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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O DONO DO JOGO

No universo esportivo, o xadrez é o campeão na produção de malucos. De cada dez jogadores, no mínimo três, talvez quatro, possuem algum tipo de distúrbio mental. E raramente são “probleminhas”, desses que se corrige com meia dúzia de sessões de terapia no psicólogo. Nem mesmo o tênis, famosíssimo por produzir “figurinhas carimbadas” no mundo das excentricidades, consegue rivalizar com o jogo de tabuleiro. De acordo com o campeão mundial (1985-2000) Garry Kasparov, Xadrez é tortura mental.

Por outro lado, George Steiner, em um ensaio clássico, Uma Morte de Reis, afirma, com todas as letras, que somente teve conhecimento de três momentos intelectuais em que a genialidade se manifesta na juventude: a música, a matemática e o xadrez. Descontando certas particularidades, as três formas “artísticas” caminham na mesma direção. E isso sinaliza para que um raio de esperança se projete no manicômio geral. Na contramão, muitos jogadores de xadrez conseguiram (mais ou menos) romper com o estereótipo que liga o jogo com as insanidades. Por exemplo, o inglês John Nunn tornou-se doutor em matemática (ele é responsável por importantes contribuições teóricas), o alemão Robert Hūbner é doutor em arqueologia, o russo Mark Taimanov era concertista internacional de piano e o letão Mikhail Tahl ostentava o título de mestre em literatura russa. As contribuições do engenheiro russo Mikhail Botvinik nas áreas de robótica e inteligência artificial (ainda hoje) não podem ser ignoradas. Então, descontadas as exceções, a questão, obviamente, está em canalizar as qualidades do jogo (cognição intelectual, principalmente em relação ao cálculo e à espacialidade) com o mínimo de dano cerebral. Nem sempre isso é possível.

Reykjavik, Islândia, 1972
Quem tiver curiosidade para conhecer uma versão da vida do campeão mundial de xadrez (1972-1975) Robert James Fischer deve assistir O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice. Dir. Edward Zwick, 2015). E, obviamente, procurar, logo depois, pela bibliografia adequada, pois o filme apresenta alguns desvios factuais. Por questões relacionadas com roteiro, há um nítido enfoque na patologia paranoide que alimentou parte da genialidade do jogador estadunidense.

Fischer (interpretado por Tobey Maguire) tinha uma obsessão: tornar-se campeão mundial. Para que isso se transformasse em realidade, não mediu esforços. Em seus delírios persecutórios, criou centenas de culpados por alguns de seus malogros. Algo similar ao dividir o mundo entre aqueles que estavam do seu lado e os que estavam contra. Simultaneamente, o zênite dessa história ocorre durante o ápice da “Guerra Fria”, que foi o embate ideológico e econômico entre a União das Republicas Socialistas Soviéticas e Estados Unidos. Como cada uma das partes puxou a brasa para sua sardinha, incluindo nesse pacote telefonemas do Henry Kissinger, clamando para que Fischer fosse defender a “democracia”, o match do século adquiriu uma importância política que, em outras circunstancias, não passaria de uma série de partidas entre dois lunáticos.

Bobby Fischer, em 1957 (14 anos).
O embate ocorreu entre os dias 11 de junho e 03 de setembro de 1972, em Reykjavik, capital da Islândia. O adversário de Fischer foi o russo Boris Vassielevich Spassky (interpretado por Liev Schreiber) – e que o filme transformou em uma sombra anódina, quase um robô, eternamente de óculos escuros e cercado por guarda-costas. O score dos jogos anteriores entre os dois era assustador: três a zero para o russo (Mar del Plata, 1960; Santa Mônica, 1966 e Siegen, 1970). E que aumentou no inicio do “match”: Fischer cometeu um erro crasso na primeira partida e não compareceu na segunda. Pelas regras vigentes na época, o estadunidense deveria ser desclassificado por abandonar a competição. Depois de muitas conversações e de concessões aos pedidos absurdos de Fischer, que reclamava de tudo e de todos (incluindo várias discussões sobre dinheiro, poltronas, luzes e câmeras de televisão), as partidas foram reiniciadas. E o que aconteceu em seguida foi uma espécie de tsunami. Fischer se impôs com grande facilidade. Com exceção da décima-primeira partida, quando Spassky recuperou um pouco da dignidade, a devastação foi completa. Os fatos estão sintetizados no resultado final: 12,5 x 8,5 (sete vitórias de Fischer, três de Spassky e onze empates).

William James Lombardy
No filme, ao redor de Fischer orbitam duas pessoas: o seu “segundo”, o padre William James Lombardy (interpretado por Peter Sarsgaard), campeão mundial juvenil de 1957, o único estadunidense que havia vencido Spassky anteriormente, e o advogado Paul Marshall (interpretado por Michael Stuhlbarg). Os dois são testemunhas dos diversos surtos psicóticos de Fischer – que, em outro contexto, provavelmente deveria ser internado em alguma instituição para pessoas com problemas mentais.

Do ponto de vista enxadrístico, as partes mais divertidas do filme são as partidas que Fischer e Lombardy jogam nos intervalos dos torneios. Sejam em ritmo “blitz” ou “às cegas”, retratam um mundo onde qualquer outro tipo de entretenimento é excluído – aos jogadores só interessa o jogo! Enfim, como escreveu Ricardo Reis (também conhecido como Fernando Pessoa), Ardiam casas, saqueadas eram / As arcas e as paredes / Violadas, as mulheres eram postas / Contra os muros caídos, / Trespassadas de lanças, as crianças / Eram sangue nas ruas.../ Mas onde estavam, perto da cidade, / E longe do seu ruído, / Os jogadores de xadrez jogavam / o jogo de xadrez. Nesse sentido, o roteiro de O Dono do Jogo foi construído através de uma forma que insinua que Fischer perdeu para Spassky, em Santa Mônica, em 1966, porque cometeu uma transgressão: em lugar de se concentrar na partida, fez sexo pela primeira vez no dia anterior. Total bobagem. Aliás, alguns biógrafos dizem que Fischer havia resolvido a questão sexual seis anos antes, em Buenos Aires, talvez o pior torneio de sua vida (ficou em 14º lugar e das dezenove partidas que jogou, venceu três, perdeu cinco e empatou onze). Conta a lenda que depois desse desastre passou a considerar as mulheres como uma distração a ser evitada!

Boris Vassielevich Spassky,
em 1948 (onze anos)
Como curiosidade enxadrística, O Dono do Jogo é um filme que não pode ser desprezado, embora ignore diversas questões – como o fato de que tanto Fischer quanto Spassky não tiveram a figura paterna presente em suas infâncias e que o xadrez foi uma maneira de superar essa falta. Guardadas as devidas diferenças, eles eram faces da mesma moeda. Outro aspecto relevante, para quem têm um mínimo de conhecimento da história do jogo, está em certas anomalias apresentadas pelo filme. Por exemplo, colocar Fischer reclamando que os russos faziam “jogo de equipe” em 1962, na competição realizada em Varna, Bulgária, configura uma idiotice. A Olimpíada de Xadrez é um torneio por equipes!


P.S.: para quem tiver curiosidade, a dupla cinema e xadrez pode ser encontrada em: Lances Inocentes (Searching for Bobby Fischer. Dir. Steven Zaillian, 1993), Fresh – Inocência Perdida (Fresh. Dir. Boaz Yakin,1994), O Último Lance (The Luzin Defence. Dir. Marleen Gorris, 2000. Baseado em uma novela de Vladimir Nabokov), Xeque-Mate (Joueuse. Dir. Caroline Bottaro, 2009), Jogada de Rei (Life of a King. Dir. Jake Goldberger, 2014).

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