Páginas

terça-feira, 17 de março de 2026

FITÓPOLIS

 


Da natureza selvagem para as aglomerações dos centros urbanos. Esse foi um dos fenômenos sociais que criou significativas mudanças nas relações entre os humanos e o meio ambiente nos últimos 500 anos. O planeta mergulhou, de forma contínua, na direção das catástrofes ecológicas (desmatamentos, destruição da biodiversidade, poluição, produção exponencial de lixo não reciclável, mudanças climáticas, etc.). Morar nas cidades implica em aceitar o sedentarismo em substituição ao nomadismo, as alterações do bioma e as múltiplas consequências dessas ações. O biólogo italiano Stefano Mancuso analisou essa situação em Fitópolis (Editora Ubu, 2026. Tradução de Regina Silva), um livro que propõe interessantes medidas para enfrentar alguns desses problemas e, por tabela, o aquecimento global.

A união das palavras gregas phyton (planta) e polis (cidade), de certa forma, acena para o surgimento de propostas visando atenuar o desequilíbrio entre a vegetação e o planejamento urbano. Stefano Mancuso, que escreveu vários livros sobre o mundo vegetal, observa que a vida no planeta está assim distribuída: 83,7% são plantas; fungos alcançam 1,2%; os animais são somente 0,3% – o restante é constituído por microrganismos. São números assustadores para quem acredita no aforismo de Pitágoras: o homem é a medida de todas as coisas. Mancuso destaca a nossa incapacidade de perceber outros elementos que não estejam aferidos pela régua humanocêntrica: A gritante quantidade de outros seres vivos, não humanos, que compartilham conosco o planeta é um elemento capaz de sobrecarregar de forma insustentável a capacidade do nosso cérebro de processar dados, sendo por isso compreensível que não vejamos as plantas, os cogumelos nem os animais, embora sejam tão parecidos conosco.   

O estudo das cidades como organismos vivos sujeitos às regras da vida e da evolução remonta pelo menos à segunda metade do século XIX. O espírito do tempo (zeitgeist), dominado pela teoria evolutiva (Darwin), fornece uma nova chave de leitura para toda a realidade. O arquiteto e urbanista José Luís Sert, em 1942, declarou que As cidades (...) nascem, desenvolvem-se e morrem. (...) Em seu sentido acadêmico e tradicional, o planejamento urbano se tornou obsoleto. Ele deve ser substituído pela biologia urbana.  Essa tese parece interessante, mas na prática se mostra insuficiente – porque os agrupamentos humanos (e as suas relações sociais) se adaptam de forma autônoma e avessa ao planejamento de arquitetos e urbanistas. Se a metáfora biológica valer, a expansão urbana equivale a um grupo de células anômalas e que tanto pode constituir um reforço de defesa ao corpo, assim como uma forma de metástase mortal.  

Diante desse cenário, inúmeros teóricos contribuíram para analisar os elementos que constituem os agrupamentos humanos nas cidades e, simultaneamente, criaram um vazio populacional nas áreas rurais. Nesse processo, a eliminação do mundo vegetal estabelece um distanciamento dos indivíduos com a natureza. Stefano Mancuso, na contracorrente, cita a revolução promovida por Jaime Lerner na área central de Curitiba. Ao fechar várias ruas, excluir o tráfego de veículos e plantar árvores, ele revitalizou a região, ampliou o uso do transporte coletivo, incentivou o comércio e criou uma relação de afeto entre a cidade e a natureza.

Para que instaurar essa “revolução” foi necessário coragem e persistência. No primeiro instante, foram fortes as reações contrárias – que quase destruíram a iniciativa. Depois que a fúria diminuiu foi possível perceber as vantagens da iniciativa. No entanto, um exemplo de sucesso não significa que será seguido por outras ações similares. Inúmeros interesses imediatistas costumam cercear projetos que não estão conectados com a máquina capitalista.

De qualquer forma, Mancuso, otimista, propõe um projeto urbanístico que amplie a vida vegetal no contexto humano. Temos que agir, como Lerner fez em Curitiba de um dia para o outro. E resistir até que os benefícios se tornem claros mesmo para aqueles com a cabeça e o coração mais duros. Vamos transformar nossas ruas em ruas com árvores sem esperar que todas as outras peças do quebra-cabeças sejam encaixadas. Confio na auto-organização da nossa espécie. Se uma rua está fechada para o tráfego, alternativas mais eficientes serão encontradas. As administrações não precisam resolver tudo até o mais ínfimo pormenor. A principal função delas hoje é tornar as cidades resistentes ao aquecimento global, e cobri-las com árvores é uma das poucas coisas sábias que podem ser feitas.     

 

Stefano Mancuso


Alguns dos livros de Stefano Mancuso foram publicados no Brasil: Revolução das plantas (Editora Ubu, 2019), A planta do mundo (Editora Ubu, 2021), A incrível viagem das plantas (Editora Ubu, 2021), Nação das plantas (Editora Ubu, 2024), Fitópolis (Editora Ubu, 2026).


Nenhum comentário:

Postar um comentário