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terça-feira, 9 de julho de 2013

BECH NO BECO

A imaginação prevê o real, afirma o narrador de Bech Preside, uma das cinco novelas que constituem um dos textos menos valorizados de John Updike. Usando como parâmetro Casais Trocados ou a tetralogia centrada na vida de Harry Rabbit Angstrom, há quem considere  Bech no Beco (quase um romance) como um livro menor. Classificação injusta – convém destacar enfaticamente. Inclusive porque, seguindo a tradição narrativa dos escritores judeus, há humor em cada uma das páginas do volume. De todas as cores e nuances. Muita diversão. Confirmação (insana, incontestável, isenta) de que nada está a salvo de ser alvo de boas gargalhadas. O doce prazer de fazer piada com a narrativa ficcional não tem preço.

Com cara feia e pose cuidadosamente estudada diante do espelho, alguns teóricos da literatura costumam afirmar que a literatura precisa ter seriedade. E que algumas atitudes precisam ser compatíveis com a coerência – mesmo se isso resultar em algum tipo de perda para a literatura e para o leitor. A liturgia precisa ser mantida, dizem. Pode ser. Embora, não haja consenso. Ou bom-senso.

Essas escaramuças, em alguns casos, não todos, somente aqueles que merecem atenção especial, resultam em algo mais substancial, muito mais próximo dos sentimentos que costumam atormentara mente humana em situações de crise. O turbilhão de emoções muitas vezes se mostra incontrolável. É o que percebe o leitor de Bech no Beco (quase um romance), uma narrativa repleta de metáforas, analogias e diversas figuras de linguagem.

Personagem singular, Henry Bech (na avaliação do narrador) Não era um ser humano maravilhoso. Era um sanguessuga vaidoso e molenga grudado na perna da literatura, a qual atravessava o pântano de nossos tempos. No mundo literário (que, em muitos aspectos, se assemelha a uma selva), quem se adaptar às adversidades ou burlar a lei do mais forte provavelmente sobreviverá. Ou venderá mais. Ou terá mais sucesso. Ou enganará por mais tempo. Ou tudo isso e mais um pouco, porque a ambição costuma ser uma espécie de catapulta para a fama literária. Em outras palavras – provavelmente as erradas –, muitos escritores levam o seu trabalho literário demasiadamente a sério, mais que o sexo e que o dinheiro. E isso, para ratificar o óbvio (isto é, aquilo que poucos admitem em público, seja por hipocrisia, seja por autodefesa), significa que Todo mundo pode ser amigo de todo mundo, mas escritor não pode ser amigo de escritor. Os escritores estão condenados a se odiarem, não foi o que Goethe disse? Mit der Dummheit  kämpfen Götter... Ou foi o Schiller?

A juventude desapareceu. Os dias de glória também. Ao contrário de seu pai, Abe Bech, que guardava sua raiva, seu sarcasmo e sua indiferença para a família, Henry nunca escondeu o profundo mal-estar que a humanidade lhe causava. Apesar disso ou de coisa pior, (...) sua necessidade de dinheiro era intensa o bastante para obrigá-lo a enfrentar a ágora ensolarada de uma América mais ampla: apresentava-se nas faculdades interpretando o personagem de si mesmo, e de vez em quando aceitava escrever para alguma revista, quando a tarefa lhe parecia excêntrica o bastante para poder ser transformada, com um toque especial, em arte. Também participou de algumas Festschrifts (eventos comemorativos da vida literária) e obscuras academias literárias. Visita ao zoológico parece ser uma metáfora adequada para traduzir a diversidade da fauna. Cada espécie, ignorando com altivez o que acontece ao seu redor, cultiva (com fervor e estupidez) a idiossincrasia e o Ressentimento, o champanhe dos intelectuais.

Diante do túmulo de Kafka ou quando (ficcionalmente) recebe o Prêmio Nobel de 1999, a vida de Henry Bech não pode ser descrita como uma festa. Apesar das viagens, das homenagens, das mulheres, os paraísos artificiais costumam se desintegrar diariamente. Deixam para trás, ou seja, para a história, centenas de histórias engraçadas, constrangedoras, patéticas. Sic transit gloria mundi, diziam (cinicamente) os romanos.

A límpida paz pós-coito somente se torna possível quando Henry Bech planeja e executa o mais significativo dos sonhos de todos aqueles que escrevem e publicam. Em Bech Noir, o escritor, com o sangue frio de um enxadrista, como se fosse uma espécie de justiceiro infanto-juvenil, resolve eliminar fisicamente quem ousa comentar desfavoravelmente a literatura. E da forma mais dolorosa que for possível. O mundo não se modifica com esse desatino, matar todos os críticos literários, mas a satisfação do ofendido atinge o cume do prazer.

Como comprovou Dostoievski, crime e castigo caminham juntos e na direção no sistema carcerário. Evidentemente, há diversos tipos de prisões. Algumas mais cruéis do que outras. No caso de Henry Bech, a temporada no inferno foi de extrema perversidade. A esposa da vez, ao descobrir que o marido andava se divertindo com a morte alheia, cobrou comissão. Ou seja, exigiu o sacro santo direito da maternidade. E pouco se importou com o fato de o marido já não mais dispor de forças físicas e emocionais para criar filhos.

Foi com a criança de dez meses de idade no colo que Henry Beach, 76 anos, tentou superar o suplício que é escrever o discurso de agradecimento ao Prêmio Nobel de Literatura. Foi com a filha nos braços que enfrentou o destino: Quase colando os lábios nas convoluções suaves da orelhinha da criança, ele sussurrou: Diga oi. Oi!, exclamou Golda, pronunciando com uma clareza animada o monossílabo, imediatamente amplificado e espalhado por todos os recantos do lindo, infinito salão. Em seguida, levantou a mão direita, para que todos vissem, e fez o delicado movimento de abrir e fechar que significa tchau.  

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