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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

UMA OU DUAS COISAS QUE SEI SOBRE BARTLEBY, O ESCRIVÃO


Tenho umas cinco edições diferentes de Bartleby, o escrivão (Bartleby, the scrivener), narrativa canônica de Herman Melville, publicada inicialmente no volume The Piazzas Tales, de 1856. Para surpresa geral, acabo de comprar mais duas edições do livro. Será que enlouqueci? Na falta de prova psiquiátrica, reúno os volumes que consegui localizar nas estantes e os coloco diante de mim. Estou confuso. Será que preciso de todos eles? Será que não deveria doar uma parte para a Biblioteca Pública? As perguntas se mostraram ineficientes quando parei para pensar nas vicissitudes da vida. E, por mais paradoxal que isso possa parecer, percebo que talvez tenha adquirido outros exemplares do texto. Onde estão? Não sei. Mesmo que os céticos recusem o que parece ser inequívoco, cabe lembrar ao mundo que os livros possuem pernas. E caminham – para longe daqueles que os estão procurando. Só aparecem quando lhes é conveniente. Indiferente à luz que ilumina cada um dos dias da existência humana na Terra, quando o assunto é livros desaparecidos, não adianta reclamar. São os livros que possuem os bibliófilos. E, como cabe aos feitores de escravos, sempre exigem especial atenção. São eles (os livros) que obrigam (abrigam?) um regime de trabalho. Há que cuidar de cada um deles. Urge limpá-los (poeira, insetos, marcas causadas por objetos que alguém esqueceu em lugar inadequado). É necessário evitar as intempéries climáticas. Livros são inimigos mortais do calor e dos líquidos. Além disso, exigem espaço. Isso significa – entre outras coisas – que os móveis devem ser afastados para que as estantes ocupem todas as paredes da casa. Como se essa confusão não fosse o bastasse, ainda há o incômodo diante daquelas pessoas que olham estranho para quem se deixa levar pela paixão pelos livros. Olha lá, o maluco dos livros! – diz a garota que não se cansa de olhar para as atualizações nas redes sociais. Pois é, muitas vezes o bibliófilo se transforma em personagem tragicômico. Ou em uma espécie de ilha social (cercado de livros por todos os lados). Exemplos literários desse delírio não faltam: Peter Kien (Auto-de-Fé, Elias Canetti), Carlos Brauer (A Casa de Papel, Carlos María Domínguez), Lucas Corso (O Clube Dumas, Arturo Pérez-Reverte), Antoine Roquentin e, o seu oposto, o Autodidata (A Náusea, Jean-Paul Sartre), Cliff Janeway (em diversos romances policiais de John Dunning).

La vida es sueño, dizia Pedro Calderón de la Barca. Volto o olhar para as edições do Bartleby que habitam minha biblioteca. Cada um dos livros possui qualidades particulares. Ou seja, elementos que se destacam – significativamente – no contexto literário. Como esquecer a apresentação do Jorge Luis Borges que acompanha a edição da José Olympio? Borges considera Moby Dick como a obra-prima de Herman Melville (Foi o romance infinito que determinou sua glória) e quase se esquece de Bartleby. No entanto, a maior qualidade do comentário está na comparação (ou não comparação) entre Bartleby e algumas narrativas de Kafka. Abriu-se, a partir desse instante, uma avenida na direção da literatura comparada e da exegese do Bartleby. Quem quiser entender melhor essa vertente crítica, precisa ler o posfácio escrito por Modesto Carone, publicado na edição da Cosac Naify.

A edição da José Olympio provavelmente é o volume mais indicado para quem tem contato, pela primeira vez, com o livro. Foi com esse volume debaixo do braço, uns dois anos atrás, que participei de um pequeno seminário em sala de aula. O resultado final ficou bem aquém do desejado. A proposta de Bartleby – contrária à lógica que envolve as relações de trabalho – não conseguiu seduzir meus alunos. Claro que chegamos a um acordo sobre os conceitos básicos do livro, mas faltou o salto de qualidade. No mundo moderno (ambição, eficiência, carreira profissional), o deus dinheiro costuma acenar alegremente – muitas vezes sem perceber que o único sorriso verdadeiro é o de Bartleby!


O volume publicado pela Cosac Naify, na falta de melhor definição, é lindo. Edição para colecionadores – lembrando um tempo anterior a era da reprodutibilidade técnica, em que a produção do saber não separava o artesanato e o intelecto em compartimentos distintos. De qualquer maneira, cabe esclarecer que não pretendia adquiri-lo. Nessas andanças por livrarias e sebos que caracterizam o caminhar dos bibliófilos, o encontrei algumas vezes. Havia a esperança de que alguém, em um gesto de nobreza e amizade,poderia presentear-me com um exemplar... Infelizmente, isso não aconteceu. Só comprei o livro porque ocorreu um desacerto. História longa, que não quero descrever aqui. Desacerto que deu certo. O fato concreto é que o volume agora está a fazer companhia aos outros. E isso é o que importa. Ah, que me perdoem os artistas plásticos, mas, quando tive essa edição em mãos, quase mandei emoldurá-la.

Também comprei uma das edições da Autêntica – aquela que é uma espécie de apêndice para um ensaio do Giorgio Agamben (de quem, convém esclarecer, ninguém pode me acusar de ser admirador). Invertendo o que considero a ordem natural das coisas, esse livro fornece destaque ao texto do filósofo italiano. De imediato, uma pergunta se destaca: por que o editor não escolheu imprimir em separado cada um dos textos? Depois de breve pesquisa na Internet, descobri que, de certa forma, imprimiu. Há uma edição restrita ao texto de Herman Melville. O problema é que eu comprei a versão problemática. Tudo bem, o problema sou eu. Além disso, o texto do Agamben agrega valor à narrativa de Melville. Agregar valor? Epa, isso não está correto! Ninguém deveria ter autorização para falar de Bartleby utilizando uma expressão contrária ao entendimento existencial do personagem. Creio que o filósofo italiano também concordaria com essa restrição. O imobilismo de Bartleby (expresso no mantra Acho melhor não ou Prefiro não fazer ou Preferiria não – dependendo da tradução escolhida para I would prefer not to) se opõe a qualquer análise acumulativa. A ética da submissão aos valores produzidos pelo trabalho entra em rota de colisão com um indivíduo que transforma a si mesmo em obstáculo político para a sociedade utilitarista. Essa metamorfose atordoa a simplicidade daqueles que adicionam a sobrevivência física com a negação intelectual.


Em Bartleby, o escrivão quase nada acontece. Contratado por um escritório de advocacia para copiar diversos documentos legais, em determinado momento Bartleby, sem qualquer razão aparente, decide não mais realizar o trabalho. Depois de demitido, se recusa a deixar o escritório – onde passa a morar. Denunciado à polícia, acaba sendo preso e morre de inanição, após rejeitar qualquer tipo de alimentação. 

A narrativa é conduzida pela voz perplexa do advogado, que em nenhum momento consegue compreender a conduta de seu ex-empregado.     

Muitos leitores modernos se iludem imaginando que Bartleby quer os benefícios do direito à preguiça ou do ócio criativo ou de quaisquer outros privilégios conexos à discussão que contrapõe o dever e o niilismo. Essa possibilidade analítica confirma que há várias interpretações possíveis para o livro. No entanto, a insubordinação de Bartleby possui outra origem. Agamben utiliza o conceito filosófico da contingência (um ser que pode ser e, ao mesmo tempo, não ser) para comentar o curto-circuito comportamental. É uma explicação muito complicada para o leitor comum. Não convence. Do mesmo modo, análises de caráter econômico (liberais ou marxistas) parecem deixar de lado o elemento mais importante: a criação literária. O mesmo vale para a psicanálise, que é muito esquemática.
 
Herman Melville (1819-1891)

Sobra, então, o quê? Ora, a fruição de encontrar um personagem literário que realiza a sua função narrativa dizendo não. A implosão do lugar-comum que contamina o imaginário do leitor, o final feliz, confirma que a inconformidade é um elemento significativo para a expressão literária. Nesse sentido, Bartleby ultrapassa a dimensão de figura de papel e, na medida do possível, se transforma em humano. É o que basta para torná-lo imortal.

P. S: Há uma versão cinematográfica estadunidense (Dir. Jonathan Parker, 2001) e que eu não vi. Segundo a Wikipédia, The film diverges from Melville's story, setting it in a modern office and adding sitcom-style humor, with an element of surrealism.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

QUE HORAS ELA VOLTA?

A maior e melhor surpresa do cinema nacional dos últimos tempos é Que Horas Ela Volta? (Dir. Anna Muylaert, 2015). Vários motivos contribuem para essa façanha. O principal é colocar em destaque um conceito que os brasileiros adoram ignorar: a luta de classes. Mas, calma lá, não há motivo para sustos: a teoria marxista foi diluída nas centenas de litros d’água da piscina da mansão em que Val (interpretada por Regina Casé) trabalha. No inicio do filme, seguindo as diretrizes propostas pelo binômio Casa Grande & Senzala, cada um dos personagens conhece o seu lugar no mundo. Val é a empregada domesticada, ingênua e alienada. José Carlos (Lourenço Mutarelli) e Bárbara (Karine Teles) são os patrões compreensivos e amistosos. Fábio (Michel Joelsas), filho biológico dos donos da casa, filho de fato da empregada, desfruta da permeabilidade que existe entre os dois ambientes.

O mundo perfeito, construído artificialmente, desmorona diante de um elemento desagregador. Antes de ir trabalhar em São Paulo, Val deixou a filha, Jéssica (Camila Márdila), em Pernambuco. Dez anos se passaram – ou melhor, separaram mãe e filha. Nesse período, as duas mulheres construíram histórias diferentes, sem muitos pontos de convergência. O principal choque entre elas decorre dessa forma de entender  de forma antagônica  o mundo. 

Inesperadamente, a filha viaja para São Paulo, para fazer as provas do vestibular. Quer morar com a mãe, enquanto cursa arquitetura. Mas, há um pequeno inconveniente: a mãe mora no serviço, em um quartinho nos fundos da mansão.  Ao ver a situação de submissão de Val, que não reclama por viver em regime de semiescravidão, Jéssica demonstra – de forma inequívoca – o seu descontentamento. Não entende como – em uma casa tão grande, em que o quarto para hóspede está sempre vazio – sua mãe se sujeite com condições indignas de vida. Ato contínuo, “toma de assalto” o quarto vazio. 

O jogo teatral – que separa o proscênio dos bastidores – perde o poder de produzir a fantasia da ordem com a chegada de Jéssica. O que se segue não é difícil de imaginar: a menina exerce “algumas liberdades” com os patrões de Val – que quase surta, porque imagina a possibilidade de perder o emprego. Ao se referir à filha, repete – como se fosse um mantra – que ela não tem noção de nada. Em momento oportuno, esclarece o básico: Quando eles falam, quando eles oferecem alguma coisa que é deles, é por educação, é porque eles têm certeza que a gente vai dizer não. Impossível ser mais clara.

A patroa também não fica feliz. Bárbara não consegue suportar a filha da empregada que não sabe se comportar como a filha da empregada. Além disso, há outro elemento desagregador e que não passa despercebido da patroa: José Carlos tenta – da forma mais desajeitada possível – seduzir Jéssica.

A soma desses ingredientes contribui para aumentar o potencial dramático do enredo – sugerindo uma tragédia que não ocorre. A solução para os impasses ocorre de maneira pacífica – e bem bacana. Quando Val entra pela primeira vez dentro da piscina – um dos locais proibidos para os empregados – ocorre uma espécie de batismo (no sentido católico), a linha divisória entre o paganismo e a iluminação espiritual. Depois desse momento, nada mais será como antes. A mãe e a filha acertam as diferenças (ou melhor, aceitam as diferenças) e decidem morar com Jorge, o filho de Jéssica, que ficou em Pernambuco, numa repetição patética da história familiar.

Um tema paralelo, e que merece bastante atenção, é o jogo espe(ta)cular da filiação. Em alguns momentos, ao contrastar Fábio e Jéssica, o espectador do filme se pergunta: quem é filho de quem? Entre Fábio e Jéssica, o coração de Val se divide. Enquanto recrimina o comportamento agressivo da filha, trata Fábio com benevolência (por exemplo, acoberta o uso intensivo de maconha). Em contrapartida, José Carlos e Bárbara tratam o filho com distância, como se ele fosse um peso que a vida social exige que seja carregado. Depois que os dois jovens terminam as provas do vestibular, há um relampejar de esclarecimento. Jéssica passa, com boas notas. Fábio não é aprovado (faltou dois pontos) – e ganha, como prêmio, uma viagem para a Austrália. Como compete às abstrações teóricas, a justiça desaparece diante do poder econômico. 

Uma metáfora significativa se apresenta no jogo de café (xícaras, pires e garrafa térmica) que Val compra para presentear Bárbara, no dia de seu aniversário. A patroa agradece e manda guardar para uma ocasião especial. Ou seja, para nunca ser usado. Ao final do filme, quando Val pede demissão, ela leva para a nova casa, o utensilio doméstico. Mais do que um símbolo da condição econômica, o uso do jogo de café sinaliza para a reconstrução familiar, para uma vida menos açodada pela tirania social.

Em alguns momentos, Que Horas Ela Volta? lembra dois outros filmes. Pela discussão dos papéis sociais, Domésticas (Dir. Fernando Meireles, 2001); pelo tema do "anjo vingador", que subverte a estrutura familiar, Teorema (Dir. Pier-Paolo Pasolini, 1968). Melhores influências não poderia haver – se é que Anna Muylaert foi influenciada por esses dois clássicos.

Para quem ainda não viu Que Horas Ela Volta?, recomendo que alugue uma cópia na locadora mais próxima. O filme vale o valor da locação. Ou melhor, renova a esperança de que o Brasil ainda é capaz de produzir cinema de qualidade.  

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OS ÉGUAS

Os Éguas, de Edyr Augusto, ganhou, na França, o prêmio Camaleón para o melhor romance estrangeiro publicado em 2015. Foi uma surpresa. Para o público. Para aqueles que estudam a literatura brasileira. Mais do que uma prova de que parte da produção literária nacional está contaminada pela influência dos preconceitos geográficos (a narrativa se passa em Belém, no Pará), essa premiação evidencia que – no mundo contemporâneo – a publicidade costuma ocultar tudo o que não controla. Ou seja, alguns eventos (independente da relevância) desaparecem no meio da avalanche de superficialidades. Provavelmente, estamos diante de um desses casos.

Os Éguas, publicado originalmente em 1998, mistura, em doses assimétricas, drogas, sexo e violência. Escrito sob o signo do realismo visceral e abusando da linguagem coloquial, inicia com um assassinato e termina no mesmo tom.  Mas não é – de acordo com as formulas prontas da teoria da literatura – exatamente uma narrativa policial. No máximo, um romance de costumes.  Péssimos costumes, como pode comprovar o leitor. Ao investigar a morte do cabeleireiro Johnny Lee, pseudônimo de Percival Anthony Simms, o delegado Gilberto (“Gil”) Castro toma contato com algumas das áreas mais sombrias do submundo de Belém. O morto foi um predador sexual – desses que não respeitam nada, nem ninguém. Pela sua cama passaram diversas crianças, além da escória burguesa. Uma coleção de vídeos amadores documenta esses excessos.

Edyr Augusto
Gil Castro está longe de ser um santo. A soma de suas “qualidades” (alcoólatra, incompetente para resolver as questões amorosas básicas, desrespeitoso com as regras institucionais) mostra que é incompetente para evitar os problemas. Quaisquer problemas. Semelhante ao estereótipo imortalizado nos romances de Raymond Chandler e Dashiel Hammett mistura – de maneira instintiva – a violência com a inocência. Ou seja, além de ser incapaz de perceber que a vida está repleta de contradições, poucas vezes consegue elaborar uma imagem nítida dos acontecimentos.

A morte de Johnny Lee não constitui um grande enigma. O cara era viciado em cocaína e morreu de uma overdose de heroína – é o que garante o laudo da perícia técnica. A hipótese de suicídio não pode ser descartada. E agradaria a quase todos. A única peça estranha nesse quebra-cabeça é o delegado Gil Castro, que não passa de um pobre coitado, e que, na falta de coisa melhor para fazer, resolve realizar a investigação com um pouco de seriedade.
 
Belém, Pará
Uma morte violenta atrai outras mortes violentas. A situação se complica. Poucas diferenças separam a alta sociedade da ralé. No entanto, há algo que coloca todos no mesmo patamar: ninguém quer que certos fatos sejam revelados. Comércio de drogas, vícios sexuais, incompetência do serviço público – são muitas as razões para que alguns personagens sejam retirados de cena. Ao final, sobra o cinismo e a corrupção. Qualquer semelhança com fatos reais não é mera coincidência.


TRECHO ESCOLHIDO


Selminha. Menina danada. Idade imprevisível. Naqueles dois meses de convivência já tinha ouvido sua história de quatro ou cinco maneiras, cada uma com detalhes ainda mais incríveis. Será que ela está sofrendo? Nunca deu bola para nada. De Macapá. O pai enriqueceu no negócio do manganês. A mãe se recusou a morar no mato. Ficou em Macapá, com os filhos. Selma e Dorival. Selma já era Selminha. Dorival, o oposto, trabalha em um Banco, pacífico, solteirão, mora com os pais. Selminha era Selminha. Rápido a sociedade macapaense já sabia dela. E estava farta. Ela também. Macapá era muito pouco. O pai dava surras, quando sabia. A mãe, constantemente.

Decidiram mandá-la para Belém. Para estudar. Fazer o vestibular. Selminha, em apartamento montado, sozinha em Belém. Não fez vestibular, mas conseguiu um namorado, filho de família tradicional. Em Macapá, um urro de alegria. Da mãe, principalmente. Quando ela vinha a Belém, Selma fazia o papel perfeito de filha bem-comportada, namorando para casar. Saíam para passear. Jantar no Roxy, no Lá em Casa, no Casablanca. E dormir cedo. Bola, a empregada que veio para tomar conta, não tinha coragem de contar. E também ainda não sabia se valia a pena. Todos torciam por Selma. A mãe ia embora crente que seu problema estava resolvido. E muito bem resolvido.

A mãe saía por uma porta e Adalberto entrava pela outra. E quem era Adalberto? O sobrenome era Matotti e a família já tinha dado até senadores. Hummm. Mas Adalberto era a ovelha negra. Não queria nada. Não estudou. Não trabalhava. É como esses sanguessugas que vão chegando, chegando e, quando a gente se dá conta, não consegue mais expulsá-los. Desses que não tem casa, não tem eira nem beira, e vão topando tudo. No primeiro dia já vai buscar o pão, leva crianças no colégio, esquenta o jantar, dorme em qualquer canto. Quando se quer expulsar, tarde demais.

Foi ele que apresentou a cocaína a Selma. Tinha uma turma que se reunia quase diariamente em uma casa no Reduto. E rolava de tudo. Selma mergulhou. Com Adalberto. Viviam da mesada de Selma. Iam levando. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A VERDADE (E A MENTIRA) EM CINQUENTA FRASES


– A verdade é que não há verdade. (Pablo Neruda)

– Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário. (George Orwell)

– Creio que a verdade é perfeita para a matemática, a química, a filosofia, mas não para a vida. Na vida contam mais a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança. (Ernesto Sábato)

– Da verdade só subsiste o mínimo necessário para assegurar a vida social (William Shakespeare)

– (...) Eu sei que Vossa Excelência preferia uma delicada mentira; mas eu não conheço nada mais delicado do que a verdade. (Machado de Assis)

– Qualquer verdade passa por três estágios. Primeiro, é ridicularizada. Segundo, é violentamente combatida. Terceiro, é aceita como óbvia e evidente. (Arthur  Schopenhauer)

– É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade, quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele. (H. L. Mencken)

– Algumas pessoas nunca dizem uma mentira – se souberem que a verdade pode machucar mais. (Mark Twain)

– Se meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles. (Adlai Stevenson)

– Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso. (Bertolt Brecht)

– Uma verdade que é dita com má intensão derrota todas as mentiras que possamos inventar. (William Blake)

– É sempre conveniente dizer a verdade. A menos, é claro, que você seja um excepcional mentiroso. (Jerome K. Jerome)


– Excluído o impossível, o que restar, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade. (Arthur Conan Doyle)

– Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas (Benjamin Disraeli ou Mark Twain)

– A verdade é aquilo que sobra depois que você esgotou as mentiras. (Millôr Fernandes)

– Quando uma pessoa fala a verdade, ela pode ter certeza de que mais cedo ou mais tarde será desmascarada. (Oscar Wilde)

– A verdade é tão preciosa que precisa ser protegida por uma escolta de mentiras. (Winston Churchill)

– As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio. (Robert Louis Stevenson)

– Uma gafe é apenas a verdade dita na hora errada. (Mel Brooks)

– Não faz a verdade tanto bem ao mundo quanto lhe fazem mal suas aparências. (François de La Rochefoucauld)

– O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias. (José Saramago)

– Não ser descoberto em uma mentira é o mesmo que dizer a verdade. (Aristóteles Onassis)


– Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data. (Luis Fernando Veríssimo)

– Uma mentira pode correr meio mundo antes mesmo que a verdade consiga calçar as botas. (John Callaghan)

– Ninguém é dono da verdade. Mas a mentira tem acionista à beça. (Millôr Fernandes)

– Pregar a verdade e propor alguma coisa útil para a humanidade é uma receita infalível para se ser perseguido. (Voltaire)

– Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades. (Caio Fernando Abreu)

– A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer. (Mário Quintana)

– A mentira é a verdade atrás da máscara. (Lord Byron)

– Mentiras sinceras me interessam. (Cazuza e Roberto Frejat)

– Por que as pessoas mentem? A verdade é tão mais engraçada! (Jerry Hall)

– Fala-se muita mentira com extrema sinceridade. (Millôr Fernandes)


– Não serei eu que chame isto verdade ou mentira. Podem ser as duas coisas, uma vez que a verdade confine na ilusão, e a mentira na boa-fé. (Machado de Assis)

– Não faça perguntas e não ouvirás mentiras. (Somerset Maugham)

– As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. (Friedrich Nietzsche)

– A verdade não só é mais incrível do que a ficção como é muito mais difícil de inventar. (Millôr Fernandes)

– Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira. (Renato Russo)

– Engolimos de um sorvo a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga. (Denis Diderot)

– A arte é a magia libertada da mentira de ser verdadeira. (Theodor Adorno)

– As mulheres e os médicos sabem bem que a mentira é necessária aos homens. (Anatole France)

– O sucesso tem sido um grande mentiroso. (Friedrich Nietzsche)

– Você pode desconfiar de uma verdade. Mas uma mentira, como tal, é sempre rigorosamente verdadeira. (Millôr Fernandes)

Não me importo com a mentira. O que detesto é a imprecisão. (Samuel Butler)

– Não fumo, não bebo e não cheiro. Só minto um pouco. (Tim Maia)

– A verdade à luz do bar não é a mesma ao sol da praia. (Millôr Fernandes)


– É monstruoso como, hoje em dia, as pessoas vivem dizendo, pelas nossas costas, verdades terríveis e indiscutíveis contra nós. (Oscar Wilde)

– Aos vivos, deve-se o respeito. Aos mortos, a verdade. (Voltaire)

– Dizia o sábio que se tivesse a mão cheia de verdades, nunca mais a abriria (...). (Machado de Assis)

– Diga a verdade e saia correndo. (provérbio eslavo)


– Meia verdade é uma mentira inteira. (provérbio iídiche)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS

“O que tem nesse caderno, meu pai?”, Sami observa que ele o segura com força.
“Contas, meu filho. Contas a pagar.”
(A Imensidão Íntima dos Carneiros, Marcelo Maluf)


A influência árabe na literatura brasileira ainda não recebeu o reconhecimento que lhe cabe por direito. Os livros escritos por Raduan Nassar, Milton Hatoum, Salim Miguel, Alberto Mussa, George Bourdoukan e Whisner Fraga, entre outros, seduzem o leitor, seja revivendo os mitos que acompanham seus antepassados, seja contrastando o modo de vida presente com a recuperação do passado. São narrativas em que a união da linguagem poética com as variedades tonais da prosa produz momentos encantatórios de inigualável beleza. Simultaneamente, enriquecem a literatura brasileira.

O romance A Imensidão Íntima dos Carneiros, de Marcelo Maluf, amplia esse horizonte – investigando, de forma muito particular, alguns dos conflitos que orbitam em torno do núcleo familiar. Com a intensidade de uma faca afiada – que corta um pedaço de carne, da própria carne –, o narrador (que se chama Marcelo), através da tessitura dramática, vai construindo, lentamente, uma ponte para que o passado possa atravessar a escuridão em que se encontra, e – ao mostrar os segredos que esconde – libertar as novas gerações da carga ancestral. O esclarecimento surge como resultado do embate entre a lucidez e a dor.

Assaad Simão Maluf, filho do libanês Simão, fornece o fio condutor para esclarecer a história familiar. Seus escritos, recuperados (ficcionalmente) pelo neto, organizam uma narrativa traumática, repleta de episódios tristes, e que não está ligada à economia da expressão pública dos sentimentos. O exílio geográfico e afetivo, em terras brasileiras, mais especificamente em Santa Bárbara D’Oeste, interior do estado de São Paulo, constitui motivo suficiente para que o passado jamais seja esquecido. Independente da quantidade de vezes que Assaad reveja mentalmente os acontecimentos que o afastaram do Líbano, uma imagem jamais sairá de sua mente: os irmãos, Adib e Rafiq, sendo enforcados pelos soldados turcos. Na mesma moldura, ao lado do pai, da mãe e dos irmãos, os versos finais de um poema escrito por Adib ecoam com a crueldade de um anátema: Dançam de mãos dadas / a minha covardia e a minha coragem.

Marcelo Maluf
Enquanto escreve, Assaad interpreta o passado como se fosse alguma doença incurável. Por maiores que sejam as medidas preventivas para que os acontecimentos esquecidos em algum canto da memoria não voltem à tona, isso se revela impossível. O passado se renova constantemente na mente (e na escrita) – como dívidas que nunca poderão ser pagas. A vida custa caro.

Diante da imagem primordial (Assaad sentado à janela, escrevendo), está a essência do relato proposto pelo neto, pois O tempo de calar a dor ficou para trás.

Marcelo, filho de Michel, neto de Assaad, mais do que o narrador das complicações familiares, quer entender a história que o une aos homens de quem descende. Sabe que, quando isso acontecer, poderá se situar no mundo – e descansar. A Imensidão Íntima dos Carneiros, fruto saboroso da união entre a imaginação literária,o afeto e a poesia, é a comprovação cabal desse propósito.


TRECHO ESCOLHIDO

Rafiq, meu irmão mais velho, era o mais parecido com o pai. Os olhos atemorizados, como se estivesse observando a chegada de uma tempestade de areia no deserto. Os ombros lançados para frente e a boca sempre seca, arroxeada, com rachaduras. Mas não era apenas em sua herança física que se pareciam. Era cheio de surpresas tanto quanto o pai.
Lembro-me de quando apareceu nu em nosso quintal. Explicou que no caminho da escola para casa, devaneou sobre o quanto as roupas aprisionam o nosso pensamento e que tinha tido um péssimo desempenho na prova de história por estar vestido. Se estivesse nu, suas ideias fluiriam. 

“Se me colocassem o teste aqui na minha frente agora, eu saberia todas as respostas”. O pai correu atrás dele por toda a aldeia, e gritou: “Rafiq, o que eu fiz para merecer essa humilhação?”

Naquela noite, Rafiq dormiu nu, no relento. Era início do inverno e não fosse a mãe levar uma coberta para ele, meu irmão teria congelado.

“Você pode até o acobertar, mulher, mas essa noite ele não entra em casa. Quero saber se as suas ideias resistem melhor ao frio ou ao calor.” O pai o provocava.

Pela manhã, Rafiq pediu permissão ao pai para ir se vestir. 

“E o que mais você tem a dizer, meu filho?”

“Sem querer desrespeitá-lo, meu pai, não foi o cobertor que a mãe me deu que me tirou o frio, foram as ideias em meu corpo livre que me aqueceram. Mesmo a sua frieza não pôde ser maior que a compaixão de minha mãe. E foi essa ideia que me salvou de congelar o corpo lá fora. Aqueceu tudo aqui dentro.” A fala de Rafiq atingiu Simão.

O pai, com a voz desorientada e os olhos frouxos, só foi capaz de dizer ao meu irmão que se vestisse. O dia seria longo e de muito trabalho.

“Talvez o trabalho o faça compreender, meu filho, que os melhores pensamentos que você possa ter nascem da terra e para ela retornam. E são melhores quando deixam de vagar e se concretizam pelo labor. A terra há de cobrir um dia o seu corpo com a delicadeza com que uma mãe cobre o seu filho e o embala para dormir. Não há liberdade maior, meu filho, do que a alma separada da carne.”

Rafiq parecia não prestar atenção às palavras do pai. Mantinha o olhar mirando o topo da montanha.

“Rafiq, você está me ouvindo?, Simão gritou.

“Um dia você também quis voar, meu pai, por que não consegue compreender o meu bater de asas?”