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quarta-feira, 19 de abril de 2017

ZAZIE NO METRÔ

Jeanne Lalochère, que reside no interior, está com um namorado novo. Para poder usufruir (de maneira tranquila, lenta e deliciosa) todas aquelas coisas que um casal costuma fazer quando está dividindo a cama, ela precisa (no bom sentido) se livrar da filha, que deve ter uns 12 ou 13 anos. Coisa pouca, uns dois dias. Seu irmão, Gabriel, que vive na capital dos franceses, foi o contemplado. Melhor do que isso, só o primeiro prêmio da loteria. Só que não. Zazie, apesar da pouca idade, adora infernizar a vida dos outros. Ninguém merece o seu respeito. Ou melhor, todos recebem, sem o menor constrangimento, o seu desrespeito. Com uma personalidade malévola e agressiva, não é surpresa que um personagem a defina assim: Você faria duas montanhas saírem no tapa. Zazie fala palavrões com naturalidade e faz perguntas embaraçosas. Ou seja, ela é uma selvagem – que só aceitou ficar sob a guarda do tio porque queria passear no metrô.

Infelizmente, o metrô de Paris está em greve. E a cidade está à beira do colapso. É nesse cenário quase apocalíptico (por diversos motivos) que Raymond Queneau ambienta Zazie no Metrô, um clássico da literatura de humor (e de seriedade). Costurando várias aventuras simultâneas, induzindo estar contando uma história e, de repente, revelar outra – mas que é contínua à primeira –, o narrador do romance (onisciente, terceira pessoa) mostra que a literatura consiste, basicamente, em acumular truques de mágica, em iludir o leitor.  

Gabriel precisa entreter a sobrinha. Tarefa impossível. Mesmo assim a leva para conhecer os principais pontos turísticos de Paris. Além de o ilustre parisiense ter dificuldades para identificar os locais em que se encontra (parece desconhecer a cidade), a cada instante ocorre um incidente. A menina é uma encrenqueira profissional. Dessas que adoram mostrar desprezo pelos atos civilizatórios.

Enquanto Zazie se aborrece (ou se diverte, é difícil distinguir os seus sentimentos) passeando pelas ruas da cidade, o narrador, esbanjando hectolitros de bom-humor e quilômetros de ironia, nos apresenta parte da fauna local, que abrange desde aqueles que não tomam banho até uma multidão ávida por camomila e pâté de campagne, caramelos e sêmen-contra, gruyère e ventosas. De contrapeso, aparecem em cena diversos personagens que estão à margem da vida social burguesa: turistas em excursão, policiais, um motorista de taxi, um dono de bar, um sapateiro, uma viúva e um tarado (que usa vários disfarces, inclusive o de inspetor de polícia). Para completar a festa, há um papagaio (Laverdure), que repete interminavelmente a frase: Falar, falar, você só sabe fazer isso.

Gabriel é um homem alto, musculoso, casado com Marceline. Ele carrega no bolso um lenço impregnado de perfume (Barbouze, da Fior) e, sempre que pode, bebe incontáveis doses de granadina (licor, não alcoólico, de tons vermelhos, feito com groselha ou sementes de romã). Para ganhar a vida, o sujeito montou um espetáculo de dança. Por alguma razão bizarra, ver um homem desajeitado em trajes de “drag queen” (Gabriella) diverte os frequentadores da boate gay Mont-de-Piété.

Se Zazie não fosse sua sobrinha, Gabriel provavelmente distribuiria um par de chineladas na bunda da menina, ou a abandonaria em algum lugar distante ou, na melhor das hipóteses, a jogaria nas águas do Sena, batismo pedagógico e necessário para acalmar a pestinha. Em ritmo enfant terrible, ela não fornece o mínimo sossego para o artista do teatro de variedades. Zazie adora incomodá-lo com questões desconcertantes, principalmente sobre suas (dele) preferências sexuais. Você é ou não é hormossecsual? Não importa quantas vezes o tio responda que não é homossexual, a menina repete a pergunta com frequência. Quer desestabilizá-lo. É o seu prazer mais perverso. Ela pouco se importa com os sentimentos do tio. Ela quer incomodar.

O ápice da narrativa ocorre quando Gabriel, inicialmente vítima de rapturistas, leva o ônibus da turba (dirigido por Fiódor Balanovitch) para ver o seu show (ao mesmo tempo, o valoroso varão aproveita a oportunidade e a ingenuidade dos estrangeiros para ganhar alguns trocados). Após o trambique, lá pelas quatro ou seis da madrugada, Gabriel e seus amigos  (avec Zazie) vão a um restaurante: querem encerrar a noitada com um prato de sopa de cebola. No caminho, após desmascararem o farsante tarado, a turma é interceptada por dois policiclistas, que denunciam, aos berros, a briga instaurada: – Arruaça noturna (...), algazarra lunar, baderna sonívora, rega-bofe estrondoso.

Dentro do restaurante, outro combate, garçons e clientes desfalecidos após socos e sopapos, confusão generalizada e uma nova investida do farsante tarado que recruta outras forças policiais para praticar a justa injustiça. Como em um daqueles filmes de faroeste, a cavalaria aparece no último momento e salva os sitiados, inclusive todas as penas do papagaio, mostrando uma saída que não estava no cardápio. Allons enfants de la Patrie / Le jour de gloire est arrivé

Depois de mil peripécias, a narrativa revela desfecho exemplar:

O hoteleiro chamou um taxi, e seis e meia ela estava na estação. Obliterou o bilhete e desceu para a plataforma. Pouco depois, vinha Zazie, acompanhada por um sujeito que levava a malocha dela.

– Olha só! – disse Jeanne Lalochère. – Marcel.

– Como você pode notar. 

– Mas ela está dormindo em pé!

– Eles aprontaram. Desculpe. E eu também peço desculpas, pois vou nessa.

– Entendo. Mas e o Gabriel?

– Não tá muito bem. Tô indo. Témais, menina.

– Tchau – disse Zazie, muito ausente.

Jeanne Lalochère a fez subir na cabine.

– E então, você se divertiu bastante?

– Médio.

– Viu o metrô?

– Não.

– Então, quê que você fez?

– Envelheci.


Zazie no Metrô, embora seja uma narrativa linear, dessas com começo, meio e fim (nessa ordem), está repleta de experimentos linguísticos, verdadeiro parque de diversões para quem gosta de trocadilhos, frases de duplo ou triplo sentido, rupturas da sintaxe, uso (ir)regular de figuras de linguagem, referências de metalinguagem, multiplicação dos efeitos homográficos e homófonos, gírias, expressões em várias línguas (inglês, latim, alemão), palavras-valises, expressões grafadas de acordo com a dicção sonora (simulando o falar popular). Simultaneamente, o texto foi construído para mostrar a extensão do nonsense e dos efeitos cômicos. Por exemplo, ao descrever a localização das bolas em uma partida de carambola, o narrador utiliza a notação do jogo de xadrez. Em outro momento, para embaralhar todas as fichas e instaurar a confusão total, Marceline se transforma em Marcel – reflexo gemelar da dicotomia Gabriel/Gabriella. Nada é o que parece ser. E isso garante a diversão.
 
Raymond Queneau (1903-1976)
P.S. 1: Há duas traduções brasileiras de Zazie no Metrô. A primeira, publicada pela Rocco, data de 1985 e foi feita por Irène Monique Harlec Cubic. A segunda, da Cosac Naify, foi realizada em 2009 por Paulo Werneck.  
P.S.2: Há uma versão para o cinema: Zazie dans le Métro (Dir. Louis Malle, 1960).


TRECHO ESCOLHIDO


Agora eram tropas de garçons surgindo de todos os lados. Difícil acreditar que houvesse tantos. Saíam das cozinhas, porões, escritórios, depósitos. A massa compacta absorveu Gridoux, depois Turandot, aventurando-se entre eles. Tal qual um coleóptero atacado por uma colônia mirmídone, tal como um boi assaltado por sanguessugas, Gabriel se sacudia, resfolegava, se debatia, projetando em direções variadas projéteis humanos que iam quebrar mesas e cadeiras ou rolar entre os pés dos clientes.


O barulho dessa controvérsia acabou acordando Zazie. Percebendo o tio como presa da malta refeitória, ela berrou: coragem, titio! E munindo-se de uma garrafa jogou-a de qualquer jeito no fuzuê. Assim é grandioso o espírito militar entre as filhas de França. Seguindo esse exemplo, a viúva Mouaque disseminou cinzeiros ao seu redor. Assim o espirito da imitação pode levar os menos dotados a realizar coisas. Ouviu-se então um estrondo considerável: Gabriel acabava de se afundar em meio à louça, elevando entre os escombros sete garçons exaltados, cinco clientes que haviam tomado partido e um epilético.


Levantando-se num só movimento, Zazie e a viúva Mouaque se aproximaram do magma humano que se agitava nos escombros e na louça. Uns golpes de sifão bem aplicados eliminaram da competição algumas pessoas de crânio frágil. Graças a isso, Gabriel pôde se levantar, rasgando por assim dizer a cortina formada por seus adversários, revelando no mesmo golpe a presença avariada de Gridoux e Turandot, estendidos no chão. Alguns jatos aquagasosos dirigidos sobre a cachola deles pelo elemento feminino e padioleiro os devolveram à situação. A partir de então, o desenlace da luta já não era mais duvidoso.


Enquanto os clientes desligados ou indiferentes se eclipsavam de mansinho, os encarniçados e os garçons, sem fôlego, se amoleciam sob o muque severo de Gabriel, o punho siderante de Gridoux, o pé virulento de Turandot. Uma vez esmagados, Zazie e Mouaque os apagaram da superfície do Aux Nyctalopes e os arrastaram até a calçada, onde amadores benevolentes, por simples bondade de alma, os empilharam. Só Laverdure não tomava parte da hecatombe, desde o início da peleja dolorosamente atingido no períneo por um fragmento de sopeira. Jazendo no fundo de sua gaiola, ele murmurava gemendo: noitada encantadora, noitada encantadora; traumatizado, ele havia virado o disco.


Mesmo sem a cooperação dele, a vitória logo foi total.

 


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