois seria uma amolação ter que se bater em armas contra algum marido enlouquecido. Que Godofredo tivesse sido premiado na loteria dos traídos, vá lá, mas dar (mau) exemplo aos outros não era conveniente a ninguém. Como disse Carvalho, a determinada altura da narrativa: Homem, isto melhor é a gente divertir-se por sua conta, que os outros se divirtam à nossa custa...


TRECHO ESCOLHIDO

 

Era uma longa história, que o Medeiros contou com detalhes, gozando. Tinham falado ao Machado, que lhes prometeu que dois amigos dele estariam às quatro horas em casa dele, Medeiros. E pontualmente apareceram lá o Nunes Vidal, que ele conhecia perfeitamente, rapaz de experiência em coisas de honra, e o Cunha, o Albertinho Cunha, que pouco falava, estava como um comparsa. Entraram, cumprimentos, etc., tudo muito grave, e toda a amabilidade. Depois vieram à questão: o Nunes Vidal declarou logo que, em princípio, o sr. Machado estava pronto a aceitar todas as condições, todas quaisquer que fossem, propostas pelo sr. Alves. Inteiramente todas. Mas que ele, Nunes Vidal, e ali o seu amigo Cunha, entendiam que o dever das testemunhas, num conflito, era, antes de tudo, procurar paz e conciliação. E que portanto, se em princípio o seu constituinte, o sr. Machado, por um excesso de pundonor e orgulho, estava disposto a deixar-se matar, eles, suas testemunhas, que tinham tomado nas suas mãos os interesses dele, estavam ali, e tinham vindo ali, não só para procurar, tanto quanto possível, o evitar que sucedesse uma desgraça no campo ao seu amigo, mas mesmo que em volta do nome dele se fizesse um escândalo, que o prejudicaria...

 

– Tudo isso bem dito – acrescentou o Medeiros –, tudo muito bem explicado, com bonitas palavras... Sério, gostei do Vidal.

 

– Ah, rapaz de muito talento – murmurou o Carvalho.

 

Enfim, Vidal terminara por dizer, que tudo bem considerado, não julgavam que houvesse motivo para um duelo grave à pistola.

 

Outra vez a falta de motivos. Godofredo despropositou:

 

– Com mil diabos, então que queria esse asno que o Machado me tivesse feito de pior?

 

Com um gesto, Medeiros conteve-o.

 

– Não te exaltes, não te exaltes... Deixe estar que lá lhe disse tudo. O Vidal é muito esperto, mas olha que não me calei. Pergunta ao Carvalho...

 

– Andaste como um rábula – disse Carvalho.

 

– Mas então que diabo disse o Vidal? – exclamou ainda Godofredo.

 

O Vidal dissera que não havia motivo de sangue, porque o que se passara entre Machado e a senhora fora um simples namoro...

 

Godofredo teve um gesto furioso. E o Medeiros, erguendo-se também:

 

– Não te exaltes, escuta. Eu lá lhe disse tudo. Contei-lhe do modo como o apanhaste, e a carta, meu riquinho que tarde a de ontem, e o resto. Apresentei-lhe todos os dados para o convencer que o adultério era completo... Não é verdade, Carvalho?

 

– Todos.

 

– Disse-lhe claramente: meu constituinte, o nosso amigo Alves, é, em toda a extensão da palavra, um marido que... Enfim, necessita reparação. Não é verdade, Carvalho?

 

Carvalho fez um gesto de assentimento.

 

– Mas o Nunes provou-me que não. Tinha lido as cartas ele também, o Machado contara-lhe tudo, e depois de ter combinado, pensado, chegara a este resultado: que não passara de namoro.        

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O PENSAMENTO SELVAGEM DE WOODY ALLEN EM CINQUENTA FRASES





– Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto; outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.

– Na Califórnia não se joga o lixo fora. Eles o reciclam na forma de programas de tv.

– Certa vez tomei a atitude política mais firme de minha vida: passei 24 horas sem comer uvas.

– A realidade é dura, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife.   

– Só há um tipo de amor que dura, o não correspondido.

– O mundo se divide em pessoas boas e pessoas más. As pessoas boas têm um sono tranquilo. As pessoas más se divertem muito mais.

– Sempre achei que iria levar anos para fracassar da noite para o dia.  

– A vantagem de ser inteligente é que podemos fingir que somos imbecis, enquanto que o contrário é completamente impossível.  

– Se eu acho que sexo é sacanagem? Só quando é bem feito.

– Não é que eu tenha medo de morrer. Apenas não quero estar vivo quando isso acontecer.

– Só há pouco descobri que meu grande problema é um desejo intenso de retornar ao útero. Qualquer útero.

– Se você fala com Deus, é porque está orando. Mas, se Deus fala com você, você está louco.

– O dinheiro é melhor que a pobreza, nem que seja por razões financeiras.

– Noventa por cento do sucesso se baseia simplesmente em insistir.

– Você pode viver até os cem anos se abandonar todas as coisas que fazem com que você queira viver até os cem anos.

– O sexo sem amor é uma experiência vazia. Mas como experiência vazia, é uma das melhores.  

– Certo dia, atrasei-me ao voltar da escola e meus pais pensaram que eu havia sido sequestrado. E aí entraram imediatamente em ação: alugaram meu quarto.

– E se tudo for uma ilusão e nada existir? Nesse caso, não há dúvida de que paguei demais por aquele carpete novo.

– Não despreze a masturbação – é fazer sexo com a pessoa que você mais ama.

– Amar é sofrer. Para evitar sofrer, não se pode amar. Mas, então, sofre-se por não se amar.

– Minha primeira mulher era muito infantil quando nos casamos. Um dia, eu estava tomando banho na banheira e ela afundou todos os meus barquinhos sem o menor motivo.

– O futuro me preocupa porque é o lugar onde penso passar o resto da minha vida.  

– As pessoas tem uma imagem de mim associada a usar jeans ensebados, tênis furados e a morar no Village. Isso não combina com o meu Rolls-Royce.

– O pessimista afirma que já atingimos o fundo do poço; o otimista acredita que é possível cair mais.   

– Fiz análise de grupo quando era jovem porque não podia pagar uma análise individual. Cheguei a ser capitão do time de vôlei dos Paranoicos Latentes. Todos nós, os neuróticos, tirávamos o domingo de manhã para fazer algum esporte. Era sempre os Roedores de Unha contra os Mijões na Cama.

 – Eu e minha mulher ficamos em dúvida entre tirar férias ou nos divorciarmos. Optamos pela segunda hipótese. Duas semanas no Caribe podem ser divertidas, mas um divórcio dura para sempre.     

– Todas as minhas tentativas de suicídio foram um fiasco. Eu vivia abrindo as janelas e fechando o gás.

– Eu adorava minha primeira mulher. Só pensava em pô-la sob um pedestal.  

– Meu cérebro é o meu segundo órgão favorito.

– Eu estava saindo com uma garota, íamos nos casar e então houve um conflito religioso. Ela era atéia e eu, agnóstico. Não sabíamos em qual religião não iríamos criar os nossos filhos.

Por que escovar os dentes quatro vezes ao dia e fazer sexo duas vezes por semana? Por que não o contrário?   

– Encontrei minha ex-mulher num restaurante e, com meu temperamento devasso, adejei sensualmente para ela, sussurrando: “Que tal se fôssemos lá para casa e fizéssemos amor mais uma vez?”
“Só por cima do meu cadáver”, ela respondeu.
“Não vejo por que não”, eu disse. “Sempre foi assim.”

– Sou um heterossexual convicto, mas ser bissexual dobra automaticamente as suas chances de um encontro no sábado à noite.

– Se Deus existe, porque Ele não dá um sinal de Sua existência? Como, por exemplo, abrir uma bela conta em meu nome em um banco suíço.  

– Finalmente tive um orgasmo. Mas o médico disse que era do tipo errado.

– Há uma lei em Nova York, segundo a qual só se concede um divórcio no caso de adultério de um dos cônjuges. Bem, eu me ofereci para a tarefa.  

– Meu pai trabalhou na mesma empresa durante doze anos. Eles o demitiram e o substituíram por uma maquininha deste tamanho, que faz tudo o que meu pai fazia, só que muito melhor. O deprimente é que minha mãe também comprou uma igual.

– Quando eu era pequeno, meus pais descobriram que eu tinha tendências masoquistas. Aí passaram a me bater todo dia, para ver se eu parava com aquilo.

– Algumas vezes, um clichê é a melhor forma de explicar um ponto de vista.  

– Às vezes me perguntam por que trabalho tanto. É porque, quando ficar velho, quero pôr meus pais num asilo.

– Depois do divórcio, fiz um trato com minha mulher. Se eu me casasse de novo e tivesse filhos, eles ficariam com ela.    

– Os burocratas existem para transformar a solução num problema.

– Eu era muito jovem para ter um carro. Então transava com as moças no banco de trás da minha bicicleta.

– O crime organizado na América rende 40 bilhões de dólares. É muito dinheiro, principalmente quando se considera que a Máfia quase não tem despesas de escritório.

– Quando eu tinha seis anos, meus pais se mudaram – mas eu os encontrei de novo.

– Quando comecei a escrever, tentei vender a história de minha vida sexual para uma editora. Eles a compraram e a transformaram num joguinho de armar para crianças. 

– Em nossa noite de núpcias, minha mulher parou em pleno ato e me aplaudiu de pé.

– Por que Deus não fala comigo? Se Ele pelo menos tossisse!

– O que é melhor? Amar ou ser amado? Nenhum dos dois, se a sua taxa de colesterol for muito alta.

– A vida se divide em horrível e miserável.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

A PEÇA INTOCADA


Luci (Maria Dias) Collin não estava na minha lista de escritoras brasileiras que merecem atenção. Por alguma razão, tive pouco contato com as suas narrativas. Vasculhando as estantes, encontrei alguns contos em antologias, nada que – para o meu gosto – possa classificar como acima da média. Talvez o olhar tenha sido ofuscado por outros textos, talvez a leitura tenha ocorrido em dia ruim, talvez o que não pode ser explicado deva ficar assim mesmo, sem explicação.  

Luci (Maria Dias) Collin está na minha lista de escritoras brasileiras que merecem atenção. A história é longa e mirabolante, e vai ficar para outro dia, o que importa é que gostei dos contos que integram A Peça Intocada, livro impresso por editora independente, “indie” para os íntimos. Nunca tive notícias da Arte e Letra Editora ou, se as tive, descartei, fazer o quê? Segundo o Google, a empresa é também café & livraria, em Curitiba, PR. Então, tá. Anotei o endereço, um dia desses faço visita.

Gostei do volume. Produção artesanal, capa dura, exemplar numerado, papel rústico, diagramação retrô. A dedicatória é o plus que todo escritor razoavelmente interessado na literatura brasileira contemporânea deveria levar em consideração: para / Elvira Vigna e Maria José Silveira / pelas palavras. Não sei que palavras são essas, poderia imaginar que se trata de uma retribuição pela amizade ou pelo conjunto da obra das duas escritoras citadas. Poderia fabular um monte de coisas, coisas aos montes, palavras possuem essa serventia. Prefiro continuar com as dúvidas, incentivo para a fantasia, em outra oportunidade, se for possível, pergunto a quem de direito. Ou não. Sei lá.

A prosa de Luci Collin é angulosa, cheia de arestas, todo cuidado é pouco, risco de obter algum machucado, nunca se sabe, sensibilidade é tesouro particular. Ao mesmo tempo, no meio do texto, percebe-se a ausência de economia em questões de humor, de ironia. Multiplicam-se as estocadas, em sutil tocata, o intervalo das frases contrapondo-se ao que está escrito antes, ampliando o que surge depois. Surpresas para o olhar do leitor. Estranho e delicioso.

Entre os 15 contos, a autora marca bons pontos nessa competição sem regras que chamam de literatura. Em Jogando cartas com T. S. Eliot, a desconstrução da verossimilhança, o reino da imaginação, a vitória do nonsense. O ilustre ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1948 está de passagem por Curitiba. Diante de tamanha celebridade, os dirigentes da urbe se despem da dignidade e revelam o quanto há de ridículo na vida pública. Em contrapartida, o poeta recita alguns de seus versos em resposta à prosa que protagoniza. Diversão – não há outro adjetivo.

Outro momento especial está na história do menino que deve ler, diante dos colegas de escola, uma redação sobre o que aconteceu de importante/interessante nas suas (dele) férias. Enquanto alguns alunos foram viajar para locais que o rapaz somente conhece de gravuras e fotografias publicadas em revistas, coube-lhe amargar exílio dentro de casa, as únicas distrações possíveis eram os programas de televisão e os livros da biblioteca pública. Como explicar que a sua família vive com dificuldades, que ele nunca teve relógio, que não conhece o pai e os avós, que pão com sardinha ou miojo quase se equivalem a manjares? Melhor ficar quieto, escondido no fundo da sala, sem que ninguém o perceba. A cada nome chamado para a leitura, um rosário de promessas. Não farei isso, deixarei de fazer aquilo, até lavar a louça aparece nesse cardápio de boas intenções. Mesmo assim, para não ser vítima de cilada, urge combater o inevitável com um pouco de criatividade. Reunir o que é excesso nos outros e compor uma nova narrativa, lugar onde a ilusão assume o lugar do inexistente.

Paródias também aparecem em cena, Os Rudimentos do Jovem Berthe quer, em formato epistolar, Vezes despir a frase, decompor os tempos, espalhar as roupas intimas secretas as tensões dos verbos. E, nesse ritmo de valsa ou de poesia, o andamento narrativo segue na direção do desentendimento – que é o destino natural de todos os relacionamentos, estejam envoltos no intercâmbio de fluídos corpóreos ou na troca de longas cartas que não dizem o que deveriam dizer, que jamais dirão algo próximo do que deveriam dizer.        

E com essa observação chegamos a outro ponto crucial nas narrativas de Luci Collin: alguns dos contos não possuem enredo, a escritora vai alinhavando alguns elementos frasais, aposta no tecer a teia, as ideia vão se somando ou se anulando, a enumeração complementa, em determinado momento surge a tessitura, o triunfo da aranha, e tudo começa a fazer sentido. Efeitos de prestidigitação construindo o alumbramento.

Outra característica: uma relação de amor e ódio com Curitiba. Ao mesmo tempo em que relaciona algumas das qualidades da aldeia em que vive, Luci Collin dispara torpedos contra o provincianismo. As cenas com as velhinhas em Coré Etuba: Tati Kéva! são exemplares, na medida em que mostram que, ao lado do progresso urbanístico e cultural, parte da população cultiva uma mentalidade atrasada, típica do século XVIII. Igual entendimento se repete em diversos trechos do livro, o(a) narrador(a) citando futebol na televisão aos domingos, música na vitrola, álbuns de fotografias, joelhos esfolados, as mulheres que só amam por dinheiro, os homens que só conseguem amar com dinheiro, pastéis, Kombi, corações partidos e senhoras que vão à missa.  

A Peça Intocada é um livro desigual. Alguns contos são de fácil entendimento. Outros precisam do tempo de maturação. Algumas das narrativas são alegres, simpáticas, o tom coloquial se esparramando pela planície textual. Outras estão envoltas em uma nuvem de melancolia, o olhar vago, a procurar por explicações. Quem almeja alcançar a consistência das palavras inscritas em cada um dos quinze contos descobre que, ao final da leitura de cada uma das histórias, a fragilidade humana prevalece. Mas também há momentos emblemáticos, força não é produto que se compra no supermercado mais próximo.

O protagonista do conto Matiz das armadilhas, depois de mil peripécias, o corpo partido em várias fraturas, declara, no leito do hospital, com toda a singeleza possível: Depois daqueles pudinzão todo não dá pra voltar pra ovo frito.      

A literatura de Luci Collin é um pudinzão.

terça-feira, 17 de abril de 2018

ROLETA RUSSA


No entrecruzamento de duas formas artísticas, o ruído se torna inevitável. Entende-se ruído por algo que incomoda, por alguma coisa que parece estar no lugar errado (e está!). No caso específico do “casamento” entre literatura e o cinema, por exemplo, o barulho se tornou uma constante. Em alguns momentos, o filme destrói o livro; em outros, o filme está vários degraus acima do texto. E ainda há os casos em que o resultado final sequer se parece com a narrativa que serviu de inspiração. Alfred Hitchcock tinha uma tese curiosa sobre essa ligação amorosa: livros ruins é que dão filmes bons. Muitos comentaristas de cinema rejeitam esse pensamento. A realização cinematográfica depende mais da técnica do que do roteiro, dizem, lembrando que uma direção frouxa causa maiores danos do que alguma “liberdade poética” que possa ser utilizada no desenvolvimento fílmico. O estadunidense Gore Vidal divergia violentamente dessa ideia. Em um ensaio clássico, Quem faz o cinema? (incluído no livro De Fato e de Ficção), defende a ideia de que o roteirista é mais importante que o diretor e que a carpintaria estrutural de uma história supera quaisquer artifícios artísticos que possam surgir no set de filmagem ou na mesa de edição. O pessoal da literatura – que defende a sacralidade do texto original – não concorda com essas duas hipóteses. Embora aceitem o corte de algumas cenas, ficam furiosos com os enxertos e são irredutíveis contra qualquer alteração na espinha dorsal do enredo.

Em um mundo onde todos se decepcionam (porque estão, simultaneamente, certos e errados), o ponto comum está na concordância de que a literatura e o cinema trabalham com linguagens diferentes e que a fidelidade absoluta inexiste em qualquer adaptação.
 
Recentemente, um romance de espionagem foi adaptado pelo cinema. Imediatamente, o livro se tornou um best-seller. Não há como impedir as ligações perigosas que o capitalismo produz nas relações de consumo. O divertido, nessa história, está em um fato básico: os dois produtos são de péssima qualidade. O livro, Red Sparrow, escrito por Jason Matthews, em 2013, foi publicado no ano seguinte no Brasil com um título estranho: Roleta Russa. Parece que algum gênio do marketing acreditou que “Pardal Vermelho” (ou Russo) não era uma opção aceitável. Com o lançamento do filme, publicaram uma segunda edição da narrativa, agora com um nome mais fácil de ser consumido pelo público que se deixa conduzir pelo entretenimento: Operação Red Sparrow. Logo abaixo do título, um slogan publicitário (revelando a ausência de escrúpulos editoriais e econômicos): Pronta para seduzir, treinada para matar.

A crítica especializada em cinema detestou o filme. Parece que sobram cenas de nudez e faltam qualidades artísticas em atores e equipe técnica.

Sobre o livro, cabe destacar inúmeros problemas de redação (ou de tradução) e o desperdício de uma boa ideia. A história de uma bailarina que, em função de um “acidente” de trabalho, precisa se tornar uma espécie de Mata Hari contemporânea poderia resultar em uma boa narrativa. Infelizmente o castelo desaba. Na ânsia febril de demonstrar que as equipes de espionagem estadunidenses são mais competentes que as russas, a protagonista (Dominika Egorova) vai sendo devorada lentamente por um narrador “professoral” que, em nome de "valores" superiores, decreta as diferenças entre o bem e o mal.

Treinada pela Sluzhba Vneshney Razvedki, SVR (Serviço de Inteligência Estrangeiro), organismo que substituiu o Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, KGB (Comitê de Segurança do Estado), Egorova recebe ordens de seduzir Nathaniel (Nate) Nash, agente da Central Intelligence Agency, CIA. Deve descobrir a identidade de um alto funcionário russo que está passando informações confidenciais ao inimigo. Por sua vez, o estadunidense é induzido a agir com o mesmo propósito – alguns segredos militares estão sendo entregues aos russos. Arma-se um jogo de gato e rato, onde se torna difícil definir quem é quem. Essa tensão sofre um incremento quando surge em cena a atração amorosa e sexual.

Longe de ser uma versão de Romeu e Julieta, o romance perde a essência logo depois. Lá pela metade da narrativa, Dominika aceita ser uma informante da CIA  inconformada com diversos acontecimentos se transforma em uma traidora. A morte de uma amiga serve de "gatilho" para a decisão, que não requereu grandes dramas de consciência. Nesse momento, o entretenimento literário passa a ser uma ferramenta de doutrinação ideológica.  Em outras palavras, todas as 423 páginas do romance estão alicerçadas em um único propósito: afirmar que os estadunidenses são superiores – no campo da ética, da técnica e da inteligência – aos russos.

Essa “verdade” é enunciada a todo instante. Mesmo quando se apresenta como contradição. Basta confrontar os informantes.  Enquanto o General Vladimir (Volodia) Korchnoi, se mostra cuidadoso, astuto e confiável, a Senadora Stephanie Boucher, prima pela arrogância, pela rebeldia e pela falta de cuidado com a segurança. O maniqueísmo destrói qualquer verossimilhança. Os russos são cruéis, utilizam assassinos profissionais, torturam, mentem e não se detém diante de quaisquer obstáculos. Os americanos se comportam de igual maneira, mas com uma diferença fundamental: segundo o narrador, lutam pela “democracia” e pela “liberdade”. Rir dessas bobagens parece ser o único procedimento aceitável para o leitor que possui algum senso crítico.

O clima de guerra fria, ressuscitando os anos 60 e 70, faz com que todos os elementos narrativos importantes evaporem nas páginas finais do livro. Sobra apenas a barbárie. Dominika, que parecia ser o protótipo da mulher que consegue superar os empecilhos causados pelas atividades masculinas, se transforma em fantoche das ações políticas. A decepção se instala.

 TRECHO ESCOLHIDO

 

No balé, os alunos mais experientes sabem tanto de anatomia, articulações e lesões quanto um médico. Insuflado pelos hormônios e os ardores do sexo, Konstantin esperou pacientemente até sua vez de formar par com Dominika. Certo dia, numa sala apinhada de alunos, ele fazia um pas de deux com sua parceira quando pisou forte no calcanhar dela durante uma ponta, fazendo que o pé vergasse para frente. Dominika desabou no chão no mesmo instante e se encolheu de tanta dor, as cores sangrando à sua frente. Foi levada à enfermaria sob o olhar assustado das colegas que praticavam a barra – Sonya era a mais pálida de todas. Ao olhar para ela antes de sair, Dominika intuíra toda a verdade ao ver a expressão de culpa, o miasma cinzento que a envolvia numa espiral invisível aos demais. Seu pé agora era um volume preto e roxo que se dobrava para trás, grotesco, e a dor, lancinante, irradiava para a perna.

 

– Fratura-luxação de Lisfranc no mediopé – sentenciou o médico.

 

Após uma série de exames ortopédicos, uma cirurgia de emergência e uma bota de gesso até a altura do tornozelo, Dominika foi dispensada da academia. Num piscar de olhos sua carreira de bailarina havia chegado ao fim. Os comentários de que ela seria a próxima Ulanova ficaram no passado. As professoras, os preparadores e os mestres de balé já nem olhavam mais para ela.

 

Àquela altura Dominika já aprendera a represar sua inclinação para a fúria, mas agora não havia o que fazer. Era pedir demais. Num momento de histeria, cogitou denunciar Konstantin e Sonya pela sabotagem. Não havia dúvidas que eles também seriam dispensados assim que a armação viesse à tona. Mas no fundo ela sabia que nao seria capaz disso. Dominika ainda contemplava o próprio futuro, atordoada, quando recebeu o telefonema da mãe.