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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

DOIS LIVROS DE CRÔNICAS

Dizem que a crônica se transformou em uma espécie de gênero literário tipicamente brasileiro. Dizem. Há controvérsias. Independente do que (não) seja verossímil na tese, o texto ligeiro − sem compromisso com grandes análises sociológicas ou psicológicas − existe em qualquer lugar do mundo.

Gênero literário que procura descrever a vida cotidiana, a crônica destaca algum detalhe ou aspecto inusitado. Em alguns momentos preenche o espaço adequado para discutir o nada. Ou o tudo. Que diferenças há poucas entre um e outro.

A linguagem coloquial, o uso da primeira pessoa e a falta de comprometimento com certos tabus sociais ou gramaticais normalmente resulta em textos bem−humorados e/ou poéticos. E nesse palco difuso, propício para o exercício da multiplicidade temática, desfilaram escritores tão dispares como Rubem Braga, Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, Carlos Drummond de Andrade, Antonio Maria, Carlinhos de Oliveira, Carlos Heitor Cony, Mario Prata, Luis Fernando Veríssimo e milhares de outros talentos.

Muitas vezes − nesses momentos em que as dúvidas adquirem uma grandiosidade que não lhes cabe − me perguntei se não há algum componente ideológico na paixão que alimento pela prima pobre de gêneros literários mais aristocratas como o romance e a poesia. Como nunca foi possível responder adequadamente a essa dúvida, continuo lendo o máximo possível de crônicas. Isso significa que sigo me divertindo.

Recentemente, caíram−me nas mãos dois livros de crônicas: O Anjo Bêbado, de Paulo Mendes Campos, e Bala na Agulha, de Zeca Baleiro.

Há bastante diversão na expressão caíram−me nas mãos − que parece somar os indivíduos e os acontecimentos em ato único, o livre arbítrio transformado em poeira. Cairam−me nas mãos, neste caso, é um exagero. Melhor seria dizer que os tomei emprestado. E tomar, que é um verbo afirmativo, carrega uma violência desproporcional a qualquer atividade intelectual (circunstância em que o debate e as idéias deveriam superar a força física). Mas foi assim mesmo, no abuso, que consegui os livros. Ao visitar um amigo, usando da cara−de−pau que a natureza me ajudou a aperfeiçoar, solicitei empréstimos. Na biblioteca do anfitrião, diante de vários volumes que não conhecia, não consegui manter o controle. Ligeiramente constrangido, sem saber exatamente o que fazer, ele concordou com o meu ato de subtração. Levei os de crônica.

São livros muito diferentes. Uma imensidão de detalhes (tempo histórico, estilo, linguagem, assuntos) separa o lirismo de Paulo Mendes Campos da sinceridade quase agressiva de Zeca Baleiro. Enquanto o mineiro vai traçando meticulosamente a poesia humana, o maranhense estraçalha com certos acordes dissonantes que o capitalismo tenta nos empurrar como se fosse música.

Li os dois de uma sentada – que é outra expressão hilária. Foi em um desses finais de semana em que, influenciado pelo budismo que não pratico, decidi me afastar do mundo concreto. Embora as crônicas não sejam um dos caminhos adequados para atingir o satori, lê−las possibilita tranqüilidade e um pouco de sanidade física e mental.

O Anjo Bêbado foi publicado em 1969, pela Editora Sabiá. Não sei se teve alguma reedição. Naqueles tempos, quando as distâncias ampliavam as distâncias existentes entre as raras livrarias que resistiam heroicamente em cada canto do Brasil, vender mais de dois mil exemplares de um livro era caso de contratar banda de música e estourar champanhe. Isso, a grosso modo, significa que algumas crônicas desse livro somente adquiriram sobrevida porque foram republicadas em alguns textos escolares e em antologias.

Dividido em quatro partes, O Anjo Bêbado flerta descaradamente com a poesia. O lirismo, protagonista do espetáculo, está presente em cada linha. Também não falta humor. Ao contar histórias de Sergio Porto (mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta) ou ao relembrar o famoso gabarito fosfórico (a dose de uísque deveria ter a altura de uma caixa de fósforos em pé), Mendes Campos enche de alegria os olhos do leitor. Pelas suas histórias passeiam personagens míticos como Mário Quintana, William Shakespeare, João Guimarães Rosa, Marco Aurélio Moura de Matos, Nikos Kazantzakis, Marcel Proust, Franz Kafka e Walt Whitman. Não faltam menções a dezenas de bares, um gato que não deveria atrapalhar o corno e, como se fosse um oásis escondido dentro da miragem, Belo Horizonte. A última crônica do livro, Pebologia, Ciência da Beleza Feminina, fantástico tratado da difícil e pouco praticada arte de amar as mulheres, garante gargalhadas homéricas até ao mais disciplinado dos monges.

O livro do Zeca Baleiro, Bala na Agulha, está em outra dimensão. Com um subtítulo pouco prosaico, reflexões de boteco, pastéis de memória e outras frituras, foi publicado em 2010 e trata de assuntos mais corriqueiros, mais próximos da realidade contemporânea. O traço cruel das ruas e das rádios (que preferem tocar lixo a trocar a lixeira) vai invadindo as páginas e a alma do leitor. Talvez seja essa a explicação menos complicada para dezenas de crônicas repletas daquele humor de canto de lábio, amarelado, que mistura ironia, sarcasmo e indignação.

Escorado na memória afetiva, no poder de observação e na vontade de colocar as cartas na mesa, o tom da linguagem utilizada nesse livro oscila pouco. Monocórdio talvez seja um adjetivo adequado para um conjunto de textos que se caracterizam por apresentar desprezo pelos valores capitalistas, repulsa à violação dos direitos humanos, aversão a qualquer tipo de preconceito.

Diante dos textos de Zeca Baleiro, o leitor se transforma em espectador de uma partida difícil − entre o drible e o gol, mil zagueiros querem bloquear a jogada. Nas poucas vezes em que o craque consegue escapar da marcação, o goleiro se transforma em espectador. O placar mudo muda o escore − embora ainda esteja longe a igualdade, lutar faz parte da vida e nunca será possível negar que a esperança habita o olhar dos sonhadores.

Bala na Agulha está dividido em três partes. Crônicas, uma espécie de glossário pós−moderno e alguns, digamos, poemas. São as crônicas que carregam o livro, mas é a última parte que está repleta de criatividade e humor (releituras gráficas que namoram com a poesia concreta e com a poesia marginal).

Livros diferentes, prazeres distintos. Distintos leitores. Todos se rendem ao poder da linguagem e oferecem ouro, incensa e mirra à crônica. Pagamento insuficiente, óbvio. O encantamento não tem preço.

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