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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A CAUSA SECRETA

 


Inquestionável a atualidade de Machado de Assis (1839-1908). Com certa frequência, alguns dos temas que abordou costumam escapar da área ficcional e ressurgir nos noticiários. Um exemplo? A causa secreta, conto publicado originalmente em 1885 e que faz parte do livro Várias histórias, de 1896.

O enredo é rocambolesco, típica publicação em jornal do século XIX, onde preencher o espaço tinha o seu propósito. Começa com uma cena que está muito distante do desfecho – e que serve para fixar as bases narrativas. Garcia, jovem estudante de medicina, socorre um homem ferido. Chama-se Gouveia a vítima de um bando de capoeiristas. Mas, junto com a boa ação, veio Fortunato, que auxiliou no socorro. Consequência da vida social, os encontros entre Garcia e Fortunato se tornam frequentes. Um dia, o segundo informa estar casado e convida o primeiro para jantar. Tornam-se amigos. Mas, como se mostra frequente nas estruturas narrativas de Machado de Assis (Dom Casmurro, A cartomante, Missa do galo, Uns braços, etc.), a paixão pela esposa alheia surge no horizonte: Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos: tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. (...) Ato contínuo, tornou-se comum os momentos em que os três se sentaram à mesa para a refeição noturna: ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração.

Cenário romântico estabelecido, o realismo entra em ação. Garcia e Fortunato se tornam sócios, Maria Luísa fica doente. No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães. Como os guinchos doa animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer.

A natureza sádica foi se manifestando de tal forma que se tornou impossível ignorar. Em dado momento, Garcia Viu Fortunato sentado à mesa (...) Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta perdia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas.

Ao pedido de acabar com o suplício infligido ao animal: (...) com um sorriso único, reflexo da alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato.

(...) pela necessidade de achar uma sensação de prazer; que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem, constata Garcia, tentando controlar a repugnância, ao mesmo tempo em que Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a mesma explicação para todos.

Com convém às estruturas narrativas trágicas, Maria Luísa, vítima da tuberculose, morre – e todos os esforços do marido para salvá-la se mostram inúteis. Durante a madrugada, no velório, Fortunato vai descansar um pouco – na volta, vê que Garcia estava contemplando o cadáver. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Não se contendo, Garcia beijou a morta mais uma vez e foi tomado pela emoção. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.  

Que relação essa narrativa tem com um caso policial recente ocorrido em Santa Catarina? Ao leitor que for capaz de perceber as distorções que envolvem o comportamento humano, o julgamento.    


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1904)

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