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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

THOMAS BERNHARD

O escritor austríaco (nascido em Heerlen, Holanda) Thomas Bernhard (1931-1989), uma das vozes mais ácidas do mundo literário ocidental, costuma ser alvo de artigos, ensaios, dissertações de Mestrado, teses de Doutorado e outras condecorações acadêmicas. Nada parece ser mais irônico. Entre as tantas demonstrações de desprezo que tornou públicas contra os escritores, em particular, e contra os seres humanos, em geral, ele escreveu que a vida inteira sempre detestei toda e qualquer teoria literária e, acima de tudo, sempre odiei as chamadas teorias do romance. Evidentemente, em um mundo onde a publicidade e as razões de mercado determinam a importância dos fatos, os desejos de um escritor morto raramente são levados em consideração.

Thomas Bernhard assusta. E encanta. Ele faz parte de um grupo de escritores “superiores”, que somente são acessíveis depois de muito esforço  ou sofrimento. E isso está longe de ser um exagero. Primeiro, porque ele não escrevia para o leitor. Ele escrevia para si mesmo. Quem quiser se aproximar de sua literatura precisa ter (na falta de melhor definição) fôlego de alpinista. A paisagem é bonita, não restam dúvidas, mas para poder atingir o cume da montanha há que superar a vertigem e o perigo – o risco de escorregar, a qualquer instante, precisa ser reconsiderado a cada passo. Segundo, o estilo e os temas abordados por Bernhard são áridos. Os parágrafos são longos, intermináveis, como no romance Árvores Abatidas, 167 páginas e um único parágrafo. Poucos conseguem acompanhá-lo. As frases estão repletas de orações subordinadas, dezenas de apostos, e todos os penduricalhos possíveis. Ocasionalmente, o narrador repete algumas informações – seja para dar um efeito de redundância, seja porque não acredita que o leitor seja capaz de lembrá-las. Para quem está (mal?, bem?) acostumado ao padrão estadunidense das narrativas destinadas a se transformarem em roteiros cinematográficos, ou seja, diálogos constantes e esquemas descritivos, Bernhard parecerá intransponível. Inclusive porque ele foi um dos escritores modernos que melhor administraram o monólogo interior (o discurso ocorre na mente do personagem, como ele se estivesse participando de uma conversa entre o “eu” e o “outro” – que é ele mesmo. Muitas vezes é um pensamento caótico, sem muita coerência ou articulação. Oscila entre a rememoração e o presente, entre o real e o imaginário. Não tem compromisso com a ação comunicativa). Em terceiro lugar, Bernhard não poupa insultos aos desafetos. Seus personagens – projeção do tumulto que era a vida de um escritor colérico – são antipáticos. Todos destilam fel, desferem bordoadas, assustam as almas caridosas e proclamam, sem o menor pudor, que a maldade está presente a cada instante. A única solução para esse horror está na extinção pura e simples do ser humano da Terra.

Esses argumentos – e suas variações – são repetidos em toda a produção literária: romances, peças de teatro, poesia e relatos autobiográficos.

Para quem ainda não conhece a perturbadora literatura do austríaco, uma das portas de entrada é o livro póstumo, Meus Prêmios, que reúne treze textos rápidos, cada um com cinco, seis páginas no máximo. Em ritmo de cronista, Bernhard comenta as várias distinções literárias que recebeu. Além disso, há quatro pequenos discursos, peças protocolares, mero exercício de boa educação, apesar de estarem repletos de agressões ou de desprezo. Ao todo, considerando os comentários sobre a edição, redigidos por Raimund Fellinger, o livro tem um pouco mais de cem páginas.

Assim como nos volumes ficcionais, Meus Prêmios está repleto de reclamações. Bernhard se alimenta da insatisfação. Canalha é uma palavra que lhe é bastante comum. Serve para designar escritores e políticos, além de todos os desafetos.Ninguém é poupado. Se o indicam para receber algum prêmio, ele insulta os membros do júri, todos medíocres e incompetentes. Se o ignoram ou lhe outorgam uma dotação menor, os acusa por não reconhecerem o seu talento. Nada lhe parece suficiente. (...) eu sempre detestei associações e clubes, e mais ainda, naturalmente, os literários. Inacreditavelmente, apesar de toda essa lamuria, aceita todos os prêmios. E explica esse proceder de forma que parece ter um fundo político, mas que, de fato, é apenas uma desculpa estéril: Queria o dinheiro, expliquei, porque deveríamos arrancar do Estado, que todo ano desperdiçava insensatamente não apenas milhões mas bilhões, cada centavo que podíamos, um cidadão tinha o direito de fazê-lo, e eu não era um tolo. Algumas páginas depois, nos comentários que faz sobre o Prêmio Franz Theodor Csokor (um dos poucos escritores que recebem um elogio sincero), consegue articular o pensamento de forma mais inteligível: (...) sempre tive uma sensação de vazio no estômago quando se trata de receber um prêmio: a cada vez, minha mente se rebelava contra aquilo. Mas o fato é que, naqueles anos todos em que ainda me concediam prêmios, eu era demasiado fraco para dizer não. Aí, sempre pensei, meu caráter revela uma grande mácula. Eu desprezava aqueles que concediam os prêmios, mas não me recusava seriamente a receber os prêmios em si. Tudo aquilo me repugnava, mas o que me repugnava ao máximo era minha própria pessoa. Eu odiava as cerimônias, mas participava delas; odiava os outorgantes, mas aceitava suas somas em dinheiro. No momento em que a fama e a renda advinda dos direitos autorais compensaram as vicissitudes da vida, Bernhard optou pelo óbvio: Para mim, a questão simplesmente já não se coloca: a única resposta possível é não permitir que me homenageiem.


O que chama a atenção nesse procedimento é que, coerente em suas incoerências, Bernhard exige uma postura ética dos (poucos) amigos. Quer que se insubordinem contra o status quo e denunciem as misérias da máquina burocrática. Atitude absolutamente inviável para muitas dessas pessoas, que, por interesses políticos ou por precisarem garantir o sustento para a família, não podiam assumir atitudes anárquicas. E isso significa que todos aqueles que, em algum momento, por qualquer motivo, contrariaram Bernhard correram o risco de se transformarem em personagens. Sim, Bernhard era um homem rancoroso. Quem duvidar que leia Árvores Abatidas, onde reduz a escombros a sociedade vienense, através de um personagem que comparece a uma festa e fica o tempo todo sentado em uma bergère (poltrona), observando e descrevendo esse mundo de dissipação e iniquidade em que habita a fauna burguesa.

Eles viam: eu sou o observador, o ser repugnante que se instala na bergère, e protegido pela penumbra da antessala joga seu joguinho sujo, nojento, de dissecar os convidados dos Auersberger, como se diz. Era isso que sempre tinham censurado em mim, que eu sempre os dissecava a cada oportunidade, realmente sem escrúpulos, mas eu sempre tinha um atenuante; eu me dissecava ainda muito mais, a cada oportunidade, me desmembrava em todas as minhas partes, como diriam, pensei eu sentado na bergère, e com o mesmo despudor, a mesma maldade, o mesmo procedimento brutal. (trecho de Arvores Abatidas)


Ninguém conseguia escapar da belicosidade que Bernhard utilizava como combustível para continuar vivendo. Ou melhor, para continuar escrevendo. E é isso que ele, de uma forma ou de outra, faz questão de frisar em todos os seus livros: Há anos me pergunto qual o sentido dessa chamada Academia de Darmstadt, e sempre me vi obrigado a dizer a mim mesmo que esse sentido não pode residir no fato de uma associação, fundada em última instância apenas com o frio propósito de oferecer a seus vaidosos membros um espelho no qual se mirar, reunir-se duas vezes por ano para se autoincensar e, depois de consumir lautos pratos e bebidas servidos nos melhores hotéis da cidade, em viagem luxuosa e cara paga pelo Estado, conversar por uma semana sobre uma papa literária insípida e rançosa. Se um único poeta ou escritor é já ridículo e, onde quer que seja, quase insuportável para a sociedade humana, tanto mais ridícula é toda uma horda amontoada de escritores, poetas e de gente que se julga uma coisa ou outra! No fundo, todos esses dignitários em viagem paga pelo Estado se encontram em Darmstadt para, depois de um ano inteiro de ódio mútuo e impotente, poder ainda, ali, aborrecer uns aos outros por mais algum tempo. A tagarelice dos escritores nos saguões dos hotéis de cidadezinhas alemãs é, por certo, o que se pode conceber de mais repugnante. Seu fedor, porém, torna-se ainda mais fedorento quando ela é subvencionada pelo Estado. Hoje em dia, aliás, todo esse vapor das subvenções fede até não poder mais! Poetas e escritores não devem ser subvencionados, e menos ainda lhes cabe pertencer a uma academia subvencionada; devem, sim, ser deixados por sua própria conta.


Foram publicados no Brasil os seguintes livros de Thomas Bernhard: Árvores Abatidas (Rocco, 1991), O Sobrinho de Wittgenstein (Rocco, 1992), O Náufrago (Cia das Letras, 1996), Perturbação (Rocco, 1999), Extinção (Cia das Letras, 2000), Origem (Cia das Letras, 2006), O Imitador de Vozes (Cia das Letras, 2009), Meus Prêmios (Cia das Letras, 2011). 

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