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terça-feira, 5 de agosto de 2014

LEMBRANÇAS DE REFEIÇÕES NA INFÂNCIA



Houve um tempo na história de minha família em que as refeições eram uma forma de reunião afetiva. Mais do que aproximar (ou afastar) pais e filhos, aqueles momentos ao redor da mesa serviam para acertar as contas. Enquanto distribuía o arroz ou a carne no prato dos filhos, a mãe costumava reclamar em voz alta. Não era fácil controlar quatro crianças. O pai fulminava o(s) indisciplinado(s) com o olhar. Corretivos físicos faziam parte do ritual. Enquanto alguns saboreavam a comida, outros descobriam que o almoço estava impregnado de violência. Muitas vezes a comida era engolida com lágrimas nos olhos.

A mãe estava sempre renovando o cardápio, apesar do péssimo orçamento doméstico. Então, acompanhando o arroz e o feijão, tínhamos frango assado, frango ensopado, guisados com batatas, bifes de fígado, buchada (dobradinha), estrogonofe, almôndegas, macarrão com sardinha. Comida de pobre. Que era devorada rapidamente. Seja porque era gostosa, seja porque a lentidão era premiada com a impossibilidade de repetir o prato. E ninguém queria passar fome. Em dias especiais, havia bife à milanesa e batatinha frita. Nos domingos, lasanha (frango, apresuntado, queijo). Claro que não tínhamos toda essa abundância diariamente – mas alguma coisa sempre estava lá. 

Saladas eram raras. Não é comida, como costumávamos repetir, sonhando com pedaços enormes de carne ou coxas de frango. Mesmo assim, era costume ter à mesa refogados de repolho, couve, ervilha (bolinhas, como se dizia naquele tempo). Enormes pedaços de polenta frita, recheados com queijo colonial, se transformavam em iguarias dignas das constelações oferecidas pelo Guia Michelin (se, na época, soubéssemos o que era isso!).

Arroz doce com canela
A variedade de sobremesas estava acima de quaisquer expectativas. Naqueles momentos, as doçuras da vida se multiplicavam. Ao lado das frutas da estação, o mundo se transformava em uma fábrica de surpresas para o paladar. Entre o sagu de leite e o de vinho, estar vivo era viagem ao Paraíso. Quem é que conseguia dizer não a um bom arroz doce? E as gelatinas coloridas? E as compotas de maçã, ameixa, pera, laranja, pero-figo? Um de meus avôs adorava pêssegos em calda com creme de leite – delícia.

Por razões que ignoro, não havia jantares em minha casa. As refeições noturnas eram substituídas por café ou um copo de leite misturado com algum achocolatado. De acordo com gostos individuais, o pão feito em casa (uma das sete maravilhas do mundo doméstico) era acompanhado por manteiga, nata, requeijão, mel, geleias diversas, queijo e mortadela. 

Rosca de coalhada
No meio da tarde, havia uma refeição intermediária, o café-com-mistura. Acontecia entre as dezesseis e as dezessete horas. Mas, nem todos eram convidados. Visitas tinham prioridade. A xícara de café bem forte (torrado no pilão, lá nos fundos de casa) era acompanhada por uma fartura sem fim: pão de ló, bolo de fubá, cuca, bolachinhas de maisena com leite condensado, biscoitinhos de nata e sequilhos. Quem quiser escrever sobre a vida alimentar de nossa família deve reservar um capítulo para tentar explicar a importância das roscas de coalhada (feitas por Dona Henriqueta Arruda Guimarães, minha ilustre avó) na mitologia gastronômica familiar. Pensando bem, talvez um capítulo seja insuficiente.

Doce de gila
Devo ter esquecido alguma coisa. O quê? Não sei. Como não gosto de canjica, cuscuz e de quirera, além de abóbora e beterraba, não quero falar sobre esses traumas. Não lembro de carne de porco e peixe. Provavelmente, comíamos porco, mas... perdi essa referência. Quanto ao peixe, essa é fácil: nenhum serrano quer (ainda hoje) morrer com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Somente depois que comecei a perambular pelo mundo é que descobri o valor dos pescados.

No entanto, seria uma prova inequívoca de ingratidão ignorar aquelas manhãs, em Morrinhos, no interior da Coxilha Rica, quando bebíamos camargo para espantar o frio e despertar para um dia de diversões. Entro em afasia toda vez que me lembro das frutas de passarinho, que devorava como se estivesse morrendo de fome: uvaia, são João, amora, butiá, figo, guabiroba (uma espécie de araçá). Nesse mesmo pensamento está incluída uma das maiores êxtases que já provei na minha vida: doce de gila.  Nada – nada! – supera essa maravilha.

Passados tantos anos, só me resta voltar os olhos para o passado. E, através da imaginação, alimentar sabores que se perderam no tempo. Ajudou nesse passeio sentimental e gastronômico a leitura (prazerosa! muito prazerosa!) de Céu da Boca (lembranças de refeições da infância), antologia de crônicas e depoimentos organizada por Edith M. Elek (Editora Ágora, 2006).

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