O
primeiro amor costuma criar lembranças eternas. Carlos, o narrador de As
batalhas do deserto, de José Emilio Pacheco (Editora Pinard, 2026. Tradução
de Ari Roitman) se apaixonou pela mãe de Jim, um amigo da escola. O maior
problema não está na transgressão das normas sociais, na traição aos rituais da
amizade, ou na declaração amorosa – o que incomoda é a diferença de idade. O
menino ainda não entrou na adolescência – a mulher tem 28 anos.
Ao
recordar a situação, Carlos afirma Que estupidez eu me meter numa encrenca
que poderia ter evitado simplesmente desistindo de fazer a minha imbecil
declaração de amor. Tarde demais para me arrepender: fiz o que tinha que fazer
e, mesmo agora, tantos anos depois, não vou negar que me apaixonei por Mariana.
Na
impossibilidade de impedir o fluxo dos acontecimentos, o episódio se transforma
em grande escândalo familiar e escolar. Tudo mundo fica sabendo da audácia do
garoto. A família o retira da escola e, entre os diversos procedimentos para “curar”
o desatino, o leva à igreja – no confessionário, os argumentos usados pelo
padre são os dos adultos, pessoas incapazes de entender o contexto platônico da
paixão. Em contrapartida, o psiquiatra não encontra dificuldade para
interpretar a situação e decreta: o menino é espertíssimo e
extraordinariamente precoce, tanto que aos quinze anos poderia se tornar um
idiota completo. (...) Está buscando o afeto que não encontra na família.
Hector,
guiado pelas ilusões do machismo, não se controla e cumprimenta o irmão mais
novo: Que maravilha, Carlinhos! Achei incrível esse teu lance! Nossa, com a
tua idade ir paquerar aquela dona que é um verdadeiro pedaço de mau caminho...
mais boazuda que a Rita Hayworth, com certeza!
Nem imagino o que você vai aprontar quando crescer, seu danado.
Essas opiniões divergentes só servem para constatar que ninguém conseguiu
entender o que aconteceu. Falta acolhimento, empatia, compreensão. Sobra
preconceito. Negam os benefícios da escolha afetiva (aflitiva) que é estar
apaixonado.
Se
o tempo cura todas dores, Carlos só conseguiu amarrar as pontas que ficaram
soltas quando, ao retornar da aula de tênis, encontra outro colega da escola
antiga, Rosales, que lhe conta a parte da história que lhe foi subtraída.
Mariana (depois de brigar com o amante) se suicidou, Jim foi morar em Estados
Unidos, os pobres continuavam pobres (diferente da prosperidade da família de
Carlos) e todos estavam tentando sobreviver na medida do possível.
Que
antiga, que remota, que impossível é esta história. Mas Mariana existiu, Jim
existiu, tudo aquilo que eu repetia para mim mesmo, depois de tanto tempo me
recusando a enfrentar, existiu mesmo. Jamais vou saber se o suicídio foi real. Nunca
mais vi Rosales, nem mais ninguém daquela época. Demoliram a escola, demoliram
o edifício de Mariana, demoliram a minha casa. (...) Acabou aquela cidade. Aquele
país terminou. Não há mais memória do México daqueles anos. E ninguém ligou:
quem vai ter saudade daquele horror? Tudo passou, como os discos passam um
atrás do outro em um jukebox. Nunca vou saber se Mariana está viva. Se estiver,
teria hoje oitenta anos.
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| José Emilio Pacheco (1939-2014) |


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