Páginas

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O SUBSTITUTO

Ele só ferra as coisas deles. E as mulheres choram por mim no funeral porque eu não estou mais lá para comê−las sem camisinha e essas merdas. E meus parceiros vão sumindo na fumaça da maconha e da merda toda. (trecho de redação com o tema "o que poderia ser dito no seu funeral", escrita por um dos alunos da turma de inglês 11A, do professor Henry Barthes).


O imaginário contemporâneo está povoado pela imagem edulcorada de que os professores são heróis e que se esforçam – de todas as maneiras possíveis − para combater a ignorância, o preconceito e a tirania. Continuar na profissão, apesar dos péssimos salários, reforça o estereótipo.

Alguns filmes, como Ao Mestre Com Carinho (To Sir With Love. Dir. James Clavell, 1967), Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society. Dir. Peter Weil, 1989) e O Clube do Imperador (The Emperor’s Club. Dir. Michael Hoffman, 2002), entre outros, preocupados com as lições extraídas dos temas pedagógicos ou éticos, raramente abordam o cerne da relação professor−aluno. Há pouco interesse em transcender o que está contido Entre os Muros da Escola (Entre les murs. Dir. Laurent Cantet, 2008). E, para desespero geral, há muitas outras coisas lá fora.

O Substituto (Detachment. Dir. Tony Kaye, 2011), recentemente lançado em DVD e Blue−Ray, está na contramão dos filmes comportados. Misturando artes gráficas (desenho animado) com o contexto relatado, aproveitando que esse hibridismo narrativo, associado com a crítica comportamental, produz estragos consideráveis, o filme avança no território quase inexplorado das neuroses que afligem professores e alunos.

Espectadores acostumados com o lirismo flor−de−laranjeira da ideologia burguesa reagem mal ao diversos depoimentos em primeira pessoa do professor Henry Barthes (interpretado por Adrien Brody). Quebrando a linearidade narrativa, ele não se omite e faz um relato cruel sobre a dor que envolve os relacionamentos afetivos. Sem concessões ao padrão construído pelo enquadramento social, o filme mistura a repugnância esterilizadora e anestésica do politicamente correto, a inutilidade dos aconselhamentos psicológicos e o ódio adensado pela luta de classes, pela alienação e pelo preconceito (étnico, sexual, econômico).

Henry Barthes, professor de língua inglesa, é um homem desmontável. Tanto que a sua história pessoal está estruturada na constante troca de escolas. Evita a estabilidade. Nega compromissos. Sempre que possível, se esquiva de qualquer sentimento que envolva algum tipo de contato. Recusa conhecer as histórias pessoais e os sentimentos daqueles que temporariamente atravessam o seu caminho.

Do que foge Henry Barthes? Solidão, relações amorosas esfareladas, problemas financeiros. Na bagagem pesada que precisa carregar, se destacam a história familiar complicada, o avô doente, misérias de diversas espécies.

Henry está ciente que todas as escolas se assemelham a manicômios − as péssimas condições de trabalho e a agressividade dos alunos confirmam a tese. Mas, isso é pouco. Há algo mais. Para alguns professores, o verdadeiro perigo consiste em enfrentar a vida − horror que se instala logo em seguida ao término das aulas. É quase impossível evitar o afogamento nesse mar de angústia.

Carol Dearden, a diretora da escola, impotente ao poder avassalador da política distrital; Érica Lewis, a jovem prostituta que faz ponto na esquina; Meredith, a aluna talentosa e discriminada (de várias maneiras); Sarah Madison, a professora escrupulosa – cada uma dessas mulheres, de uma forma ou de outra, contribuiu para alterar a rota de colisão com o desespero que está tomando conta da vida de Henry Barthes.

Quando Meredith se suicida em público, comprovando que a juventude está se despedaçando por falta de atenção, de carinho e de compreensão, Henry consegue perceber que a tragédia não mais pode ser revertida. E que ele também está contribuindo para negar o problema.

Ao final do filme, encenando uma metáfora pouco comum, embora bastante funcional, Henry Barthes lê para os alunos um trecho do conto A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe:  

Durante um dia inteiro, silencioso, sombrio e monótono, na estação outonal do ano, quando as nuvens opressivas e baixas dos céus, eu tinha estado passeando a cavalo, através de uma parte singularmente árida da região; e finalmente encontrei−me, quando as sombras do crepúsculo já se avizinhavam , à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como descrever, porém, desde que pela primeira vez contemplei o edifício, uma sensação de tristeza insuportável permeou meu espírito. Digo que era insuportável, porque o sentimento não era aliviado por qualquer dessas impressões meio agradáveis, porque estão cheias de poesia, com as quais a mente recebe até mesmo as imagens naturais mais lúgubres, desoladas e terríveis.

2 comentários:

  1. Gostei muito deste filme e também de todos os que você citou. A penúltimo que vi sobre o tema foi o francês, o Entre os Muros da Escola. Henry afetou e se afetou constantemente no decorrer da trama, advindo mesmo do que foi sua vida anteriormente.

    ResponderExcluir
  2. Professor só se fode. Porém, eles tiveram escolha, coitados!

    ResponderExcluir