Há
quem diga que a barbearia é uma espécie de divã psicanalítico dos homens (assim
como o salão de cabeleireiro é para as mulheres). O sujeito senta na cadeira do
barbeiro e pode conversar sobre qualquer assunto (futebol, política, carros, traumas
da vida, amores, fofocas) sem muitos julgamentos, sem muitas consequências. Como
algumas pessoas acreditam no poder curativo da fraternidade e é mais barato do
que uma sessão com o psicólogo, desatam a falar as besteiras que lhes
interessam.
Na
infância, no lado esquerdo do cruzamento entre as ruas Cruz e Souza e Carlos
Vidal Ramos, Bairro da Brusque, havia a barbearia do Nérço (a grafia é essa!).
Era uma salinha pequena (mas enorme na percepção de quem tinha menos de 10 anos).
Os móveis eram poucos e indispensáveis: um
banco para duas ou três pessoas e uma mesinha, onde os clientes podiam escolher
para leitura alguns exemplares da revista O Cruzeiro. As paredes do
santuário capilar eram decoradas com cartuns do Amigo da Onça (desenhados
por Péricles [de Andrade Maranhão], 1924-1961).
A
família deixou o bairro e o Nérço ainda ficou lá por um bom tempo. Algumas
coisas mudaram, o meu cabelo cresceu até quase o meio das costas (tenho fotos
para provar) e a memória deixou de reter quaisquer lembranças que envolvam trabalhadores
da área, exceto uma vez, no início da vida adulta em São Bento do Sul (SC), e, muito mais tarde, duas vezes em Florianópolis e duas em Itapema. Obviamente,
fui ao barbeiro outras vezes, mas simplesmente não tenho lembranças desses
momentos.
Quando
voltei para Lages, em 1999 ou 2000, comecei a frequentar uma barbearia que ficava na
rua Marechal Deodoro, em frente ao Cine Tamoio (que talvez já funcionasse como
igreja evangélica). O dono gostava de contar “causos” e a sua freguesia era composta,
na essência, por pessoas de bastante idade. Alguém me contou que ele tinha uma
coleção de revistas eróticas e que, nos intervalos entre um corte e outro, a
velharada se divertia recordando o passado. Por escrúpulo ou aversão, passei a
cortar o cabelo com outro profissional.
Que talvez fosse o Nérço, que reencontrei na Rua João Gualberto da Silva, ou um dos irmãos Buck, na rua Coronel Córdova (quase na frente da agência central dos Correios). Falta-me precisão nos acontecimentos daquela época – o tempo muitas vezes se transforma em névoa e esquecimento.
Fiquei
com os irmãos Buck por algum tempo – era um lugar divertido, onde se podia
encontrar “todo mundo”, além de fornecer material jornalístico para vários
artigos que publiquei em A Notícia (Joinville).
Os
Buck eram uma espécie de “memória viva” de parte da história da cidade e quando
passaram a residir na eternidade troquei de barbeiro várias vezes.
Incompatibilidades diversas. Desde as idiossincrasias que alimento até a tese
de que o silêncio precisa, necessariamente, ser eloquente. Detesto barbeiro
engraçadinho, moralista, fanático futebolístico, fumante e picareta de carros. Sobram
poucos, é verdade. Mas a vida é muito curta para aguentar (segundo o meu
personalíssimo critério) gente chata (mais chata do que eu).
Toda
essa lenga-lenga têm um propósito. Quero contar que, por diversos motivos, inclusive
preguiça, deixei para o final de ano a ida ao barbeiro. O pouco cabelo que me
restou estava precisando de um corte e a barba – a barba parecia a do Papai
Noel.
Não
querendo me deslocar até o Centro da cidade, fui em uma barbearia perto do
apartamento onde moro. Esforço em vão. O barbeiro me disse que só atendia com
hora marcada e que, se eu não tinha agendado o evento, ele não poderia me
atender. Senti na pele, digo, nos pelos, os avanços e retrocessos da
modernidade – gourmetizaram a barbearia! Tinha conhecimento que alguns
estabelecimentos oferecem jogos de sinuca e cerveja artesanal para quem está na
fila de espera, mas recusar cliente foi surpreendente.
Embora
saiba que janeiro não é o mês ideal para iniciar algum plano, deixei passar as
festas e procurei pela barbearia que frequento. Estava fechada – a turma (são muitos naquele
estabelecimento) tinha tirado uns dias de folga. Sem alternativa, como cachorro
que caiu do caminhão de mudança, entrei na primeira porta que estava aberta.
Não conhecia o cidadão, nem ele me conhecia. Mas, nos primeiros minutos,
percebi que estava no lugar errado. Ele tentou puxar assunto várias vezes,
sempre com uma pitada de humor. Fiz de conta que não estava ouvindo, gosto de meditar
(de uma maneira bem particular) enquanto o barbeiro faz o trabalho. Fui salvo quando
chegou outro freguês e a conversa tomou rumo para uma considerável distância
dos meus pensamentos.
Depois
que o serviço terminou e efetuei o pagamento (mais caro do que tinha imaginado),
fui almoçar. Também não estava bom. Como dizia Hardy, famoso personagem
de desenho animado de um passado que não volta mais, ó céus, ó vida, ó azar!
