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segunda-feira, 23 de abril de 2018

A PEÇA INTOCADA


Luci (Maria Dias) Collin não estava na minha lista de escritoras brasileiras que merecem atenção. Por alguma razão, tive pouco contato com as suas narrativas. Vasculhando as estantes, encontrei alguns contos em antologias, nada que – para o meu gosto – possa classificar como acima da média. Talvez o olhar tenha sido ofuscado por outros textos, talvez a leitura tenha ocorrido em dia ruim, talvez o que não pode ser explicado deva ficar assim mesmo, sem explicação.  

Luci (Maria Dias) Collin está na minha lista de escritoras brasileiras que merecem atenção. A história é longa e mirabolante, e vai ficar para outro dia, o que importa é que gostei dos contos que integram A Peça Intocada, livro impresso por editora independente, “indie” para os íntimos. Nunca tive notícias da Arte e Letra Editora ou, se as tive, descartei, fazer o quê? Segundo o Google, a empresa é também café & livraria, em Curitiba, PR. Então, tá. Anotei o endereço, um dia desses faço visita.

Gostei do volume. Produção artesanal, capa dura, exemplar numerado, papel rústico, diagramação retrô. A dedicatória é o plus que todo escritor razoavelmente interessado na literatura brasileira contemporânea deveria levar em consideração: para / Elvira Vigna e Maria José Silveira / pelas palavras. Não sei que palavras são essas, poderia imaginar que se trata de uma retribuição pela amizade ou pelo conjunto da obra das duas escritoras citadas. Poderia fabular um monte de coisas, coisas aos montes, palavras possuem essa serventia. Prefiro continuar com as dúvidas, incentivo para a fantasia, em outra oportunidade, se for possível, pergunto a quem de direito. Ou não. Sei lá.

A prosa de Luci Collin é angulosa, cheia de arestas, todo cuidado é pouco, risco de obter algum machucado, nunca se sabe, sensibilidade é tesouro particular. Ao mesmo tempo, no meio do texto, percebe-se a ausência de economia em questões de humor, de ironia. Multiplicam-se as estocadas, em sutil tocata, o intervalo das frases contrapondo-se ao que está escrito antes, ampliando o que surge depois. Surpresas para o olhar do leitor. Estranho e delicioso.

Entre os 15 contos, a autora marca bons pontos nessa competição sem regras que chamam de literatura. Em Jogando cartas com T. S. Eliot, a desconstrução da verossimilhança, o reino da imaginação, a vitória do nonsense. O ilustre ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1948 está de passagem por Curitiba. Diante de tamanha celebridade, os dirigentes da urbe se despem da dignidade e revelam o quanto há de ridículo na vida pública. Em contrapartida, o poeta recita alguns de seus versos em resposta à prosa que protagoniza. Diversão – não há outro adjetivo.

Outro momento especial está na história do menino que deve ler, diante dos colegas de escola, uma redação sobre o que aconteceu de importante/interessante nas suas (dele) férias. Enquanto alguns alunos foram viajar para locais que o rapaz somente conhece de gravuras e fotografias publicadas em revistas, coube-lhe amargar exílio dentro de casa, as únicas distrações possíveis eram os programas de televisão e os livros da biblioteca pública. Como explicar que a sua família vive com dificuldades, que ele nunca teve relógio, que não conhece o pai e os avós, que pão com sardinha ou miojo quase se equivalem a manjares? Melhor ficar quieto, escondido no fundo da sala, sem que ninguém o perceba. A cada nome chamado para a leitura, um rosário de promessas. Não farei isso, deixarei de fazer aquilo, até lavar a louça aparece nesse cardápio de boas intenções. Mesmo assim, para não ser vítima de cilada, urge combater o inevitável com um pouco de criatividade. Reunir o que é excesso nos outros e compor uma nova narrativa, lugar onde a ilusão assume o lugar do inexistente.

Paródias também aparecem em cena, Os Rudimentos do Jovem Berthe quer, em formato epistolar, Vezes despir a frase, decompor os tempos, espalhar as roupas intimas secretas as tensões dos verbos. E, nesse ritmo de valsa ou de poesia, o andamento narrativo segue na direção do desentendimento – que é o destino natural de todos os relacionamentos, estejam envoltos no intercâmbio de fluídos corpóreos ou na troca de longas cartas que não dizem o que deveriam dizer, que jamais dirão algo próximo do que deveriam dizer.        

E com essa observação chegamos a outro ponto crucial nas narrativas de Luci Collin: alguns dos contos não possuem enredo, a escritora vai alinhavando alguns elementos frasais, aposta no tecer a teia, as ideia vão se somando ou se anulando, a enumeração complementa, em determinado momento surge a tessitura, o triunfo da aranha, e tudo começa a fazer sentido. Efeitos de prestidigitação construindo o alumbramento.

Outra característica: uma relação de amor e ódio com Curitiba. Ao mesmo tempo em que relaciona algumas das qualidades da aldeia em que vive, Luci Collin dispara torpedos contra o provincianismo. As cenas com as velhinhas em Coré Etuba: Tati Kéva! são exemplares, na medida em que mostram que, ao lado do progresso urbanístico e cultural, parte da população cultiva uma mentalidade atrasada, típica do século XVIII. Igual entendimento se repete em diversos trechos do livro, o(a) narrador(a) citando futebol na televisão aos domingos, música na vitrola, álbuns de fotografias, joelhos esfolados, as mulheres que só amam por dinheiro, os homens que só conseguem amar com dinheiro, pastéis, Kombi, corações partidos e senhoras que vão à missa.  

A Peça Intocada é um livro desigual. Alguns contos são de fácil entendimento. Outros precisam do tempo de maturação. Algumas das narrativas são alegres, simpáticas, o tom coloquial se esparramando pela planície textual. Outras estão envoltas em uma nuvem de melancolia, o olhar vago, a procurar por explicações. Quem almeja alcançar a consistência das palavras inscritas em cada um dos quinze contos descobre que, ao final da leitura de cada uma das histórias, a fragilidade humana prevalece. Mas também há momentos emblemáticos, força não é produto que se compra no supermercado mais próximo.

O protagonista do conto Matiz das armadilhas, depois de mil peripécias, o corpo partido em várias fraturas, declara, no leito do hospital, com toda a singeleza possível: Depois daqueles pudinzão todo não dá pra voltar pra ovo frito.      

A literatura de Luci Collin é um pudinzão.

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