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segunda-feira, 29 de julho de 2013

AS SESSÕES

Se um olhar for capaz de definir tudo, então dois momentos de dois dos personagens de As Sessões (The Sessions. Dir. Ben Lewin, 2012), o padre Brendan e o atendente oriental do hotel, traduzem o sentimento que toma conta do expectador logo depois que termina a projeção do filme: espanto. Uma história como essa, repleta de bom humor, não parece ser possível. E, no entanto, contra todos os prognósticos, recuperando a inocência de quem se alimentam com sonhos, alguém a viveu – e nela foi feliz. Não é pouco.

Baseado no artigo On seeing a sex surrogate ("Consultando uma substituta sexual"), escrito por Mark O`Brien, As Sessões conta a história de um homem que teve poliomielite na infância. Seu corpo ficou paralisado. Quer dizer, partes de seu corpo não se movem. Outras partes, bem... funcionam. E é esse o problema – ou a solução. Evidentemente, alguns detalhes precisam ser equacionados antes. O mais importante é que, para continuar vivendo, Mark (John Hawkes) precisa da ajuda de uma máquina. Fora do “pulmão de aço”, ele consegue sobreviver apenas três horas. Essa limitação, além da dependência de empregados como Rod (W. Earl Brown) e Vera (Moon Bloodgood), o deveria destruir emocionalmente. Não é o caso. Parte da tragicomédia está conectada com um fato insólito: como um bom descendente de irlandeses, Mark é católico. Daqueles que vão à missa, se confessam e ambicionam um lugar no céu.

Na igreja, entra em cena um personagem fundamental, o padre Brendan (William H. Macy). Que fica horrorizado ao descobrir que um dos seus paroquianos, tetraplégico, 38 anos, quer fazer sexo. E, surpreendente, pela primeira vez na vida. E, ridículo, fora do casamento. E, visível contrassenso, com uma terapeuta sexual (que, na pobre imaginação do padre, talvez seja eufemismo para prostituta). Mas, isso não é o mais terrível. Há coisas piores. Mark, sem amigos e com pouca, quer dizer, sem nenhuma experiência no assunto, procura o padre para pedir conselhos sobre o significado de perder a virgindade. A incredibilidade toma conta da situação. O padre emudece. Ele também tem limitado conhecimento sobre o tema. E, mais importante, como é possível responder a esse tipo de questão? Que Deus transite por misteriosos caminhos, tudo bem, mas será possível que seus servos mais devotos precisam superar as situações mais absurdas para provar que possuem fé? 

Sacerdotes menos liberais provavelmente ameaçariam de excomunhão o herege que tivesse a ousadia de propor algo remotamente parecido. Não é isso que acontece. Diante da imagem de Cristo, o padre Brendon percebe que situações inusitadas exigem soluções inusitadas. A união entre o sagrado e o profano serve de ponto de partida para uma jornada de redenção. Essa é a melhor cena do filme. Inclusive porque a narrativa cinematográfica, ao mesmo tempo em que reflete o olhar perplexo do padre, mostra que existem alternativas para o despropósito. Go for it!, exclama, resignado, o padre (talvez imaginando, por algum motivo alheio ao entendimento humano, que a “fornicação” não se realizará).

Cheryl (Helen Hunt) especializou-se em atender sexualmente deficientes físicos. Durante seis sessões, apenas seis, procura satisfazer os desejos mais primários (ou secretos) de quem possui algum tipo de limitação motora. Simultaneamente, de forma paradoxal, recusa qualquer tipo de envolvimento emocional com os clientes. Quer manter sossegada a vida que leva ao lado do marido e do filho adolescente.

As primeiras duas sessões ocorrem na casa de uma amiga paraplégica. Rápidas e intensas. Muita ansiedade, pouca diversão. A terceira quase não se realiza. Ocorre um desacerto de horários. Surgem alternativas. Vera leva o casal até um hotel nas proximidades. No hall, o atendente da portaria, ao ver o homem na maca e a loura, pergunta para Vera o que está acontecendo. Vera explica que é um encontro sexual. O homem fica perturbado. Não acredita. O seu rosto denuncia isso.

No quarto, Cheryl mostra para Mark o que há de surpreendente na geografia corporal. Lugares que ele nunca visitou, experiências avassaladoras – é isso que Mark conta para o Padre Brendan. Surpreendentemente, confundindo o sacramento da confissão com alguma conversa masculina em mesa de bar, o religioso sente prazer em saber que o amigo está sentindo prazer. E gosta de ouvir os detalhes – que Mark não economiza.

Depois de quatro sessões, os encontros terminam. O envolvimento afetivo estava acenando perigosamente na esquina. A linha que separa a prudência da loucura poderia ser ultrapassada a qualquer momento. Melhor evitar.

Em compensação, surgiram compensações. Depois do primeiro passo, a sedução da caminhada. Até o dia de sua morte, Mark aproveitou as delícias da vida – como se fosse um libertino do século XVIII.

Fugindo dos estereótipos da autoajuda, do lacrimejar e da comiseração pelos horrores da vida, As Sessões aposta na diversão. Excelente programa para as tardes de sábado. Principalmente se estiver chovendo.

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