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segunda-feira, 15 de maio de 2017

NOSSAS NOITES

Envelhecer com delicadeza – esse deveria ser o objetivo fundamental da vida. Infelizmente, há dificuldades, percalços, problemas. E poucas pessoas (principalmente os mais jovens) conseguem entender o quanto de horror está presente na história daqueles que conseguiram ultrapassar a barreira dos 65 anos. Como consequência desse equívoco cotidiano, muitas vezes desnecessário, a tristeza costuma acompanhar a velhice.

No caso do romance curto Nossas Noites, escrito por Kent Haruf, não há novidades, mas... Em apenas 157 páginas, uma tempestade de emoções – que não se manifesta como uma exposição da devastação física da velhice. Ao contrário, tudo se passa lentamente, agradavelmente, como se fosse uma brisa.

Um dia, a viúva Addie Moore bate na porta do viúvo Louis Waters e faz uma proposta singela: O que você acharia de ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo? Os dois estão próximos dos 70 anos de idade e moram no condado de Holt, no estado do Colorado. A cidade é pequena e todos sabem tudo sobre a vida de cada um dos moradores. O que não sabem, inventam. 

Louis, no início, não sabe como agir. Depois, aceita o convite. Um dia após o outro, eles deitam na mesma cama, apagam as luzes e conversam. E assim, antes do sono surgir, vão contando um para o outro (e para os leitores) os fatos mais significativos de suas vidas. Addie fala sobre a morte da filha mais velha, que morreu atropelada aos 11 anos; ele relata sobre a vez que abandonou a esposa e a filha para ir viver com outra mulher. São histórias cotidianas e que são narradas sem muita pressa. A maior alegria do casal está no compartilhar da intimidade, no calor que um corpo transmite ao outro.

Os problemas não tardam a surgir. Alguns vizinhos começam a comentar a situação – que lhes parece incompreensível, absurda, indecente. Salvo raras exceções, criticam a união, que – guardadas as devidas proporções – poderia ser comparada com algum tipo de adultério, uma traição com os mortos.

Kent Haruf (1943-2014)
Depois, surge em cena Jamie, o neto de seis anos de Addie. Os pais do menino estão prestes a se separar. No meio desse tumulto, cabe à avó cuidar temporariamente da criança. Jamie muda a rotina do casal. Ao mesmo tempo, os une um pouco mais. Na companhia do menino redescobrem os pequenos prazeres de morar em uma cidade do interior: jogar softball, ir à feira agrícola, visitar os amigos, acampar, sair para jantar, brincar com um cachorro.

A poesia está presente em cada um dos 43 capítulos do livro, que utiliza a linearidade narrativa e diálogos ágeis e fluentes. Mais do que uma leitura saborosa – apesar das páginas finais se mostrarem ásperas –, Nossas Noites consegue tratar dois temas espinhosos (a solidão e a velhice) com naturalidade. Bela narrativa.


TRECHO ESCOLHIDO


Uma manhã, enquanto ainda estava fresco, os três levaram Bonny para o campo para que ela pudesse correr. Botaram o tubo de proteção na sua pata e foram de carro até o oeste da cidade, até uma estrada plana de cascalho e terra batida. Na beira da vala ao lado da estrada havia girassóis, ervas-saboeiras e tufos de capim florido. Jamie saiu com a cadela do banco de trás do carro e tirou a guia da coleira. Ela ficou olhando para ele, à espera.

Vai lá, disse Louis. Pode correr. Chispa. Ele bateu palmas.

Ela deu um pulo e saiu correndo pela estrada, entrando e saindo da vala, sua pata protegida fazendo estalidos no chão duro da estrada enquanto corria. O menino correu atrás dela. Addie e Louis seguiram atrás dos dois, andando devagar, atentos a eles. Nenhum carro passou pela estrada enquanto eles estavam lá.

Foi uma boa ideia arranjar essa cachorra, disse Addie.

Ele parece feliz, de fato.

Por causa dela e também porque já se adaptou a morar aqui conosco. A dúvida é se ele vai continuar feliz quando voltar para casa.

Os dois voltaram correndo. O menino estava ofegante e com o rosto vermelho. Ela consegue correr direitinho com a pata machucada, disse ele. Vocês viram como ela corre?

A cadela olhou para o menino, e eles saíram correndo de novo. O tempo já estava esquentando, era o meio de julho. Não havia nuvens no céu e o trigo dos campos ao lado da estrada já tinha sido ceifado, o restolho todo ajeitadinho depois de tosquiado. No campo seguinte, o milho formava fileiras retas verde-escuras. Um dia claro e quente de verão. 

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