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quarta-feira, 1 de abril de 2026

TINTA INVISÍVEL

 


Na cama do hospital, próximo da morte, o pai pergunta para o filho sobre a data do lançamento do próximo livro de um escritor, Procurei as informações (...) no celular e as repassei a ele. Ele balançou a cabeça: “Não, merda, acho que não vou ter tempo”.

Nada se mostra mais horrível para um leitor do que perder a possibilidade de ler uma determinada narrativa. No espaço que existe entre o mundo real e o mundo ficcional, o escritor, o leitor e os personagens constroem conexões afetivas (amor, simpatia, ódio, indiferença). E a simples percepção de que o destino está interposto entre uma ação e outra causa desolação e tristeza.

Javier Peña brigou com Fernando, o pai. Ficaram alguns anos sem se falar. Foi a doença (um câncer devastador) que permitiu a reaproximação. Mas, o distanciamento não diminuiu – no máximo, mudou os parâmetros do relacionamento. Parecia que não tinham assuntos em comum – exceto livros. Foi por essa estrada que eles trafegaram nos últimos meses de vida de Fernando, um leitor insaciável: No que ambos concordávamos era que a vida é feita de histórias e que elas eram o nosso jogo favorito. Eram elas que o faziam rir (...). Quando uma pessoa está morrendo, você não fala sobre deus, sobre a morte, sobre ciência ou sobre o além – você conta histórias para fazê-la sorrir.

Em Tinta Invisível (Editora Instante, 2026. Tradução de Marina Waquil), Javier Peña narra algumas das questões que tumultuaram as suas relações familiares. Embora, em algumas passagens do livro, a doença do pai se mostre como um subterfúgio para poder escrever sobre o mundo literário que está à margem da vida, essa impressão não constitui toda a verdade. Os últimos dias de vida do pai constituem o fio condutor para a celebração do luto – e isso ocorre na medida em que mistura memoria familiar com muitos episódios protagonizados por escritores (Fernando Pessoa, Ursula K. Le Guin, John Maxwell Coetzee, Amós Oz, Virgínia Woolf, Vladimir Nabokov, Susan Sontag, John Le Carré, César Aira, etc.). São cenas hilárias, trágicas e singulares, um universo afastado e, simultaneamente, próximo das narrativas que preenchem o imaginário dos leitores. Cada uma dessas histórias (que revelam a natureza humana dos escritores – bondades e maldades, humor e irritabilidade) compõem um cenário em que o real e o ficcional se misturam e que muitas vezes são difíceis de ser separados. Talvez seja isso que Javier Peña queria nos dizer quando relata os espaços solares e/ou sombrios em que fornecem identidade para a literatura.

Em alguns romances antigos era comum que alguém escrevesse uma mensagem secreta. O suco do limão se transformava em tinta. Depois que o papel secava, o texto desaparecia, parecia que a folha estava em branco. Era necessário aquecer o papel para que a escrita se tornasse visível. Javier Peña gosta dessa metáfora que oscila entre o visível e o invisível: Em ocasiões especiais, os leitores, como escreveu Toni Morrison, conseguem ir além da letra escrita e ler a tinta invisível que o autor deixou na página. Esses momentos, os encontros com o passado, a tinta invisível decifrada, são, tenho certeza, a beleza.  

A cerimonia do adeus se completa quando Javier Peña faz o inventário: Precisei esperar sua ausência para descobrir que o que ele havia me deixado não eram coisas, como aconteceu com Brick em Gata em teto de zinco quente. As únicas coisas materiais que herdei dele foram alguns sapatos grandes demais para mim e um casaco com um lenço usado no bolso. Fora isso, só me deixou tudo o que sou.


Javier Peña Lopez

segunda-feira, 23 de março de 2026

PARA ENTENDER (SUPERFICIALMENTE) OS NOMES DOS PERSONAGENS RUSSOS




Muitos leitores se queixam da dificuldade de acompanhar a literatura russa, alegando que, no meio do texto, os personagens mudam de nome e embaralham ainda mais os contos, novelas e romances. Evidentemente, isso é apenas uma desculpa alicerçada nas narrativas fast-food que tudo fazem para tornar mais palatáveis livros que, por definição, são produzidos para serem esquecidos dez minutos após a leitura.

Nenhum personagem da literatura russa muda de nome. O que ocorre frequentemente está relacionado com as diversas formas de tratamento entre os personagens. Isso significa que existe algumas maneiras especiais de nomeá-los, principalmente em relação com algum apelido, diminutivo ou forma carinhosa. 

Pensando nisso, elaborei uma mínima (talvez mísera) lista de nomes (apelidos, diminutivos) que são frequentes em narrativas russas. Por razões óbvias, essa relação sofrerá acréscimos com o passar do tempo.   

Os nomes russos são compostos por três partes: nome, patronímico, sobrenome. O grau de intimidade entre as pessoas designa as formas de tratamento. Raras vezes há possibilidade de usar apenas o primeiro nome (salvo familiares ou ligações afetivas, que muitas vezes preferem o uso de apelidos). No trato cotidiano usa-se o sobrenome ou, se houver algum tipo de relacionamento social, o nome e o patronímico (que é formado pelo nome do pai + as partículas -vitch ou -vna). Exemplos: Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, onde se deve compreender que Fiódor é o filho de Mikhail; Marina Ivánovna Tsvetáieva, ou seja, Marina, filha de Ivan. Em outras palavras, no uso corrente, quando se trata de pessoa conhecida, recomenda-se usar: Fiódor Mikhailovich e/ou Marina Ivánovna. Caso seja pessoas desconhecidas ou de relacionamento superficial, deve-se usar o sobrenome (no caso, Dostoiévski e/ou Tsvestáieva). Apelidos ou diminutivos só devem ser usados em casos de intimidade ou de parentesco.

Apelidos e diminutivos são fundamentais para expressar afeto. De acordo com o nível de proximidade usa-se um dos três casos:

1 – Forma curta (neutra ou amigável): terminação em -a ou -ya

2 – Forma coloquial (rude ou informal): terminação em -ka

3 – Forma afetiva (carinhosa): terminação em -enka, -echka ou -ushka

 

Parte da cultura russa está relacionada com as bonecas Matrioshka


PRINCIPAIS NOMES, APELIDOS E DIMINUTIVOS RUSSOS

Aleksándr, Alexandr – Sacha, Sasha, Sachenka, Sanya

Aleksándra, Alexandra – Sacha, Sasha

Alexey  Alyosha, Lyosha

Anastacia – Nastya, Stasya, Asya

Anatole – Tolya

Andrey – Andryusha, Andryukha, Dyusha

Anna – Anya, Anechka, Annushka

Anton  – Antosha, Antoshka, Tonya

Boris – Borya, Boryenka, Boryushka

Daniil - Danya

Dmitry – Mítia, Mitya, Dima, Dimochka

Elena – Lena, Lenochka, Lenusya

Fiódor – Fedya

Galina – Galya, Galinka

Grigory – Grisha

Igor – Igoryok, Yegorik

Ilya – Ilyushkha, Ilyushenka

Irina –Irisha, Irochka

Ivan – Vanya, Vanechka

Konstantin – Kóstia, Kóstik, Kospenka 

Leonid  – Lyonya, Lenya, Lyonechka

Liev  – Lyouka, Lyova, Lyovushka

Maksim – Maksyusha, Maksinka

Marina  Marinka, Marinoshka

Mariya – Masha, Mashenka, Mashka, Marusya

Mikhail – Misha, Mishka, Mishenka

Natalia – Natasha, Natashenka

Nikolai – Kolya, Kolyenka

Oleg – Olezhka, Olegushka

Olga – Olya, Olechka, Olenka

Pavel – Pasha, Pavik, Pashaka 

Piotr – Petya, Petiúchka

Raissa – Raya, Raichaka, Rayushka

Roman – Romka, Roma

Sergey – Seryozha, Seryoja, Seryogha, Seryozhka

Sophie – Sonya, Sonechka, Sonyushka, Sofushka

Svetlana – Sveta, Svetik

Tatiana – Tanya, Tanechka

Valentina – Valya, Valechka, Valyusha

Vassili  – Vasya, Vássia, Vaska, Vasen'ka

Vera – Verushka, Verochka

Viktor – Vitka, Vitya, Vityusha, Vityok, Vitenka

Viktoria – Vika, Vikulya, Vikusha

Vladimir – Volódia, Vova, Vovochka

Vladislav – Vlad

Yaroslav – Yarik, Slavik

Yekaterina – Katya, Katyusha, Katenka

Yevgeny – Zhenia, Zhenechka

Yuri – Yura, Yurik, Yurochka


 


 

TERMOS CARINHOSOS PARA PARCEIROS(AS) OU FILHOS(AS)

Solnyshko – Solzinho

Kotik/Kotyonok – Gatinho/Gatinha

Dorogoy/Dorogaya – Querido/Querida

Lyubimyy/Lyubimaya – Amado/Amada 



terça-feira, 17 de março de 2026

FITÓPOLIS

 


Da natureza selvagem para as aglomerações dos centros urbanos. Esse foi um dos fenômenos sociais que criou significativas mudanças nas relações entre os humanos e o meio ambiente nos últimos 500 anos. O planeta mergulhou, de forma contínua, na direção das catástrofes ecológicas (desmatamentos, destruição da biodiversidade, poluição, produção exponencial de lixo não reciclável, mudanças climáticas, etc.). Morar nas cidades implica em aceitar o sedentarismo em substituição ao nomadismo, as alterações do bioma e as múltiplas consequências dessas ações. O biólogo italiano Stefano Mancuso analisou a situação em Fitópolis (Editora Ubu, 2026. Tradução de Regina Silva), um livro que propõe interessantes medidas para enfrentar alguns desses problemas e, por tabela, o aquecimento global.

A união das palavras gregas phyton (planta) e polis (cidade), de certa forma, acena para o surgimento de propostas visando atenuar o desequilíbrio entre a vegetação e o planejamento urbano. Stefano Mancuso, que escreveu vários livros sobre o mundo vegetal, observa que a vida no planeta está assim distribuída: 83,7% são plantas; fungos alcançam 1,2%; os animais são somente 0,3% – o restante é constituído por microrganismos. São números assustadores para quem acredita no aforismo de Pitágoras: o homem é a medida de todas as coisas. Mancuso destaca a nossa incapacidade de perceber outros elementos que não estejam aferidos pela régua humanocêntrica: A gritante quantidade de outros seres vivos, não humanos, que compartilham conosco o planeta é um elemento capaz de sobrecarregar de forma insustentável a capacidade do nosso cérebro de processar dados, sendo por isso compreensível que não vejamos as plantas, os cogumelos nem os animais, embora sejam tão parecidos conosco.   

O estudo das cidades como organismos vivos sujeitos às regras da vida e da evolução remonta pelo menos à segunda metade do século XIX. O espírito do tempo (zeitgeist), dominado pela teoria evolutiva (Darwin), fornece uma nova chave de leitura para toda a realidade. O arquiteto e urbanista José Luís Sert, em 1942, declarou que As cidades (...) nascem, desenvolvem-se e morrem. (...) Em seu sentido acadêmico e tradicional, o planejamento urbano se tornou obsoleto. Ele deve ser substituído pela biologia urbana. Essa tese parece interessante, mas na prática se mostra insuficiente – porque os agrupamentos humanos (e suas relações sociais) se adaptam de forma autônoma e avessa ao planejamento de arquitetos e urbanistas. Se a metáfora biológica valer, a expansão urbana equivale a um grupo de células anômalas e que tanto pode constituir um reforço de defesa ao corpo, assim como uma forma de metástase mortal.  

Diante desse cenário, inúmeros teóricos contribuíram para analisar os elementos que constituem os agrupamentos humanos nas cidades e, simultaneamente, criaram um vazio populacional nas áreas rurais. Nesse processo, a eliminação do mundo vegetal estabelece um distanciamento dos indivíduos com a natureza. Stefano Mancuso, na contracorrente, cita a revolução promovida por Jaime Lerner na área central de Curitiba. Ao fechar várias ruas, excluir o tráfego de veículos e plantar árvores, ele revitalizou a região, ampliou o uso do transporte coletivo, incentivou o comércio e criou uma relação de afeto entre a cidade e a natureza.

Para instaurar essa “revolução” foi necessário coragem e persistência. No primeiro instante, foram fortes as reações contrárias – que quase destruíram a iniciativa. Depois que a fúria diminuiu foi possível perceber as vantagens da iniciativa. No entanto, um exemplo de sucesso não significa que será seguido por outras ações similares. Inúmeros interesses imediatistas costumam cercear projetos que não estão conectados com a máquina capitalista.

De qualquer forma, Mancuso, otimista, propõe um projeto urbanístico que amplie a vida vegetal no contexto humano. Temos que agir, como Lerner fez em Curitiba de um dia para o outro. E resistir até que os benefícios se tornem claros mesmo para aqueles com a cabeça e o coração mais duros. Vamos transformar nossas ruas em ruas com árvores sem esperar que todas as outras peças do quebra-cabeças sejam encaixadas. Confio na auto-organização da nossa espécie. Se uma rua está fechada para o tráfego, alternativas mais eficientes serão encontradas. As administrações não precisam resolver tudo até o mais ínfimo pormenor. A principal função delas hoje é tornar as cidades resistentes ao aquecimento global, e cobri-las com árvores é uma das poucas coisas sábias que podem ser feitas.     

 

Stefano Mancuso


Alguns dos livros de Stefano Mancuso foram publicados no Brasil: Revolução das plantas (Editora Ubu, 2019), A planta do mundo (Editora Ubu, 2021), A incrível viagem das plantas (Editora Ubu, 2021), Nação das plantas (Editora Ubu, 2024), Fitópolis (Editora Ubu, 2026).


segunda-feira, 2 de março de 2026

O ROSTO DA MORTE

 


– Até o próximo ano!

– Não garanto!

– Você disse isso no ano passado!

– Continuo não garantindo!

 

No início da semana passada precisei provar que estou vivo. Ou seja, fui até o Instituto de Previdência e, hallellujah, foi possível garantir que o salário continuará ajudando a pagar os intermináveis boletos mensais. O diálogo acima foi travado (tramado?) com a funcionária que me atendeu e, de uma forma ou de outra, acena para o iniludível, como diria Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968).

Que ninguém entenda mal essa declaração, não tenho intenção de abandonar a vida – neste ou nos próximos anos. Muito pelo contrário! Mas, como diria Michel Eyquem, Seigneur de Montaigne (1533-1592), citando Marcus Tullius Cicero (106-43 a. C.), filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte.

Então, vez ou outra, o tema faz uns passeios pela minha existência (principalmente nos momentos em que alguns parentes ou conhecidos deixam de existir). Entendo que essas questões são parte do que nos cabe enquanto estamos vivos: arrastar uma fila interminável de ausências – e que, em alguns momentos, se mostram mais como perdas do que como lembranças. Simultaneamente, aparece o medo – não o da morte, que é inevitável – mas o das coisas que vamos precisar deixar para trás. Os indivíduos são escravos de suas paixões, de suas propriedades, de suas tolices.

Para se preparar para a morte o desapego se mostra necessário – mais do que deixar testamento ou qualquer tipo de herança. É o que ensina Montaigne, quando diz desejar (...) que se prolonguem as atividades da vida, tanto quanto possível; e que a morte me encontre plantando minhas couves, mas despreocupado com ela e ainda mais com minha horta inacabada.

Não me parece exagerado pensar desta forma. O provisório constrói o conhecimento e saber disso constitui a sabedoria. Na visão de Montaigne, É preciso preparar-se para ela mais cedo, (...) pois Se a morte fosse um inimigo que se pode evitar, eu aconselharia empregar as armas da covardia: mas já que não se pode, já que ela vos agarra, tanto ao fugitivo e ao poltrão como ao homem de honra (...) tomemos um caminho totalmente oposto ao comum. Tiremos-lhe a estranheza, frequentemo-la, acostumemo-nos com ela. E, principalmente, vamos construí-la para (na hora de dar o último passo) que possamos ir embora satisfeitos com a vida. Na visão do filósofo, Feliz a morte que não deixa tempo para os aprestos [da] viagem.



No filme O Sétimo Selo (Dir. Ingmar Bergman, 1957), o protagonista joga uma partida de xadrez com a Indesejável das gentes (Manuel Bandeira, outra vez) – mas esse momento não passa de um paliativo, de um atraso para que a natureza siga o seu curso. Em sentido oposto, um velho conto árabe diz que, mesmo quando alguém procura escapar do destino, todos temos um encontro com a morte em Samarcanda. Na mitologia grega, a tarefa está sob responsabilidade das Moiras (Cloto, Láquesis e Átropos), que, em determinado momento, cortam o fio da vida – permitindo que Caronte, o barqueiro, possa levar os mortos pelo rio Estige até o Hades.  

Mesmo se fosse possível impedir o fim, quem estaria preparado para os suplícios que acompanham o pacto faustiano? A pedra filosofal não produz a imortalidade, mas sim o suplício infinito. A imagem de Prometeu, acorrentado em uma rocha, o fígado sendo devorado eternamente por uma águia, não parece ser muito agradável.

Em fevereiro do próximo ano espero fazer outra prova de vida – mas continuarei sem as amarras das promessas vãs.  


Michel de Eyquem, Seigneur de Montaigne


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

LUGARES PARA CHORAR NO RECIFE e outros

 


São muitos os livros sobre a história da música brasileira e seus protagonistas. No entanto, eles apresentam incontáveis lacunas e omissões. Faltam esclarecimentos sobre alguns episódios, sobram muitas versões estranhas à verdade (seja lá o que isso significa). Helder Aragão, conhecido como DJ Dolores, não se esquivou em contar um pouco sobre a sua participação nessa sinfonia urbana que foi o movimento Mangue Beat.

Compôs uma série de crônicas memorialistas sobre o amor que devota à capital de Pernambuco e à música. Unindo humor, poesia, canções e descrições geográficas (quem conhece os bairros recifenses Graças, Rio Doce, Linha de Tiro, Planeta dos Macacos, Entra a Pulso, Roda de Fogo, entre outros?), mergulha no passado e retorna à tona com mil relatos, depoimentos pessoais sobre uma época povoada por heróis e bandidos que fizeram da música o ser e o estar no mundo, fato que lhe permite dizer, entre outras coisas, Não tenho nenhuma opinião sobre Chico Buarque, tenho lembranças! O tom suave com que ele conversa com o leitor, tendo o Recife como pano de fundo, encontra frases e comentários como O amor vai te foder um dia!, construção filosófica que oscila entre a sístole a diástole, entre a planície e a montanha, entre o rio e o oceano – ao mesmo tempo que produz um curto circuito nas ilusões.

É na Rua da Aurora (olhando para a Ponte Princesa Isabel, sobre o Rio Capiberibe, e para a Rua do Sol), no Edifício Califórnia, na Avenida Caxangá, ou no Parque Treze de Maio que as histórias da música brasileira e do Recife, a maior cidade pequena do mundo”, se uniram em folia sem igual. Nada mais foi como antes. Infelizmente, a vida nem sempre se resume às festas ou ao desapego de certos valores. A existência também tem os seus momentos estranhos. No Recife não existe melhor lugar para exercer esse desaguar das dores que no trecho que compreende a Praia do Pína até o final de Boa Viagem, (...) [ali pode] chora-se compulsivamente, sem pudores. O vento secará as lágrimas, os espasmos do rosto serão confundidos com o incômodo causado pela claridade solar e, se tomar o resto do corpo em ondas de convulsão incontrolável, certamente pensarão que se trata de um novo exercício aeróbico. Chore o que tiver que chorar, preferencialmente sem sapatos, sentindo a areia molhada prender seus pés em pequenos abismos.

As crônicas mais significativas do livro citam Chico Science, Naná Vasconcelos, Fred zero quatro e outros tantos personagens que estão envoltos em névoas de cigarrinho de artista, em grandes teores alcoólicos ou em viagens para universos paralelos. No liquidificador cultural, depois que a literatura, o cinema e as histórias em quadrinhos se transformam em outra coisa, talvez mais bonitas, talvez mais doloridas, sempre há lugar para o Aviso: cuidado para não chorar dores que não lhe pertencem. Tarefa difícil, mas, se as lágrimas forem incontroláveis, cabe procurar por “outros” lugares para chorar: Abu Dhabi, Moscou, Macau, Derry (Irlanda do Norte), Havana, Skopje, Guadalajara e, naturalmente, Propriá, no Sergipe. Sem esquecer a Finlândia e a Califórnia, que o mundo encontra complemento em sonhos e sons, sem se importar com o lugar onde o escorrer das lágrimas alimenta o coração de quem acredita na música.

 

TRECHO ESCOLHIDO

O primeiro passo para fazer parte da vida artística recifense foi inscrever uns trabalhos no Salão de Artes Plásticas do Museu do Estado. Quando o período de exibição acabou, fui recolher minhas obras e, já saindo, dei de cara com o velho Lula, Gonzagão, Luiz Gonzaga, O Rei do Baião, o Lua, para os íntimos, meu Elvis particular mesmo antes de eu saber da existência de Elvis.  

Amar as canções de Luiz Gonzaga é uma prerrogativa nordestina. Sua obra atravessou gerações, entre o avanço estético no diálogo com a tecnologia de estúdio da época e o puro conservadorismo conseguia misturar os sentimentos mais ambíguos, da malandragem explícita à religiosidade plena de sincretismo. Um grande ícone: contraditório, rico e, principalmente, humano, verdadeiro em suas convicções. Não me contive e soltei um “Gonzagão, sou seu fã” e ele deu uns passos para trás, boquiaberto com aquela visão do inferno, chocado com a degradação da juventude, suponho. Quem era aquele trombadinhacheiracola que o abordava? Lembro que me senti desapontado, mas igualmente feliz pela afirmação da minha rebeldia juvenil.  


Helder Aragão, o DJ Dolores


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

ORNAMENTO

 


                             

Para que serve a ciência? A pergunta é retórica. Não há uma resposta capaz de abranger, para o bem ou para o mal, a totalidade de questões que envolvem a proposição.

No romance Ornamento, de Juan Cárdenas (Editora DBA, 2025. Tradução de Marina Waquil), um cientista desenvolve uma medicação que fornece prazer para as mulheres – somente para as mulheres. Há alguns anos foram descobertas por acidente as propriedades psicoativas de uma flor do gênero Datura, comumente utilizada por camponesas das cordilheiras para produzir sabonetes artesanais. (...) Os gestores e eu decidimos imediatamente enviar para lá uma equipe de estagiários, que voltaram com amostras dos sabonetes e das diversas flores utilizadas em sua fabricação. Depois de alguns meses, já havíamos conseguir sintetizar o princípio ativo.

Industrializado, o produto constituía a promessa inequívoca de recreação sexual, sem as amarras da frustração. Seguindo as estruturas econômicas, a substância começa a ser comercializada. Logo surgem dois efeitos colaterais: dependência física e psicológica feminina e, em razão da demanda exponencial, o surgimento do mercado paralelo bastante agressivo. Quem controla o prazer, controla o mundo – estabelecem os mercadores da diversão alheia.

Seguindo o roteiro da neutralidade, o cientista prefere se abster de qualquer intervenção. Cabe aos proprietários do laboratório resolver os problemas reais. Suas preocupações são outras. Encantado com uma das voluntárias na pesquisa da droga (a de nº 4), convida-a para ir morar com ele e a esposa. Os dois novos brinquedos (a euforia sexual e o trisal) fazem com que o casal suba os degraus da escada da felicidade. Mas, como sempre acontece, o que é bom dura pouco. Depois de algum tempo, a esposa, dependente de cocaína, entra em depressão; a voluntária vai embora; o cientista, desnorteado, fica sem saber o que fazer.

Nada mais lhe resta senão procurar pelo paraíso perdido. Encontra outras distrações, um mundo subterrâneo que lhe era desconhecido: Uma hora depois, o taxi sobe uma ladeira muito íngreme em direção a um daqueles bairros que ficam na encosta dos cerros orientais, um aglomerado de casas velhas e ruínas habitadas pelo que meu pai chamava de escória, e que eu imaginava como algo assustador ou uma criatura fabulosa. Com o passar dos anos, a palavra escória passou a me sugerir apenas uma bola disforme de sucata cultural. Nesse périplo conhece, in loco, algumas das estratégias adotadas por aqueles que vivem à margem do mundo burguês. Quem precisa enfrentar as desigualdades (sociais, econômicas, afetivas) não se preocupa com privilégios de classe ou com qualquer outra coisa que não esteja relacionada com a sobrevivência.       

A narrativa se desenvolve por caminho previsível, sem muitas complicações, visto que o autor adota como técnica narrativa a segmentação, pequenos capítulos que vão sendo amontoados até que o desenho final adquira nitidez. Esse procedimento, que também pode ser visualizado em outra narrativa, O diabo das províncias (Editora DBA, 2024. Tradução de Marina Waquil), aguça a curiosidade do leitor, que, ao receber as informações a conta-gotas, mergulha na leitura, sem perceber que está sendo manipulado por um narrador não confiável.

Nos últimos capítulos ocorrem algumas mudanças. A mais significativa ocorre quando a voluntária deixa de ser uma sombra e passa a ter voz – mas essa intervenção no discurso monocórdio do narrador está concentrada em apenas um capítulo: Fui metódica, erudita na coleta de citações que abriram caminho para a ação, não me desesperei, fui ao coração do coração e encontrei um looping de ódio, mamãe, um ódio que não era nem seu nem meu, era o ódio ao princípio cósmico do feminino, uma misoginia que ultrapassava os limites estreitos da psicologia social e adquire proporções geológicas, a terra odeia o feminino, entendi, convencida de que havia encontrado um veio de sentidos preciosos que não devia ser explorado por ninguém, é assim que nós, mulheres, somos.

Misturando literatura com algumas questões filosóficas (A inútil sensação de beleza, o efeito ornamental), a narrativa acena para as tempestades comportamentais, momentos em que a lucidez costuma naufragar.      


Juan Sebastián Cárdenas

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A CAUSA SECRETA

 


Inquestionável a atualidade de Machado de Assis (1839-1908). Com certa frequência, alguns dos temas que abordou costumam escapar da área ficcional e ressurgir nos noticiários. Um exemplo? A causa secreta, conto publicado originalmente em 1885 e que faz parte do livro Várias histórias, de 1896.

O enredo é rocambolesco, típica publicação em jornal do século XIX, onde preencher o espaço tinha o seu propósito. Começa com uma cena que está muito distante do desfecho – e que serve para fixar as bases narrativas. Garcia, jovem estudante de medicina, socorre um homem ferido. Chama-se Gouveia a vítima de um bando de capoeiristas. Mas, junto com a boa ação, veio Fortunato, que auxiliou no socorro. Consequência da vida social, os encontros entre Garcia e Fortunato se tornam frequentes. Um dia, o segundo informa estar casado e convida o primeiro para jantar. Tornam-se amigos. Mas, como se mostra frequente nas estruturas narrativas de Machado de Assis (Dom Casmurro, A cartomante, Missa do galo, Uns braços, etc.), a paixão pela esposa alheia surge no horizonte: Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos: tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. (...) Ato contínuo, tornou-se comum os momentos em que os três se sentaram à mesa para a refeição noturna: ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração.

Cenário romântico estabelecido, o realismo entra em ação. Garcia e Fortunato se tornam sócios em uma casa de saúde e Maria Luísa fica doente. No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães. Como os guinchos doa animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer.

A natureza sádica foi se manifestando de tal forma que se tornou impossível ignorar. Em dado momento, Garcia Viu Fortunato sentado à mesa (...) Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta perdia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas.

Ao pedido de acabar com o suplício infligido ao animal: (...) com um sorriso único, reflexo da alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato.

(...) pela necessidade de achar uma sensação de prazer; que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem, constata Garcia, tentando controlar a repugnância, ao mesmo tempo em que Relembrava os atos dele [Fortunato], graves e leves, achava a mesma explicação para todos.

Com convém às estruturas narrativas trágicas, Maria Luísa, vítima da tuberculose, morre – e todos os esforços do marido para salvá-la se mostram inúteis. Durante a madrugada, no velório, Fortunato vai descansar um pouco – na volta, vê que Garcia estava contemplando o cadáver. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Não se contendo, Garcia beijou a morta mais uma vez e foi tomado pela emoção. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.  

Que relação essa narrativa tem com um caso policial recente ocorrido em Santa Catarina? Ao leitor que for capaz de perceber as distorções que envolvem o comportamento humano, o julgamento.    


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1904)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

SEIS SONETOS DE LUÍS VAZ DE CAMÕES

 

Luís Vaz de Camões (1524-1579 ou 1580)


Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade; 

é servir a quem vence o vencedor;

é ter, com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 


Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prêmio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida,

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: “Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida”.

 

 

O dia em que eu nasci moura e pereça,

não o queira jamais o tempo dar;

não torne mais ao mundo e, se tornar,

eclipse nesse passo o Sol padeça.

 

A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,

mostre o mundo sinais de se acabar;

nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,

a mãe ao próprio filho não conheça.

 

As pessoas pasmadas, de ignorantes,

as lágrimas no rosto, a cor perdida,

cuidem que o mundo já se destruiu.

 

Ó gente temerosa, não te espantes,

que este dia deitou ao mundo a vida

mais desventurada que se viu!

 

  

Tanto de meu estado me acho incerto

que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;

sem causa, juntamente choro e rio;

o mundo todo abarco e nada aperto.

 

É tudo quanto sinto um desconcerto;

da alma um fogo me sai, da vista um rio;

agora espero, agora desconfio,

agora desvario, agora acerto.

 

Estando em terra, chego aos Céus voando;

num’hora acho mil anos, e é de jeito

que em mil anos não posso achar um’hora.

 

Se me pergunta alguém porque assi ando,

respondo que não sei; porém suspeito

que só porque vos vi, minha Senhora.


 

Busque Amor novas artes, novo engenho,

para matar-me, e novas esquivanças;

que não pode tirar-me as esperanças,

que mal me tirará o que eu não tenho.

 

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto

onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.

 

Que dias há que na alma me tem posto

um não sei quê, que nasce não sei onde,

vem não sei como, e dói não sei por quê.


 

Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida descontente,

repousa lá no Céu eternamente,

e viva eu cá na terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueça daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te

algũa cousa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 

roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te,

quão cedo de meus olhos te levou.