Páginas

terça-feira, 8 de agosto de 2017

DUNKIRK

Analisando algumas imagens de guerra, Susan Sontag, em Diante da Dor dos Outros, concluiu que Desde quando as câmeras foram inventadas, em 1839, a fotografia flertou com a morte. Esse raciocínio também vale para o cinema, embora, com o passar do tempo, os filmes de guerra (por diversas razões) tenham sido quase extintos ou migrado do culto do herói (que se sacrifica na defesa de algum ideal) para instrumentos de propaganda ideológica (vide, por exemplo, Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow  2010 – e Sniper Americano, de Clint Eastwood  2015).

Centralizado em um dos grandes momentos da II Guerra Mundial, a evacuação de parte do exército inglês, que estava sitiado na praia de Dunquerque, norte da França, Dunkirk (Dir. Christopher Edward Nolan, 2017) tem como propósito principal mostrar os horrores que acompanham o irracionalismo da guerra.

Com um elenco que alterna bons atores (Fionn Whitehead e Mark Rylance, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, 2016), estrelas decadentes (Kenneth Branagh) e chamarizes de público (Harry Styles, integrante do grupo pop One Direction), o filme não decepciona – principalmente para o espectador que vai ao cinema para ver cenas de ação.

No que se refere à carpintaria narrativa, Dunkirk possui várias características. A primeira, e a mais importante, é o uso da fragmentação, através da superposição de três planos narrativos (terra, mar e ar). Esse artifício pirotécnico contribui para eliminar a existência de um (ou vários) protagonista(s) – evidenciando que o foco principal do filme é a guerra. As conexões entre esses elementos foram resolvidas de forma eficiente na mesa de edição.

Christopher Nolan, durante as filmagens
Outra questão distintiva importante está na deliberada negação de fornecer um rosto ao inimigo. Com exceção de uma cena quase ao final, em nenhum momento se percebe a presença do exército alemão. Somente os ingleses e uns poucos franceses aparecem em cena. De certa forma, o diretor (que também é o roteirista) sugere que a maldade, independente da forma com que é percebida, está sempre presente na vida humana.

Por fim, as inúmeras cenas de ação (combates aéreos, naufrágios de navios, tiroteios) permitem a agilidade narrativa necessária para absorver a atenção do espectador. E impedir a reflexão crítica.

Em um artigo publicado no jornal The Guardian, a escritora indiana Sunny Singh destaca a necessidade de uma narrativa (baseada em fatos “reais”) estar conectada com o conceito de verossimilhança. Não basta contar uma boa história, urge torná-la próxima dos acontecimentos históricos.

A ausência de soldados de origem indiana e de negros nos batalhões que estão retratados em Dunkirk constitui um exemplo importante, segundo Singh, de whitewashing (substituir alguns personagens fictícios ou históricos – asiáticos, indianos, negros – por personagens de cor branca). Ou seja, a produção do filme optou por ignorar a História cultural de um país colonizador e que saqueou diversas regiões do mundo. Para completar, Singh destaca que o filme é uma fantasia brexitiana descarada, onde o desrespeito aos povos não-europeus se destaca de forma excludente e preconceituosa.  

Singh finaliza o seu texto com uma lição de teoria narrativa: 

Todo contador de histórias – romancistas, poetas, jornalistas e cineastas são, em última instância, apenas isso – sabe o poder que tem. Histórias podem desumanizar, demonizar e excluir. Tais histórias são essenciais para pavimentar o caminho para a violência física e material contra aqueles que aprendemos a odiar. Mas histórias também são o único caminho para humanizar quem é considerado desumano; para evocar piedade, compaixão, simpatia, até amor por aqueles que são estranhos e estrangeiros. Histórias decidem a diferença entre a vida e a morte. E é por isso que Dunkirk – e, de fato, qualquer história – nunca é apenas uma história.


Difícil discordar dessa abordagem. Citando Susan Sontag outra vez, Por longo tempo algumas pessoas acreditaram que, se o horror pudesse ser apresentado de forma bastante nítida, a maioria das pessoas finalmente apreenderia toda a indignidade e insanidade da guerra. Christopher Nolan provavelmente discorda dessa interpretação. Inclusive porque preferiu mostrar uma visão distorcida de algumas minúcias históricas. Em outras palavras, Dunkirk é um bom filme de entretenimento. Apenas isso. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário