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quarta-feira, 12 de abril de 2017

OS PAPÉIS DE ASPERN

Henry James, em Horas Italianas, escreveu que Veneza de todas as cidades do mundo é a mais fácil de visitar sem ir lá. Esse pensamento supõe que a imagem mental supera a experiência concreta. Evidentemente, não é o caso do escritor, que se hospedou na cidade – em diversas oportunidades – e a usou como objeto literário (em relatos autobiográficos e ficcionais). Provavelmente a mais importante demonstração do amor que Henry James dedicou à Veneza seja a novela Os Papéis de Aspern (The Aspern Papers), publicada originalmente em 1888, e que, salvo engano, possui duas traduções brasileiras: 1984 (Maria Luiza Penna. Global Editora) e 2015 (Chico Lopes. Editora Penalux).

Os Papéis de Aspern combina duas grandes questões literárias: o anjo da anunciação e o mito faustiano. No primeiro caso, uma situação familiar aparentemente equilibrada sofre grandes mudanças quando em contato com um estranho. O segundo tema se refere à discussão sobre quais são os limites éticos de um indivíduo diante do objeto do desejo. Em ambas as circunstâncias não há salvação para todos os envolvidos.

A suspeita de que alguns manuscritos (poemas, cartas, anotações) do poeta Jeffrey Aspern estão de posse de Juliana Bordereau (que mora em um Palazzo, em Veneza), faz com que um editor não nomeado (inclusive porque se apresenta através de pseudônimo) viaje para a Itália. Ciente de que a Senhora Bordereau (que mora com sua sobrinha, a Senhorita Tina) não dispõe de uma renda econômica substancial, o homem aluga parte do casarão – alega precisar de um lugar tranquilo para ler e escrever. Além disso, se compromete a revitalizar o jardim.

O editor (que também é o narrador do texto) procura, durante os três primeiros meses, descobrir o paradeiro do tesouro bibliográfico. As poucas informações que consegue obter não o levam a alguma conclusão positiva. Simultaneamente, utilizando-se de charme, galanteria e maços de flores consegue atrair o afeto (e algo mais) da Senhorita Tina – que tem cerca de 50 anos. Embora inicialmente não vise esse propósito, o editor acaba se beneficiando da rede de sedução que arma em torno de uma mulher carente.

Em determinado momento, a Senhora Bordereau resolve mudar as regras do jogo. O que antes era contenção se transforma em algo mais palpável – revelando que ela (uma idosa quase inválida) possui maior domínio da situação do que o editor. Sem acusar, textualmente, ter a posse dos documentos, sugere que eles podem ser obtidos se o comprador estiver disposto a pagar um valor estratosférico. Para aumentar a cobiça do editor, mostra-lhe uma parte do espólio: um pequeno retrato oval de Jeffrey Aspern, e que foi pintado pelo pai da Senhora Bordereau. Em seguida, pronuncia o preço. O editor não possui tamanha quantia.

As cenas mais significativas da novela ocorrem nos capítulos 8 e 9. Mas, antes de chegar até lá, o leitor precisa ter paciência para atravessar um mar de frases que parecem não ter fim. São centenas de vírgulas, pontos-e-vírgulas, travessões, apostos, digressões, informações adicionais. Apesar da sensação de que “quase nada acontece” por páginas e mais páginas, em cada parágrafo do texto há um turbilhão de filigranas que somente o leitor atento consegue perceber.

A perspectiva de obter os documentos a qualquer preço faz com que o editor rompa com os limites da boa conduta. Essa quebra da ordem produz a gênese da catástrofe e, de certa forma, a morte de Juliana Bordereau.  A inutilidade de todo o esforço do editor se torna óbvia. No entanto, a ganância ganha uma sobrevida: a Senhorita Tina faz uma contraproposta para o editor, no momento em que ele anuncia que vai embora.

Um estranho espasmo brotou em seu rosto quando ela me viu pegar meu chapéu. – Imediatamente – você quer dizer hoje? – O tom das palavras era trágico – era um protesto de desolação.

– Oh, não; não enquanto eu possa ser de grande utilidade para você.

– Bem, só mais um ou dois dias – dois ou três – ela arfou. Depois, controlando-se, acrescentou de outro modo: – Ela quis me dizer uma coisa – no último dia – uma coisa muito particular. Mas não conseguiu.

– Uma coisa muito particular?

– Uma coisa a mais sobre os papeis.

– E você supõe – você tem alguma ideia?

– Não, eu tentei pensar – mas não sei. Pensei toda espécie de coisa.

– Por exemplo?

– Bem, se você fosse um parente, tudo seria diferente.

Fiquei pensando. – Se eu fosse um parente...

– Se não fosse um desconhecido. Então, seria o mesmo para mim e para você. Tudo que é meu seria seu, e você poderia fazer o que quisesse. Eu não seria capaz de impedi-lo – e você não teria responsabilidade alguma.



Tudo têm preço. Resta saber se há comprador. E, em caso afirmativo, se ele dispõe de cacife para sustentar a aposta. Muitas vezes, são das águas tranquilas que surgem as surpresas. O que parece sensatez se revela obtusidade e o que poderia ser bobagem se transforma em deslumbramento. A vida (ficcional ou não) nunca corresponde ao que é projetado como objetivo. E, por maior ou menor que seja o encantamento, em algum momento impreciso o arrependimento (instantâneo ou tardio) se instala – como se fosse o dono da casa.

(...) O quarto parecia girar em torno de mim quando ela disse isso, e uma escuridão real por um momento baixou sobre meus olhos. Quando a sensação passou, Miss Tina estava ali imóvel, mas a transfiguração havia acabado, e ela havia se transformado novamente numa pessoa simples, apagada, idosa. Foi nessa caracterização que ela disse o seguinte: – Não posso ficar com você, não posso! – E foi nessa caracterização que deu as costas para mim, como eu dera as costas para ela e caminhando para a porta de seu quarto. Aí ela fez o que eu não fizera quando a abandonara – uma pausa longa o suficiente para me lançar um olhar. Eu nunca o esqueci e, às vezes, sofro ao lembrá-lo, embora ele não fosse ressentido. Não, não havia ressentimento, nada de áspero ou vingativo na pobre Miss Tina, pois quando, mais tarde, enviei a ela, como paga pelo retrato de Jeffrey Aspern, uma quantia de dinheiro maior que a que eu esperava obter, escrevendo-lhe que o vendera, ela as recebeu com gratidão; ela nunca a restituiu. Escrevi a ela que vendera o retrato, mas, naquela época mesma, confessei a Mrs. Prest – encontrei esta outra amiga em Londres, naquele outono – que ele está pendurado no alto de minha mesa de escrever. Quando o olho, mal posso suportar minha perda – quero dizer, a perda dos preciosos papéis.


A riqueza descritiva dessa cena contrasta com a ambiguidade da última frase. Tudo o que parecia um manancial de certezas se dissolve no mistério – e convida à releitura. 

Entre os personagens de Os Papéis de Aspern, Veneza talvez seja um dos mais importantes. A geografia da cidade vai sendo revelada em cada página do livro. Por exemplo, o editor passeia de gôndola por lugares emblemáticos com o Lido, o Malamocco, o Grande Canal, a Piazza San Marco. Todas essas cenas são descritas com precisão e ternura – como compete a um bom ficcionista.

Segundo Henry James, a ideia de escrever Os Papéis de Aspern surgiu de uma conversa que ele ouviu em Florença. Era algo sobre uma senhora (80 anos), que morava com a sobrinha (50 anos). Supostamente ela possuía algumas cartas trocadas entre Byron e Shelley – fato que despertou a cobiça de um aventureiro. Tomando esse tema como mote, Henry James transferiu as ações para Veneza, expandiu o enredo e acrescentou diversas camadas narrativas e psicológicas.

Henry James, Jr. (1843-1916)


P.S.) A edição da Penalux é artigo fino: capa dura, diagramação competente, boas ilustrações. Mas, há um pequeno senão. O tradutor, Chico Lopes, optou por manter no original os pronomes de tratamento das personagens femininas. Independente das razões que o fizeram tomar essa decisão, possivelmente mais coerente seria optar por Senhora Bordereau (em lugar de Miss Bordereau), Senhorita Tina (em lugar de Miss Tina) e Senhora Prest (em lugar de Mrs. Prest).

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