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terça-feira, 1 de outubro de 2013

DENTRO DA CASA

A sala de aula é uma das primeiras batalhas que a literatura precisa vencer. Essa façanha só se torna possível em circunstâncias especiais. Por exemplo, quando professores e alunos se unem em torno de uma causa comum: os desdobramentos do mundo ficcional. De uma maneira muito peculiar, esse é o tema do filme Dentro da Casa (Dans la Maison. Dir. François Ozon, 2012).

Germain (Fabrice Luchini), professor de francês no Lycee Gustave Flaubert, assume uma nova turma, a 8ª C. Uma das primeiras tarefas que solicita aos alunos, uma redação sobre os acontecimentos do final de semana, confirma a sua frustração com a qualidade do ensino. Em tom indignado, com a voz alterada, diz à esposa, Jeanne (Kristin Scott Thomas): O pior não é a ignorância deles. É imaginar o amanhã, pois eles são o futuro. Os filósofos reacionários predizem a invasão dos bárbaros. Mas eles já chegaram. Estão nas salas de aula.

Esse juízo de valor mostra-se equivocado quando constata que um dos alunos difere dos demais. Encantado pelo texto escrito por Claude Garcia (Ernest Umhauer), Germain projeta no aluno o escritor que nunca conseguiu ser. Imediatamente, sem perceber a extensão do que está fazendo, começa a ministrar aulas extracurriculares de teoria da literatura para o rapaz.

A história pessoal de Claude evoca os romances de Charles Dickens: filho único, precisando cuidar de um pai tetraplégico, abandonado pela mãe, tímido, 16 anos, costuma se sentar na última fila da sala de aula, lá onde você vê a todos e ninguém te vê.

Solitário, imagina um folhetim como tarefa escolar. Para poder frequentar a casa de um colega, Rafael Artois (Bastien Ughetto), se oferece para lhe ensinar matemática. A história do amigo, em tudo diferente da vida suburbana e insipida que leva ao lado do pai, delineia os elementos primordiais de uma narrativa de sedução amorosa. Como objeto do desejo, surge em cena Esther (Emmanuelle Seigner), a mãe de Rafael. No texto escolar que entrega a Germain, Claude escreve: Olho Esther e sua pele parece macia. Como uma maçã a ser comida. A adolescência, território sagrado da perversidade, se alimenta de fantasias sexuais.

Ao se apropriar literariamente de um modo de vida que não lhe pertence, Claude, como compete a um escritor de talento, posterga o desfecho ao máximo. Ciente de que o prazer de olhar pelo buraco da fechadura é um dos grandes segredos da ficção, termina cada um dos seus textos com a palavra “continua” entre parênteses.

O professor não resiste, fica curioso. Quer saber o que acontece no capítulo seguinte. Sem poder distinguir se o que o aluno está narrando está escorado na realidade ou na ficção, acaba enredado na teia literária que está sendo construída ao seu redor. O envolvimento se acentua a cada sequência da narrativa. Coincidentemente, essa estratégia está de acordo com uma das lições que – mais tarde – vai ministrar ao aluno: Nada de chance para o leitor. Ele precisa estar sob pressão. O leitor é como o sultão de Sheherazade: Se você me aborrecer, corto sua cabeça. Mas, conte uma boa história e o sultão entrega seu coração. O sultão é como todos nós. Precisamos de alguém contando histórias”. Inflamado pelo discurso, Germain arremata: A vida sem histórias não vale nada.

Em compensação, em uma das histórias paralelas que constituem Dentro da Casa, contrasta o cinema e a literatura com as artes plásticas contemporâneas. Jeanne (Kristin Scott Thomas), a esposa de Germain, trabalha em uma galeria chamada Le Labyrinthe du Minotaure. Como uma Ariadne a-pós-o-moderno, dessas que dispensam a ajuda de Teseu, movida pelo desespero de salvar a própria pele, ou seja, o emprego, procura por obras que  apesar das sutilezas das proposições teóricas  se mostram incapazes de construir uma narrativa artística com um mínimo de coerência. Em efeito especular, Germain explica para Claude que a péssima literatura se assemelha aos textos que acompanham os catálogos das exposições.    

François Ozon, em livre adaptação de El Chico de la ultima fila, texto teatral de Juan Mayorga, consegue realizar – sem grandes estardalhaços feéricos – uma instigante brincadeira. Dentro da Casa, ao misturar vários planos narrativos (as conversas conjugais entre Germain e Jeanne, o vacuidade do mercado de artes plásticas, a vida burguesa da família de Rafael e as histórias que Claude escreve ou inventa), multiplica ao infinito, de forma lúcida e lúdica, o dialogo com os livros, com a tradição literária. Ou seja, consegue integrar os enredos de Madame Bovary (Gustave Flaubert), O Jovem Törless (Robert Musil), Teorema (Pier-Paolo Pasolini), Viagem ao Centro da Noite (Louis-Ferdinand Celine), As Mil e uma Noites, e muitos outros clássicos, na estrutura narrativa de um filme magnífico.

A cena final, que homenageia Alfred Hitchcock, sintetiza o que está em jogo. O adolescente, maliciosamente satisfeito com os acontecimentos que ajudou a desencadear (em alguns casos, de forma inconsciente), anuncia ao espectador do filme: O Sr. Germain havia perdido tudo, sua esposa, seu trabalho, mas eu estava ali, ao seu lado, pronto para contar-lhe uma nova história.


François Ozon, um dos mais brilhantes diretores do cinema francês, dirigiu diversos filmes importantes: Sob a Areia (2000), Oito Mulheres (2002), Swimming Pool - À Beira da Piscina (2003), O Tempo que Resta (2005), Ricky (2009) e Potiche (2010)

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