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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

HISTÓRIAS SOBRE A VELHICE

Apesar dos progressos da medicina moderna, e por trezentas razões diferentes, poucas pessoas conseguem envelhecer com dignidade. Por mais contraditório que pareça, viver está relacionado com centenas de doenças, complicações amorosas, violências despropositadas, incontáveis acidentes, decepções que se somam com outras decepções. Quando o indivíduo consegue alcançar a melhor idade (que é como os cínicos definem a velhice), provavelmente só lhe restará na memória centenas de histórias amargas (muitas vezes inconclusas), milhares de ressentimentos e a solidão − o abandono afetivo familiar protagoniza o inevitável grand finale burguês.

O senador romano Marco Túlio Cícero, cerca de cem anos antes de Cristo, escreveu:

(...) vejo quatro razões para acharem a velhice detestável: 1) Ela nos afasta da vida ativa. 2) Ela enfraquece nosso corpo. 3) Ela nos privaria dos melhores prazeres. 4) Ela nos aproxima da morte.

Todos esses motivos continuam válidos dois mil anos depois, como percebe o narrador de Homem Comum (Philip Roth), quando descreve o destino de seu protagonista: Quando voltou ao hospital para fazer o check−up anual das carótidas, o exame de ultra−som revelou que a segunda carótida estava seriamente estenosada e requeria cirurgia.

Depois que inicia o entra e sai dos hospitais não é mais possível ambicionar uma vida plena, pois as dores excruciantes somadas à impotência diante do inevitável indicam que o corpo nunca mais responderá a certos estímulos e incertos desejos – ou, em hipótese muito mais cruel, está impedido de acessá−los. A presença opressora da indesejada das gentes não pode mais ser negada, não pode mais ser evitada.

Essa percepção do pesadelo está presente nas historias protagonizadas por Santiago (O Velho e o Mar, Ernest Hemingway), Gustav Aschenbach (Morte em Veneza, Thomas Mann) e Alieksiéi Fiodorovitch Karamázov (Os Irmãos Karamázov, Fiodor M. Dostoiévski). Em oposição a esse aspecto sombrio da velhice, como se fosse necessário aliviar o incomodo, poucos idosos conseguem mostrar o bom humor de Barney Panofsky (A Versão de Barney, Mordecai Richler) ou a dignidade aristocrática de Fabrizio Corbera, Príncipe de Salinas (O Leopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa). Em alguns momentos, a negação da velhice está atrelada ao esforço sexual, último gesto de resistência à decadência física (A Casa das Belas Adormecidas, Yasunari Kawabata; Memórias de Minhas Putas Tristes, Gabriel García Márquez). Casos extremos de indignação são protagonizados por aqueles que ainda dispõem de energia para narrar o horror que os cercam, como o homem que está sentado em uma bergère, em uma festa em Viena (Árvores Abatidas, Thomas Bernhard).

Não são muito comuns os casos em que as tumultuadas etapas da vida de um personagem deságuam na velhice. John Updike não se constrangeu em revelar, lentamente, diante dos olhos do leitor, a ruína física e mental de Harry Angstrom nos quatro volumes que compõem a Tetralogia Rabbit, além de uma pequena novela. O mesmo destino é reservado para Nathan Zuckerman, alter−ego de Philip Roth, que aparece em diferentes etapas de sua vida, em diversos romances. Zuckerman somente Vai embora para sempre na página final de O Fantasma Sai de Cena.

Em Senilidade (Ítalo Svevo), O Planeta do Sr. Sammler (Saul Bellow) ou Memorial de Aires (Machado de Assis), o percurso literário revela que a velhice pode ser entendida como uma espécie de ato de teimosia contra o esquecimento, contra o desaparecimento da pessoa física da memória social.

Duas coleções de contos específicos sobre a velhice procuram mapear as diversas circunstâncias (indeléveis, minúsculas, patéticas) que antecede ao momento em que o homem feito de pó ao pó voltará.

O nome do escritor estadunidense James Salter, nascido em 1926, não costuma freqüentar as páginas literárias brasileiras. Embora seja autor de considerável quantidade de narrativas, somente foi publicado no Brasil em 1997. Mesmo assim, o excelente romance Um Esporte e Um Passatempo (escrito em 1967) continua quase desconhecido.

Editado como uma coletânea qualitativa da produção de James Salter, o livro Última Noite e Outros Contos está centralizado no colapso físico e psicológico de diversos personagens. Em catorze narrativas, todas muito diferentes entre si, embora abordem variações do mesmo tema, James Salter, com um estilo que explora as sutilezas mais inesperadas, não perdoa a inevitável decadência corporal e, na medida do possível, concilia as descrições com diálogos de grande agilidade. Para alguns dos personagens desses contos, a desgraça não faz parte de suas vidas. Por algum motivo alheio às suas vontades, em algum momento, precisam acordar do estado de letargia e encarar a realidade (muitas vezes cruel, sempre impiedosa). Em outros momentos, quem aparece em cena são personagens que vivem e revivem das lembranças (de um tempo que acreditam ter sido melhor do que o presente).

A aparência das pessoas não corresponde à lembrança que se guarda delas, diz o narrador de Bangcoc, uma história reminiscente sobre o desencontro amoroso. Escrita em tom áspero, em ritmo lavar a roupa suja fora de casa, parece concluir que o amor se dissolve no tempo, na mesma proporção como que o esquecimento vai devorando alguns poemas. Esse descolamento da realidade também aparece em Arlington, uma versão realista da guerra travada diariamente entre os homens e as mulheres, momento em que fica comprovado − de forma inequívoca − a tolice masculina. Em Crepúsculo, o tema permanece, mas a nuance é de outro matiz. O horror de ser abandonada pela segunda vez amplia o número de cicatrizes emocionais que a Sra. Chandler coleciona. Foi até o espelho e olhou friamente para seu próprio rosto. Quarenta e seis. Estava escrito ali, no pescoço e atrás dos olhos. Jamais seria mais jovem. Devia ter implorado, pensou. Devia ter dito tudo o que estava sentindo, tudo que de repente lhe apertou o coração. O verão, com a esperança e os dias compridos, chegara ao fim. Sentia ímpetos de segui−lo, de passar de carro diante de sua casa. As luzes estariam acesas. Ela veria alguém pela janela.

A vida e a morte trocam acenos − como se fossem amigas que se reencontram – em Akhnilo. Essa afabilidade também se apresenta em Vinte Minutos, história de uma mulher que, depois de cair do cavalo, machucada, sem poder se mexer, relembra alguns episódios de sua vida amorosa. O socorro chega tarde demais – incapaz de consertar os estragos. A crueldade devastadora mostra a face mais sombria em Tão Divertido, momento em que três amigas dos tempos de faculdade se reencontram. O ato de celebrar a amizade congela as questões vitais, ignora a chegada sorrateira da morte (para uma delas – que está com câncer). O fim da vida (em vários sentidos) também é o tema de Última Noite. Ao saber que está com câncer terminal, esposa solicita que o marido a ajude com os procedimentos de eutanásia. Uma noite, depois de um jantar em um restaurante, na companhia de uma amiga da família, os três voltam para casa. Realizam o procedimento. Enquanto a esposa fica sozinha no quarto, aguardando o desfecho, o esposo vai se encontrar com a outra mulher. Acabam na cama. Na manhã seguinte, são acordados pela esposa. Houve algum erro com a injeção. A amante pega as roupas e vai embora, visivelmente envergonhada. Foi assim que ela e Walter se separaram depois de terem sido descobertos pela mulher. Encontraram−se duas ou três vezes depois, mas sem sucesso. Perdera−se o vínculo que une as pessoas. Ela lhe disse que não podia fazer nada. Só isso.

O inglês Julian Barnes trabalha em outra faixa de linguagem. Manejando a acidez do humor britânico, ele não perdoa ninguém. Principalmente quando seus personagens se aproximam da morte. A velhice transforma a perversidade em elemento natural. A coletânea Um Toque de Limão abriga onze contos e alguns momentos hilários. Um dos mais significativos está em Vigilância, quando um homossexual excêntrico despeja o seu horror contra os bárbaros que vão aos concertos e tossem, espirram, conversam durante a música. Pedagógico, distribui balas de menta, repreende os infratores, agride os reincidentes. Tudo é uma questão de respeito, não é? E se você não tem, alguém tem que ensiná−lo a ter. A verdadeira prova, a única prova à que temos de nos submeter, é se estamos nos tornando mais civilizados ou se não estamos. Vocês não concordariam?

Outro conto aniquilador é Higiene, a história de um militar veterano que aproveita a viagem a Londres (encontro anual de seu regimento) para visitar uma prostituta. A situação grotesca se torna ainda pior quando o homem percebe que sua "amiga" favorita morreu (de velhice!) e que, nos últimos anos, eles não faziam mais sexo – o que ele gostava em Babs era a paciência, as conversas, o ligeiro ar familiar, elementos sociais que renovavam a energia para poder voltar para a casa, no interior da Inglaterra. Estóico, aceita que O jantar do regimento consistiria, cada vez mais, em ver quem não estava mais lá, em vez de quem estava.

A História de Mats Israelson estabelece tom diferenciado, melancólico, para a tragédia amorosa. Anders Bodén, casado com Gertrud, se apaixona por Barbro, esposa de Axel Lindwall. Os anos passam, os filhos de cada casal crescem, o vazio se torna mais doloroso, o que não é dito se torna explicito, embora ninguém ouse pronunciar o que a todos é de pleno conhecimento. A resignação assume o proscênio e engole qualquer tentativa de consertar o que não pode mais ser concertado.

Para algumas culturas orientais, o limão é um símbolo da morte. Alegrem−se! A morte está logo ali, dobrando a esquina!, festeja o narrador de O Silêncio, conto em que o universo da música clássica (forma artística próxima da extinção) transita airosamente. Ao mesmo tempo, o limão pode modificar o sabor dos alimentos, eliminar o insípido, fornecer substância ao inesperado. Com lucidez, humor e maldade, Julian Barnes (inglês apaixonado pela cultura francesa, irmão de um filósofo) se aproxima da mulher que carrega a foice e lhe pergunta: o que você quer? Sem esperar a resposta, pois essa somente será proferida no derradeiro momento, continua escrevendo histórias sobre pessoas que possuem dificuldade para entender que a vida é apenas a véspera do fim.

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