Como
deve reagir o pai quando o filho anunciar que está fazendo a transição de
gênero? Sejam progressistas ou conservadores, raros são aqueles que conseguem
administrar essa situação com o necessário equilíbrio. Cadão Volpato precisou
escrever um livro para tentar exorcizar a aflição emocional.
Letrista,
cantor e guitarrista da banda Fellini (anos 80 em São Paulo, pós-punk),
ex-trotskista, ativista estudantil na ECA-SP e na FFLCH-USP, jornalista
cultural, apresentador de televisão. Parece fácil resumir a biografia de Cadão
Volpato em uns poucos itens. Embora não seja um perfil tradicional, supõe-se que
possui as necessárias condições intelectuais para compreender a diversidade
cultural, social, econômica, sexual de um mundo em constantes mudanças. No entanto, a vida está repleta de nuances
e, entre uma atividade e outra, existem vários interstícios. Em Notícias do
trânsito (Editora Seja Breve, 2025), em relato autobiográfico, Cadão procura
preencher alguns dos espaços vazios de sua história. O acontecimento que
produziu a ruptura entre o privado e o público foi um telefonema (seguido de
várias mensagens pelo Whatsup). Um de seus quatro filhos (três rapazes, uma
moça) anunciou que estava em trânsito – que tinha decidido atravessar a estrada
das convenções e mudar de gênero.
Foi
um choque traumático – porque coloca em xeque as questões que emolduram a
masculinidade e, consequentemente, o machismo. Em dado momento, Cadão confessa:
Eu era essa pessoa, esse Casanova de segunda categoria. (...) E quando sento
com velhos amigos é das mulheres passadas que lembramos (...). É a velha
história que os homens gostam de repetir – incansavelmente. Mas não é para
impressionar a plateia, e sim para convencer a si mesmos que a virilidade
(mesmo quando inexistente) é um valor a ser preservado. E os Homens (com H
maiúsculo) sentem orgulho de se comportarem como Homens e enumerar as mulheres
que fizeram parte de suas vidas.
Mudar
de gênero, nesse contexto, implica em infração, inflamação no tecido social, um
tumulto carregado de preconceitos, dúvidas, confusões, medo. Os laços que instituem
a masculinidade foram rompidos – principalmente quando o pai é fruto de uma
geração que se declara autolimpante, que dispensa ajuda de psicólogos,
de terapia, e que, por não ter coragem de assumir determinadas questões,
internaliza as dores. Esse conflito lancinante não se resolve facilmente.
É o aprendizado (ou não) que resulta em aceitação ou rejeição.
O
que faço com seu nome antigo? Me diga.
Eu
sei o que você vai dizer, e não vai insistir muito.
Sou
uma pessoa do século 20, e vou deixando coisas pelo caminho, menos seu nome de
poeta italiano universal, o de perfil adunco no meio do caminho desta vida.
(...)
Mas
de repente eu não saberia mais como chamar você. Nome, pronome.
Agora
sei, embora ainda não consiga – não como sua irmã, seu irmão, sua namorada,
seus amigos. E não sei como sua mãe está chamando você.
Nome, pronome. Mudanças. Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura / ché la diritta via era smarrita (Em tradução informal: No meio do caminho desta vida / me vi numa floresta escura, / porque estava perdido), escreveu Dante Alighieri, na Divina Comédia. Esses versos, de certa forma, traduzem a perplexidade do pai diante da decisão do filho. E, seguindo poema, cabe-lhe dizer, depois de algum tempo: Allor fu la paura un poco queta / che nel lago del cor m’era durata / la notte ch’ï passai con tanta pieta // E come quei che con lena affannata / uscito fuor del pelago a la riva / si volge a l’acqua perigliosa e guata (em tradução informal: Então o medo que existia no lago do meu coração se acalmou, / na noite que tomou minha alma inquieta; // e como alguém que, com respiração ofegante, redivivo, / saindo do mar / se volta para a água perigosa e a contempla).
Livro angustiante, mas escrito com emoção, empatia, acolhimento, e muitas referências literárias, musicais e cinematográficas, Notícias do trânsito se caracteriza pela coragem de discutir um tema comportamental estranho ao segmento social brasileiro que defende a pátria, a família e a hipocrisia.
É a voz do pai que atravessa o livro, é o afeto que une o pai e o filho: Você e o seu sonho de Quimera. Seu, não meu, seu e de mais ninguém. A sua quimera.
![]() |
| Cadão Volpato |


Nenhum comentário:
Postar um comentário