Confesso: nunca fui fã de estudar teoria literária. O pouco que sei está mais relacionado com a obrigação acadêmica do que com o gostar. E isso vale principalmente para a poesia. Obviamente li o ABC da Literatura (Editora Cultrix, 2014), do Ezra Pound, e meia dúzia de manuais sobre o ofício. Esse caminho foi percorrido com um pouco de desânimo. Prefiro a linguagem coloquial, o “achado” e a fuga das formas e fórmulas canônicas (que são importantes, não nego). Meu olhar filtra o cotidiano e nele se espelha. Mas nunca sei quando devo me aproximar ou me afastar do versejar (velejar nesse mar de livros). De qualquer forma, cabe esclarecer que sou da turma simpática ao Manuel Bandeira, ao Oswald de Andrade e à geração mimeógrafo (poesia marginal) – isso significa que os românticos, parnasianos e outros passadistas não estão no meu radar (eles são importantes, mas não para mim).
No
ano passado, uma recaída. Quer dizer... Uma pequena correção no percurso. Li
(devagar e com atenção) o ensaio O ódio pela poesia, do Ben Lerner
(Editora Fósforo, 2025. Tradução de Leonardo Fróes). O texto coloca em
perspectivas inúmeras questões sobre o significado da leitura e da produção
poética. No parágrafo final, um resumo: Tudo o que peço aos odiadores – dos
quais eu, também, sou um – é que se esforcem para aperfeiçoar seu desprezo,
pensando em levá-lo a se relacionar a poemas, em que ele será aprofundado, não
dispersado, e em que, criando um lugar para a possibilidade e as ausências
presentes (como as melodias não ouvidas), ele possa chegar a se parecer com
amor.
No último mês, mergulhei, com certo atraso, em Pensar com as mãos, da Marília Garcia (Editora WMF Martins Fontes, 2025). São artigos publicados em revistas, jornais e sites sobre os itinerários da escrita, as influências (sem angústia) dos poetas, as dificuldades da tradução, as fendas entre o que se vê e o que se esconde e, sobretudo, a percepção de que, na bolsa de valores culturais (e há tanto tempo que é difícil mensurar), o poema ocupa um lugar de “crise”, lugar de perpétua desvalorização.
Escrever é uma forma de “pensar com as mãos”, como propõe Jean-Luc Godard? Foi essa a pergunta que fiz antes de começar a leitura. Ainda não sei a resposta. Talvez não exista. Ou talvez se deva seguir pela trilha proposta por Marília: Escrever é olhar com as mãos, manejar, moldar, pensar, procurar as frases (como em Pierre Alferi), anotar os versos, experimentar, testar. Com o livro nas mãos, muitas vezes “pensei” sobre o que li.
Ao usar fragmentos de diversos poemas como ilustração para desenvolver os temas (voz narrativa, in medias res, limites da linguagem, memória, confronto entre imagem e palavra, eu e o outro, desgaste de certas expressões), Marília amplia o diálogo poeta/leitor e, de forma transversal, emite convite para conhecer os poemas e os poetas citados. Não por acaso Wisɬawa Szymborska, Carlos Drummond de Andrade, os irmãos Campos, Paulo Leminski, Wystan Hugh Auden, William Carlos Willians, Charles Baudelaire, entre outros, são referências basilares para quem deseja (con)viver com a poesia. E isso significa – para todos nós – que o exercício poético precisa estar escorado naqueles que contribuíram para a formação da história da literatura. Somente assim (como Marília se refere afetuosamente aos versos de Adília Lopes), uma nova voz entra em circulação dentro do corpo poético de uma língua trazendo elementos estranhos a ela e produzindo, ao mesmo tempo, algumas reverberações.
Ao destacar aspectos da poesia de Alice Sant’Anna, Ledusha, Chico Alvin, Cacaso, Victor Heringer – todos, com perdão da licença poética, contemporâneos – Marília Garcia revela que a poesia, a filosofia e a cultura constroem um ponto de convergência, um encontro entre amigos, uma dessas conversas que se estendem pela tarde, sem se importar com a aproximação da noite ou com o chamado para outras atividades.
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| Marília Garcia (foto de Renato Parada / divulgação) |



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