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quinta-feira, 14 de março de 2013

Argo e Duro de Matar 5



O Oscar de Melhor Filme de 2013 foi entregue a Argo (Argo. Dir. Ben Affleck, 2012). Interessante. Se fosse dado para Duro de Matar 5 – um bom dia para morrer (A Good Day To Die Hard. Dir. John Moore, 2013) provavelmente seria a mesma coisa. E isso não é uma piada.  


Independente de discussões ideológicas ou sobre o caráter ficcional que envolve um e desaparece no outro, não há muitas diferenças entre eles. Ou melhor, há várias diferenças significativas, a principal é que o filme produzido como entretenimento produz alguma reflexão e o filme reflexivo não passa de entretenimento de segunda categoria. E isso, como não poderia deixar de ser, explica porque um é desprezado pela crítica "culta" e o outro ganhou um prêmio cobiçado pelo capitalismo predatório.

Na sala de cinema, assistindo Duro de Matar 5, cercado por adolescente que vibravam com as cenas feéricas que “destroem” Moscou e Chernobyl, repetição ad nauseum de trezentas outras cenas com carros, explosões e reflexão zero, fiquei lembrando o quando me senti desconfortável ao ver em Argo, alguns dias antes, a glorificação do herói estadunidense, que, em nome da democracia, consegue realizar tarefa digna de personagem de história em quadrinho. Subitamente, o "real" (seja lá o que isso for!) me pareceu sinônimo de tédio.

Argo foi baseado no livro Master of Disguise: My Secret Life in the CIA de Antonio J. Mendez e no artigo How the CIA Used a Fake Sci-Fi Flick to Rescue Americans From Tehran de Joshuah Bearman, publicado na revista Wired.


O roteiro de Duro de Matar 5, assinado por Skip Woods, foi baseado em Nothing Lasts Forever, best-seller de Roderick Thorp. E representa uma guinada radical na série. Enquanto os filmes anteriores se caracterizam pela violência extrema, sem muita consistência política, sem dissimular a ausência de qualquer tipo de comprometimento com qualquer coisa que não seja anestesiar o espectador,  a união familiar de Jake e John McClane  resulta em tempero típico dos velhos filmes de espionagem - em interessante retorno aos tempos da “Guerra Fria”. Muitos expectadores, depois da projeção, lembraram de histórias semelhantes, protagonizadas por Ethan Matthew Hunt, James Bond ou Jason Charles Bourne.   

Em princípio, o fio da meada dos filmes de espionagem orbita em torno da incompetência do Departamento de Estado estadunidense. A trama de Argo revela que a política externa de Estados Unidos desprezou a importância da Revolução Islâmica, que destronou o Xá Reza Pahlevi, em 1979. A ascensão do Aiatolá Khomeini somada com diversos momentos de inabilidade diplomática resultou em mortes, reféns, prejuízo econômico e um grave incidente diplomático. Em flagrante violação das leis internacionais, centenas de iranianos invadiram a Embaixada de Estados Unidos. Seis funcionários conseguiram fugir, refugiando-se na Embaixada do Canadá. O filme está centralizado na forma criativa com que esses seis funcionários foram resgatados por Tony Mendez - que cria um filme "fake" para enganar o exército iraniano. 

Duro de Matar 5, pela primeira vez na história da franquia, é uma narrativa de espionagem. Com a vantagem de que não esconde o processo de reciclagem. No máximo, pretende oferecer embalagem nova para produto velho.  John McClane Júnior (Jai Courtney) trabalha para a Central Intelligence Agency (CIA). Sua missão em Moscou é recuperar um dossiê político e ajudar um líder político a sair da Rússia. O velho pai, John McClane (Bruce Willis), preocupado com a saúde do filho, ao descobrir que ele está preso em uma prisão de Moscou, invade a cidade, provoca um pandemônio e estraga vários meses de trabalho. Não satisfeito, se oferece para consertar o prejuízo.  Resultado: mais demolições, mais explosões.  Depois de cerca de três quartos do filme, há a inevitável reviravolta – o  que parecia uma coisa se revela outra e os mocinhos se tornam bandidos. Imutáveis, pai e filho continuam destruindo o patrimônio alheio. Mais uma vez, um helicóptero é derrubado por McClane.

O maior defeito de Argo é a linearidade. A narrativa se torna cansativa, previsível, sem apelo dramático. O personagem interpretado por Ben Affleck parece estar sob efeito de várias doses cavalares de algum antidepressivo. Tudo é muito controlado, todas as peças do quebra-cabeça encaixam. Falta vida, improviso, intensidade. E o ridículo suspense das cenas finais (centenas de vezes repetido em outros filmes) contribui para piorar o que já era quase intolerável. Em compensação, o caos e a brutalidade de Duro de Matar 5 não entedia. Muito pelo contrário, o espectador torce para que ela aconteça. É o desfecho ideal para um filme que não promete a salvação "democrática" ou qualquer outra ideologia capenga.

Resumo da ópera: apesar de ser um filme ruim, Duro de Matar 5 é divertido. Argo é filme ruim, sem a mínima diversão.

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