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terça-feira, 19 de agosto de 2014

O LOUCO DE PALESTRA



Segundo alguns depoimentos disponíveis nas redes sociais, Vanessa Bárbara é a escritora com o maior grau de fofura da literatura brasileira. Como não li O Verão do Chibo (narrativa que escreveu em conjunto com Emílio Faia) ou A Máquina de Goldberg (“graphic novel” compartilhada com Fido Nesti) ou Endrigo, o Escavador de Umbigo (livro infantil, construído a quatro mãos com Andrés Sandoval), faltam-me elementos (emocionais, literários e aleatórios) para fazer esse tipo de afirmativa. Devo acrescentar que não conheço o texto jornalístico O Livro Amarelo do Terminal (Prêmio Jabuti, 2008). Também não tive o prazer de ser leitor do elogiado romance Noites de Alface, embora tenha “passado os olhos” (sem muito entusiasmo) no trecho publicado na Granta nº 9.

Sou quase um ignorante no que diz respeito à literatura produzida por Vanessa Bárbara. Triste constatação. A culpa diminuiu alguns milímetros quando lembrei que costumo encontrar – ocasionalmente – a produção (assinada) da moça na revista Piauí. Também li alguma coisa na Folha de São Paulo. Não é muito. Uma meia dúzia de textos. Talvez um pouco mais. De qualquer maneira, reencontrei alguns desses artigos em O Louco de Palestra e Outras Crônicas Urbanas, um livro alegre, composto por trabalhos escritos para diversos veículos jornalísticos, em diferentes momentos e tempos. Claro, não me foi possível evitar uma ligeira sensação de déjà vu. Mas, isso não atrapalha em nada, pois a proposta literária de Vanessa se renova a cada leitura, permitindo que o leitor esteja em contato com um bocado de nonsense e algumas pitadas de ironia.

Imagino que seja esse o diferencial. Simplicidade e bom humor. E um olhar próprio, capaz de dizer algo que, mesmo parecendo familiar, nenhum outro escritor foi capaz de descrever. Em outras palavras, Vanessa Barbara, ao contar, em poucas linhas, algumas das mais incríveis (belas, inexplicáveis e divertidas) histórias paulistanas, convida o leitor para um passeio lúdico pelo reino da criatividade. É o que parece. Nas crônicas em que ela descreve o espaço urbano, também possibilita visibilidade para o distrito de Mandaqui (Zona Norte de São Paulo). A imagem suburbana que se multiplica nos telejornais foi recortada com tesoura e colada no álbum literário brasileiro. Alguns lápis de cor serviram para dar um tom singelo, distante da violência e do desequilíbrio econômico e social. O desenho final mostra que todos (ou quase todos) os moradores da região são felizes. Evidentemente, cada um é feliz a sua maneira. Que no es lo mismo / pero es igual, como cantou algum menestrel do século passado.

O ponto forte do livro está na tipificação dos indivíduos que encontram o ponto fulcral da Terra fazendo perguntas malucas em palestras. Para quem frequenta esse tipo de ambiente, impossível não soltar intermináveis gargalhadas quando ela descreve o sujeito que pede a palavras, fala durante dez minutos (ou mais), não diz nada de coerente e esquece o que deveria perguntar. Mais do que um clássico das relações confusas que constituem a vida acadêmica, o louco de palestra (des)caracteriza o mundo intelectual e garante um pouco de entretenimento para a plateia.

Avenida Paulista
Em outros momentos, Vanessa Bárbara centraliza suas forças em temas difusos como as dificuldades e facilidades de deslocamento nos ônibus urbanos e interestaduais, nomes de ruas, mochilas, celulares, o cidadão exaltado, reuniões de condomínio, assistir televisão, morar junto, a “queda do sistema”, as manifestações contra a Copa do Mundo e a proposição de transformar o conclave cardinalício em um esplendoroso reality show. São boas abordagens, são momentos de criatividade.

Vanessa Barbara (ao lado de cronistas clássicos como Aldir Blanc, Fernando Sabino e Luís Fernando Veríssimo) consegue decodificar parte da maluquice que cerca o universo urbano. Com delicadeza e talento, ao reunir os textos que compõem O Louco de Palestra, entregou ao leitor um livro engraçado, “fofo”, com gosto de quero mais.

Um comentário:

  1. Raul, li a crônica de Vanessa Bárbara sobre "O louco da palestra" na Revista Piauí e morri de rir. Incrível como você consegue pontuar leituras e indicar o mel do melhor. Abraços !

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