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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AQUI, NO CORAÇÃO DO INFERNO


Uma adolescente, de idade indefinida, 14, 15 anos, moradora de uma cidade minúscula, Santana do Morro Verde, localizada em lugar impreciso, resolve contar uma história estranha, que parece não ter pé nem cabeça, mas que, de uma forma ou de outra, anuncia – lentamente – uma constelação de questões, e que, em algum momento, se tornarão fundamentais. Essa é a espinha dorsal de Aqui, no Coração do Inferno, novela escrita por Micheliny Verunschk. A menina, inominada no princípio, enfrenta as diferenças entre a realidade e a ficção criando um espaço narrativo particular, onde encaixa personagens complicados como o seu pai, o delegado, e o prisioneiro, um menino de uns 14 anos, algemado na cozinha, acusado de matar várias pessoas. Também informa que pesa sobre o réu a acusação de canibalismo. Durante quatro dias de chuva, que interdita a estrada que liga o vilarejo com a civilização, o tempo cronológico desaparece, quer dizer, ele continua a escorrer como a areia dentro da ampulheta, mas institui uma desconexão, cria uma redoma, isolando o centro dos acontecimentos do mundo exterior. Nesse interstício, que parece natural, mas que não o é, pois, apesar do isolamento, nada se mantém em suspensão, ocorre o desenrolar do fio narrativo, começo, meio e fim, nesta ordem, embora o desfecho seja dissonante ou desafinado, discordante do andamento de todo o resto, pois conjuga a surpresa, a última peça do quebra-cabeça mostrando o que não havia sido antevisto. É como se fosse deflagrado um tiro, onde o que assombra não é o barulho do disparo, mas o clarão, o relâmpago artificial, o momento em que o espaço-tempo se modifica, revelando que alguém foi atingido. Enquanto a tempestade não se esgota, o texto se esparrama por 121 páginas e 21 capítulos e centenas de parágrafos. Com a limpidez coloquial da prosa que se confunde com a poesia, a linguagem se impondo sobre o enredo, muitas vezes desviando o olhar do leitor, mostrando alguns dos elementos menos importantes e que estão em cena, a narrativa avança vorazmente. Eu acho que nem tudo precisa ser explicado numa história. Se precisasse, não faria sentido existir a imaginação, afirma a narradora, criando novas expectativas ou realçando velhas certezas. A união entre o antes e o depois completa a narrativa circular – e nesse traçado, que tinha tudo para ser parábola ou elipse, a inteligibilidade aparece de tocaia, surpreendendo o leitor: são as páginas finais que garantem a sustentação para um texto que simulava estar escorado na areia movediça. Mas, antes, bem antes das cenas finais, a educação sentimental da narradora oscila entre o abismo sedutor projetado pelo rapaz algemado na cozinha e a transparência sexual oferecida por Luís, um colega de escola. Entre este e aquele, não há como dizer não para a oportunidade, ninguém desperdiça ou nega o sabor agridoce da vida, clausura de freira não rima com a curiosidade. Então, o que tinha que acontecer aconteceu (e não importa se aconteceu mesmo ou não, nessa tessitura somente é verdade o que é narrado ficcionalmente). Mas, também sucedem outras coisas, muitas outras, a existência humana não se modifica porque uma garota resolveu tomar uma atitude diante dos fatos da vida ou gosta de se levantar no meio da noite para vasculhar os inquéritos que o pai traz para casa. Somando tudo, a união das pontas soltas da linha, quando encontram o resto da tapeçaria narrativa, revela um desenho cruel, a maldade acompanhando todas as histórias. Dizem que o destino nunca chega atrasado aos seus compromissos. Aqui, no Coração do Inferno (novela e novelo que simulam uma espécie de faroeste caboclo) aborda as profundezas da História do Brasil com coragem e sensibilidade.



TRECHO ESCOLHIDO 


Papai quer dizer que ele tá fodido. Mas não diz. Ou que a gente tá ferrado. Todo mundo. O Brasil inteiro, o país do futuro. Acho engraçado. Quando eu era mais nova, eu achava que o Brasil era um lugar bem longe, um lugar que eu não alcançava nunca, era uma palavra repetida várias vezes na TV, uma palavra repetida várias vezes por papai. Coisas como a carestia no Brasil, a censura no Brasil, o governo do Brasil, um lugar longe demais, que exigia amor ou abandono. Então eu comecei a entender que o Brasil é aqui, no coração do inferno, com as aulas do professor de português e do professor de história. E foram eles que disseram pra gente na sala de aula, vocês precisam ler para aprender o Brasil. E precisam sair de casa, ir pra rua, pra feira, ouvir as pessoas, pra aprender o Brasil. Os dois disseram, numa aula que deram juntos. Eu presto muita atenção. O problema é que papai traz trabalho pra casa e isso embaralha muita coisa, eu acho. As gavetas dele são muito misturadas e isso é uma merda porque, por mais cuidadosa que eu seja, o que tenho mesmo que fazer é reproduzir o caos dele pra que tudo continue no lugar mesmo que, no intimo, nada esteja mais.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

CINQUENTA E CINCO MÁXIMAS, PENSAMENTOS E REFLEXÕES DO MARQUÊS DE MARICÁ

– Há tolos malignos que fazem mais dano e males que velhacos consumados.

– Há muitos homens que, para escaparem de si mesmos, importunam aos outros com visitas.

– Somos muito generosos em oferecer por civilidade o que bem sabemos que por civilidade se não há de aceitar.

– A companhia dos livros dispensa com grande vantagem a dos homens.

– Não há inimigos desprezíveis, nem amigo totalmente inútil.

– A força sem inteligência é como o movimento sem direção.

– Somos benfazentes mais vezes por vaidade que por virtude.

– Os homens afetam desinteresse para melhor promoverem os seus interesses.

– Muitos homens são louvados porque são mal conhecidos.

– Uma grande qualidade ou talento desculpa pequenos defeitos.

– O interesse adota e defende opiniões que a consciência reprova.

– Os nossos maiores inimigos existem dentro de nós mesmos: são os nossos erros, vícios e paixões.

– A vida humana seria incomportável sem as ilusões e prestígios que a circundam.

– O medo faz mais tiranos que a ambição.

Mariano José Pereira da Fonseca
(1773-1848), Marquês de Maricá
– Nada incomoda tanto aos homens maus como a luz, a consciência e a razão.

– A maior prova da insignificância ou santidade de um sujeito é não ter um só inimigo ou invejoso.

– Os patriotas dizem em voz alta que é doce morrer pela pátria, mas em segredo reconhecem que é mais doce viver para ela e à custa dela.

– Sempre haverá mais ignorantes que sabedores enquanto a ignorância for gratuita e a ciência dispendiosa.

– Os bens que a ambição promete são como os do amor, melhor imaginados do que conseguidos.

– Não é a fortuna, mas juízo somente, o que falta a muita gente.

– Querendo parecer originais, nos tornamos ridículos ou extravagantes.

– As opiniões de um século causam risos ou lástimas em outros séculos.

– Mudai um homem de classe, condição e circunstâncias, vós o vereis mudar imediatamente de opiniões e de costumes.

– A sinceridade é muitas vezes louvada, mas nunca invejada.

– Há crimes felizes que são reputados heroicos e gloriosos.

– Os homens mais respeitados não são sempre os mais respeitáveis.

– Os homens, por não desagradar aos maus de quem se temem, abandonam muitas vezes os bons a quem respeitam.

– Quando a cólera ou o amor nos visita, a razão se despede.

– O invejoso é tirano e verdugo de si próprio: ele sofre porque os outros gozam.

– O silencio é o melhor salvo-conduto da mais crassa ignorância, como da sabedoria mais profunda.

– Os bens que a virtude não dá ou não preserva são de pouca duração.

– Não é dado ao saber humano conhecer toda a extensão da sua ignorância.

– Ninguém mente tanto nem mais do que a História.

– A imaginação é o paraíso dos afortunados e o inferno dos desgraçados.

– É mais útil algumas vezes a extirpação de um erro que a descoberta de muitas verdades.

– O pródigo pode ser lastimado, mas o avarento é quase sempre aborrecido.

– Mudamos de paixões, mas não vivemos sem elas.

– A velhice reflexiva é um grande armazém de desenganos.

– Nas revoluções políticas, os povos ordinariamente mudam de senhores sem mudarem de condições.

– Os benefícios mal empregados se convertem em malefícios. 

– Os elogios de maior crédito são os que os nossos inimigos nos tributam.

– Os vícios nos velhos são inimigos acastelados que a morte pode somente expurgar.

– Fingimo-nos esquecidos quando nos não convém parecer lembrados.

– Queixam-se os ricos de poucos cômodos nas suas casas; nas dos pobres, ainda que pequenas, sempre sobeja muito espaço.

– Há muita gente que procura apadrinhar com a opinião pública as suas opiniões e disparates pessoais.

– Não se pode formar bom conceito de quem não tem boa opinião de pessoa alguma.

– Em certas circunstâncias o silêncio de poucos é culpa ou delito de muitos.  

– A riqueza dos tolos é o patrimônio dos velhacos.

– Dói mais ao nosso amor-próprio sermos desprezados, do que aborrecidos.

– Os velhos ruminam o pretérito, os moços antecipam e devoram o futuro.

– A ambição é um enredo que nos enreda por toda a vida.

– O órgão que mais abusamos na mocidade é ordinariamente a sede de nossos males na velhice.

– As virtudes são econômicas; mas os vícios, dispendiosos.

– A impunidade é segura, quando a cumplicidade é geral.


– Os maus não podem viver em solidão: têm medo e horror de si mesmos. 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO

A história das mulheres sempre foi a história de quem se submete ao poder masculino. Essa afirmativa, atualmente, não pode (nem deve) ser considerada como exata. Mas,... Houve um tempo (que não está distante, nem desaparecido) em que as mulheres, por diversos motivos (sobrevivência financeira, emocional, social,...), precisavam abdicar de seus sonhos em favor de uma vida insípida, recatada e voltada ao mundo doméstico e domesticado.

Um desses casos está retratado na figura da protagonista de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, romance de Martha Batalha. Na década de 40 do século passado, momento histórico em que o mundo feminino estava atrelado aos grilhões do casamento, quase todos os sonhos de liberdade de Eurídice Gusmão foram sufocados. Casada com Antenor, um funcionário do Banco do Brasil, mãe de dois filhos, Afonso e Cecília, em determinado momento Eurídice assume uma persona que destoa da mulher forte e inventiva que ela era: Aquela era a mulher comportada, do jeito que Antenor queria. Uma mulher dedicada à casa e às crianças, e que agora se deitava na mesma hora que ele, e não se levantava mais cedo para se entreter com a máquina de costura. Uma mulher que permanecia calada ao seu lado enquanto ele assistia à TV, e que lhe oferecia a testa olhando ligeiramente para baixo, quando ele saía ou chegava do trabalho. Era tudo o que Antenor sempre quis.

Quer dizer, o que ele sempre quis foi esquecer que na noite de núpcias houve um incidente – mas que repercutiu por toda a vida do casal. Eurídice não sangrou. Antenor, nas Noites de Choro e Uísque, costumava reclamar da vagabunda que não se manteve pura para o marido na noite de núpcias. Eurídice precisou carregar por toda a vida essa culpa por algo que, embora lhe fosse atribuído, não constituía a verdade, pois nunca havia se deitado com homem antes do casamento.
 
No universo familiar, Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa ou que era hora de acordar para a escola. Nos poucos momentos em que ela tentou romper com a posição passiva que lhe foi determinada pela estrutura familiar as reações antagônicas foram tão intensas que nada lhe restou senão a apatia, o embotamento mental e o cansaço.  

Inicialmente, na juventude, quis estudar flauta. O pai impediu que os estudos musicais fossem adiante. Depois de casada, tentou ser uma grande cozinheira. Copiou as receitas que elaborou em um caderno, talvez pudesse publicar um livro. O marido ao ver tamanho esforço, riu das pretensões da esposa: Deixe de besteiras, mulher. Quem compraria um livro feito por uma dona de casa? Em determinado momento, comprou uma máquina de costuras. Ao perceber que tinha facilidade para costurar, montou um ateliê em casa. O marido, ao tomar conhecimento do empreendimento, vociferou: Então eu me mato de trabalhar naquele banco pra você ter do bom e do melhor e descubro essa feira livre aqui em casa? E, para deixar bem claro a sua visão do mundo, arrematou: Uma boa esposa não arranja projetos paralelos. Uma boa esposa só tem olhos para o marido e os filhos. Eu tenho que ter tranquilidade pra trabalhar, você tem que cuidar das crianças.

Largo do Estácio, Rio de Janeiro, anos 40
Imolada todas as vezes que tentou romper com o casulo, Eurídice acabou murchando. A Parte De Eurídice Que Não Queria Que Eurídice Fosse Eurídice prevaleceu. A lucidez somente foi readquirida quando reencontrou a irmã mais velha, Guida – que carregava pela mão um filho quase adolescente.

Guida apostou no amor. Fugiu de casa com o namorado. Viveu um conto de fadas – nos primeiros meses de casamento. Depois, foi abandonada pelo marido. Grávida, sem dinheiro ou qualificação profissional, precisou superar muitos obstáculos. Foi Filomena, prostituta aposentada, que se sustentava cuidando dos filhos de outras mulheres, quem a salvou da miséria. Guida organizou a creche e criou, apesar das dificuldades, o filho. A derrocada final ocorreu vários anos depois, quando Filomena adoeceu. A sífilis cobrou, com juros, os excessos do passado.

Cinelândia, Rio de Janeiro, anos 40
Ao ver a irmã, Eurídice recuperou parte do prazer de viver. Em seguida, (...) a adição de Guida e Chico ao resto da família foi feita de forma natural. Era como se aqueles convidados fossem esperados há tempos, como se fossem aquilo que faltava para a família Gusmão Campelo ficar completa.

As histórias desencontradas das duas irmãs, Eurídice e Guida, e que se passa entre os anos 40 e 60 do século XX, poderiam ser descritas como um conjunto de tragédias ficcionais da pequena burguesia carioca. Exceto por um detalhe. Há um componente de veracidade em todos esses episódios que não pode ser desprezado. Como alerta a narradora, no capítulo introdutório: Muitas das histórias descritas neste livro de fato aconteceram e, para que não restem dúvidas, um esclarecimento final: (...) Eurídice e Guida foram baseadas na vida das minhas, e das suas avós. Com um pé na realidade e outro na ficção, o livro mostra o que há de monstruoso quando a criatividade é podada pelo autoritarismo.

Somente mais tarde, muito mais tarde, Guida e Eurídice conseguem construir algum espaço próprio e, assim, respirar um pouco de ar puro. Ou melhor, conseguem fornecer um pouco de visibilidade à vida invisível das mulheres.     

 Em tempo: 
1) há um personagem secundário muito interessante, Zélia  e que poderia ser aproveitada em outra narrativa. Rainha da fofoca e da maledicência, ela vive na vida dos outros a vida que nunca teve.

2) embora não seja exatamente uma narrativa feminista, e sim um romance de costumes, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão revela que a  violência simbólica, instituída pelo phallus, torna fracos todos os homens. Ou seja, eles não dispõem de uma couraça contra as adversidades. Todos aqueles que entram em cena, no romance, estão desprotegidos contra as adversidades da vida. O machismo de Antenor se desmancha no homem patético, que, de pijama e chinelo, se prepara para dormir cedo. Marcos, o primeiro marido de Guida, típico “filhinho de papai”, pode ser resumido em um único adjetivo: covarde. João, o farmacêutico, não passa de um miserável que se aproveita da desgraça alheia. A personalidade de Antônio, o segundo marido de Guida, é frouxa – ele é um dependente emocional da mãe. O orgulho de Manuel, pai de Guida e Eurídice, o impede de perdoar Guida. Os meninos (Francisco, Afonso) não possuem voz. Enfim, não há salvação para os homens.


TRECHO ESCOLHIDO


As tardes na sala de estar, encarando a estante de livros. De vez em quando Das Dores saía da cozinha para olhar a patroa, os pés esparramados nos chinelos, os braços apoiados na barriga, um deles segurando a colher de pau. Eurídice nem notava, ou fingia não notar. A empregada voltava um pouco triste para a cozinha, balançando a cabeça em negativo. Quando Cecília e Afonso chegavam Eurídice disfarçava e olhava para outros lugares, e quando Antenor chegava ela disfarçava ainda mais, que não queria dar satisfações ao marido.


Talvez tenha sido a constância. Anos e anos sentando-se no mesmo lugar, encarando o vazio na forma de estante. Ou talvez tenha sido porque tinha que ser. O fato é que nessa nova temporada de olhares perdidos Eurídice começou a se sentir diferente. Era uma sensação bastante leve no começo, quase como uma cosquinha. Percebeu que a sensação só aparecia quando ela estava sentada no mesmo lugar, olhando para o mesmo ponto.


Eurídice passou a sentar-se em seu posto menos para olhar o nada e mais para esperar a sensação chegar. A sensação chegava, e encontrava no silencio o espaço para crescer. E foi assim que a sensação aumentou até ser vista por Eurídice, e Eurídice viu que a sensação era isso. A sensação era o dom de ver.


Eurídice viu a estante de livros na estante de livros.


Ela viu a estante de livros.


Levantou-se e passeou a mão direita pelas lombadas. Dostoiévski, Tolstói, Flaubert, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Antonio Candido. Virginia Wolff e George Eliot, Simone de Beauvoir e Jane Austen. Machado e Lima Barreto, Hemingway e Steinbeck. Alguns livros ela tinha lido e esquecido, outros tinha comprado e esquecido de ler. Alguns foram acrescentados por Antenor, que comprava livros como quem compra lanternas: é bom ter em casa os maiores pensadores do mundo, para se um dia precisarmos deles.


Era uma biblioteca sólida. Voltou para o sofá na companhia de um livro, e pela primeira vez em muito tempo dedicou às páginas sua total atenção. Depois pegou outro, e mais outro, e foi ligando os pontos imaginários que faziam de todos aqueles textos apenas um.


Dessa vez Eurídice colocou um de seus vestidos de sair para ir ao Centro comprar uma máquina de escrever. De volta à casa ela abriu espaço na mesa do escritório que até então tinha sido de Antenor. Mandou Das Dores encontrar outro lugar para as apostilas de contabilidade que ele teimava em guardar desde os dezoito anos. Colocou sobre a mesa a máquina de escrever Olivetti e ficou procurando as letras pelo resto da tarde. Tec tec tec era um barulho bom de se ouvir, Das Dores pensou. Enquanto o barulho existisse ninguém na casa estaria olhando para a estante de livros.


Tec tec tec foi o som daqueles tempos. No começo eles eram um pouco lentos, tipo um tec aqui e outro ali. Depois se transformaram num único e constante som, um tectectectectectec que preenchia a tarde inteira, e era tão intenso que deixou de ser percebido como ruído. 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

MORTE SÚBITA

O texto literário de ficção não possui compromisso com a distinção entre a verdade e a mentira (conceitos fluídos e de difícil comprovação). Sob esse dístico, o mexicano Álvaro Enrique escreveu um romance que desafia as classificações acadêmicas – embora, muitos críticos não tenham o mínimo escrúpulo para sacar do coldre uma daquelas palavras mágicas com que costumam rotular tudo o que foge da normalidade: pós-moderno. De qualquer forma, através de capítulos curtos (encadeados em ritmo de contraponto), Morte Súbita mistura em um liquidificador ficcional parte das histórias políticas, religiosas e artísticas de Espanha, Inglaterra, Vaticano e México. Ao mesmo tempo, envereda por um caminho literário pouco trilhado, desses que se recusam a se tornarem nítidos – o desejo mais significativo dessa proposta não é explicar, é complicar. Não bastasse, o texto está repleto de um humor fino, pouco convencional, onde nada está a salvo da ironia e da crítica. 

Álvaro Enrique
Através de uma partida de pallacorda (um esporte ancestral do tênis) entre o artista plástico italiano Michelangelo Merisi de Caravaggio, (1571-1610) e o poeta e ensaísta espanhol Francisco Gómez de Quevedo y Santibañez (1580-1645), o romance mapeia uma serie de temas paralelos, todos imprescindíveis para o adequado entendimento do inicio da modernidade: o autoritarismo político e social, a reforma protestante e a contrarreforma católica, o mecenato artístico, o surgimento da burguesia e, não menos importante, a ascensão e queda da honra cavalheiresca. Além disso, abusando da fluidez narrativa, o narrador (onisciente, em terceira pessoa, esbanjando erudição) contrapõe os atos “civilizatórios”, praticados pelos europeus, com a colonização do México.

Caravaggio (autorretrato)
Em outro plano narrativo, o chiaroscuro, que caracteriza a pintura de Caravaggio, fornece visibilidade às nuances decorrentes da luta política e econômica que é travada nos bastidores do Vaticano. A contraproposta, expressa no maneirismo reacionário da poesia e da prosa de Quevedo, procura esconder as diferenças essenciais que separam a nobreza e a população sem propriedades ou títulos nobiliárquicos. 

No meio desse turbilhão, os dois artistas em muitas coisas são semelhantes. Talvez a maior aproximação ocorra em torno da questão sexual. Em todas as páginas do romance, considerando as diferentes preferências e oportunidades, Caravaggio e Quevedo estabelecem como meta fundamental da existência levar alguém para a cama. Ou para algum canto escuro. Lugares onde possam praticar (sem interrupção) quaisquer transgressões que considerem excitantes. Evidentemente, essas ações estão conectadas com incontáveis perigos. Ou prazeres. Ou as duas coisas. E que estão representadas no duelo entre visões antagônicas de mundo que ocorre na quadra de pallacorda. Confirmando que os jogos não devem ser reduzidos a uma guerra por outros meios, a tensão sexual (Eros e Thanatos) entre os dois homens não diminui com a troca de golpes e contragolpes. Talvez, através de uma metáfora incomum, queiram expressar a ideia de que a morte e o esporte são apenas faces da mesma moeda.

Francisco de Quevedo
Enquanto os jogadores se movimentam para lá e para cá, cabeças rolam – literalmente. Os cabelos de Ana Bolena, logo após a sua decapitação, serviram de enchimento para quatro bolas de pallacorda. Outras peças capilares também se transformaram em equipamento esportivo – comprovando que a vida dos homens e das mulheres está à mercê da vontade dos reis. Ou das apostas que se multiplicam entre aqueles que estão assistindo o embate. O valor da vida (ou da honra) de um indivíduo somente pode ser aquilatado pela quantidade de dinheiro que movimenta.

Por fim, há o horror construído pelos espanhóis. Os rios de sangue produzidos pelos sofrimentos de Moctezuma II, Cuauhtémoc, Tletlepanquetza e Malitzin (além de milhares de outros corpos astecas) estabelecem uma nova hidrografia em terras mexicanas. Ao longe, a Espanha e a Igreja Católica aplaudiram a violência praticada por Hérnan Cortés de Monroy y Pizarro Altamirano, primeiro Marquês do Vale de Oaxaca (1485-1547), que, como um monstro ávido por destruição, não teve escrúpulos para extinguir uma civilização (em muitos aspectos mais avançada do que a Europa). Naquele momento histórico, nenhuma selvageria foi considerada excessiva, pois tinha como objetivo conseguir um bem maior    alguns quilos de ouro.

Hérnan Cortés
Morte Súbita, romance com raízes históricas, construído como ficção, consegue, com habilidade narrativa, embaralhar a grandiosidade da tragédia e a banalidade da comédia de costumes. 

Procurando romper com alguns paradigmas formais do discurso clássico do romance, Álvaro Enrique consegue elevar a arte literária e, em consequência, produzir um texto importante para a discussão travada pela teoria sobre o entrecruzamento entre a História e a ficção.


TRECHO ESCOLHIDO


O duque perdeu a compostura que vinha conservando a duras penas desde o início da partida ao ver como o lombardo havia encaçapada a bola no ponto anterior. Caralho, disse. Barral murmurou ao seu ouvido: Estamos bem arrumados, chefe. Nenhum dos dois jamais tinha visto uma paralela como aquela, tão veloz que era quase invisível, tão precisa que parecia, mais que ter entrado no buraco matador, ter sido tragada pelo muro.


O duque pediu tempo e chamou seu valido. O poeta continuava a sentir a vitória ao alcance da mão e estava convencido de que a fuzilada de seu oponente fora apenas fruto do acaso. Vimos como ele passou a partida inteira tentando acertar, disse ao duque, e só agora conseguiu, sem dúvida foi sorte. O duque balançou a cabeça. Barral ergueu um dedo, pedindo licença para intervir. Que é?, perguntou o chefe. Também pode ter sido encenação para nos fazer apostar tudo. Uma sombra de dúvida atravessou o rosto do poeta. O homem está morrendo de ressaca, disse; duvido que ele tenha sido capaz de aguentar a partida inteira só para ganhar uns trocados. Bah, disse o duque. Por ora, esquece o efeito no saque e manda a bola para o fundo da galeria, para que o cadoz não fique tão perto dele e tenha que lançá-la em curva.


O poeta voltou ao seu campo. Tenez! Mandou uma bola lenta e sem efeito que deveria cair como uma bexiga no canto do fundo da cobertura. Acompanhou sua ascensão e notou, desde que começou a descer, que a colocara exatamente onde queria. Ia quicar estranho, ia cair num lugar incômodo, o italiano ia ter que pegá-la num ponto distante e, com sorte, de revés.


O duque chegou a gritar: Cobre o cadoz, ao ver um brilho nos olhos o artista, que só estava esperando sua hora. Recuou sorrindo até atrás da linha de base e cruzou o braço para receber a bola de revés. O espanhol correu para o fundo. Quando viu a pedrada que vinha em sua direção, baixou a cabeça. Caccia per il milanese, disse o matemático. Ter-due

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A CIDADE & A CIDADE

Um dos aspectos mais surpreendente dos estudos literários é a falta de conexão entre a literatura e a geografia. Claro, existem os livros do Franco Moretti (Atlas do Romance Europeu, 1800-1900 e A Literatura Vista de Longe), Gaston Bachelard (A Poética do Espaço) e Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (Dicionário de Lugares Imaginários), entre outras tantas tentativas de estabelecer olhares sobre o tema. Mas, sem desprezar isto ou aquilo, há outras dimensões – e que ainda não foram desvendadas ou estudadas com a devida atenção que o tema requer. Por exemplo, a questão das estruturas geo-espaciais que assumem no interior da narrativa a importância de um personagem requer uma análise mais detalhada. Em alguns textos, mais do que um mero suporte para que o enredo possa se situar e se desenvolver, a geografia identifica (ou revela) elementos que contribuem de forma decisiva para que a verossimilhança esconda, na medida do possível, o artificialismo narrativo. O incremento ficcional (para quem escreve, para quem lê) adquire um valor inestimável. 

China Tom Miéville (nascido em 1972) 
O inglês China Tom Miéville, um dos nomes mais importantes da new weird (um subgênero da literatura de fantasia, de cunho realista, que orbita em torno da ficção científica e das narrativas de horror), forneceu significativa contribuição para o tema com o romance A Cidade & A Cidade.

As cidades gêmeas de Besźel e Ul Qoma, situadas em lugar impreciso na Europa Oriental, estão sobrepostas. Embora constituam nações independentes, com línguas (besź e illitano), sistemas políticos e econômicos diferentes, há uma zona (in)comum, um espaço físico em que a área urbana de uma se confunde com a de outra. A simetria siamesa se sustenta em um conjunto de regras (procedimentos, comportamentos) que precisam ser obedecidos para que cada uma delas conserve a identidade e as características que lhe são peculiares – embora os componentes especulares mostrem que cada uma das cidades é similar à outra (mesmo nos momentos em que são diferentes).

Os habitantes de cada uma das cidades (não importa qual) precisam “desver” os habitantes da outra cidade. A sobrevivência dos indivíduos está ligada ao conceito de não-existência do Outro. Reconhecer a presença daquele que está (sem estar) ao lado implica em severa punição. Qualquer relação com o paradoxo de Schrödinger não deve ser entendida como mera coincidência. 

Somente aqueles que possuem algum tipo de interesse (comercial, político, acadêmico) no outro lado recebem permissão para, através de Copula Hall, única conexão legal entre as duas cidades, atravessar a fronteira – passaportes e vistos são exigidos.

O fio narrativo de ”A Cidade & A Cidade está alicerçado em uma morte – Mahalia Geary, uma estudante de arqueologia, foi assassinada em Ul Qoma e o seu cadáver foi encontrado em Besźel. A possibilidade de ter ocorrido uma “brecha” (uma transgressão) não pode ser omitida. Cabe ao Inspetor do Esquadrão de Crimes Hediondos Tyador Borlú (protagonista e narrador do romance) desvendar esse mistério. Ao longo da investigação, que transcorre nas duas cidades, há um desfile de personagens dos mais variados matizes ideológicos. A política (seja de unificação das duas cidades, seja de distanciamento físico e geográfico) se mostra onipresente. Com o passar do tempo, Borlú descobre que, diante do que está em jogo, a morte de Mahalia não têm a mínima importância.

A aplicação implacável de um sistema jurídico recíproco garante relativo equilíbrio na história de rivalidades e agressões mútuas entre as duas cidades. Dependendo da gravidade da brecha, cabe invocar a Brecha (assim, com letra maiúscula), ou seja, torna-se necessário delegar autoridade para que um dispositivo militar resolva, sumariamente, a questão. Inexplicavelmente, com a morte de Mahalia Geary, que constitui uma evidente infração do código social, o uso desse mecanismo não é permitido pela Comissão de Supervisão. Resta a Borlú prosseguir na investigação ou encerrar o caso, considerando-o como insolúvel.

Com fortes tons kafkanianos, A Cidade & A Cidade evoca a metáfora mitológica do labirinto – “topos” de caráter artificial, construído para que o indivíduo se confunda em sua jornada e tenha dificuldade para encontrar a saída da situação opressiva em que se encontra. Entre Besźel e Ul Qoma, a localização indeterminada contamina a existência daqueles que precisam transitar pelas ruas, praças e edifícios que instituem o território urbano das duas cidades. Em cada um dos lados da fronteira, em ambiente pouco amistoso, o espaço físico (via de deslocamento de personagens como Tyador Borlú, Lizbyet Corwi, Qussim Dhatt, David Bowden e Yolanda Rodriguez) se mostra decisivo para que a narrativa tenha fluência e desenvolvimento.

Ao final da leitura das 289 páginas que constituem A Cidade & A Cidade talvez seja necessário concluir, por diversos motivos, principalmente os políticos, que não há nada mais próximo da realidade do que a ficção.


TRECHO ESCOLHIDO


Aquele fedor de insinuação e mistério – por mais cínico ou desinteressado que você se considerasse, ele impregnava você. eu vi Corwi olhar para cima e para as fachadas pobres dos armazéns quando fomos embora. Talvez vendo um pouco demais na direção de uma loja que ela devia perceber que estava em Ul Qoma. Ela se sentiu vigiada. Nós dois nos sentimos, e estávamos certos, e nervosos.


Quando saímos, levei Corwi – uma provocação, confesso, embora não para ela, mas para o universos, de certo modo – para almoçar na pequena Ul Qomatown de Besźel. Ficava ao sul do parque. Com as cores e escritas particulares das vitrines de suas lojas, a forma de suas fachadas, os visitantes de Besźel que a viam sempre achavam que estavam olhando para Ul Qoma e desviavam o olhar com pressa e ostentação (o mais perto que os estrangeiros chegavam de desver). Mas com um olho mais cuidadoso, experiência, você repara no tipo de kitsch apertado do design dos edifícios, uma autoparódia anã. Você consegue ver os detalhes num tom chamado azul-Besźel, uma das cores ilegais em Ul Qoma. Essas propriedades são locais.


Essas poucas ruas – nomes mestiços, substantivos illitanos e um sufixo besź, YulSainStráz, LiligiStráz e assim por diante – eram o centro do mundo cultural para a pequena comunidade de expatriados ul-qomanos vivendo em Besźel. Eles tinham vindo por diversos motivos: perseguição política, autoaprimoramento econômico (e, como os patriarcas que haviam passado pelas consideráveis dificuldades da emigração, eles deviam estar amargando isso agora), capricho, romance. A maioria dos que têm quarenta anos ou menos é da segunda e agora terceira geração, fala illitano em casa, mas besź sem sotaque nas ruas. Há talvez uma influência ul-qomana em suas roupas. Várias vezes, valentões locais ou coisa pior quebram suas janelas e batem neles nas ruas. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

DIAS DE ABANDONO

A escritora italiana Elena Ferrante, cujo nome verdadeiro ninguém sabe qual é, escreveu um livro assustador: Dias de Abandono. A célebre autora da tetralogia Série Napolitana (somente foram publicados no Brasil os dois primeiros volumes, A Amiga Genial e História do Novo Sobrenome) mergulhou – com a perícia de um cirurgião – nas trevas produzidas pela desestruturação emocional. Em apenas 183 páginas, Olga (que acumula a dupla função de protagonista e narradora) descreve – com cores fortes e realistas – o instante em que ela, a personagem, atinge o grau máximo da alienação. A causa? Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. A simplicidade da informação contida na frase inicial do romance contrasta com a intensidade com que Olga transmite (através da narração) o seu sofrimento – imagem especular de outra história, ocorrida trinta anos antes, quando uma vizinha de Olga enlouqueceu, depois de ser abandonada pelo marido: (...) quando você não sabe segurar um homem perde tudo, (...), o que acontece quando, plena de amor, você não é mais amada, é deixada sem nada. A mulher perdeu tudo, até o nome (talvez se chamasse Emilia), se tornou para todos “a pobre coitada”, começamos a falar dela chamando-a desse jeito. A pobre coitada chorava, a pobre coitada gritava, a pobre coitada sofria, dilacerada pela ausência do homem vermelho suado, com olhos verdes de perfídia.

Dias de Abandono foi construído como um exercício prático das sutilezas que envolvem a tessitura da linguagem. O uso exagerado da emoção consegue vedar o artificialismo do discurso literário. Os lamentos de Olga são, na medida do possível, os lamentos do leitor – que, em muitos momentos, está impedido de escolher entre a empatia e a irritação. Parte dessa sensação está expressa sob a forma de monólogo interior – que se assemelha a uma conversa entre amigos, dessas em que há trocas de confidências, em que há o lastimar do amargor da vida.

Sem o marido, Olga precisa tomar conta dos dois filhos (Gianni e Ilaria) e de um pastor alemão (Otto). Não consegue. A mágoa, o rancor e as lembranças de um passado que ela julga ter sido feliz não permitem – principalmente depois que descobriu que Mário, o marido, a trocou por Carla (dezoito anos mais nova). Esse conjunto de sentimentos ruins é macerado – lentamente – ao longo dos dias. Movida pelo fel da loucura, Olga perde o controle. Passa a viver em um mundo particular, catatônico, onde a tristeza é a única companhia permitida. A apatia se torna uma constante.

Esses momentos estão repletos de cenas agressivas. Olga imagina que o marido está realizando com a amante todas as variantes sexuais que nunca praticou com ela. E comenta essa desgraça com detalhes. Obviamente, o desvario somente serve para ampliar a depressão. A realidade (a realidade que ela pode perceber) se transforma em névoa, lugar onde todos os indivíduos se transformam em figuras pastosas, sem identidade. E isso também vale para os filhos e o cachorro.

Como sair dessa situação? Difícil propor algum antídoto. Mesmo quando Olga resolve dar um basta, (...) tentei voltar aos gestos de sempre, como um doente que esteve por muito tempo no hospital e, também para superar o medo de adoecer novamente, deseja ancorar-se novamente à vida dos sadios, isso não parece ser suficiente. Algumas feridas jamais cicatrizam.

Dias de Abandono não é um romance fácil de ler. Talvez seja um romance fácil de arremessar contra a parede – embora me pareça inevitável retomar a leitura, dez minutos depois. Afinal, gostar de literatura significa não ter medo do que é incômodo.


TRECHO ESCOLHIDO


Reagir. Me pus a botar as coisas em ordem. Quando terminei, recomecei novamente, uma forma de ronda à caça de tudo aquilo que não parecesse estar em ordem. Lucidez, determinação, segurar-se à vida. No banheiro encontrei o caos de sempre entre os remédios. Sentei-me no chão e passei a separar os remédios vencidos dos que ainda estavam valendo. Quando todos os remédios inutilizáveis acabaram no lixo e o armário ficou em perfeita ordem, escolhi duas caixas de comprimidos para dormir e levei-as para a sala. Coloquei-as sobre a mesa, servi-me um copo bem cheio de conhaque. Com o copo numa mão e a palma da outra cheia de Rivotril fui até a janela, pela qual entrava só um sopro úmido de calor vindo do rio, das árvores.

Tudo era tão casual. Apaixonei-me por Mario quando jovem, mas poderia ter me apaixonado por qualquer um, um corpo qualquer ao qual atribuímos sabe-se lá quais significados. Um longo pedaço de vida juntos, e você já acredita que ele é o único homem com quem pode se sentir bem, atribui-lhe sabe-se lá quais virtudes decisivas, e em vez disso ele é só uma flauta que emite sons de falsidade, você não sabe realmente quem é, nem ele mesmo. Somos ocasião. Consumimos e perdemos a vida porque um qualquer, em tempos longínquos, por vontade de descarregar o pau dentro de nós, foi gentil, nos escolheu entre as mulheres. Trocamos não sei por qual cortesia dedicada exclusivamente a nós o desejo banal de foder. Amamos sua vontade de trepar, sentindo-nos tão cegas a ponto de pensar que seja a vontade de trepar conosco, só conosco. Oh sim, ele que é tão especial e que nos reconhece como especial. Damos um nome àquela vontade de pinto, a personalizamos, e a chamamos de meu amor. Para o inferno tudo, essa cegueira, esse tesão infundado. Como no passado fodia comigo, agora fode com a outra, o que posso querer? O tempo passa, uma vai, a outra vem. Estava por engolir algumas pílulas, queria dormir deitada sobre o fundo mais sombrio de mim mesma.