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sexta-feira, 1 de maio de 2026

FICÇÃO CIENTÍFICA CAPITALISTA

 


O planeta Marte está mais próximo do que se imagina – dizem aqueles que acreditam na colonização espacial. Esse pensamento tem propósitos bastante simples: em primeiro lugar, visualiza a exploração mineral (ferro, manganês, zinco, alumínio, magnésio, titânio, cálcio, etc); em um segundo momento, depois que a fantasia que acompanha o turismo espacial e o extrativismo for superada, imaginam que a Terra, em algum momento, se tornará inabitável (mudanças climáticas, escassez de recursos, superpopulação, guerras). Então, para o bem ou para o mal, existe uma certa urgência para Ocuppy Mars (mantra estampado em uma camiseta usada por Elon Musk).

A tecnologia (engenharia, computação) precisa avançar para que esse processo de terraformação aconteça. Empresas como SpaceX, Monjave Aerospace Ventures, Virgin Galactic, Blue Origin, United Launch Alliance, OrionSpan, Aerojet Rocketdyne, Northrop Grumman, Maxar, Rocket Lab, entre outras, não estão economizando esforços para desenvolver projetos capazes de transformar o sonho em realidade. No entanto, há um pequeno empecilho que pode atrapalhar ou atrasar a façanha: bilhões de dólares. Sem o emprego de muito dinheiro, o processo pode sofrer atrasos consideráveis. Mas, se isso algum dia for superado, então o caminho estará aberto para que algumas pessoas possam infectar o planeta vermelho com o germe da destruição. Os humanos adoram devastar os locais onde vivem.

Nenhuma novidade. As viagens espaciais descritas nas distopias literárias de ficção científica não economizam nos relatos sobre colonialismo, militarismo, genocídio, escravagismo, além dos outros elementos que fornecem substância ao fascismo (um exemplo canônico: Tropas Estelares, de Robert Anson Heinlein, 1907-1988). Momentaneamente, para os que defendem o ideal de conquista espacial, essas questões não existem ou não fazem parte do discurso oficial. Tampouco visualizam cenários em que será possível encontrar outra civilização ou haver a contaminação por algum vírus (seja humano, seja alienígena). O suporte que alimenta a ocupação dos territórios estabelece que o direito de propriedade deve ser o dos humanos que lá chegarem primeiro.  

Uma análise realista constata que (...) justamente em uma época em que o capitalismo fetichiza seus produtos e suas narrativas mais do que nunca mediante a estetização tecnológica, a ficção científica adquire na contemporaneidade uma centralidade inesperada, que a coloca ou como uma celebração idiota, enfeite e colaboração consciente com essas narrativas, ou como politização tecnológica da arte, uma crítica da tecnologia a serviço da extração capitalista, do terrorismo econômico e da violência contra corpos e territórios.   

Em paralelo às expectativas de expansão colonial surgem novas áreas de pesquisas. Uma das mais significativas se refere ao evitar o envelhecimento. O laboratório resTORbio anunciou o início da fase de testes de um medicamento que, quando consumido diariamente, manterá as pessoas jovens e saudáveis até 150 anos. Mais do que conquistar e povoar a Lua ou Marte, os viajantes querem aproveitar a aventura pelo máximo de tempo que for possível – mesmo que isso signifique driblar as regras da mortalidade.

De qualquer forma, as viagens espaciais precisam superar muitos fatores adversos. Um deles se refere às distâncias. Se a viagem até a Lua pode ser feita em apenas 3 ou 4 dias (384.400 km), ir até Marte pode levar entre 6 e 9 meses, porque a Terra se move mais rápido em torno do Sol e os dois planetas seguem trajetórias diferentes (a distância pode variar entre 54,6 milhões e 401 milhões de km). De qualquer forma, isso só será possível quando as naves espaciais forem mais rápidas do que são atualmente e o ponto de contato ocorrer no momento em que houver proximidade máxima entre os planetas (cerca de 225 milhões de km). Por enquanto, essas questões ainda não possuem solução.

Ficção Científica Capitalista, de Michel Nieva (Editora Ubu, 2025. Tradução: Juliana Pavão), examina de forma perturbadora a corrida espacial estadunidense – o desmantelamento da União Soviética eliminou o principal concorrente e os outros países interessados no tema ainda estão bastante atrasados. De certa forma, o livro pretende ser uma crítica política à estetização da acumulação capitalista por meio da tecnologia. Também pode ser lido como uma metáfora das guerras de conquista da Idade Média ou, contemporaneamente, do empreendedorismo predatório.

 

TRECHO ESCOLHIDO

No entanto, o maior paradoxo que essas técnicas de geoengenharia solar carregam é que elas não reduzem a violência contra a Natureza, que desencadeou as mudanças climáticas. Pelo contrário: elas redobram sua ofensiva bélica. Estamos falando de exércitos de aviões, foguetes e embarcações que, apesar de sua intenção verde ou filantrópica, não fariam outra coisa senão bombardear, lançar mísseis, disparar, pulverizar gases, atacar. Técnicas arriscadas e de caráter militar, que parecem exigir a coragem de um macho intrépido, um super-herói de cinema do porte de Schwarzenegger em O predador, ou dos bilionários do espaço com seus chapéus de cowboy, suas aeronaves fálicas e seus champanhes ejaculatórios. Porque, mais uma vez, serão os machos do Vale do Silício, com seus foguetes, espingardas e mísseis, que nos salvarão do desastre climático. (p. 68-69)  



Michel Nieva