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sexta-feira, 24 de maio de 2013

IMPASSES ENTRE GIRONDINOS E JACOBINOS



As revoluções começam com insatisfação e terminam com frustração. Qualquer manual de política ensina essa verdade básica – provavelmente com outras palavras. Exemplos não faltam. Basta escolher aquele que melhor lhe aprouver. França, Rússia, Brasil (Independência, República, Getúlio Vargas em 1930). Em determinado instante histórico, algum país ou região oprimida inicia algum tipo de clamor público por mudanças. Segue um período turbulento, onde ações e reações trocam tapas e promessas vazias. A situação inicial se modifica, embora isso seja imperceptível para quem está envolvido na luta. No estágio seguinte (apesar dos muitos cadáveres que apodrecem na planície – ou por isso mesmo), o passado se perde, o presente se torna incerto e a loucura costuma devorar o futuro. É nesse momento de confusão e indefinições que algum oportunista toma conta da brincadeira e expulsa as outras crianças do parque de diversões. O ciclo subversivo se completa, mas com interesses exponencialmente diferentes daqueles que haviam sido idealizados. Cabe às viúvas da revolução derramar lágrimas amargas por algo que nunca existiu ou que não deveria ter acontecido.

Um dos mais interessantes textos alegóricos sobre os acontecimentos que ocorrem no período pós-revolucionário foi escrito pelo inglês Julian Barnes. Escrito em 1992, e publicado no Brasil em 1996, O Porco-espinho relata o julgamento político de Stoyo Petkanov.

– Atanas, eu gostaria que você fosse sério. Uma vez na vida.

– Pensei que fizesse parte das coisas, Vera.

– Parte de quê?

– Da liberdade. Liberdade de não ser sério. Jamais de novo, jamais, jamais, se não corresponder à sua vontade. Não será um direito meu ser frívolo pelo resto da vida, se é isso que eu quero?

– Atanas, você já era tão frívolo quanto agora antes das mudanças.

– Mas na época era um comportamento antissocial. Vandalismo. Agora é meu direito constitucional.


Petkanov liderou a revolução que resultou na deposição e morte de Nicolae, o último rei de um país fictício na Europa central .Esse conjunto de dados, somado com um pouco de especulação, talvez permita uma leitura pouco ortodoxa: O Porco-espinho é uma espécie de biografia não-autorizada de Todor Khristov Zhivkov (1911-1998), líder comunista da Bulgária.  

Depois que assumiu o poder, a nova classe política afastou todos aqueles que lhes podiam fazer sombra, controlou a inflação e instituiu uma ditadura socialista. Entre o terror e ações sub-reptícias conseguiram eliminar a oposição – inclusive diversos membros do governo. Durante 33 anos, a República se tornou sinônimo de um governo ditatorial.

O responsável por formular as acusações contra Stoyo Petkanov, o procurador-geral Peter Solinsky, filho de um dos homens que lutaram para que Petkanov assumisse o poder – e que, no tempo adequado, foi expurgado – está tomado pelo furor moral. Quer fazer justiça. Mais do que obter a punição, quer provar a culpa. Embora não saiba exatamente como isso se tornará possível.


Esbanjando bom-humor, Petkanov aguarda o julgamento. Espadachim das sutilezas semânticas, sente indescritível prazer quando acerta diversos golpes em Stolinsky. Infelizmente, nenhum se mostra suficiente para causar dano. Ou novos ferimentos. O estreitamento ideológico funciona como couraça e anestésico. E isso significa que, independente do esforço para provar o ridículo da situação, Stolinsky conseguirá condená-lo. O Estado, repetindo a imagem protagonizada por Saturno, costuma devorar seus filhos mais amados. It's nothing personalit's just business – como costumam dizer os cínicos.

Independente do que os livros de História registram, o caráter de girondinos e jacobinos se confunde na palheta de cores que a política utiliza para desenhar o horror. Enquanto, no proscênio,  alguns atores valorizam um papel bem ensaiado, a equipe técnica esconde a sujeira nos bastidores. O Porco-espinho conta – de maneira sutil, com ironia e sarcasmo – parte da farsa em que bandidos e heróis revelam ser “farinha do mesmo saco”.

TRECHO ESCOLHIDO

– Baseado em que leis está me acusando, Peter? As leis de vocês ou as minhas?

– Ah! As suas leis. A sua constituição.

– E de que me achará culpado? – O tom era vigoroso e, não obstante, conspiratório.

– Eu deveria achar você culpado de muitas coisas. Roubo. Desvio de verbas estatais. Corrupção. Especulação. Crimes monetários. Enriquecimento ilícito. Cumplicidade no assassinato de Simeon Popov.

– Eu nem sabia disso. Aliás, pensei que tivesse morrido de um ataque do coração.

– Cumplicidade de tortura. Cumplicidade na tentativa de genocídio. Várias conspirações para distorcer o cumprimento da justiça. As acusações levantadas de fato contra você serão anunciadas nos próximos dias.

Petkanov grunhiu como se tivesse avaliando uma oferta de negócios.

– Nenhum estupro, pelo menos. Pensei que fosse esse o motivo da manifestação daquelas mulheres, já que, segundo o procurador-geral Solinsky, eu as estuprei todas. Mas, pelo que percebi, protestavam apenas contra o fato de haver agora menos comida nas lojas do que durante qualquer período anterior, sob o Socialismo.

– Não estou aqui – respondeu asperamente Solinsky – para discutir as dificuldades inerentes à mudança de uma economia controlada para uma economia de mercado.

Petkanov deu um risinho.

– Parabéns, Peter. Dou-lhe os meus parabéns.

– Por quê?

– Por essa frase. Ouvi a voz de seu pai falando. Tem certeza de que não quer voltar para nossa rebatizada organização?

– Voltarei a falar com você diante do tribunal.

Petkanov prosseguiu com sua risadinha enquanto o procurador juntava seus papéis e se retirava. Em seguida, aproximou-se do jovem miliciano que estivera presente durante toda a entrevista.

– Gostou, meu jovem?

– Eu não ouvi nada – respondeu o soldado, da maneira mais improvável possível.

– Existem dificuldades que são inerentes à mudança de uma economia controlada para uma economia de mercado – repetiu o ex-presidente. – Não há comida na porra das lojas. 


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