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segunda-feira, 24 de junho de 2013

BONSAI

Bonsai retrata uma história similar a tantas outras. Uma história de amor que termina mal. Como convém a todas as narrativas que envolvem, em porção desmedida, paixão e decepção. Ou que sonham em retratar a monumental opressão sentimental que se desfaz em fragmentos, desencontros, quimeras e falsos juramentos.

Bonsai: haicai romanceado. A concisão descritiva. Densidade de diamante lapidado. Pedra translúcida como água da fonte ou a esperança de encontrar o horizonte. A linguagem economizando forças e sentimentos. Amarga poesia, versos pronunciados à revelia, muito distante do que se queria. Explosão estética, eclética, sintética. 

Bonsai equivale a um susto. Descobrir que o amor e a felicidade não combinam. Estão de lado opostos. Fazem apostas diferentes. Como se estivessem falando línguas estrangeiras. A incompreensão perpassando cada momento. Preenchendo a vida com mágoas terríveis, suplícios mitológicos, tormentos intermináveis.

Bonsai: conjurar a carne, ignorando as necessidades do espírito. As substâncias que compõem o desejo se volatizam em rot(in)as desgastantes, f(r)ases equivocadas, toneladas de enganos. Demandas difusas, confusas, obtusas.

Bonsai: eu te amo é a mentira mais doce que um homem pode pronunciar diante de uma mulher, eu te amo é a mentira mais deliciosa que uma mulher pode sussurrar em frente a um homem. Triste constatação de que o amor não é justo. Hoje ou daqui a um lustro. A consciência de que tudo tem um fim. A tragédia anunciando que a paixão tem prazo de validade. Assim como a saudade.   

Bonsai: a vida conjugal não é frugal, não é fast food. Alegria que confunde. Desgaste emocional diário. Um pedaço da vida amputado. Apesar da ânsia de desfrutar intensamente esse instante, em todos os instantes. Viver a dois agora. Depois, nunca.

Bonsai revela a circunstância em que o bambu se curva à força do vento. Mostra que a paixão se curva à força do lamento. Lágrimas e sofrimento. Como nos melhores romances do século XIX. Aqueles que – espalhados pela cama desarrumada por Julio e Emilia – ampliaram a excitação, forneceram estímulos para acrobacias sexuais e beijos carinhosos. Em Gustave Flaubert, Anton Tchekhov e Marcel Proust estão anunciadas, de uma forma ou de outra, as farsas amorosas encenadas no século XXI. Fugir da solidão, procurar pela ilusão.

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O chileno Alejandro Zambra possui meia dúzia (ou um pouco mais) de admiradores no Brasil. Deveria ter mais. Muito mais. Considerado pela revista inglesa Granta como um dos melhores escritores de língua espanhola nascidos após 1975, escreveu três romances até o momento. Dois foram publicados no Brasil: A Vida Privada das Árvores e Bonsai (Prêmio do Conselho Nacional do Livro do Chile, 2006).  Além disso, no mínimo dois de seus contos foram traduzidos para o português: Fantasia (revista Piauí nº 71, agosto de 2012) e Jeitos de Voltar para Casa (Granta em português, nº 7, dedicada aos Melhores Escritores em Espanhol).

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TRECHO ESCOLHIDO 


No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre, o resto é literatura:


 A primeira noite que dormiram juntos foi por acaso. Ia ter prova de Sintaxe Espanhola II, matéria que nenhum dos dois dominava, mas como eram jovens e teoricamente estavam dispostos a tudo, estavam dispostos até a estudar Sintaxe Espanhola II na casa das gêmeas Vergara. O grupo de estudos acabou sendo bem mais numeroso do que o previsto: alguém colocou música, dizendo que costumava estudar com música, outro trouxe vodca, argumentando que era difícil se concentrar sem vodca, e um terceiro foi comprar laranjas, porque não suportava tomar vodca sem suco de laranja. Às três da manhã, completamente bêbados, resolveram ir dormir. Embora Julio preferisse passar a noite com uma das irmãs Vergara, resignou-se rapidamente a dividir o quarto de empregada com Emilia.

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