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terça-feira, 28 de março de 2017

MANCHESTER À BEIRA-MAR

Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea. Dir. Kenneth Lonergan, 2016) conta uma história trágica – em diversos níveis. No entanto, foge da classificação de melodrama clássico, desses que se concentram em uma serie de desastres e que procuram mostrar o que há de mais desagradável nos indivíduos.

Gravitando em torno de dois temas cruciais, a culpa e a paternidade, Manchester à Beira-Mar revela a impossibilidade de fazer uma boa escolha quando o que está em jogo oscila entre a herança e a dívida. Qualquer alternativa gera o conflito e as suas consequências (que nunca são amenas).

A melhor qualidade do filme está na maneira humana com que a dor é abordada. O trauma se apresenta de forma lenta, sem explosões catárticas – o único sinal emocional identificável no rosto do protagonista, Lee Chandler (Casey Affleck) é a tristeza – e que é ampliada pela situação climática. O inverno rigoroso serve de metáfora para o isolamento, a falta de afeto, a impossibilidade da reconstrução emocional, a vulnerabilidade (mas também a força) dos personagens.

Lee mora em Boston, trabalha com zelador de um condomínio e é impiedoso consigo mesmo – em alguns momentos, autodestrutivo. Ligado afetivamente com o irmão e o sobrinho, visita os dois com alguma frequência. Joseph “Joe” Chandler (Kyle Chandler) possui um barco de pesca e mora com o filho adolescente, Patrick (Lucas Hedges), em Manchester, litoral de Massachusetts.

Lee, ao receber a notícia da morte do irmão (que sofria de uma doença cardíaca incurável), volta para Manchester. Cabe-lhe providenciar o enterro e, durante algum tempo, cuidar do sobrinho. Alguns dias depois, na leitura do testamento, ele descobre que Joe lhe deixou a responsabilidade de cuidar de Patrick  até que o rapaz complete 21 anos. Infelizmente, essa não é uma boa notícia. Por diversos motivos. A principal: Lee não têm condições psicológicas para assumir a responsabilidade. A culpa, em função de uma desgraça ocorrida algum tempo antes, o impede.

Além disso, Lee não tem a mínima vontade de se tornar uma espécie de pai temporário do sobrinho. No máximo, aceita ser um amigo. E é assim que ele trata Patrick: levando-o para lá e para cá, deixando-o ter relações sexuais com as duas namoradas, equipando o barco com um novo motor, aceitando que o rapaz não vá para a faculdade. São decisões relacionadas com a ausência de compromisso. Simultaneamente, revelam o uso de um mecanismo inconsciente de afastamento da perfilhação.

Diante da realidade concreta, Lee prefere se mostrar insensível a qualquer emoção. Ele não quer superar o luto, prefere continuar dialogando com os mortos. E se utiliza da violência para abraçar a melancolia. Quando vai beber em bares costuma se envolver em brigas físicas – muitas sem motivo aparente. Nesses momentos, o desejo de autopunição supera a ataraxia (apatia, indiferença). Quando a ex-esposa (que está casada com outro) o procura para conversar sobre o trauma que atingiu os dois e, simultaneamente, pedir desculpas pelas coisas que disse naquele momento, o desconforto se manifesta de forma inequívoca. Ele não quer deixar o passado morrer – quer continuar vivendo sozinho, quer continuar macerando a punição por seu pecado.

Do ponto de vista da carpintaria fílmica, a narrativa de Manchester à Beira-Mar têm como base o tempo presente – auxiliado por várias intervenções de um passado que não cessa de voltar à tona. A memória estilhaçada e desordenada (potencializada pelo uso do flash-back) permite contrastar o antes e o agora. Desta maneira, a fórmula narrativa descontínua (que também é lúdica) auxilia o espectador na visualização do drama – e de toda a sua extensão.

Manchester à Beira-Mar recebeu vários prêmios internacionais, inclusive dois Oscar: Melhor Ator (Casey Affleck) e Melhor Roteiro Original (Kenneth Lonergan). 

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