Páginas

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A JACA DO CEMITÉRIO É MAIS DOCE


Santiago Hernández, protagonista do romance A Jaca do Cemitério é Mais Doce, de Manuel Herzog, nasceu tragicômico. Semelhante ao bailarino que tropeça durante o clímax da dança e beija o solo gelado do salão, causando risos e piadas nos demais convidados ao convescote, ele poderia cantar os versos de uma velha canção, Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso / E hoje descrente de tudo me resta o cansaço / cansaço da vida, cansaço de mim.

Pobre destino de alguém que, por vias transversas, lembra outro indivíduo de nome Santiago. Em comum há a suspeita de terem sido traídos. Ou melhor, sentem que as suas entranhas estão sendo corroídas pelo ácido que surge do imaginar que a musa das emoções mais profundas em algum momento trocou humores com outro homem. A possibilidade de ela ter gostado/gozado se transforma em um sentimento insuportável. 

Indícios do mal estavam inscritos no doce corpo doce de Natércia, anagrama de Caterina, nome traduzido de sua bisavó, Katarzyna Gralówna, conhecida como a Polaca, e que exercia honestamente (na medida do possível) a profissão mais antiga da humanidade no porto de Santos. Também a mãe de Natércia, Delfina, se perdeu nos braços de um pernambucano – mulher sem marido acaba caindo na vida, não foi o caso, mas o pecado não se resume em seis letras desemparelhadas. Com tais antecedentes, como ignorar os fatos?

 É um cheiro forte, (...) o amor em excesso chega a feder, feito jaca, escreve o narrador – que em muitos momentos quase se confunde com Santiago. Não seria surpresa se isso fosse, posto que Santiago descreve as suas desventuras em um diário – que, em dado momento, aparece nas mãos de Marcleide, a empregada doméstica. A isso também se acresce, durante as 135 páginas do livro, um número bastante significativos de duplos. Ou de sombras. Sobras de personagens que se desdobram em outros, como se quisessem confundir ou cindir a narrativa.

Duplos são esquizofrênicos. Ou será que os esquizofrênicos é que são duplos? Algumas perguntas não possuem resposta. Há particularidades em cada desvario, a mente adora se desviar da linearidade, o fascínio pelos cenários desconhecidos, o jogo tenso, teso, entre o yin e o yang, as duas faces da mesma moeda, elementos que se desdobram em espiral, ninguém sabe onde começa ou termina, fita de Möbius. Talvez seja por isso, em dado momento, com a pompa e a circunstância que é devida ao evento, que adentra ao proscênio a figura peculiar de Germano Quaresma, doppelgänger do escritor Manuel Herzog, e que, não satisfeito em embaralhar as cartas desse jogo sem regras, se transforma no investigador de polícia José de Alencar Segundo. Nem mesmo Simão Bacamarte (que não é personagem dessa história!) seria capaz de desatar essa maçaroca. Como se não bastasse, nesse mundo repartido entre o corpo e o espectro, Santiago acumula a tristeza na companhia de dois gatos: Chantilly (branco) e Morcego (preto).

Com as mulheres, há uma ligeira misoginia. Ligeira? Gritos e pontapés metafóricos caracterizam a relação com Marcleide. Mitiko e Cremilda são válvulas de escape sexual. A única que obteve atenção e devoção foi Natércia. Feito um cachorrinho de estimação, ele pulou, deitou, se fingiu de morto, correu atrás de gravetos, acuou de felicidade. E, obviamente, pagou contas. Para que tamanho esforço?

Vivaldo, um vivaldino que havia sido expulso da polícia, estava namorando Natércia. Foi isso, mas com outras palavras, e bem menos educadas, o que Cavalo-do-Índio segredou-lhe em momento de crueldade com o colega de serviço. Não há cristão (ou muçulmano ou budista ou ateu ou...) que consiga suportar o peso de um bom par de chifres. A masculinidade sofre desses desvios de conduta. E o soco na cara do comborço foi revidado com um tiro na perna – a marca da injuria passou a ser carregada por todo o sempre. Então, Santiago (que nunca foi santo), alegando defesa da honra, contrata bandido de plantão para liquidar a questão. A morte de Natércia foi dano colateral, estava junto com o canalha, o sangue dos dois se uniu no asfalto e isso se agregou ao sentimento de culpa.

Outros tantos eventos se seguiram. Alguns, importantes. Outros, nem tanto. A existência é confeccionada com minúcias, colcha de retalhos com as sobras do trivial. E mesmo que os descrentes garantam que a vida, qualquer vida, se parece com todas as outras vidas, imagem multiplicada no espelho, não há como negar corporeidade ao espetáculo que é contado, descrito, narrado como se fosse original, sem igual.

O homem perde tudo, até a dignidade, como os mendigos, mas a curiosidade fica, é uma praga, diz Santiago em algum momento do livro, como se estivesse a purgar os pecados, como se estivesse arrependido de entregar ao leitor todos os detalhes macabros de sua vida, principalmente a ilusão patética de desmembrar lentamente o cadáver de Natércia para alimentar a composteira. Na impossibilidade física de realizar a vingança mesquinha, transfere o ódio para um manequim (mais um duplo!). Só falta nos dizer que tudo (inclusive a vida) é merda e à merda todos retornaremos.

Dialogando com Machado de Assis e Nelson Rodrigues (um pouco menos), A Jaca do Cemitério é Mais Doce aborda – de maneira pouco usual a perda da realidade. O humor amargo, pouco espesso, agarra o leitor e embriaga.    

Nenhum comentário:

Postar um comentário