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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

ESTAÇÃO ATOCHA

Adam Gordon, protagonista e narrador de Estação Atocha, romance de Benjamin S. Lerner, com seu espanhol lacunar, está morando em Madri. Vive de uma bolsa de estudos, concedida por uma fundação universitária e/ou literária. Deve desenvolver alguma atividade acadêmica – embora ninguém (nem mesmo ele) tenha conhecimento do conteúdo desse projeto. Talvez seja traduzir vários poetas espanhóis para o inglês, talvez seja escrever um longo poema inspirado por Espanha. Enquanto isso não se aclara, o rapaz procura manter um fio de conexão com a realidade objetiva com a ajuda dos cinco cavaleiros do apocalipse: café, tabaco, álcool, haxixe e anfetaminas.

Adam é um artista que finge ser artista. Um trapaceiro e/ou tapeceiro de equívocos e mal-entendidos. Simultaneamente, com olhos aguçados para a contemporaneidade (estágio histórico onde o lirismo e a crueldade dividem corações e mentes em pedaços coloridos), o seu olhar oscila entre a sensibilidade extrema e a insensibilidade absoluta. Seus passeios pelos museus espanhóis são eventos analíticos de grande profundidade, a vontade de unir pedaços desencontrados de um mosaico que está condenado ao desaparecimento. Esses momentos, que projetam um passeio por algum parque de diversões, são relâmpagos que fornecem contorno ao terreno movediço em que a poesia e a prosa se desencontram. Em compensação, a Espanha é um enigma que ele não quer solucionar.   

Benjamin S. Lerner
Estação Atocha celebra a prosa vertiginosa, o discurso fragmentado, imenso/intenso solilóquio sobre a impossibilidade (de decidir, de amadurecer, de amar). Flerte com o abismo da ininteligibilidade. Em alguns momentos parece se desequilibrar. Mas, retoma o controle. Recupera a sanidade. Tudo se faz lúcido, lúdico. Impossível deixar de pensar no prazer que contorna esse viver em agonia, no suplício que margeia esse impasse. Senti o formato da dor, mas não a dor em si, Adam repete para si mesmo, como se esse tipo de pensamento servisse para alguma coisa, além de tentar justificar o injustificável. Tudo é miragem, ilusão, névoa, outro cigarro de haxixe.

O fluxo narrativo proposto por Adam lembra, de uma maneira ou outra, o cenário delirante dos livros de Jack Kerouac e/ou William Burroughs, dois dos poetas/profetas luminosos em que o estranhamento e o reconhecimento literário são uma constante. As ideias são semelhantes, mas diferentes. Muito diferentes. Nenhum dos representantes da Geração Beat se preocuparia em propor arrependimento, nenhum deles escreveria Felizes eram as épocas em que o céu estrelado representava o mapa de todos os caminhos possíveis, épocas caracterizadas por uma integração social tão perfeita que, para conectar o herói à totalidade, não eram necessárias as drogas. Eles procuravam outras coisas, o prazer sem culpa, por exemplo. Por isso, esse “insight” de Adam, negando o hedonismo em que ele está mergulhado, acena para a incompatibilidade que existe ente o mundo objetivo e o mundo em que os heróis perdem a substância – transformados em figuras de papel, destinadas a desaparecem no tempo e no afeto que somente os livros podem produzir. 

Estação Atocha, em Madrid
No dia 11 de março de 2004 ocorreu um atentado terrorista na Estação Atocha, o complexo ferroviário localizado próxima da Plaza del Emperador Carlos V, em Madri. Três bombas detonaram dentro do trem 21431, que estava dentro da Estação. Quatro bombas foram deflagradas dentro do trem 17305, que estava a meio quilometro de Atocha. Morreram 191 pessoas e 1700 ficaram feridas. 

Adam, envolto em uma nuvem de ataraxia, parece não acreditar que está participando de um momento histórico, o 11-M, equivalente espanhol, em dor e sofrimento, ao 11 de setembro estadunidense. Falta-lhe sensibilidade política para entender os sentimentos do Outro: As pessoas gritavam palavras de ordem que diziam que aquilo não era chuva, e sim Madri chorando, e eu achei o slogan complexo demais para ter surgido espontaneamente. Teresa, Arturo e Rafa estavam gritando também, e eu me juntei a eles, mas minha voz me soou desafinada, falsa, e temi que ela sobressaísse demais, que não se confundisse com as outras. Deslocado, ele quer estar em outro lugar. Quer fugir. Nenhuma novidade em quem, em alguns momentos, se comporta como um adolescente. Ou como um estadunidense, liberto das amarras familiares, que ambiciona permanecer "chapado" o máximo de tempo possível. Enfim, o comportamento típico de alguém que se recusa a encarar a vida adulta. 

Cultivando a imaturidade e o egoísmo, incompetente para escolher entre Isabel e Teresa, as duas mulheres que o assustam e o excitam, Adam faz reflexões sobre a ausência de estabilidade econômica. Sem muito esforço, percebe que o valor dos indivíduos está atrelado com a capacidade de consumo. Viver custa caro – independente dos múltiplos significados que acompanham essa constatação.

Monumento em homenagem às vítimas
do atentado de 11 de março de 2004
Estação Atocha é um romance a-pós-a-moderna-idade, embora esteja sedimentado na tradição burguesa de relatar a epopeia do anti-herói, do sujeito que ambiciona quebrar todas as regras do bom comportamento e que fracassa da mesma maneira que fracassaria se fosse bem comportado. Sobra o percurso e a sensação de que estava escorado em algum tipo de justificativa. Não por acaso, Adam observa que Minha pesquisa me ensinara que esse tecido de contradições que constituía a minha personalidade era, na melhor das hipóteses, um poema, em que por “poema” se entende a incapacidade da linguagem de cumprir a potencialidade que ela mesma afigura; só então minha desonestidade constituiria um projeto, e não apenas uma patologia; só então minha autoalienação seria definida como crítica, estética, em vez de ser um efeito colateral do que os experts definiriam como um problema de dependência de substâncias psicotrópicas, definição bastante apropriada, que tem origem não tanto no meu anseio de evadir do real, mas no meu desejo de ter um pretexto químico para suprir a indisponibilidade do real.

Nas páginas finais, ao ver que alguns de seus poemas, traduzidos ao espanhol, foram publicados, Adam comenta que o livro ficou Esteticamente lindo, com uma qualidade anacrônica, apropriada a um veiculo de comunicação defunto. Talvez ele tenha razão, a literatura impressa está morta – mas,... Sem se importar com os esforços necrófilos, a ficção continua produzindo bons livros. Estação Atocha é um bom exemplo.

Interior da Estación de Atocha, em Madrid

TRECHO SELECIONADO


Durante aquele período, todos os períodos parecidos de minha vida eram evocados para formar uma linha contínua, ou pelo menos uma constelação, e assim, em vez de formar apenas o tênue tecido conectivo entre as épocas mais significativas, eram estas épocas que se tornavam meros ligamentos. Não eram os pequenos milagres líricos, tampouco as feridas, que se ramificavam, luminosas, a constituir a vida, mas aquela outra coisa, o que quer que fosse; e essa outra coisa era falsificada por qualquer forma de discurso, escrita ou pensamento que enfatizasse os acontecimentos precisamente localizados no tempo em que se realizavam. Mas tudo isso era verdade apenas nesses períodos aparentemente suspensos no tempo; sempre podia acontecer que figura e fundo se invertessem, e assim que você estivesse tomado por alguma sensação forte, beijo ou abalo que fosse, de repente a vida voltava a ser composta exclusivamente por momentos desse tipo, ardendo sempre com essa chama intensa e densa como quartzo. Mas momentos assim eram igualmente difíceis de representar porque já constituíam literatura prêt-a-porter, porque a facilidade com que podiam ser representados acabava dominando e substituindo a experiência: onde a vida deveria ser mais imediata, quando o presente conseguia se afirmar com violência, a vida se encontrava no cúmulo de sua banalidade, governada por regras aristotélicas, de modo que não era possível estabelecer um contato com a realidade, mas só representar tal realidade diante de um público imaginário. 

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