A
capacidade de atrair a atenção do leitor – da primeira à última página. O romance
policial Crime no Copan, de Victor Bonini (Editora Companhia das Letras,
2026), consegue executar essa façanha com singular competência.
Tendo como cenário um dos pontos icônicos de São Paulo, o livro começa com duas mortes interligadas e vai se desenvolvendo através de uma névoa de acontecimentos pouco usuais e pela miríade de personagens singulares: o síndico canalha, a artista plástica desesperada, o casal em crise conjugal, os trabalhadores sexuais, as velhinhas inofensivas, a transsexual que realiza ações sociais, o matador profissional, a policial desvalorizada pelo delegado e que quer recuperar a dignidade perdida.
Nessa salada de sabor duvidoso, em que todos os envolvidos na trama possuem vida dupla, culpa e arrependimento, o tempo pretérito (flutuando no rio da memória) se mostra como um dos grandes personagens da narrativa. Algumas situações são apenas o suporte para as diversas reviravoltas narrativas. O que importa mesmo está misturado nos períodos cronológicos (o passado e o presente narrativo).
Narrativa que privilegia o espaço físico em detrimento dos múltiplos personagens, há pouco espaço para o individualismo. Em cada cena, alguém se destaca, mas não o suficiente para ser considerado como protagonista geral. O esqueleto narrativo vai adquirindo substância aos olhos do leitor enquanto vários segredos são revelados. Em ritmo vertiginoso, cada página expõe um pecado ou instala uma dúvida. O contraste entre os períodos que envolvem o governo militar e a democratização vai escorrendo pelo texto na medida em que a situação se complica – é no emaranhado de fios da novela que são projetadas algumas luzes e muitas sombras. O aparente e o real se confundem e predomina o que os olhos percebem – nunca o que está escondido. No interstício entre uma coisa e outra são projetadas as fragilidades das instituições, as desigualdades de gênero e a violência. A desumanidade é um espetáculo difícil de assistir.
Ao fazer um estudo sobre a maldade – que está entranhada no ser humano – o romance comprova que ninguém está a salvo. O conflito constante – que determina a ordem geral dos acontecimentos – vai estabelecendo um espelho social de grande importância. Mais que refletir o cerne de um país repleto de contradições – e que nunca quis aprender as lições da história –, os novos arranjos (mutatis mutandis) no andamento dramático projetam o desfecho – que em tudo se assemelha a um novelão, desses que fariam (fazem) as delícias dos espectadores do horário nobre da televisão. A tragédia se transforma em farsa e a farsa ameniza a tragédia. O “jeitinho”, instituição nacional, surge nas últimas páginas. A verossimilhança deixa de existir. De certa forma, a verdade nunca se mostra significativa (seja no contexto real, seja na literatura). As versões se impõem e estabelecem uma nova ordem narrativa.
Entre
as pontas soltas em Crime no Copan, ficou faltando uma conexão mais
efetiva entre o gato e as balas de hortelã. São elementos que serviram para
introduzir sutilmente um pouco de suspense e depois perderam a importância (ou
foram esquecidos). Talvez esse seja um dos pontos fracos do texto. Existem
outros, mas somente o leitor ideal consegue identificá-los. O leitor comum
procura entretenimento e isso está presente em quantidade e qualidade em Crime
no Copan.
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| Victor Bonini |

