Enganado está quem acredita que os escritores russos produziram algumas das narrativas mais depressivas da história literária. Basta ler qualquer uma das histórias que integram a Antologia do humor russo (1832-2014), organizada por Arlete Cavaliere (Editora 34, 2018), para entender que é possível escrever com leveza e, paralelamente, extrair da opressão política a sátira, a ironia e a paródia.
Nikolai
Vasilievich Gogol (1809-1852) escreveu um texto que não consta da antologia,
mas que poderia estar lá, A briga dos dois Ivans (Editora Grua, 2014.
Tradução de Graziela Schneider).
Amigos inseparáveis (Aonde um ia o outro se arrastava atrás), Ivan Ivanovitch Pererepiênko e Ivan Nikíforovitch Dovgotchkhún, moradores de Mírgorod (uma vila ucraniana), em determinado dia, por motivo banal, brigaram. Tornaram-se inimigos mortais – e o ápice dessa querela está identificado: cada um dos desafetos ingressou com uma representação judicial contra o adversário. As duas petições, seguindo a tradição que acolhe aos que dispõem de propriedades e poder, resultaram depositadas em arquivo e lá seguiram até o fim dos tempos – ninguém, exceto os contendores, tinha interesse em resolver a questão.
Depois que acionaram a engrenagem do ódio e do patético, os dois Ivan não mais conseguiram conter o estrago. Os habitantes do vilarejo tentaram forçar um armistício entre os contendores – e isso quase foi possível, mas... Ivan Nikíforovitch, ao tentar esclarecer a situação, pronunciou em público algo que deveria continuar na esfera do privado. Assim como não há possibilidade de colar todos os pedaços de uma xícara que quebrou, a amizade depende de respeito e de cuidados muito especiais. Depois disso não houve mais conserto, a desavença encontrou residência na eternidade.
Provavelmente as melhores partes da novela são as descrições dos personagens (existem dois Ivan Ivanovitch – o segundo tem um problema ocular) e de algumas situações peculiares. Mas, obviamente, a literatura de Nikolai Vasilievich Gogol não tem a pretensão de fazer um estudo sociológico e/ou político – no máximo, retrata uma situação hilária, onde se destacam a inércia e a incompetência dos órgãos de controle estatal, os privilégios que acompanham algumas classes sociais e a futilidade provincial.
Enfim,
trata-se de um texto divertido sobre um tema complicado: o rompimento da amizade.
TRECHO ESCOLHIDO
Não
havia nada a fazer. Ambas as petições haviam sido recebidas, e o caso estava
pronto para assumir uma posição muito importante, quando uma circunstância
imprevista lhe conferiu ainda maior significância. Quando o juiz saiu da
repartição, acompanhado pelo assistente do juiz e pelo secretário, e os escriturários
enfiaram em um saco as aves, ovos, nacos de pão, pastéis, salgados e outras
baboseiras trazidas pelos requerentes, naquele momento, uma porca parda entrou
correndo na sala e pegou, para a surpresa geral dos presentes, não um pastel ou
uma casca de pão, mas a petição de Ivan Nikíforovitch, que estava em uma
extremidade da mesa, com as folhas para fora da borda. Arrebatando o papel, a
porca parda saiu correndo, tão veloz, que nenhum dos funcionários
administrativos conseguiu alcançá-la, apesar das réguas e tinteiros atirados.
Este
acontecimento extraordinário causou um terrível alvoroço, porque ainda não
tinha sido feita uma cópia dela. O juiz, seu secretário e o assistente de juiz
ficaram muito tempo discutindo sobre essa circunstância inaudita.
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| Nikolai Vasilievich Gogol (1809-1852) |


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