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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O MARECHAL DE COSTAS


Toda biografia é como adivinhar pelas costas o rosto de alguém. Damos à pessoa um traço possível. Quando ela se vira, pode ser outra. Pode ser, aliás, o contrário, como uma estátua que estranha o rosto de seu modelo vivo.
O Marechal de Costas, de José Luiz Passos


A literatura brasileira contemporânea estava desconectada com a História. Estava. Quer dizer, houve tempo que esteve mais. Muito mais. Agora, sem saber distinguir se isso é bom ou ruim, está um pouco menos. Mas, nesse caso, apesar do trocadilho ruim, menos não é mais. Literatura é documento, é testemunho, é retrato de época. Obviamente, uma parcela dos escritores em atividade procura – com todas as forças e palavras – negar esse fato. Eles preferem preencher páginas e páginas com variações em torno dos próprios umbigos. Sai cada sujeira...

Ao estabelecer uma ligação entre alguns episódios da vida do alagoano Floriano Viana Peixoto (1839-1895), segundo Presidente do Brasil, e uma cozinheira que participa de um comício em favor de Dilma Rousseff, a narrativa consegue – através da comparação histórica – demonstrar que a gênese política da República está alicerçada em algum tipo de golpe de Estado. Suposta parente distante do Marechal, o que a torna uma espécie de curiosidade na casa em que trabalha, cabe à mulher narrar os fatos contemporâneos. Em compensação, os eventos ocorridos no Império e nos dois primeiros governos da República estão descritos por um narrador impessoal, em terceira pessoa, que constantemente recorre a fontes bibliográficas. Desta forma, como compete às linhas paralelas (que nunca se encontram no infinito), a espinha dorsal da narrativa (que parece ser muito tênue e prestes a se romper a qualquer momento) se mantém integra, permitindo que os dois textos se complementem e forneçam coerência ao enredo.

O “Marechal de Ferro” foi eleito vice-presidente do Marechal Manuel Deodoro da Fonseca (1827-1892), em uma eleição indireta onde obteve mais votos do que o titular. Assumiu o poder entre 23 de novembro de 1891 e 15 de novembro de 1894, após a renúncia de Deodoro da Fonseca. Para alguns historiadores, Floriano foi o primeiro conspirador republicano, pois em nada contribuiu para ajudar o governo que o antecedeu. Conhecido como ter governado o país com métodos autoritários, não poupou energias para sufocar a 1ª e a 2ª Revolta da Armada, no Rio de Janeiro, e a Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul. Apesar disso, ou talvez por causa disso, ao descrever a vida de Floriano (perfilhado pelo tio, participando da Guerra do Paraguai, leitor de biografias de Napoleão), a narrativa humaniza a figura histórica, confere traços emocionais a alguém que os livros de história não costumam elogiar.

Dois personagens acompanham Floriano. O primeiro é o sargento da marinha Silvino Honório de Macedo, um dos lideres da Revolta da Armada e que foi fuzilado como conspirador. Ao contrapor o ditador com um idealista, o texto mostra as distâncias que existem entre aqueles que exercem o poder e as reivindicações de caráter social. O segundo é Josina Vieira de Araújo Peixoto, esposa (prima, irmã adotiva) de Floriano, mãe de oito filhos, aquela que o acompanha em todos os momentos – embora não concorde com certas atitudes do marido.

Contemporaneamente, a cozinheira (que também é alagoana) está na companhia do advogado Ramil, de seu filho, Ramil Jr., e de um professor. Como não consegue ficar calado, o professor esbanja conhecimentos e faz incontáveis citações de filósofos, escritores, homens públicos. Todo esse esforço resulta em um arremedo de compreensão da situação político-econômica do Brasil. Em determinado momento, talvez para encerrar aquela algaravia, Ramil pai propõe ir até o centro da cidade, para ver uma manifestação popular que está ocorrendo naquele momento. Então, vamos ver essa política toda acontecendo?, pergunta para o filho, para a cozinheira e para a visita. Próximos do atordoamento, pois ninguém esperava por esse tipo de atitude, chamam um táxi e se dirigem à Cinelândia, onde constatam que a união da teoria com a prática causa uma nova cicatriz no corpo machucado do país.

Neste país é impossível qualquer alteração da ordem pública por parte do povo, diz um trecho da narrativa, parafraseando a frase famosa de Aristides Lobo que, quando da proclamação da República, afirmou que o povo assistiu a tudo bestializado, sem compreender os acontecimentos. Essa situação reverbera na atualidade, quando o parlamento brasileiro produziu um “golpe branco” (destituindo uma presidente da República que era contrária aos interesses de alguns segmentos políticos e econômicos) e que, salvo protestos episódicos, foi assimilado pelos brasileiros como um ato natural.  

A tradição (ou melhor, a traição) iniciada por Floriano se repetiu várias vezes na história da República e, provavelmente, será reencenada em muitas outras oportunidades. No Brasil, a História se tornou apenas um registro cronológico – jamais será uma ponte para o aprendizado. A democracia, como compete à ficção, se transformou em uma figura de retórica a enfeitar (enfeiar) os tristes tropiques.  

Ao refletir sobre dois momentos do Brasil, misturando em doses desiguais História e ficção, José Luiz Passos produziu um romance muito interessante (apesar da linguagem levemente áspera) e que não se exime de apontar o autoritarismo que permeia todos os instantes da vida política brasileira.   


TRECHO ESCOLHIDO


O professor disse, Veja só. Só quem dá opinião e se vangloria dela é a classe média. Isso tudo que vocês estão vendo é radicalismo da classe média. O aristocrata não dá opiniões, inspira obediência posando com a sua linhagem. O proletário só tem, como diz seu próprio nome, a prole. Não tem tempo para entrar no mercado das ideias, o dia é curto. O alto burguês, capitão de indústrias, por exemplo, comanda com a caneta e um carimbo. Não sobe no plano das abstrações, porque ali não há o que ele quer, acumular posses. O pragmatismo dessas três classes obviamente a classe média não herdou, verdade? Vive numa sopa de opiniões, aspirando ser como um aristocrata, consumir como um burguês e, ainda por cima, se queixar de que é difícil manter a dignidade do trabalho, terreno dos proletários.


Marx já disse, Karl Marx, que fez da economia uma filosofia. Num lindíssimo texto sobre a middle class inglesa, ele disse, A onda industrial que fez brotar o ressentimento dos trabalhadores com a aristocracia se amplia na migração desse conflito, digamos, que hoje opõe o proletário à classe média. Aliás, no saudoso século XX a agitação política dos trabalhadores ensinou a classe média a odiar o confronto político aberto, nas ruas, pondo abaixo as instituições do confronto. É como na canção que diz, Família não joga pedra em janela, joga pedra no gari. Aquele famoso sambinha, apesar de paulista, tinha jogo de cintura, concordam? Grande samba político, enganou até a ditadura. Enfim, a classe média ainda hoje imita a aristocracia na pose dos seus idealismos descolados do mundo material. Mas um dia vai ver que a reputação é monopólio da nobreza de sangue, logo em seguida vai ser fisgada por uma dessas filosofias do pós-moderno. Orgulhosa desse tino pela via do prazer, pela via crucis do corpo, como disse Clarice Lispector, vai ver os filhos sendo arrastados pra fora das universidades, a educação entregue a um bando de retrógrados, os evangélicos se metendo na política, e a polícia levando no domingo todo mundo pelo braço à igreja. Isso como, aliás, já está acontecendo em São Paulo. Eu estudei na USP mas sou muito crítico de São Paulo. Desses 65 mil que estão vendo aí, segundo a Polícia Militar do belo Rio, desses garanto que pelo menos 50 mil ou mais são de classe média. Estão balançando o chocalho das opiniões sem base.


Então o professor, cansado de discursar, fez uma pausa, lambendo os beiços. Depois continuou, Já na arte, por exemplo, isso é um pouco mais complicado. Que ela pertence e, ao mesmo tempo, não pertence ao reino das opiniões, e ele estirou um braço numa onda larga, lentamente, que se espalhava até sua mão apontar para um mural pintado no paredão de um prédio comercial. O grafite era um crânio imenso, com margaridas nos olhos, mastigando a bandeira do Brasil. Embaixo havia um lema. O PETRÓLEO É NOSSO. A PETROBRAS TAMBÉM. Mas o professor não leu isso. Em vez, falou, Vita brevis, ars longa, iudicium difficile. A vida é breve, a arte é longa e o juízo difícil, essa é do meu tempo de seminarista, ele admitiu.  

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O PODER, EM CINQUENTA E UMA FRASES

Apparício Fernando de Brinkerhoff
Torelly, Barão de Itararé, 1895-1971
– Na história do mundo, ninguém jamais lavou um carro alugado. (Lawrence Summers)

– A arte do compromisso é dividir o bolo de modo que cada um pense ter ficado com o pedaço maior. (Laurence J. Peter)

– Uma guerra se faz em nome de ideias e termina em nome de interesses. (Carlos Drummond de Andrade)

– Nascer estadista em país subdesenvolvido é como nascer com um tremendo talento de violinista numa tribo que só conhece a percussão. (Millôr Fernandes)

– Não gosto de política, gosto de poder. Política para mim é um meio de chegar ao poder. (Carlos Lacerda)

– É praga destes tempos que os cegos sejam guiados pelos loucos. (William Shakespeare)

– A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los, fazer o diagnóstico errado e depois aplicar mal os remédios errados. (Groucho Marx)

– As grandes nações sempre agiram como gangsteres; as pequenas, como prostitutas. (Stanley Kubrick)

– Política é a arte de obter votos dos pobres e recursos dos ricos, prometendo a cada grupo defendê-lo contra o outro. (Oscar Ameringer)

– De todas as coisas “organizadas”, é o Estado, em qualquer parte ou época, a mais mal organizada de todas. (Fernando Pessoa)

– Se quisesse punir uma província, deixaria que fosse governada por um filósofo. (Frederico II, o grande)

– Há uma nítida diferença entre o estadista e o político. O primeiro é alguém que pertence à nação; o segundo, alguém que pensa que a nação lhe pertence. (Antônio Ermínio de Moraes)

– Um conservador é um homem excessivamente covarde para lutar e excessivamente gordo para fugir. (Lafayette Ronald Hubbard)

– Não espere que a solução venha do governo. O governo é o problema. (Ronald Reagan)

Millôr Viola Fernandes, 1923-2012
– O que é a história? É a soma de relatos, quase todos falsos, de eventos todos menores, provocados por políticos quase todos velhacos e executados por soldados quase todos patetas. (Ambrose Bierce)

– A democracia é o pior dos regimes, com exceção, naturalmente, de todos os outros. (Winston Churchill)

– O poder não satisfaz, ou melhor, é como a droga – que exige sempre doses maiores. (Luciano de Crescenzo)

– Há três maneiras de se chegar ao desastre: a mais rápida é pelo jogo; a mais agradável é com as mulheres; e a mais segura é consultar um economista. (Georges Pompidou)

– Não entendo como alguns escolhem o crime, quando há tantas maneiras legais de ser desonesto. (Laurence J. Peter)

– Se o governo administrar o Saara, em cinco anos faltará areia. (Milton Fredman)

– No Brasil, a vida pública é, muitas vezes, a continuação da privada. (Barão de Itararé)

– Políticos que se queixam da imprensa são como comandantes de navio que se queixam do mar. (Mark Twain)

– A virtude nunca é expulsa da corte a chibatadas. Por lá tratam-na muito bem, com o intuito de retê-la o máximo possível. No entanto, está sempre de passagem. (William Shakespeare)

– Em política tudo é permitido, exceto deixar-se surpreender. (Charles Maurras)

– Por mais hábil que seja, o político acaba sempre cometendo alguma sinceridade. (Millôr Fernandes)

– Detesto as vítimas que respeitam seus carrascos. (Jean-Paul Sartre)

– Se quisermos prevenir a violência, não precisamos de menos democracia. Precisamos de mais. (Frederic Wertham)

George Bernard Shaw, 1856-1950
– Somente o inimigo é fiel. O inimigo não trai nunca. Ele vai cuspir na cova da gente. (Nelson Rodrigues)

– A liberdade do dinheiro é inimiga da liberdade das pessoas. (Eduardo Galeano)

– O estadista vê o futuro; o político, o dia seguinte. (Winston Churchill)

– Um escravo tem um senhor. Mas o homem ambicioso tem muitos senhores: todas as pessoas que lhe podem ser úteis para ele subir na vida. (Jean de La Bruyère)

– Os lideres podem cair de duas maneiras: com glória, na liça política, inclusive eliminados fisicamente; e por capitulacionismo, por covardia, por medo. (Ulisses Guimarães)

– O pior analfabeto é o analfabeto político. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais. (Bertolt Brecht)

–Toda vez que preencho um cargo, faço cem descontentes e um ingrato. (Luís XIV)

– (...) enquanto os falcões enquanto falcões e os pardais enquanto pardais professam amor a Deus, a tendência natural dos falcões para abater pardais continua inabalável. (Luiz Nazário)

–O pior da ditadura é o guarda da esquina. (Pedro Aleixo)

Julius Henry Marx (Groucho Marx), 1890-1977

– Um banco é um estabelecimento que nos empresta um guarda-chuva num dia de sol e nos pede de volta quando começa a chover. (Robert Frost)

– O problema de Brasília é o tráfico de influências, enquanto o do Rio é a influência do tráfico. (Zózimo Barroso do Amaral)

– Os políticos são como maus cavaleiros, tão preocupados em se manter na sela que nem prestam atenção para onde estão indo. (Joseph Schumpeter)

– O capital é como a água, sempre flui por onde encontra menos obstáculos. (Antonio Delfim Netto)

– Não há exceção – poder conquistado pela força só se mantém pela força e só sai à força. (Millôr Fernandes)

– Seja legal com os cê-dê-efes. Existe grande probabilidade de um deles ser seu chefe um dia. (Bill Gates)

– Corrupção escondida vale tanto como pública; a diferença é que não fede. (Machado de Assis)

– Não há ateus numa trincheira nem ideologia numa crise financeira. (Ben Bernanke)

– Há duas formas de mentira: a mentira e a estatística. (George Bernard Shaw)

– Os economistas gostam de ficar brigando entre si para não correr o risco de estarem todos errados ao mesmo tempo. (John K. Galbraith)

Ambrose Gwinnet Bierce,
1842-1914
– Os Estados Unidos sempre tomarão a atitude acertada assim que esgotarem todas as alternativas. (Winston Churchill)

– Se fosseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? (William Shakespeare)

– Noventa por cento dos políticos dão aos dez por cento restantes uma péssima reputação. (Henry Kissinger)

– As coisas políticas no Brasil decidem-se por combinações provisórias. (Getúlio Vargas)


– Em política, a traição é uma questão de tempo. (Charles-Maurice de Talleyrand)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A FILHA PERDIDA

O romance A Filha Perdida, da italiana Elena Ferrante, não deve ser considerado como um ensaio sobre a maternidade. Mas poderia ser. Ingredientes não faltam: a rejeição aos filhos, a ambição pessoal em detrimento da vida familiar e, fundamentalmente, a culpa. Também consagra dois temas que ressurgem em paralelo como aguilhões: o medo da solidão e a banalidade do mal.

O enredo linear da narrativa (seguindo o esquema básico: começo, meio e fim, nesta ordem) não apresenta grandes surpresas. Os poucos flash-backs acrescentam um elemento significativo, a rememoração, quando se trata de descrever com exatidão os sentimentos que estão escondidos naquela “hora neutra da madrugada” (segundo célebre definição de Rubem Braga) em que os fantasmas pessoais adquirem solidez e colocam em relevo a sordidez que recheia os pecados.

Leda, 48 anos, professora universitária, decide passar as férias na praia. Vai sozinha. As filhas (Bianca e Marta) moram no Canadá. Com o pai. Nenhuma surpresa. Por um período, três anos, as meninas estiveram afastadas da mãe. Eu fui embora. Abandonei-as quando a maior tinha seis anos e a menor, quatro, explica Leda, sem tremer a voz, sem estar preocupada que esse tipo de declaração possa apavorar quem está ouvindo. Às vezes, precisamos fugir para não morrer

(...) apesar de ter fugido, não fui muito longe, confessa Leda, ao olhar para o passado. O mundo que encontra fora do ambiente doméstico não se mostra domesticado. Ao contrário, a selva costuma devorar todos os que não conseguem se adaptar ao ambiente predatório. O caso afetivo-sexual que teve com um professor se revelou insatisfatório. Muitas de suas expectativas intelectuais não se efetivaram. A frustração se tornou uma constante.

Leda quer convencer – e se convencer – de sua incapacidade de encenar o papel de Mater Dolorosa, aquela que sacrifica as ambições pessoais em favor da prole. Os filhos sempre causam preocupações, confessa, sem discernir se o que a incomoda é o bem-estar dos filhos ou os mal-estares que eles causam nos pais. Não importa. Qualquer definição conceitual se mostra incapaz de explicar aquilo que a corrói internamente.

Na praia, Leda fixa sua atenção em uma jovem mãe e sua filha. A menina, Elena, brinca exaustivamente com uma boneca. Diversos parentes surgem em algum momento e promovem uma festa. Essa alegria destemperada – que lhe é em tudo distante, porque lembra a falta de educação da própria família – aborrece Leda.

Certo dia, Elena desaparece no meio da multidão que frequenta a praia. Inicia-se uma busca frenética pela menina. Todos saem para procurar. Quem a encontra é Leda, que a entrega aos parentes. O ponto crucial desse incidente se resume em uma questão menor: a boneca de Elena também desapareceu. A menina, desesperada, fica doente – apesar das promessas da mãe, Nina, de comprar outra boneca.

A racionalmente desaparece, nessa história, diante de um detalhe mesquinho. Leda escondeu a boneca na bolsa de praia. A princípio, a ideia era devolver no dia seguinte. Não foi o que aconteceu. Mesmo sabendo que Elena estava com febre, ou talvez por isso mesmo, manteve a boneca escondida no apartamento que havia alugado para passar as férias. Sem precisar usar as ferramentas de análise psicanalíticas, o leitor percebe que Leda compensa a sua incapacidade de estabelecer uma relação saudável com o mundo que habita com a companhia do brinquedo.

O que se segue equivale a uma descrição precisa das torturas que acompanham a maldade. Leda, apesar de ter excelente compreensão dos acontecimentos, não se preocupa em desfazer o horror. Prefere macerar a culpa por estar agindo errado, ao mesmo tempo em que vê o sofrimento que causa. Derramei a raiva secreta que nutria por mim mesma, diz, em outro contexto, mas que serviria perfeitamente para caracterizar a situação.

Em paralelo, há outros elementos que interagem no desenvolvimento da narrativa. Um dos mais emblemáticos surge quando Leda descobre que Nina está tendo um caso extraconjugal com Gino, o salva-vidas. Esse fato desencadeia uma nova serie de complicações, inclusive o desfecho. O fio que liga o cotidiano e as relações sociais foi rompido. Sobra pouco. Muito pouco. 

No telefone, falando com as filhas, Leda faz um resumo dos acontecimentos:

Nesse momento tocou o telefone. Vi o nome de Marta, senti uma grande satisfação e atendi. Ela e Bianca, em uníssono, como se tivessem preparado a frase e a recitassem acentuando meu sotaque napolitano, gritaram alegremente no meu ouvido.

– Mamãe, o que você anda fazendo, não liga mais para a gente? Pode pelo menos nos dizer se está viva ou morta?

Murmurei, comovida:

– Estou morta, mas bem.


Evidentemente, essa cena não é uma metáfora “ad hoc”, tanto que, ao voltar para Florença, Leda bate o carro na barra de proteção da estrada. Aos amigos e às filhas explica que dormiu ao volante. Mas eu sabia perfeitamente que esse não fora o verdadeiro motivo. O motivo havia sido um gesto sem sentido, sobre o qual, justamente por ser sem sentido, decidi não contar a ninguém. As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.



TRECHO ESCOLHIDO


(...) Fiquei muito feliz ao saber, quando estava grávida, que dentro de mim uma vida se formava. Eu queria fazer tudo da melhor maneira. As mulheres da minha família inchavam, dilatavam. A criança estabelecida no ventre delas parecia uma longa doença que as transformava, mesmo depois do parto não voltavam mais a ser as mesmas. Já eu queria uma gravidez vigiada. Eu não era minha avó (sete filhos), não era minha mãe (quatro filhas), não era minhas tias, minhas primas. Eu era diferente e rebelde. Queria carregar minha barriga inchada com prazer, aproveitando os nove meses de espera, espiando, guiando e adaptando meu corpo à gestação, como eu havia feito teimosamente com tudo na minha vida desde o início da adolescência. Eu me imaginava como uma peça fulgurante do mosaico do futuro. Por isso me cuidei, segui rigorosamente as prescrições médicas. Consegui permanecer bonita, elegante, ativa e feliz durante todo o período da gravidez. Eu falava com a criança na barriga, fazia com que ela ouvisse música, lia no original os textos em que eu estava trabalhando, traduzia-os com um esforço inventivo que me enchia de orgulho. O que depois se tornou Bianca já era Bianca para mim desde o início, um ser em seu melhor estado, purificado de fluídos e sangue, humanizado, intelectualizado, sem nada que pudesse evocar a crueldade cega da matéria viva em expansão. Até minhas longas e furiosas dores do parto consegui subjugar, moldando-as como uma prova extrema a ser enfrentada com sólida preparação, contendo o terror e deixando de mim – especialmente de mim mesma – uma lembrança digna.


Fui bem-sucedida. Como fiquei feliz quando Bianca saiu de dentro de mim e veio para os meus braços por alguns segundos, e percebi que ela havia sido o prazer mais intenso da minha vida. (...) Mas depois veio Marta. Foi ela que agrediu meu corpo, obrigando-o a revirar-se sem controle. Ela se manifestou desde o início não como Marta, mas como um pedaço de ferro vivo na barriga. Meu corpo se tornou um licor sanguinolento, e suspenso nele havia um sedimento mole dentro do qual crescia um pólipo furioso, tão distante de qualquer humanidade que me reduziu, ainda que ele se nutrisse e expandisse, a uma matéria pútrida sem vida. (...)


Eu já estava infeliz naquela época, mas não sabia. Parecia que a pequena Bianca, logo após seu lindo nascimento, havia mudado de maneira brusca e roubado traiçoeiramente toda a minha energia, toda a minha força, toda a minha capacidade de fantasia. Parecia que meu marido, ocupado demais com a sua fúria de progredir, sequer percebia que sua filha, depois de nascer, havia se tornado voraz, exigente, desagradável como nunca me parecera dentro da barriga. Descobri aos poucos que eu não tinha força para tornar a segunda experiência tão emocionante quanto a primeira. Minha cabeça afundou para dentro do corpo, parecia que não havia prosa, verso, figura de linguagem, frase musical, sequência de filme ou cor capaz de domesticar a fera sombria que eu carregava no ventre. Aquela foi a verdadeira derrocada para mim: a renúncia a qualquer sublimação da minha gravidez, a desconstrução da mesma lembrança feliz da primeira gestação, do primeiro parto.   

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ATLAS DE NUVENS

Atlas de Nuvens, de David Mitchell, é uma espécie de terremoto na paisagem do romance contemporâneo – a tradução no Brasil ocorre tardiamente, depois de longos doze anos de defasagem com a publicação original na Inglaterra. Ao chegar à última página do romance, muitos leitores ficam de pernas para o ar, de ponta-cabeça ou qualquer outra figura de linguagem que caracteriza a ausência de chão embaixo dos pés. A audácia de combinar alguns elementos, aparentemente desconexos, como o romance de aventuras, o escapismo científico e as complicações políticas, resulta em uma espécie de sinfonia. Dessas que merecem aplausos. De pé. Durante quinze minutos. Ou mais.

Os seis segmentos ficcionais que estabelecem a espinha dorsal do romance fornecem uma releitura do mito de Teseu e do Minotauro – do ponto de vista intelectual. A narrativa foi elaborada como um continuum de histórias interligadas e que se multiplicam em espiral, gerando outras conexões, outras referências, outras leituras. O proposito dessa estrutura complicada, semelhante a um labirinto, induz à impressão de que será difícil desmanchar o emaranhado. Felizmente, é um efeito falso. Na medida em que o leitor começa a encaixar as peças e a elaborar mentalmente o desenho narrativo, todas as dificuldades desaparecem e são substituídas pelos elementos que conduzem para longe o ininteligível.

Ao utilizar uma estrutura narrativa polimorfa (diário, epistolografia, romance policial, ficção científica, entrevista, linguagem de baixo extrato gramatical) e o entrecruzamento de narradores (em alguns momentos em primeira pessoa; em outros,em terceira pessoa) o texto procura mapear o deslocamento histórico e geográfico de um caderno de anotações. Entre 1850 (quando Adam Ewing, passageiro do Prophetess, um navio de carga, escreve sobre os fatos que presencia) e uma data não identificada no futuro (quando, um pouco antes de sua execução, Sonmi~451, uma estrutura semi-humana, clonada para desempenhar tarefas subalternas, depõe sobre uma tentativa de insurreição), muitos eventos ocorrem, muitas complicações se sucedem. Em alguns momentos, a proposta desse fragmento está conectada com o aviso de que a modernização tecnológica se assemelha com o extermínio da civilização. Nos interstícios temporais  e narrativos surgem em cena personagens pitorescos como Henry Goose, Robert Frobisher, RufusSixsmith, Luisa Rey, Timothy Cavendish, Zachry Bailey, Meronyme, Hae-Joo Im. Eles aparecem, desaparecem, reaparecem na narrativa como se fossem folhas sopradas pelo vento. Ou seja, apesar do romance estar povoado por tragédias, a poesia também está presente. O último pedido de Sonmia~451, por exemplo, é um “achado”, pois consagra o que ela define como o momento em que conheceu a felicidade. A máquina (seja lá o que for Sonmia~451) tem sentimentos e eles são humanos (seja lá o que isso for).

O título do livro se refere a uma peça musical, composta por Robert Frobisher. Em estado de completa penúria financeira, Robert (um indivíduo sem grandes escrúpulos morais) procura salvação como assistente de Vyvyan Ayrs, um compositor famoso e quase cego, que mora no interior da Bélgica. Nos intervalos do trabalho, ele escreve dezenas de cartas para Rufus Sixsmith, seu amante, relatando com riqueza de detalhes os principais acontecimentos que protagoniza. Com exceção do afeto que sente pelo companheiro, na sua escrita não há lugar para bons sentimentos. Precisando viver no exílio intelectual, ele, por conveniência, se torna amante da esposa de Ayrs. Também rouba preciosidades bibliográficas de seu patrão (uma delas é o diário de Adam Ewing). É a vida medíocre que o torna capaz de compor uma obra-prima, para logo depois se suicidar, antes dos 25 anos.

Outro personagem impressionante é Timothy Cavendish, um editor londrino. De trambique em trambique, ele consegue manter os credores à distância. Um dia, contra todas as possibilidades, Timothy ganha na loteria. Metaforicamente, é claro. Um de seus autores se torna um best-seller. No instante em que começa a sobrar algum dinheiro em caixa, ele precisa administrar problemas que não estavam previstos. Talvez o mais significativo seja o encarceramento em uma instituição para pessoas com problemas mentais. A fuga e o desfecho dessa aventura são hilários.

Sem se apegar ao romance policial clássico ou com a distopia que acompanha a ficção cientifica, Atlas de Nuvens consegue se utilizar desses suportes narrativos com maestria, de forma que o enredo principal não sofra algum tipo de declínio. É o contrário. A união de tantas formas narrativas – que muitos consideram como antagônicas – acrescenta qualidade ao texto e permite dizer que Atlas de Nuvens renova a carpintaria narrativa do romance, dando ao gênero literário um novo fôlego. E transforma a estrutura tradicional (começo, meio e fim, nessa ordem) em uma sombra difusa do potencial que pode ser explorado por escritores com imaginação e talento.   

P.S: Há uma versão cinematográfica de Atlas de Nuvens, dirigida pelos irmãos Lilly e Lana Wachowski e por Tom Tykwer (2012) e que no Brasil recebeu o incompreensível título de A Viagem.


TRECHO ESCOLHIDO


 A explosão alcança Luisa Rey e a lança para a frente de modo irresistível, como uma onda do Pacífico. O corredor gira noventa graus – várias vezes – e atinge Luisa nas costelas e na cabeça. Pétalas de dor se abrem diante de seu campo de visão. A alvenaria geme. Pedaços de gesso, cerâmica e vidro chovem, chuviscam, cessam.


Uma paz tensa. O que é isso que eu estou vivendo? Pedidos de socorro brotam do meio da poeira e da fumaça, gritos da rua, alarmes que disparam no ar queimado. A mente de Luiza volta a funcionar. Uma bomba. O guardinha urra e geme. O sangue escorre de seu ouvido, formando um delta no colarinho da camisa. Luisa tenta se afastar, mas sua perna foi arrancada.


Ela abre a boca para gritar, mas o horror passa, sua perna está apenas presa debaixo do chinês desacordado. Luisa livra-se do homem e sai rastejando, dura e doída, mas sem nada de grave, atravessa o saguão do banco, agora transformado num cenário de filme. Chega à porta reforçada, arrancada das dobradiças. Escapei por um triz. Vidro quebrado, cadeiras de pernas para o ar, pedaços de parede, pessoas feridas em estado de choque. Uma fumaça negra e oleosa emana dos dutos, e um sistema de sprinkles entra em ação – Luisa fica encharcada e sufocada, escorrega no chão molhado e tropeça, zonza, encurvada, em outras pessoas.


Uma mão benévola a segura pelo punho. “Se apoia em mim, se apoia em mim, eu ajudo você a sair daqui, pode ter outra explosão.”


Luisa se deixa levar, e lá fora, à luz congestionada do sol, há uma muralha de rostos atentos, sequiosos de horrores. O bombeiro conduz Luisa até o outro lado de uma rua cheia de carros engarrafados, e ela se lembra das imagens que viu no noticiário, em abril, mostrando Saigon em guerra. A fumaça ainda jorra. “Saí daí! Pra trás! Pra lá!” Luisa, a jornalista, está tentando dizer alguma coisa a Luisa, a vítima. Sua boca está cheia de saibro. Alguma coisa urgente. Ela pergunta ao homem que a salvou: “Como foi que você chegou tão depressa na cena da explosão?”


“Tudo bem”, ele insiste, “você sofreu uma concussão.”


Um bombeiro? “Eu já posso me virar sozinha...”


“Não, é mais seguro por aqui...”


A porta de um Chevrolet preto empoeirado se abre.


“Me solta!”


O punho do homem é de ferro. “Entra nesse carro”, ele murmura, “senão te dou um tiro no meio dos cornos.”


Aquela bomba era para mim, e agora...


O sequestrador de Luisa geme e cai para a frente. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

JOÃO RATH E ALGUMAS LEMBRANÇAS

Foi no final dos anos 70 e eu tinha quase vinte anos. O Edézio H. W. Caon, por alguma razão desconhecida, resolveu me apresentar alguns “comunistas” que frequentavam A Sua Livraria. Demorei um pouco para perceber que o rótulo ideológico era uma espécie de piada particular, um pouco alusão sobre o fato de João Rath, o proprietário da loja, ter sido acusado desse “crime” em 1964, um pouco ironia sobre a situação do Brasil – que estava dividido entre MDB e Arena.

A livraria estava situada no início da Rua Nereu Ramos (onde hoje se localiza uma das agências da Caixa Econômica) e, em uma sala nos fundos, sob o pretexto de tomar chimarrão, reunia os mais diversos segmentos sociais, econômicos, políticos e intelectuais da cidade. Foi lá que tive o prazer de conhecer alguns dos personagens que – depois de tanto tempo – ainda participam do meu imaginário: Rogério Castro, Senador Celso Ramos, Pedro Fava, Sineval Couto, Antônio Munarim e o casal Walmor (Nini) Beltrame e Sonia Stradiotto, entre outros. Rogério Córdova, que era um dos dirigentes do Colégio Industrial (onde eu estudava), Ari Martendal, Sergio Sartori (um dos meus professores de História) e Dona Eda Arruda Scur (minha parente!) também visitavam o ambiente. O espaço era bem mais democrático que possa parecer, tanto que os militantes mais assumidos da direita também costumava “filar” o mate – a sede da Arena era ao lado da livraria!  

A primeira coisa que notei ao entrar na loja foi o jirau (que algum metido possivelmente chamará de mezzanino). A livraria era enorme e o João Rath controlava o movimento dos clientes lá de cima (conta a lenda que foi daquele lugar que o Edézio Nery Caon – literalmente – “lançou” o mais famoso dos best-sellers lageanos, A Academia). Depois de resolver o expediente burocrático (ir ao correio, ir aos bancos, fazer pedidos às editoras, separar os livros para devolução), João descia para conversar com os amigos – que entravam e saiam durante todo o dia, de acordo com interesses pessoais.

Por algum motivo que foge de qualquer nível de compreensão (inclusive porque não gosto de chimarrão!), fui adotado. Primeiro por Dona Maria Rath, que cometeu a insanidade de me oferecer crédito na livraria. Depois, me enturmei com os “velhos” (quase todos tinham o dobro da minha idade). Sempre que tinha algum tempo livre, ia para lá, “namorar” os livros, comentar o noticiário nacional. Evidentemente, causei algumas dificuldades. O estudante rebelde (meu personagem favorito daquela época) costumava dizer várias bobagens de cinco em cinco segundos. E a regra da casa era simples: quem diz o que quer, escuta o que não quer. O aprendizado nem sempre é suave.

Alguns anos depois, a livraria teve que mudar de endereço. Continuou na mesma rua, mas uns 200 metros mais abaixo e do outro lado da calçada. Infelizmente, os participantes da roda de chimarrão eram outros (muitos dos antigos tinham se mudado de Lages, outros foram levados pela indesejada das gentes). De qualquer forma, eu costumava “bater o ponto” quase todos os dias. Principalmente para conversar com o João Rath – embora ele não gostasse muito de ser interrompido em sua rotina. O escritório era menos sofisticado, separado da livraria por uma estante quase cheia (pelos espaços vazios era possível ver o movimento na loja). Minha imagem mais nítida desse tempo mostra o João sentado, diante da mesa de trabalho, mergulhado em um mar de papéis ou resolvendo as palavras cruzadas do jornal (no final da tarde). Os visitantes ou se sentavam em uma “namoradeira” de madeira, com espaço para duas pessoas, ou no sofá (que acabou ficando famoso, mas essa é outra história). Nesse período era fácil "jogar conversa fora" com Márcio Camargo Costa, com a “doutora” Lélia Pamplona, com Sergio Ramos e com Valmir Nunes. Nos sábados pela manhã, o encontro marcado era com Alcione Wagner, Edézio H. W. Caon e Fernando Agustini.

Valmir Nunes, Ari Martendal, Raul Arruda Filho,
João Rath, Sergio Ramos e Edézio H. W. Caon
Para quem gosta de literatura, a vida do livreiro João Rath está entrelaçada com uma interessante coincidência. Ou melhor, um ponto de intersecção entre o real e a ficção. As oitocentas e tantas páginas do romance Ulisses, escrito por James Joyce, transcorrem no dia de seu aniversário: 16 de junho. A data é comemorada no mundo todo como Bloom’s day.    

Minhas conversas com João pareciam intermináveis, repletas de “causos” paralelos, e, algumas vezes, continuavam no dia seguinte. Invariavelmente, eu lhe pedia algum conselho sobre questões pessoais. Ele tergiversava ou emitia algum comentário ameno. Mesmo assim, ajudava. E muito. Era como se ele dissesse que a tomada de decisões, boas ou ruins, é algo particular, pessoal. E que devemos estar atentos ao desencadear de reações, muitas vezes imprevistos. Optar por isso ou aquilo tem preço – ninguém pode delegar a terceiros essa carga.  

Guiomar Rath Gargione e seu pai, João Rath
Além de ser um ótimo conselheiro, João tinha – aos meus olhos – quatro significativas qualidades: sólida formação intelectual, memória invejável, determinação e humor. A união dessas características podia ser observada na forma sóbria com que analisava o mundo. Filho de uma das pioneiras da educação lageana, Fausta Rath, estudou em colégio interno por algum tempo. Em Lages, integrou a primeira turma do Colégio Diocesano – Nereu de Lima Goss e Laerte Vieira foram seus colegas. Tentou ingressar na faculdade, em Porto Alegre. A situação financeira familiar impediu esse avanço escolar. Conhecia história, geografia, religião e literatura clássica com profundidade. Em conversas sobre esses assuntos, era capaz de recordar datas e acontecimentos com assustadora exatidão. Era comum que algum incrédulo consultasse livros e enciclopédias para localizar enganos, mas... tempo perdido.

Fiel depositário da memória histórica, João Rath participou de alguns dos mais importantes acontecimentos culturais e políticos de Lages durante cerca de cinco décadas (grupo de escoteiros, fundação do "Correio Lageano" e Casa da Cultura, por exemplo).

Quando decidia alguma coisa, raramente mudava de opinião. Em momentos distintos de sua vida, decidiu abandonar o álcool e o tabaco. Nunca mais bebeu ou fumou.

João Rath, Danilo Castro, Nereu Goss,
Ari Martendal e Raul Arruda Filho
Em público, era um homem sério; em particular, esbanjava humor. Adorava trocadilhos. Quando falava sobre o regime militar iniciado em 1964, lembrava que um militar o havia advertido, no momento de sua prisão, que estava sendo acusado de defender “certas ideias e não as ideias certas”. Também repetia que o governo, nesse período, tinha o desagradável costume de alterar a frase latina si vis pacem para bellum (se quer a paz, prepare-se para a guerra) para Civis? Passem no parabélum!.

Fiel ao lema “perco o amigo, mas não perco a piada”, dizia que, se deixasse passar uma situação engraçada, ficava com remorso (!!) e não conseguia dormir a noite. Assisti várias vezes a encenação de um de seus divertimentos favoritos: em almoços, principalmente quando estava na companhia de estranhos, costumava se queixar, de forma bastante triste, que a Madre Superiora (que era como ele chamava carinhosamente a Dona Maria), por pura maldade, o proibia de comer sobremesa. Invariavelmente, o ouvinte acreditava na narrativa e passava a olhar para Dona Maria como se ela fosse uma megera! Isso não era verdade, mas ele se divertia bastante com essa brincadeira inocente.

Não posso garantir a total veracidade dos fatos que estou recordando, o tempo corrói as lembranças, mistura o antes e o depois, deixa esse vazio que somente conseguimos preencher inventando. O que tenho certeza é que (tomado pelo sentimento de orfandade, pois sempre o considerei como uma espécie de avô adotivo) fui forçado a me despedir de João Francisco Regis Rath de Oliveira no dia 24 de outubro de 2016.

Nada conseguirá diminuir a dor física que acompanha a ausência.