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sexta-feira, 12 de junho de 2026

AS BATALHAS NO DESERTO

 


O primeiro amor costuma criar lembranças eternas. Carlos, o narrador de As batalhas do deserto, de José Emilio Pacheco (Editora Pinard, 2026. Tradução de Ari Roitman) se apaixonou pela mãe de Jim, um amigo da escola. O maior problema não está na transgressão das normas sociais, na traição aos rituais da amizade, ou na declaração amorosa – o que incomoda é a diferença de idade. O menino ainda não entrou na adolescência – a mulher tem 28 anos.

Ao recordar a situação, Carlos afirma Que estupidez eu me meter numa encrenca que poderia ter evitado simplesmente desistindo de fazer a minha imbecil declaração de amor. Tarde demais para me arrepender: fiz o que tinha que fazer e, mesmo agora, tantos anos depois, não vou negar que me apaixonei por Mariana.

Na impossibilidade de impedir o fluxo dos acontecimentos, o episódio se transforma em grande escândalo familiar e escolar. Tudo mundo fica sabendo da audácia do garoto. A família o retira da escola e, entre os diversos procedimentos para “curar” o desatino, o leva à igreja – no confessionário, os argumentos usados pelo padre são os dos adultos, pessoas incapazes de entender o contexto platônico da paixão. Em contrapartida, o psiquiatra não encontra dificuldade para interpretar a situação e decreta: o menino é espertíssimo e extraordinariamente precoce, tanto que aos quinze anos poderia se tornar um idiota completo. (...) Está buscando o afeto que não encontra na família.

Hector, guiado pelas ilusões do machismo, não se controla e cumprimenta o irmão mais novo: Que maravilha, Carlinhos! Achei incrível esse teu lance! Nossa, com a tua idade ir paquerar aquela dona que é um verdadeiro pedaço de mau caminho... mais boazuda que a Rita Hayworth, com certeza!  Nem imagino o que você vai aprontar quando crescer, seu danado.

Essas opiniões divergentes só servem para constatar que ninguém conseguiu entender o que aconteceu. Falta acolhimento, empatia, compreensão. Sobra preconceito. Negam os benefícios da escolha afetiva (aflitiva) que é estar apaixonado.     

Se o tempo cura todas dores, Carlos só conseguiu amarrar as pontas que ficaram soltas quando, ao retornar da aula de tênis, encontra outro colega da escola antiga, Rosales, que lhe conta a parte da história que lhe foi subtraída. Mariana (depois de brigar com o amante) se suicidou, Jim foi morar em Estados Unidos, os pobres continuavam pobres (diferente da prosperidade da família de Carlos) e todos estavam tentando sobreviver na medida do possível.

Que antiga, que remota, que impossível é esta história. Mas Mariana existiu, Jim existiu, tudo aquilo que eu repetia para mim mesmo, depois de tanto tempo me recusando a enfrentar, existiu mesmo. Jamais vou saber se o suicídio foi real. Nunca mais vi Rosales, nem mais ninguém daquela época. Demoliram a escola, demoliram o edifício de Mariana, demoliram a minha casa. (...) Acabou aquela cidade. Aquele país terminou. Não há mais memória do México daqueles anos. E ninguém ligou: quem vai ter saudade daquele horror? Tudo passou, como os discos passam um atrás do outro em um jukebox. Nunca vou saber se Mariana está viva. Se estiver, teria hoje oitenta anos.          


José Emilio Pacheco (1939-2014) 

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