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domingo, 28 de dezembro de 2025

QUE NÃO SE REPITA – a quase morte da democracia brasileira

 


Conta a lenda grega que ninguém acreditava nas profecias formuladas por Cassandra, sacerdotisa de Apolo. São várias as interpretações desse mito, mas contemporaneamente, em um mundo em que as mentiras estabelecem (por algum tempo) o estatuto de verdade, quaisquer avisos sobre os perigos que estão vinculados ao mundo político desaparecem no vento produzido por uma estrutura fluída, líquida, escorregadia.

Eugênio Bucci publicou, no jornal O Estado de São Paulo, uma série de artigos sobre o período 2019-2022. Nesses artigos ele faz diversos alertas, baseado em questões que lhe pareciam evidentes – mas que eram ignoradas por quase todos, principalmente pelo grupo de pessoas que estava apostando no caos. São essas análises que compõem o livro Que não se repita – a quase morte da democracia brasileira (Editora Seja Breve, 2025).

Com argúcia e objetividade, Bucci vai descrevendo a ascensão do irracional. As coisas transcorriam como se seguissem um roteiro de deterioração lento, gradual e inseguro que tinha salvo-conduto para seguir adiante. As ações aparentemente desconjuntadas, um tanto randômicas, tinham uma lógica subterrânea exata. Elas se encadeavam numa obra paulatinamente empenhada em ressuscitar o arbítrio. Avançavam passo a passo, gota a gota, de modo continuado, milimétrico e persistente. Era o golpe em gerúndio.

O processo de erosão estava sendo conduzido, sintomaticamente, pelos “suspeitos de sempre”, mestres no golpismo institucional – qualquer um que conheça um mínimo da história da República pode identificá-los. Mas, houve um erro de estratégia no meio do caminho. Confiaram que poderiam manipular o títere que foi eleito. O que saiu do controle foi uma espécie de golpe dentro do golpe: a presidência da República entregou o poder executivo para o Congresso (emendas parlamentares, orçamento secreto) e passou a negligenciar todas as políticas públicas que constituem a relação entre o governo e a população brasileira. Basta lembrar o que aconteceu durante a pandemia, em 2020/2021, quando a incompetência estatal se manifestou de forma incontestável.  

Mesmo assim, parte da população continuava apoiando esse projeto insensato. Inclusive porque era confortável acreditarem na névoa produzida e reproduzida nas redes sociais. Para algumas pessoas tudo que era publicado na internet, principalmente nas incontáveis páginas políticas conservadoras, adquiria um status de verossimilhança. Mesmo assim, como se estivessem usando algum tipo de antolhos, pareciam não perceber que Os indícios já estavam todos postos. Estavam presentes nos discursos que tentavam erigir um passado de glórias que nunca houve, nas narrativas heroicas que enalteciam a banda mais animalesca da ditadura militar, nas declarações de ódio contra os jornalistas, disseminadas sob o patrocínio do Palácio do Planalto, nas campanhas de moralização violenta dos costumes, que elogiavam o universo masculino como ideal de mando e enalteciam o feminino como selo de obediência. Nessas horas, a corte bolsonarista reproduzia o ambiente da Itália de Mussolini, que instava o homem a ser “pai, marido e soldado”.   

Esse ambiente, que incorporou questões religiosas como se fossem itens da prática política, projetou um cenário propício para um coup d’etat – mas que, logo depois das eleições de 2022, se transformou em pantomima, ópera bufa, teatro de terceira classe. Tudo o que parecia sólido se dissolveu no ar. A incompetência também bateu continência na hora em que poderia ter alguma substância.

De qualquer forma, é preciso lembrar uma frase de Bertolt Brecht: a cadela do fascismo está sempre no cio. Uma crise foi superada. Mas, isso não é motivo para ser otimista.  Como alerta Bucci, as forças antidemocráticas (...) voltarão pela porta dos fundos, ou mesmo pela porta da frente, e armarão a recidiva. Enquanto isso, não tenhamos dúvida, muita gente continuará repetindo que as instituições estão funcionando normalmente e que você não tem motivo para se preocupar.   

Os textos que constituem Que não se repita são leitura obrigatória para quem quer entender os acontecimentos recentes da história republicana brasileira e os métodos utilizados pelas forças reacionárias. O golpismo costuma hibernar, mas em algum momento há o despertar. O futuro de cada um de nós está em acreditar (ou não) nos presságios de Cassandra.   

Eugênio Bucci

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O EXPRESSO DE TÓQUIO

 


O romance policial é um gênero literário repleto de clichês. Diante de uma morte violenta – quase sempre –, um policial ou um detetive particular resolve investigar e descobrir quem cometeu o crime, em que situação e porque o fez. O que diferencia um escritor de outro é a forma que adota na condução narrativa, além da capacidade de criar personagens diferenciados. Enfim, todas as histórias são a mesma história, embora contadas de maneira diferente.

Keniche Sayama e Hideko Kuwayama (conhecida, no restaurante em que trabalhava, como Otoki) são encontrados mortos na praia de Kashii, na baía de Hakata (ilha de Kyushu, sul do Japão). A polícia, após a investigação preliminar, declara que foi um suicídio amoroso duplo: beberam suco misturado com cianeto.  

Jutaro Torigai é desleixado (se veste mal, a barba está por fazer e não tem muita paciência com a vida familiar). O que o destaca dos demais policiais é a percepção de ver pormenores que aos olhos dos outros parecem não ter a mínima importância. O recibo de uma refeição no vagão-restaurante do trem, encontrado no bolso do homem morto, por exemplo.

Essa é a trama inicial de O Expresso de Tóquio, de Seichō Matsumoto (Editora Todavia, 2025. Tradução de Jefferson José Teixeira). E que adquire novo contorno quando o inspetor assistente da Segunda Divisão de Investigação da Polícia Metropolitana de Tóquio Kiichi Mihara entra em cena. Ele está procurando provas em um processo de corrupção no local de trabalho de Sayama: (...) desde o outono passado ocorre um escândalo que tem como centro certo ministério. Inúmeras empresas fornecedoras parecem estar envolvidas.

Nesse ponto, o narrador deixa Torigai de lado e se concentra na investigação conduzida por Mihara. Persistente, o inspetor deseja provar que Sayama colaborou em um caso de advocacia administrativa (favorecer interesse privado contrário às diretrizes da administração pública). Essa possibilidade se mostra, a cada instante, difícil de ser demonstrada. Os fatos apontam na direção contrária – há explicações para tudo e nenhum espaço para a dúvida. Como a perfeição não combina com a vida real, é exatamente por isso que as suspeitas continuam existindo.

São os detalhes que importam. Sendo que o mais relevante é o horário dos trens. Em uma sociedade em que o deslocamento das pessoas privilegia o transporte coletivo, a pontualidade foi determinante para o sucesso do crime que está sendo investigado. A geografia também se faz presente nos diversos lugares em que a narrativa se situa: Tóquio, Fukuoka, Kamakura, Sapporo. Nesses locais os personagens interagem e costuram a trama com as cores do mistério.     

Nas cenas finais (em forma epistolar), a revelação. Mas, antes disso é necessário juntar as peças do quebra-cabeça, perceber que houve todo um trabalho de precisão para que o assassinato duplo fosse executado.

O Expresso de Tóquio (no original Ten to Sen) foi publicado no Japão em 1958. Em 1970 foi renomeado como Pontos e Linhas. Com exceção de algumas questões ínfimas, somente perceptíveis por quem possui algum conhecimento da cultura japonesa, o livro continua atual. Existe uma versão cinematográfica, dirigida por Tsuneo Kobayashi em 1958.

P.S: alguns leitores podem ter problemas com os nomes dos personagens e das cidades. Obviamente, isso é irrelevante. 

 

Seicho Matsumoto, pseudônimo de Kiyoharu Matsumoto (1909-1992). 


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

BARTLEBY E EU

 


Em um mundo onde valores como trabalho, eficiência e ambição se destacam, Bartleby, personagem de Herman Melville (1819-1891), com a frase I would prefer not to (preferiria não – em algumas traduções) está na contramão. São muitos os comentários sobre o que motivam a recusa. Os adeptos da psicanálise mencionam a possibilidade da depressão; na análise dos marxistas, revela uma postura anticapitalista; os liberais econômicos simplesmente o ignoram – como a todos aqueles que não se deixam explorar. Enfim, existe interpretações para todos os gostos.   

O jornalista Gay Talese preferiu seguir por outro caminho. Durante meu trabalho como jornalista e no extenso período em que morei na Cidade de Nova York, conheci muitas pessoas que, de um modo ou de outro, me fazem pensar em Bartleby. É gente que eu via regularmente, mas cuja vida privada permanecia privada. Nesse ritmo, ele abre um leque de identificação com aqueles que – por diversos motivos – estão invisibilizados no dia a dia. Ou seja, Talese produziu um grande número de reportagens enfocando porteiros, caixas de banco, recepcionistas, garçons, carteiros, zeladores, faxineiras e incontáveis balconistas em lojas de ferramentas, lavanderias, farmácias e outros lugares (...). Essa proposição reducionista merece reserva, pois esvazia a essência do personagem e fornece outra percepção para quem o vê como uma figura de contestação ao sistema autoritário (em diversas áreas: trabalho, economia, política, modo de vida).

De qualquer forma, são poucos os jornalistas que aceitam atualmente fazer esse tipo de reportagem, não só porque exige olhar atento para identificar o que se destaca na multidão e o transformar no ponto de partida de alguma história inusitada, mas também porque esse enfoque raramente conta com o apoio do jornalismo comercial, que defende outros interesses. Entretanto, nos anos 60/70, era uma forma inovadora de produzir um olhar minucioso sobre alguns segmentos da sociedade. Esse é o propósito do primeiro capítulo do livro – centrado na região de Wall Street, onde ficava localizado o Times, jornal que forneceu a base jornalística de Talese.

Na segunda parte do livro, Talese relata a epopeia que foi escrever o perfil de Frank Albert Sinatra (1915-1998) para a revista Esquire. Tudo o que consegue, em um primeiro instante, se resume em negativas, bloqueios e advertências. A rede de proteção do astro da música e do cinema era intransponível. Durante várias semanas, como se estivesse em um labirinto, Talese fez inúmeras tentativas de encontrar a saída. Todas resultam em decepção. Mais fácil conseguir entrevistar o Minotauro do que Sinatra. As alegações variavam entre gravações cinematográficas, ensaios musicais, compromissos com amigos. Quando o texto foi publicado, o que se lê são depoimentos de terceiros e o distanciamento típico de quem mistura jornalismo e literatura (new journalism). São os coadjuvantes que constroem a mitologia glamourosa, inclusive no momento que enfoca a luta de boxe entre Muhammad Ali (Cassius Clay) e Floyd Patterson, que aconteceu em Las Vegas, em 22 de novembro de 1965. Ali venceu no 12º round por nocaute técnico. Sinatra e Talese assistiram o combate, mas sequer conversaram.

O último texto aborda a vida do médico Nicholas Bartha, que decidiu explodir o prédio (o brownstone tinha quatorze cômodos e cinco andares) em que morava. Foi um protesto contra uma decisão judicial em favor de sua ex-esposa (Ele era obcecado pela casa. Era seu único hobby). Imigrante europeu, Bartha fazia questão de afirmar que Não vou deixar que ninguém me despeje como os comunistas fizeram na Romênia em 1947. Essa declaração tinha suas raízes na perda do patrimônio familiar (empresa de mineração de ouro), que fora confiscado pelos nazistas e, mais tarde, pelos soviéticos. Trata-se, obviamente, de um personagem com muitos problemas. Mas, contar essa história demanda contar a história das pessoas que faziam parte da vida de Bartha. Ou melhor, a história das pessoas que residiram no local, bem como diversas outras histórias acessórias (inclusive o julgamento). Para que isso aconteça, Talese repetiu o método utilizado na reportagem sobre Frank Sinatra. Mas o fez de forma um pouco diferente, porque neste caso precisou fazer algumas pesquisas históricas e, como compete a aqueles que procuram pelo que não é aparente, acabou achando um filão de ouro.                   

A compra do brownstone não foi pacífica: alguns dos inquilinos se recusaram a ir embora e impediram o início das reformas. Embora todos tem sido despejados judicialmente, o desgaste emocional foi intenso. (...) depois que a família [se] livrou (...) dos inquilinos, Nicholas nomeou a si mesmo empreiteiro geral para poder supervisionar tudo o que os empregados faziam na reforma da casa. (...) Escolheu as cores das tintas para as paredes, decidiu onde peças e móveis seriam colocados e deixou claro que tudo devia ficar onde ele tinha posto e que ninguém deveria mudar nada de lugar. Era um workaholic.   

Para custear as melhorias no edifício, Bartha precisou trabalhar em dois ou três hospitais (alguns relativamente distantes) e isso significou ficar menos tempo em casa, com Cordula, a esposa, e as filhas. Não podia tirar férias ou desfrutar de algum entretenimento (cinema, teatro, concertos musicais, eventos esportivos). Obviamente, o casamento foi desgastando e, em algum momento, o divórcio se tornou inevitável. Mas, não foi uma demanda pacifica. Ao contrário, teve discussões acaloradas e cenas de psicopatia (a esposa foi acusada de comunista, nazista, déspota). Por fim, a esposa e as meninas saíram de casa. Cordula contratou uma advogada e o processo se arrastou por um bom tempo.

Quando o juiz decidiu a causa em favor da esposa, Bartha surtou. Passou a morar sozinho e a cultivar manias e reclamações contra os vendedores de rua, contra os vizinhos, contra o mundo. Diante do despejo iminente, mandou um e-mail de despedida para alguns amigos e para a ex-esposa. Abriu as torneiras do gás de calefação. Esfacelado pela explosão, destruído em tamanho e forma, o prédio tinha vaporizado numa caótica miragem cascateante, um amontoado abrasador de pisos desmoronados que cobriam sem falhas a calçada e o meio-fio com uma montanha ascendente de restos carbonizados e estilhaçados de acessórios domésticos e bens pessoais do dr. Bartha.

O médico foi resgatado inconsciente pelos bombeiros. Tinha queimaduras de segundo e terceiro grau em 80% do corpo. Morreu cinco dias depois.

Bartleby e eu (Editora Companhia das Letras, 2025. Tradução de Laura Teixeira Motta) estabelece um novo conceito para o personagem de Melville, embora... É também um manual do jornalismo enviesado que precisa trabalhar com fontes secundárias e/ou terciárias. Ao escavar o periférico – sem atingir o cerne – oferece elementos que, de outra forma, estavam destinados ao esquecimento.  


Gay Talese (n. 1932)


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A VINGANÇA É MINHA



Era época dos dias escuros de gelo e neblina em Bordeaux. Susane, obscura advogada, é contratada para defender Marlyne, autora de triplo infanticídio (os filhos tinham seis anos, quatro anos e seis meses, respectivamente). O marido, Gilles Principaux, alega não gostar do advogado da família – então ele e a esposa optaram por procurar outro profissional.

Susane carrega dentro de si alguns fantasmas, um deles a conduz aos seus dez anos, quando pode (ou não) ter acontecido algo que ela bloqueou, mas que muitos anos depois ainda a atormenta. A isso se soma o ressentimento contra o seu pai, as discordâncias com a mãe, a tentativa de resolver o problema de documentação de Sharon, a empregada (imigrante das Ilhas Maurício), e Lila, a filha do ex-marido, projeção do relacionamento amoroso fracassado.

O narrador onisciente do romance optou pela aspereza ficcional, com pouca fluência, que parece não querer avançar, várias páginas procurando por desvios. Nesse ritmo, o texto vai sendo conduzido para lá e para cá, sem permitir que se saiba exatamente qual será o desfecho – inclusive porque isso está meticulosamente escondido.

A vingança é minha, de Marie NDiaye (Editora Todavia, 2024. Tradução: Marília Scalzo), não é romance que se deve recomendar para apressados ou para aqueles que querem deslizar pelo texto como se estivessem em parque de diversão. A demora premeditada em explicar os eventos narrativos vai alargando a história, introduzindo estranhamento, criando uma atmosfera sombria e repleta de penduricalhos.

O relato dessas minúcias elabora o painel dos acontecimentos: o marido que parece não ter ficado surpreso com a morte dos filhos (Principaux apenas não parecia suficientemente “emocionado”), a esposa quase catatônica, os depoimentos dos policiais que atenderam a ocorrência, os relatos dos companheiros de trabalho antes de Marlyne se casar (era professora de francês), o antagonismo da família dela com Gilles (Ele se impunha, vinha da burguesia, era bastante autoritário, apesar de seu ar descontraído).

Nesse emaranhado de relatos – que parecem não levar a nenhum esclarecimento – Susane, com meticulosidade, vai adentrando no âmago da situação, e, como se fosse uma detetive policial, tenta entender o que está por trás do crime. Ao visitar sua cliente na prisão, escuta um testemunho incoerente, um misto de comiseração pela dor do marido e o sentimento de ter se libertado da opressão doméstica (no pano de fundo, o discurso estrutural da feminilidade submissa parece gritar nos ouvidos do leitor). Gilles, todas as vezes que visita o escritório de Susane, exalta a felicidade familiar e se mostra reticente aos motivos que levaram à morte dos filhos. Ao mesmo tempo em que declara amor incondicional à esposa (e quanto isso o faz sofrer), revela a banalidade do macho provedor que ignora o que está acontecendo diante de seus olhos.

Susane percebe que existe um abismo faminto nessa situação, uma falha geológica que separa o território afetivo em metades irreconciliáveis. Por mais absurdo que pareça, em determinado momento, Susane deixa de lado a neutralidade jurídica e, em mero exercício aritmético, percebe que o marido sufocou a vida interior de Marlyne – e a impulsionou para a autodestruição. Matar os filhos, mais do que um sintoma do adoecimento, surge como uma rota de fuga da gaiola de ouro que mimetiza o casamento.

Em alguns momentos de A vingança é minha se torna difícil distinguir quem está mais atormentada: a assassina ou a advogada. O onírico carrega a tendência de criar fantasias, de expandir o poder de influência do inimigo (seja real, projeção ou apenas medo). As duas mulheres estão acompanhadas pelo mal-estar, pela sensação de habitarem um não-lugar – espaço em que precisam encontrar forças para existirem, para superar as obrigações sociais (a maternidade, a perda da identidade). A intimidação atinge tal ponto que a personalidade feminina vai sendo diluída até só restar a servidão absoluta. Ou a revolta catastrófica.


Marie NDiaye