Páginas

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

BLADE RUNNER 2049



Morrer pelo que é certo é a coisa mais humana que podemos fazer, diz a líder dos replicantes rebeldes para o também replicante K (Ryan Gosling), em cena emblemática de Blade Runner 2049 (Dir. Denis Villeneuve, 2017), uma espécie de sequência do clássico Blade Runner (Dir. Ridley Scott, 1982), que, por sua vez, é vagamente inspirado no romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip Kindred Dick (1928-1982).

O paradoxo se manifesta instantaneamente. Replicantes são androides, ou melhor, são seres bio-humanos, que evoluíram dos robôs da série Nexus.  Eles imitam os humanos, e foram criados para, grosso modo, servir de mão de obra descartável. Cabe-lhes obedecer, sem colocar em dúvida as tarefas que recebem – nada muito distante da situação vivenciada pelos escravos entre os séculos XV e XVII.  

A existência de K obedece a esse postulado. Encarregado pela polícia de Los Angeles de caçar e exterminar alguns tipos de replicantes, frutos de uma tiragem mais recente e que estão causando “problemas”, ele procura cumprir objetivamente todas as missões que lhe são designadas. No entanto, se há bastante movimento na vida profissional de K, no aspecto particular impera o vazio – exceto nos momentos em que ele interage com a imagem de Joi (Ana de Armas), uma espécie de namorada virtual (e que só existe na forma hologramática).

Ocorre um curto-circuito emocional depois que K mata um replicante, Sapper Morton (Dave Bautista) – e em vários níveis. Dentro de uma caixa, que estava enterrada perto de uma árvore, são encontradas várias informações sobre as mutações que estão ocorrendo com os replicantes – e que, de uma forma ou de outra, colocam em risco o poder humano. Como ocorre nas sociedades totalitárias, não há espaço para a diversidade. Torna-se necessário eliminar quaisquer focos de resistência ao padrão unificador.

Essa mudança de parâmetros coloca sob os holofotes uma questão essencial. Os replicantes não possuem subjetividade. Eles não compartilham daqueles elementos singulares que distinguem os indivíduos (valores, crenças, opiniões, lembranças). Então, como explicar a rebelião que está em curso? Como entender que alguns replicantes tenham adquirido consciência de que a vida está revestida de um valor inestimável? Máquinas são máquinas – exceto nos casos em que a inteligência artificial seja autônoma para produzir um novo nível de inteligência.

(Nota 1: quem discordar dessa tipo de pensamento deve ler Homo  Deus: uma breve história do amanhã, de Yuval Noah Harari, onde as previsões sobre a composição da sociedade futura são aterradoras.)


Simultaneamente, K recupera uma lembrança da infância. Um pequeno cavalo esculpido em madeira se transforma em uma espécie de “Madeleine” proustiana ou “Rosebud” (de Cidadão Kane. Dir. Orson Welles, 1941). Esse caso exemplar de autoengano se revela decisivo para o andamento narrativo. Aquele que deveria se comportar como inumano vê o passado relampejar diante de seus olhos como elemento primordial da existência. De maneira completamente fora do controle de seus fabricantes, o androide adquire consciência de está se tornando humano e que a sua vida – a partir desse instante – está em perigo.

Acrescenta-se o fato de que K não sabe (e não tem condições de saber) de que essa memória não é sua. Ela faz parte de um implante. Então, entre o acreditar que está destinado a executar uma tarefa singular para o destino de todos e, logo depois, se desiludir com a descoberta de que tudo o que acredita (e o motiva) é uma farsa, a vida de K se torna intensa, imensa, maravilhosamente preenchida por uma experiência real, verdadeira, humana.      

Em um mundo distópico, caracterizado por grandes espaços desertos, ruínas urbanas e grandes avanços tecnológicos, Blade Runner 2049 (assim como a versão de 1982) trava um diálogo constante com o faroeste – gênero cinematográfico especular/espetacular da colonização estadunidense e constantemente reproduzido por Hollywood. As cenas de ação do filme (tiroteios, lutas físicas) estão atreladas ao mito do herói e, consequentemente, ao maniqueísmo (a divisão entre o bem e o mal sempre foi a maneira mais fácil de relativizar qualquer ação humana). A vantagem de Blade Runner 2049 está exatamente em se afastar desse esquema dualista, através do desafio intelectual. As dúvidas que o filme suscita são mais interessantes do que as respostas que apresenta. 
 

 (Nota 2: não é necessário ver/rever o Blade Runner de 1982 para entender o de 2017. Também não é necessário ler o texto de Philip Kindred Dick.  São histórias diferentes, independentes, e que estão ligadas por fios muito tênues.)  



(Nota 3: uma das cenas mais divertidas do filme é completamente acessória. A pós-modernidade cinematográfica está representada na jukebox holográfica – a projeção luminosa de Frank Sinatra [ou de Elvis Presley e Marilyn Monroe] mostra que o passado constituí a sombra de que o homem e a máquina não conseguem se separar.)


Nenhum comentário:

Postar um comentário