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sexta-feira, 27 de março de 2015

ANITA GARIBALDI E JULIAN BARNES SE ENCONTRAM EM CARCASSONNE

Conta a lenda que, em 1839, na cidade de Laguna, litoral de Santa Catarina, Giuseppe (batizado Joseph Marie) Garibaldi perdeu o controle das questões objetivas. Diante de Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva, a Anita, 18 anos, de ascendência portuguesa e índia, cabelos escuros, seios fartos, ele decidiu o futuro do casal com uma frase, Tu devi esser mia (Você deve ser minha). A parte divertida desse episódio é que ele falava um pouco de português, não muito, o suficiente para resolver problemas amorosos, além de muitos outros. Por algum motivo que os historiadores nunca conseguiram explicar, preferiu utilizar o idioma que aprendeu na infância. Será que um homem (ou uma mulher), ao escolher a mulher (ou o homem) com quem vai compartilhar dias e noites, humores e gemidos, copos de água e taças de vinho, necessita se expressar como se estivesse em casa?

Anita Garibaldi
O encontro entre Garibaldi e Anita, momento clássico do romantismo histórico, teve que superar um pequeno obstáculo. Ela era casada. Com um sapateiro. De qualquer forma, essa dificuldade perdeu a importância rapidamente. A atração mútua falou mais alto. Tanto que logo estavam vivendo sob o mesmo teto. Casaram três anos depois, no Uruguai, depois que alguém lhes informou que o primeiro marido de Anita havia morrido. Estiveram juntos dez anos, combateram em dois continentes e tiveram quatro filhos. As surpresas da vida são frequentemente os clichês da literatura, lembra o narrador de Carcassonne, um conto do inglês Julian Barnes e que integra o livro Pulso.

O conto, que não preza pela linearidade, aborda diversos aspectos da indeterminação que constitui o conceito de “gosto”. No entanto, o narrador alerta que (...) a palavra – talvez por causa de sua grande abrangência – é enganosa. E complementa o comentário, fazendo um esforço de linguagem, mistura de observações triviais e filosofia, “Gosto” pode implicar uma reflexão calma; enquanto seus derivativos – bom gosto, com gosto, mau gosto, sem gosto – direcionam-nos a um mundo de diferenciações minúsculas, de esnobismos, valores sociais e acessórios de cama, mesa e banho. O verdadeiro gosto, o gosto essencial, é muito mais instintivo e irrefletido. Esse circunlóquio, próximo do torcer e retorcer a linha de pensamento que quer defender, tem como meta provar – racionalmente – que Apaixonar-se é a expressão de gosto mais violenta que conhecemos. É uma tese tão duvidosa quanto qualquer outra.

A cidadela de Carcassonne, departamento de Aude,
na região de Languedoque-Rossilhão, França.
 
Apesar de haver quem argumente contra, e são muitos, o conto sugere – com outras palavras – que o amor, a paixão, o desejo, o tesão, a excitação ou sabe-se lá que outro nome utilizado para caracterizar os diversos níveis de prazer que advém daqueles instantes em que o coração começa a arder, em que o corpo começa a arder, resulta na impossibilidade de controlar as emoções. O princípio básico quer estabelecer que os relacionamentos afetivos são derivados de um valor absoluto, que não pode ser questionado. O narrador do conto chama a esse momento de “Coup de foudre”, a flechada do raio e o estampido do trovão do amor. Enfim, diante de Eros (ou do Cupido), descobrir que é possível ter prazer com certas coisas que podem ser realizadas com certas partes do corpo de outra pessoa modifica comportamentos. Aproxima os indivíduos da (in)felicidade.

A famosa cidade histórica francesa de Carcassonne surge, pela primeira vez no conto, através de uma citação literária. Eu só queria me casar com ela como algumas pessoas desejam ir a Carcassonne, afirma Dowell, o narrador de O Bom Soldado, de Ford Madox Ford. O conto de Julian Barnes não relata se o casal Garibaldi lá esteve. Talvez isso não importe. Talvez Carcassonne seja apenas um desses lugares mágicos, que realizam os sonhos das pessoas apaixonadas e que transcendem aqueles que gravitam ao seu redor. Talvez.

 
Garibaldi e Anita, ferida, fogem de San Marino, 1849 (quadro de anônimo, século XIX).


TRECHO ESCOLHIDO 


Há alguns anos, numa conferencia de livreiros em Glasgow, eu conversava com duas australianas, uma romancista e uma cozinheira. Ou melhor, eu ouvia, já que elas discutiam como diferentes alimentos afetavam o sabor do esperma. “Canela”, disse a romancista com conhecimento de causa. “Não só a canela”, respondeu a cozinheira. “Você precisa de morangos, amoras-pretas e canela, assim funciona melhor”. Ela acrescentou que conseguia sempre identificar um carnívoro. “Pode acreditar, eu sei do que estou falando. Uma vez fiz uma degustação de olhos vendados.” Hesitante de como poderia contribuir à conversa, mencionei aspargos. “É”, respondeu a cozinheira. “Aparece na urina, mas também na ejaculação.” Se eu não tivesse anotado essa conversa logo em seguida, eu poderia achar que se tratava de um trecho de um sonho erótico.  

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