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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O pensamento moralista de Jean de La Bruyère (1643−1696) em quarenta aforismos

A glória ou o mérito de certos homens é de escrever bem; de outros, é de não escrever.

Não há gesto, por mais simples e imperceptível, que não revele nossa personalidade. Um imbecil não entra, nem sai, nem senta, nem levanta, nem se cala, nem se mantém de pé como um homem inteligente.

Há uma espécie de vergonha em ser feliz diante de certas misérias.

Os homens começam pelo amor, acabam pela ambição e muitas vezes só encontram tranqüilidade quando morrem.

Se é usual sentirmo−nos vivamente impressionado pelas coisas raras, por que é que nos comove tão pouco a virtude?

Quando as honras e a fortuna abandonam um homem, descobre−se o ridículo que elas cobriam, sem que ninguém o notasse.

Só o tolo pode tornar−se importuno: um homem inteligente sabe se agrada ou se aborrece; sabe desaparecer sempre antes de se sentir fora do ambiente.

A tortura é uma invenção maravilhosa e muito segura para perder um inocente de saúde fraca e salvar um culpado que nasceu robusto.

Não podemos levar muito longe uma amizade, se não estivermos dispostos a perdoar uns aos outros os pequenos defeitos.

Nada existe que os homens gostem mais de conservar e que tanto desperdicem como sua própria vida.

Devemos procurar apoio daqueles a quem queremos bem e não daqueles de quem esperamos algum bem.

Os jovens, por causa das paixões que os distraem, suportam melhor a solidão que os velhos.

Há homens que, se pudessem conhecer seus subalternos e conhecer−se a si próprios, teriam vergonha de estar em evidência.

Receamos a velhice porque não temos certeza de chegar a ela.

O pior caráter é não ter caráter.

É realmente uma desgraça não ter espírito bastante para falar bem, nem suficiente discernimento para calar. Este é o princípio de toda impertinência.

Só há neste mundo duas maneiras de crescer: por seu próprio trabalho ou pela imbecilidade dos outros.

Devemos calar com relação aos poderosos; há quase sempre lisonja ao falar bem deles; há perigo ao falar mal enquanto vivem e covardia depois que estão mortos.

Não é vergonha nem erro para um jovem desposar uma mulher de mais idade; às vezes é prudência, precaução. A infâmia é aproveitar−se de sua benfeitora com tratamentos indignos e que deixam transparecer que ela é vitima de um hipócrita e de um ingrato...

É bom todo o homem que faz o bem aos outros; se sofre pelo bem que faz, ele é muito bom; se sofre por aqueles a quem faz esse bem, é de uma bondade tão grande que esta só podia ser maior se acaso seu sofrimento aumentasse; e se morre em conseqüência desse sofrimento, sua virtude não poderia chegar mais longe: é heróica, é perfeita.

Para o homem, só há três acontecimentos: nascer, viver e morrer. Não se lembra do nascer, sofre para morrer e esquece de viver.

Há na amizade pura um perfume que aqueles que são medíocres não podem respirar.

Abrimos as lojas e expomos todas as manhãs para enganar nosso próprio mundo; fechamos à tarde, depois de ter enganado o dia inteiro.

É por fraqueza que se detesta um inimigo e que se pensa em vingança; e é por preguiça que se fazem as pazes e não se pensa mais em vingança.

Um homem que acaba de ser nomeado para um cargo não se serve mais de sua razão e de seu espírito para regular sua conduta e sua aparência exterior com relação aos outros; assume como regra aquela de seu posto e de sua posição: disso decorre o esquecimento, a altivez, a arrogância, a dureza, a ingratidão.

Há pessoas que falam antes de pensar. Há outras que prestam tanta atenção ao que dizem, que se tornam fastidiosas para quem as escuta; é como se tivessem somente frases e expressões petrificadas, que lhe inspiram os gestos e as atitudes: são puristas e não arriscam a mais leve palavra ao acaso, mesmo que causasse o mais belo efeito; não lhes escapa a menor expressão feliz, nada escorre genuinamente e com liberdade: falam com propriedade de termos, mas de modo enfadonho.

Um homem que viveu em intrigas durante certo tempo não pode mais passar sem elas; qualquer outra via é para ele desoladora.

O amor que nasce inesperadamente é o que mais custa a curar.

Um homem honesto recebe seu pagamento pelo trabalho que lhe dá o cumprimento do dever, pelo prazer que sente em cumpri−lo e não lhe interessam os elogios, a estima e o reconhecimento que por vezes não encontra.

A mulher inconstante é aquela que já não ama; a leviana, aquela já ama outro; a inconstante, aquela que não sabe se ama e a quem ama; a indiferente, aquela que não ama ninguém.

Aquele que não pode suportar os caracteres impertinentes, de que o mundo está cheio, não mostra ter bom caráter. Para o comercio, são necessárias tanto as moedas de ouro como as de prata.

O desgosto mata o amor e o esquecimento o enterra.

Um escravo tem um senhor. Mas um homem ambicioso tem muitos senhores: todas as pessoas que lhe podem ser úteis para ele subir na vida.

Um homem guarda melhor o segredo alheio que o seu. Uma mulher, ao contrário, guarda melhor seu próprio segredo que o alheio.

A vista curta, quero dizer, os espíritos limitados e apertados em sua pequena esfera não podem compreender essa diversidade de talentos que se encontram às vezes numa só pessoa: onde notam o agradável, excluem o sólido; onde julgam descobrir os encantos do corpo, a agilidade, a flexibilidade, a destreza, não admitem a existência dos dons da alma, a profundidade, a reflexão, a sabedoria: eliminam da história de Sócrates a informação de que ele dançava.

Há muitas pessoas de quem só o nome vale alguma coisa. Quando as vemos de muito perto, são menos que nada; de longe, se impõem.

Já vi uma moça, uma linda moça, que dos treze aos vinte e dois anos sonhava em ser mulher e, daí por diante, desejava ser homem.

Raras vezes nos arrependemos de falar pouco e muitas vezes de falar demais: máxima desgastada e trivial que todos conhecem e que todos não a praticam.

Não há no mundo tarefa mais árdua que a de conseguir fama: mal a vemos surgir, logo a vida acaba.

Falar e ofender, para certas pessoas, é precisamente a mesma coisa. São ásperas e amargas, de estilo cheio de fel e azedume: o escárnio, a injuria, o insulto escorrem de seus lábios como a saliva. Teria sido melhor para elas se tivessem nascido mudas ou idiotas: o espírito e a vivacidade que têm, prejudica−as mais que a outros sua estupidez. Nem sempre se contentam em responder com azedume, atacam muitas vezes com insolência; mordem a todos aqueles que se encontram a seu alcance, presentes e ausentes, ferem de frente e de lado, como os carneiros: pode−se exigir a um carneiro que não tenha chifres? De igual modo, não podemos esperar que caracteres tão duros, ferozes e indomáveis que se modifiquem com essa figura. O melhor que temos a fazer, ao avistar essas pessoas, é fugir correndo, sem sequer olhar para trás.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

TRÊS DÚZIAS DE FRASES SOBRE A IDADE

Os jovens de hoje são absolutamente monstruosos. Não têm o menor respeito por nossos cabelos tingidos. (Oscar Wilde)

Apraz aos velhos dar bons conselhos, como consolo por já não estarem em condições de dar maus exemplos. (La Rochefoucauld)

Jovens de todo o mundo: envelheçam. (Nelson Rodrigues)

A melhor década para o homem é a dos quarenta. Depois dos cinqüenta anos, ele começa a deteriorar. Mas, por volta dos quarenta, está no auge de sua vilania. (H. L. Mencken)

Um arqueólogo é o melhor marido para uma mulher. Quanto mais ela envelhece, mais ele se interessa por ela. (Agatha Christie)

O adolescente é alguém que está se recuperando da infância. (Ambrose Bierce)

Todo mundo é capaz de envelhecer. Basta viver o suficiente para chegar até lá. (Groucho Marx)

As pessoas deveriam se aposentar aos quarenta anos, quando se sentem exploradas, e voltar a trabalhar aos sessenta e cinco, quando se sentem inúteis. (Irmã Carol Anne O’Marie)

Tivesse eu sido mais esperto, as moças mais gentis, o scotch mais fraco, os deuses mais sorridentes e os dados mais favoráveis, minha história poderia ser contada em uma frase: era uma vez um garoto que foi feliz para sempre. (Mickey Rooney)

Não sou jovem o suficiente para saber tudo. (George Bernard Shaw)

Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo. (Tallulah Bankhead)

A juventude é uma doença da qual todos nos curamos. (Dorothy Fuldheim)

A idade não nos protege contra o amor. Mas o amor, até certo ponto, nos protege contra a idade. (Jeanne Moreau)

Entre os 25 e os 35 anos, você é muito jovem para fazer alguma coisa direito. Depois dos 35, já é muito velho. (Fritz Kreisler)

Um homem sabe que está ficando velho quando seus sonhos eróticos são reprises. (Henny Youngman)

Hoje em dia, o único respeito que se tem pelos mais velhos é quando eles vêm engarrafados. (Francis Blanche)

O jovem é um ser que se esforça até os trinta anos para destruir sistematicamente tudo aquilo que ele tem de melhor (Gertrude Stein)

Só há uma cura para os cabelos grisalhos e foi inventada pelos franceses. Chama−se guilhotina. (P. D. Wodehouse)

A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá−la em jovens. (George Bernard Shaw)

A meia−idade é aquela em que, não importa para onde estiver indo, você colocara um suéter na mala. (Don Marquis)

Os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia−idade suspeitam de tudo e os jovens sabem tudo. (Oscar Wilde)

Quando fiz quinze anos, ganhei um relógio de pulso e cinco mil réis. Olhei os ponteiros, vi que era hora de fazer uma besteira e entrei no botequim. (Antonio Maria)

A fórmula mais rápida para o envelhecimento é levar uma vida tranqüila. (Peter Rombaut)

O segredo para se continuar jovem é ser honesta, comer devagar e mentir sobre a idade. (Lucille Ball)

Meia−idade é quando você pára de criticar os mais velhos e começa a criticar os mais jovens. (Laurence J. Peter)

Os jovens nunca foram bons para ouvir os mais velhos, embora sejam infalíveis em imitá−los. (James Baldwin)

A idade é um preço alto demais que se paga pela maturidade. (Tom Stoppard)

Algumas mulheres não gostam de revelar sua idade. Temem que seja confundida com seu número de telefone. (Dorothy Parker)

Envelhecer é ser punido cada vez mais por um crime que não se cometeu. (Anthony Powell)

Você sabe que está ficando mais velho quando as velas custam mais caro que o bolo. (Bob Hope)

Envelhecer não é tão mau assim, quando se considera a alternativa. (Maurice Chevalier)

O maior perigo de ridículo para os velhos que um dia foram amáveis é esquecerem que já não o são. (La Rochefoucauld)

Terceira idade é aquela em que a gente bota os óculos para ouvir rádio. (José Simão)

Os homens ficam mais velhos, mas isso não os melhora muito. (Oscar Wilde)

Não é que eu tenha medo de morrer. Apenas não quero estar vivo quando acontecer. (Woody Allen)

Só a imortalidade não permite adiamento. (Karl Kraus)


(As ilustrações são reproduções de pinturas do artista plástico estadunidense Edward Hooper, 1882-1967)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

XICO SÁ AND THE BEATLES

Pitoresco, picaresco, fescenino, pornográfico, escatológico, barroco, hiperbólico, bagunceiro, maluco – a lista de adjetivos parece interminável quando se trata de Xico Sá, dublê de jornalista e sátiro viciado em mulher e palavrão, nascido no Ceará e radicado nas radicais raízes que decompõem São Paulo. Alguns dos epítetos, embora pareçam exagerados, servem de estímulo para que uma nova fieira de impropérios preencha o vazio da folha em branco e forneça cor aos acontecimentos ordinários (vá lá, de vez em quando, extraordinários) que se desenvolvem nas so(m)bras que enfei(t)am a urbe.

Escritor de outra têmpera, desses que temperam a vida com o sal da terra, o cearense colocou no mundo mais um livro, como que a querer se livrar das obsessões que cutucam a cachola daqueles que são capazes de virar de pernas pro ar toda e qualquer estrutura, enredo, narrativa, conto, causo, dedo de prosa, glosa do viver.

O romance Big Jato celebra, em 182 páginas, o inevitável de inflexão do homem maduro que olha para trás e vê como foram árduos os rituais de passagem, a história do menino que precisa deixar de ser menino diante de um mundo assustador.

Longe de fazer desse trauma tragédia ou ópera bufa, Xico Sá articula o confuso discurso com que gosta de confundir a plebe ignara e, entre episódios pouco ortodoxos, raras vezes conectados com a limpidez (em diversos sentidos), vai descarregando figuras de linguagem, citações literárias e musicais, ensinamentos populares, divagações cheias de graça.

Incont(rol)áveis gargalhadas acometem os leitores, comprovando que a vida conjuga uma festa interminável.

Em selvagem ordem cronológica, um acontecimento empilhado depois do outro, o ocre do sertão vai desbotando os protagonistas dessa farsa narrativa. Em 1970, entre o fenemê e seu motorista (o homem que atende pelo título de pai), o menino, fazendo companhia na boleia do caminhão, vai descobrindo as verdades e as mentiras que envolvem o existir.

Unidos pelo desacerto de limpar as fossas da cidade de Peixe de Pedra (ex-Desterro, ex-Santana de não sei quantas), provavelmente localizada no Vale do Cariri, os dois estão impregnados de merda até os últimos fios de cabelo.

Entre o ganhar o pão de cada dia e limpar a sujeira do mundo, Beatles. Mas somente fora do perímetro urbano, lugares ermos onde a antena do rádio do caminhão (para os íntimos, Big Jato) consegue captar o ritmo chicletão das músicas dos cabelim pastinha.

Foi assim que aprendi a gostar dos Beatles, sem o velho dizer nada, sem eu entender uma palavra de inglês, mas sacando tudo, um certo estado de espírito, como diz meu tio, o meu tio Nelson que tanta falta nos faz no serviço de alto-falante, com suas traduções, loas e mentiras. Um sertanejo ou um esquimó se emocionam do mesmo jeito, dizia ele, quando ouvem os rapazes de Liverpool.

Enquanto a fedentina se espalha pelo mundo, o menino vai obtendo outros entendimentos da vida: o colégio, a escola de datilografia (que o encaminhará para o reino literário), as punhetas (– Meu filho, você está entrando no maravilhoso e viciante reino da boceta – berra, inconveniente, o velho), as aulas de filosofia existencial do tio Nelson (O trabalho danifica o homem), a primeira trepada na zona, a primeira vez que olhou com interesse para uma mulher – e, como poderia ser diferente?, o primeiro pontapé do amor na bunda. Para quem lidava com merda todos os dias, um pouco mais não fez muita diferença, apesar do choro, dos esforços desesperados, do orgulho ferido e da falta de orgulho.

Foi quando o pai ficou doente que o ordenamento mudou. Outro caminhão, mais moderno, mais eficiente, invadiu a área e tomou os clientes do Big Jato. Depois de ouvir o noticiário econômico no rádio, o pai saltou da cama e, mostrando um tino empresarial inusitado, mudou de ramo comercial. Investiu o dinheiro familiar em porcos. A mãe, ao ver o marido que estava desaparecido há vários dias, não o poupou: – Por que esse miserável volta mais sujo ainda, é? É sina?

Sina, sinal, farol aberto para novas aventuras. Nada é mais inevitável do que desentendimento com o pai. Uma surra de relho de couro cru para aprender a ser homem, e o Guia Kerouac de cair na vida, o fizeram ver o horizonte.

Muitos anos depois, o menino narrador se transforma em escritor, tornando realidade a profecia do pai: Livro é para quem precisa inventar a vida que nunca teve.


TRECHO ESCOLHIDO


– "Let it be" é deixa estar, meu filho – ele aprendeu agora no rádio e se orgulha.

Até eu, leso de tudo, já sabia, papai. Minha mãe fica sem fôlego quando ele diz "let it be" e foge do bate-boca caseiro. Meu pai prefere não discutir nunca.

– Leribi de cu é rola – diz minha santa mãezinha, perdendo a paciência, embora seja incapaz de dizer um nome feio, um palavrão que seja, nunca foi disso, ainda mais agora, cada vez mais nas orações, cada vez mais do lado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nessa hora vira uma mulher mais grossa do que lixa de parede ou papel de embrulhar prego. Ela doida por um bom embate, para consertar as coisas da vida, e o meu pai "let it be", ela na maior paz e o meu pai "a felicidade é um revólver quente".


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

UM DIA PERFEITO PARA CASAR

As melhores histórias de amor estão repletas de desencontros, escolhas infelizes e tristezas. Nenhuma novidade. O clube dos corações partidos possui sócios nos quatro cantos do planeta. Além disso, sem drama não há trama − dizem aqueles que exploram as dores alheias.

A literatura e o cinema são duas das formas artísticas que deitam e rolam nesse mar de paixões − onde nem sempre é possível pescar peixões (ou trocadilhos de melhor qualidade).

Baseado no romance Cheerful Wheather for the Wedding, escrito por Julia Strachey, o filme Um Dia Perfeito para Casar (Dir. Donald Rice, 2012) alcança esse propósito com razoável competência. Com vantagem considerável sobre filmes similares. Diálogos afiados, dezenas de chistes, quilos de ironia, o humor britânico aflorando a cada cena – cada piada com a mesma competência e intensidade com que carrascos medievais cortavam cabeças.

Em dezembro de 1932, Dolly Thatcham, depois de viagem à Albânia e rápido noivado, vai se casar com Owen Arthur Bigham. As duas famílias e os amigos do casal estão reunidos na mansão de campo, em Devon. Entre os convidados, a irmã (Kitty), a melhor amiga (Evelyn), uma das tias (Belle), o cônego Bob, os tios David e Nancy Dakin (e o filho, Jimmy, de oito anos), a mãe, (a viúva Hettie), os primos Robert e Tom, e os irmãos gêmeos do noivo. Todos, de uma forma ou de outra, contribuem para que o circo pegue fogo.

Estamos aqui há dez minutos e já quero estrangular um membro da sua família, diz Nancy para David, e, depois de uma pausa, finaliza o golpe, O de costume. É apenas a antecipação do aforismo que emitirá um pouco mais tarde, Se quer uma razão para não se casar, vá a um casamento de família.

Joseph Patten, que foi amigo e, digamos, namorado de Dolly, também comparece à festa. Se for verdade que Meu próprio objetivo ainda é ser um cavalheiro inglês de mãos limpas e mente suja, também é verdade que ele não sabe exatamente porque foi até lá. Não está em seus planos atrapalhar o casamento. Quer falar com a noiva, dizer alguma coisa que nem ele mesmo sabe o que é. Objetivo que não se concretiza. Como se estivessem em um jogo de esconde−esconde, eles sempre estão em lugares diferentes. A câmera só os mostra juntos na ação pretérita. São os flash−backs que preenchem os hiatos, que fornecem os elementos faltantes para o entendimento.

Joseph gosta de cutucar na colmeia de vespas e correr para se esconder. Então, é claro, as vespas saem e mordem pessoas inocentes, diz Dolly, de certa forma explicando a si mesma. Foi em um jogo de cricket que se conheceram. Depois foram seis meses de companhia mútua, a presença de um complementando a existência do outro. Houve o baile e todos aqueles pequenos incidentes no piquenique. Na tarde que ele foi se despedir, pois estava partindo para a Grécia, ela o levou suavemente até a estufa de plantas e...

David e Nancy estabelecem parte das regras, antes que o mundo venha abaixo:

Apenas sorria para Hettie de meia em meia hora. É tudo o que peço.
Agora ficou preocupado com os sentimentos dela?
Eu gosto de Hettie.
Gostar. A palavra que usamos para aqueles que não conseguimos amar.

Depois do casamento, depois que a festa terminou e os noivos foram embora, depois que os primos e os convidados estão completamente bêbados e a tarde está findando, ainda há espaço para que a luz penetre na sala e preencha as últimas lacunas. O sofrimento silencioso desaparece, sobram acusações.

O tempo e a maré não esperam por ninguém, revela Joseph. Como sempre acontece, seja no cinema, seja na vida "real", todas as histórias de amor terminam mal.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

INSÔNIA


Quase quatro horas da manhã, os olhos abertos para a escuridão que habita o apartamento, precisei perguntar para mim mesmo se algum parafuso não estava fora do lugar. Uma de minhas três avós costumava usar a expressão parafuso fora do lugar para explicar certas besteiras, aquelas que continuamente nos atormentam nas horas mais inesperadas. Suspeito que, em outra encarnação, apesar da restrição ao poder feminino na Grécia, minha avó foi filosofa em Atenas ou em Corinto. Provavelmente brilhou ao lado daqueles monumentos que os ingleses roubaram (alguns séculos depois), para, agora, cobrar ingresso de quem os quiser ver no British Museum.

Perdi o sono. Algumas noites são insuportáveis. Entre os lençóis empapados de suor, a luz do sol que ainda iria demorar algumas horas, faltou leveza, faltou delicadeza. Sobraram longas e nostálgicas agulhadas na carne. Momentos que relampejam durante um ou dois segundos e, depois, como se fossem fogos de artifício, desaparecem nessas camadas de pó que o existir costuma denominar de esquecimento. Sempre tive dificuldades em olhar para trás. Poucas vezes quis ver os escombros que me perseguem. Falta gosto para flertar com as estátuas de sal. Culpa da educação católica, que deixou traumas profundos. Na infância, rezar o terço todos os dias, no final da tarde, nunca foi a minha diversão favorita. O calendário com a estampa do sangrento sagrado coração de Jesus, pregado na parede, a nos olhar com os olhos da paixão, não era fácil de ignorar. O pecado, ah, o pecado!

Quando tinha seis anos de idade, em 1965, meu pai me levou em uma viagem até o litoral de São Paulo. Lembro pouco daquilo tudo. Lembro muito daquele nada. Fomos de caminhão até Curitiba. Não tenho certeza. Saímos de madrugada, o dia não tinha nascido. Logo em seguida ao embarque na boleia do caminhão fui tomado pelo sono incontrolável. Não houve qualquer coisa significativa naquela manhã. No máximo, uma névoa, uma ilusão, um sonho − daqueles que deixam marcas, palpites para jogar no bicho. Trocamos de condução. Várias vezes. Ônibus, trem, carroça, cavalo, centenas de quilômetros sendo engolidos aos poucos, hotéis de beira de estrada, suco de laranja e pão com manteiga no café da manhã, almoços em lugares estranhos, saudades da comida da mãe.

Nossa viagem não foi feita nas condições ideais. E dai? Éramos dois aventureiros, homens sem medo, dispostos a superar obstáculos, o tempo ruim, a natureza indomável. Éramos os mocinhos de um daqueles filmes de faroeste que passavam na matinê do Cine Tamoio, nas tardes de domingo.

Iguape. Bom Jesus de Iguape. Foi para lá que fomos. Minha mãe, em momento de desespero, alguma doença, não sei bem o quê, fez uma promessa para o santo. Coube ao pai carregar o filho até o santuário. Fomos cumprir com o dever cristão. Missa, visita à sala de ex−votos, caminhar pelas ruas da cidade. Pode parecer estranho, talvez seja lapso de memória, difícil conjugar todos os detalhes, não me lembro de nenhum soldado nas ruas, não me lembro de homens armados zelando pelo futuro da nação. Demorou algum tempo para que eu percebesse que aqueles eram tempos de violência política. O que lembro, com certa riqueza de detalhes, é que ao lado da igreja tinha um filete d’água, onde quis tomar banho. Antes que tivesse tempo de tirar a roupa, a mão pesada do pai deixou marcas no meu braço. Foi com calças arregaçadas, pequena picareta na mão, que arrebentamos alguns pedaços da rocha sagrada. Essas pedrinhas, mergulhadas dentro de garrafas, transformaram a água benta em líquido milagroso, curava diversas doenças, todo mundo queria beber um pouco.

Quando voltamos para casa, quase uma semana depois da partida, contei as novidades para minha mãe e para os meus irmãos. Disse que ele sempre esteve por perto, foi meu guardião o tempo todo. Muitas vezes me mandava ficar quieto, outras vezes me mandava me apressar, o ônibus não iria esperar por um menino que estava sempre atrasado. Dizia não faça isso, não faça aquilo. Olhava, divertindo−se, a minha curiosidade pelo mundo, as tentativas de ler as placas da rua. O cigarro, Continental sem filtro, nos lábios. Um aceso na guimba do outro. Copos de cerveja sendo esvaziados rapidamente. O olhar perdido em miragens que não estavam ao meu alcance.

Nunca mais viajamos juntos. Exceto em pequenos encontros familiares, nunca mais estivemos tão próximos. Seis anos depois dessa viagem, houve outra situação crítica. Minha mãe pegou meus irmãos pela mão e foi embora. Antes, ela me perguntou o que eu queria. Disse−lhe que queria ficar. Tinha minhas razões. Ela aceitou deixar para trás a casa, o marido, o cachorro, o gato e o filho mais velho. Ele não percebeu a extensão de minha escolha.

Foi uma noite tumultuada, gritos e acusações sem fim. Na manhã seguinte, nós dois tínhamos os olhos inchados de tanto chorar. Havia pastéis de carne no café da manhã. E silêncio. Histórias familiares são semelhantes a alguma espécie rara de câncer − desses que se espalham rapidamente, causando danos irreversíveis.

Nos últimos dez anos de vida de meu pai, conversamos o mínimo possível. Faltava assunto, sobrava desconforto. Éramos estranhos. Faz mais de vinte anos que ele morreu. Estava sozinho. Cama de hospital. Nem mesmo a morfina diminuiu suas dores.

Não gosto de passear por essa estrada. Sempre há o perigo de não conseguir escapar dos abismos emocionais. 

Para tentar fugir, liguei a televisão. Estava passando um filme antigo, desses que a gente vê várias vezes ao longo do tempo, Nosso Tipo de Mulher (She's the One. Dir. Edward Burns, 1996), um drama leve, historia de família. Dois irmãos e um pai perdidos entre desencontros amorosos, inconsequências urbanas, competição fraterna, mulheres que não usam sutiã e outras ameaças menores.

Como a vida não poupa lições, Nosso Tipo de Mulher parece dizer que a masculinidade não está expressa em um conjunto limitado de ações (namorar, pescar, beber, fumar). Para ser homem, há que avançar um pouco mais, procurar resposta para os tormentos pessoais em outra esfera. Afeto, carinho, coragem – sei lá, romper os muros que construímos ao redor de nós mesmos.

O pai (interpretado por John Mahoney) é o elo de ligação entre os personagens do filme. Queria um pouco daquela amabilidade rústica que ele dedica aos dois filhos.

Junto com a sessão cinematográfica inesperada, as lembranças escorregaram – outra vez – para dentro da minha vida. Foi uma inundação.