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segunda-feira, 6 de abril de 2015

A INTERPRETAÇÃO DO ASSASSINATO

Há quem compare o cérebro humano com um parque de diversões – psicanalistas, psiquiatras e psicólogos ambicionam liderar a fila. Policiais e advogados compartilham desse pensamento. Por motivos diferentes. No outro lado da discussão, filósofos, sociólogos e antropólogos frequentemente discordam – mas não muito. Embora apresentem uma lista de restrições, de impedimentos, eles estão cientes de que a questão costuma apresentar arestas inesperadas, que produzem feridas dolorosas.

Há quem diga que certas diversões literárias somente são possíveis nos romances policiais. Por múltiplas razões, raramente são as diversões certas – como pode atestar qualquer jornal, a vida está conectada com a banalidade do mal. Ou seja, o horror não pode ser afastado do cotidiano humano, como se fosse um pouco de poeira depositada em cima de um móvel e que dever ser espanada rapidamente, sem causar danos significativos.

O romance A Interpretação do Assassinato, do estadunidense Jed Rubenfeld, consegue unir um evento histórico (a visita que Sigmund Freud, Sandor Ferenczi e Carl Gustav Jung fizeram em 1909 a Estados Unidos, convidados por Abraham Brill), a criação ficcional (diversos crimes sexuais, com características sadomasoquistas) e alguns dos conceitos mais rudimentares de psicanálise. Embora o livro não seja um grande feito literário, apresenta características muito significativas. Para quem estuda literatura, talvez o interesse maior esteja na divisão do fluxo narrativo entre dois narradores, que vão distribuindo os acontecimentos ao longo do texto. Essa bipolaridade estabelece uma dinâmica eficaz. O primeiro narrador, em terceira pessoa, inominado, onisciente, ordena os fatos em ordem sequencial e fornece ao leitor uma imagem aberta, ampla, dos acontecimentos, cenário onde se movimentam o detetive policial Jimmy Littlemore, o legista Charles Hugel e o prefeito McCellan. O segundo narrador, Stratham Younger, um médico apaixonado por William Shakespeare, restringe o seu depoimento a uma série de fatos específicos, basicamente se concentrando no entorno de Freud e em uma paciente aparentemente histérica, Nora Acton. O clímax surge quando os dois narradores dividem uma das cenas. O efeito da imagem no espelho, que olha nos olhos de seu duplo (ligeiramente modificado), causa um estranhamento divertido, inusitado, ligeiramente assustador – como um truque de mágica.

Na primeira fila: Sigmund Freud, Stanley Hall  e Carl Gustav Jung.
Na fila de trás: Abraham Brill, Ernest Jones e Sandor Ferenczi.
O romance destaca, em primeiro plano, as dificuldades que a psicanálise enfrentou para ser aceita no norte das três Américas, no início do século XX. A disputa territorial entre os médicos neurologistas e os discípulos de Freud não foi pacífica. Ninguém economizou vários “golpes baixos”, principalmente difamações.

Ao fundo, a ação narrativa se desenvolve em torno de uma mulher que foi assassinada por estrangulamento. Antes de ser morta, ela foi chicoteada com requintes de crueldade. Estranhamente, poucos viram o corpo – que desapareceu do necrotério. Essa atmosfera noir, esfumaçada por inúmeros ingredientes característicos do início do gênero policial, como femmes fatales (que mentem a todo instante), detetives incorruptíveis e interesses políticos e econômicos, multiplica o interesse do leitor, impedindo-o de largar o livro antes de terminar a leitura da última página.

Como estimulante, há também o ingrediente intelectual, fornecido pela fina camada de verniz do conhecimento, que contribui para que a eterna atração pelo que pode ser visto (e imaginado) pelo buraco da fechadura seja renovada. A presença de uma personagem forte, dessas que mexem na imaginação coletiva, como Sigmund Freud, associado com acontecimentos policiais, momento em que a maldade se mostra desmensurada, convida o leitor para participar da trama como alguém que quer encontrar a solução de um problema difícil.

Alguns dos eventos narrados no romance, como o desentendimento entre Freud e Jung, aconteceram em outro momento, em outra situação, mas esse tipo de “liberdade poética” não atrapalha a narrativa; ao contrário, permite uma espécie de andamento vivace. A descrição de Nova York, em 1909, também se mostra de significativo interesse historiográfico.

Enfim, não falta diversão em A Interpretação do Assassinato

Sandor Ferenczi e Sigmund Freud

P.S.: Em certos romances policiais, alguns nomes (de personagens, de lugares) podem ser considerados como um indício ou uma pista para descobrir pequenos (ou imensos) segredos incrustados na narrativa. Por exemplo, o título do romance, obviamente, se refere a um texto clássico de Freud, A Interpretação dos Sonhos.  O sobrenome do psicanalista estadunidense, Younger (o mais jovem), faz referência explícita ao fato de Estados Unidos ser um dos países que demoraram (pelo menos em relação à Europa) em aderir aos ensinamentos freudianos. O detetive Littlemore (mais pequeno, menor), em uma das cenas, é chamado por outro policial de Littlemouse (ratinho). O nome da mulher analisada por Younger, Nora Acton, além de fazer referência com Dora, um dos mais importantes casos descritos por Freud, também permite um trocadilho estranho, ou seja, que ela, na falta de melhor expressão, está "agindo" (act on). 

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