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terça-feira, 17 de abril de 2018

ROLETA RUSSA


No entrecruzamento de duas formas artísticas, o ruído se torna inevitável. Entende-se ruído por algo que incomoda, por alguma coisa que parece estar no lugar errado (e está!). No caso específico do “casamento” entre literatura e o cinema, por exemplo, o barulho se tornou uma constante. Em alguns momentos, o filme destrói o livro; em outros, o filme está vários degraus acima do texto. E ainda há os casos em que o resultado final sequer se parece com a narrativa que serviu de inspiração. Alfred Hitchcock tinha uma tese curiosa sobre essa ligação amorosa: livros ruins é que dão filmes bons. Muitos comentaristas de cinema rejeitam esse pensamento. A realização cinematográfica depende mais da técnica do que do roteiro, dizem, lembrando que uma direção frouxa causa maiores danos do que alguma “liberdade poética” que possa ser utilizada no desenvolvimento fílmico. O estadunidense Gore Vidal divergia violentamente dessa ideia. Em um ensaio clássico, Quem faz o cinema? (incluído no livro De Fato e de Ficção), defende a ideia de que o roteirista é mais importante que o diretor e que a carpintaria estrutural de uma história supera quaisquer artifícios artísticos que possam surgir no set de filmagem ou na mesa de edição. O pessoal da literatura – que defende a sacralidade do texto original – não concorda com essas duas hipóteses. Embora aceitem o corte de algumas cenas, ficam furiosos com os enxertos e são irredutíveis contra qualquer alteração na espinha dorsal do enredo.

Em um mundo onde todos se decepcionam (porque estão, simultaneamente, certos e errados), o ponto comum está na concordância de que a literatura e o cinema trabalham com linguagens diferentes e que a fidelidade absoluta inexiste em qualquer adaptação.
 
Recentemente, um romance de espionagem foi adaptado pelo cinema. Imediatamente, o livro se tornou um best-seller. Não há como impedir as ligações perigosas que o capitalismo produz nas relações de consumo. O divertido, nessa história, está em um fato básico: os dois produtos são de péssima qualidade. O livro, Red Sparrow, escrito por Jason Matthews, em 2013, foi publicado no ano seguinte no Brasil com um título estranho: Roleta Russa. Parece que algum gênio do marketing acreditou que “Pardal Vermelho” (ou Russo) não era uma opção aceitável. Com o lançamento do filme, publicaram uma segunda edição da narrativa, agora com um nome mais fácil de ser consumido pelo público que se deixa conduzir pelo entretenimento: Operação Red Sparrow. Logo abaixo do título, um slogan publicitário (revelando a ausência de escrúpulos editoriais e econômicos): Pronta para seduzir, treinada para matar.

A crítica especializada em cinema detestou o filme. Parece que sobram cenas de nudez e faltam qualidades artísticas em atores e equipe técnica.

Sobre o livro, cabe destacar inúmeros problemas de redação (ou de tradução) e o desperdício de uma boa ideia. A história de uma bailarina que, em função de um “acidente” de trabalho, precisa se tornar uma espécie de Mata Hari contemporânea poderia resultar em uma boa narrativa. Infelizmente o castelo desaba. Na ânsia febril de demonstrar que as equipes de espionagem estadunidenses são mais competentes que as russas, a protagonista (Dominika Egorova) vai sendo devorada lentamente por um narrador “professoral” que, em nome de "valores" superiores, decreta as diferenças entre o bem e o mal.

Treinada pela Sluzhba Vneshney Razvedki, SVR (Serviço de Inteligência Estrangeiro), organismo que substituiu o Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, KGB (Comitê de Segurança do Estado), Egorova recebe ordens de seduzir Nathaniel (Nate) Nash, agente da Central Intelligence Agency, CIA. Deve descobrir a identidade de um alto funcionário russo que está passando informações confidenciais ao inimigo. Por sua vez, o estadunidense é induzido a agir com o mesmo propósito – alguns segredos militares estão sendo entregues aos russos. Arma-se um jogo de gato e rato, onde se torna difícil definir quem é quem. Essa tensão sofre um incremento quando surge em cena a atração amorosa e sexual.

Longe de ser uma versão de Romeu e Julieta, o romance perde a essência logo depois. Lá pela metade da narrativa, Dominika aceita ser uma informante da CIA  – inconformada com diversos acontecimentos se transforma em uma traidora. A morte de uma amiga serve de "gatilho" para a decisão, que não requereu grandes dramas de consciência. Nesse momento, o entretenimento literário passa a ser uma ferramenta de doutrinação ideológica.  Em outras palavras, todas as 423 páginas do romance estão alicerçadas em um único propósito: afirmar que os estadunidenses são superiores – no campo da ética, da técnica e da inteligência – aos russos.

Essa “verdade” é enunciada a todo instante. Mesmo quando se apresenta como contradição. Basta confrontar os informantes.  Enquanto o General Vladimir (Volodia) Korchnoi, se mostra cuidadoso, astuto e confiável, a Senadora Stephanie Boucher, prima pela arrogância, pela rebeldia e pela falta de cuidado com a segurança. O maniqueísmo destrói qualquer verossimilhança. Os russos são cruéis, utilizam assassinos profissionais, torturam, mentem e não se detém diante de quaisquer obstáculos. Os americanos se comportam de igual maneira, mas com uma diferença fundamental: segundo o narrador, lutam pela “democracia” e pela “liberdade”. Rir dessas bobagens parece ser o único procedimento aceitável para o leitor que possui algum senso crítico.

O clima de guerra fria, ressuscitando os anos 60 e 70, faz com que todos os elementos narrativos importantes evaporem nas páginas finais do livro. Sobra apenas a barbárie. Dominika, que parecia ser o protótipo da mulher que consegue superar os empecilhos causados pelas atividades masculinas, se transforma em fantoche das ações políticas. A decepção se instala.

 TRECHO ESCOLHIDO

 

No balé, os alunos mais experientes sabem tanto de anatomia, articulações e lesões quanto um médico. Insuflado pelos hormônios e os ardores do sexo, Konstantin esperou pacientemente até sua vez de formar par com Dominika. Certo dia, numa sala apinhada de alunos, ele fazia um pas de deux com sua parceira quando pisou forte no calcanhar dela durante uma ponta, fazendo que o pé vergasse para frente. Dominika desabou no chão no mesmo instante e se encolheu de tanta dor, as cores sangrando à sua frente. Foi levada à enfermaria sob o olhar assustado das colegas que praticavam a barra – Sonya era a mais pálida de todas. Ao olhar para ela antes de sair, Dominika intuíra toda a verdade ao ver a expressão de culpa, o miasma cinzento que a envolvia numa espiral invisível aos demais. Seu pé agora era um volume preto e roxo que se dobrava para trás, grotesco, e a dor, lancinante, irradiava para a perna.

 

– Fratura-luxação de Lisfranc no mediopé – sentenciou o médico.

 

Após uma série de exames ortopédicos, uma cirurgia de emergência e uma bota de gesso até a altura do tornozelo, Dominika foi dispensada da academia. Num piscar de olhos sua carreira de bailarina havia chegado ao fim. Os comentários de que ela seria a próxima Ulanova ficaram no passado. As professoras, os preparadores e os mestres de balé já nem olhavam mais para ela.

 

Àquela altura Dominika já aprendera a represar sua inclinação para a fúria, mas agora não havia o que fazer. Era pedir demais. Num momento de histeria, cogitou denunciar Konstantin e Sonya pela sabotagem. Não havia dúvidas que eles também seriam dispensados assim que a armação viesse à tona. Mas no fundo ela sabia que nao seria capaz disso. Dominika ainda contemplava o próprio futuro, atordoada, quando recebeu o telefonema da mãe.  

segunda-feira, 16 de abril de 2018

YASUNARI KAWABATA (1899 – 1972)



A tristeza estampada no rosto magro. A cabeleira altiva. O olhar concentrado no horizonte. O cigarro entre os dedos. O uso contínuo do quimono como um escudo contra as adversidades do mundo. Yasunari Kawabata era um poema em forma humana.

No dia 16 de abril de 1972, durante uma crise de depressão, Kawabata se suicidou. A viúva, Hideko, negou essa hipótese. Alegando que foi um acidente doméstico (inalação de gás de cozinha), lembrou que o escritor havia se manifestado diversas vezes contra essa forma de violência. Em contrapartida, alguns biógrafos destacam que dois amigos, Ryūnosuki Akutagawa (1892-1927) e Yukio Mishima (1925-1970), também se suicidaram – e que cada uma dessas mortes teve um significado psicológico de difícil mensuração.







A orfandade sempre acompanhou Kawabata. As mortes dos pais e dos avós na infância e no início da adolescência foram traumáticas. Precisou ir viver com parentes. Depois foi estudar em um internato. A escolha da literatura como profissão ampliou o isolamento. Aquele que escreve elimina tudo o que está ao redor e constrói um mundo particular – e que somente se torna acessível quando o escritor decide compartilhar o texto com os leitores.

Durante o período em que estudou na Universidade Imperial de Tóquio, participou do grupo que criou o jornal Bungei Jidai (Anais Literários) – que procurava promover o movimento literário Xinkankakuha (Sensações Literárias). A ideia era romper com o realismo japonês e promover as vanguardas europeias e a objetividade científica. Foi nessa época que se tornou amigo de Riichi Yokomitsu (1898-1947).
 
Kan Kikuchi, Yasunari Kawabata, Teppei Kataoka, 
Riichi Yokomitsu,  Shinzaboro Iketani. (esq. para dir.)

Entre 1935 e 1937 publicou, de forma gradual, O País das Neves – que é considerada a sua primeira narrativa importante. A história de amor entre Shimamura e Komako, cristalizada nos abandonos e reconciliações, na indecisão e no instinto, inaugura uma literatura introspectiva, repleta de sentimentos complicados, e que procura projetar nos personagens o turbilhão que dilacera o intimo de cada ser humano. Ao descrever a passagem incontrolável das estações climáticas, a fúria do mar, as distâncias que separam a vida urbana do mundo rural, também relatou os mistérios que estão abrigados no interior de cada um dos personagens.

Yukio Mishima e Yasunari Kawabata

Depois do final da II Guerra Mundial, participou de diversas manifestações políticas conservadoras. Possivelmente foi influenciado pelo estilo combativo e neofascista de seu grande amigo – embora bem mais moço – Yukio Mishima.

Entre os seus livros mais conhecidos, destacam-se O Mestre de Go (publicado entre 1951 e 1954), Mil Tsurus (1949-1952), A Casa das Belas Adormecidas (1961), Kyoto (1962) e Beleza e Tristeza (1964). A edição completa de Contos da Palma da Mão foi publicada postumamente, em 1972.

Bungei Jidai: Shinzaburo Iketani, Yasunan Nakagawa, 
Kinsaku Ishihama, Yasunari Kawabata e Tadao Suga (esq. para dir.)

Kawabata foi o primeiro escritor japonês a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1968. Esse feito somente se repetiu em 1994, com Kenzaburo Oe.     

No plano estético, Kawabata esteve próximo da perfeição. Em suas narrativas, o carinho e suavidade se destacam em prosa poética e contrastam com os temas mais recorrentes: a solidão, a filosofia oriental, a sexualidade e a beleza feminina. As tragédias humanas (que não se separam da presença angustiante da morte) são uma constante. Simultaneamente, a leveza e a delicadeza das histórias exigem atenção redobrada, pois os detalhes são de crucial importância. A ação narrativa é lenta, ele gostava de “pintar com as palavras” – como destacam alguns admiradores de sua literatura.


segunda-feira, 26 de março de 2018

TUDO PODE SER ROUBADO


Estilo não está à venda nas gôndolas do supermercado. Estilo rejeita lugares-comuns, chavões, clichês. Estilo sempre procura por novas rotas, por caminhos pouco percorridos. Estilo ignora o sabor plastificado das aulas de escrita criativa. Estilo expressa um enredo sem tropeços, com linguagem límpida, acessível. Estilo significa criar personagens fortes, complexos, verossímeis. Estilo, enfim, traduz uma maneira inconfundível de ser/estar no mundo.

A literatura produzida por Giovana Madalosso pode (e deve) ser alvo de várias discussões. A única acusação fora de contexto é a ausência de estilo. Tendo a condição feminina como articuladora da História, das histórias, ela consegue misturar drama e comédia na dose exata – nem para deixar a euforia dominar, nem para deprimir. O desejo, a culpa, o medo, a frustração, os homens – aquilo que parece vertigem se transforma em literatura.

O romance Tudo Pode Ser Roubado tem como espinha dorsal o roubo de um livro. Uma primeira edição de O Guarani, de José de Alencar. Em um leilão, um professor universitário, desses que não possuem um tostão furado, teve um momento de sorte e conseguiu comprar o livro. Um milionário, desses que não sabem o que fazer com o dinheiro que acumulam no banco, quer ser o proprietário dessa raridade bibliográfica. Tentou negociar com Cícero, o professor. Não foi feliz. O desejo se multiplicou.

Entram em cena, três personagens muito interessantes. Em primeiro plano, a narradora/protagonista, que nasceu em Lages (aparentemente uma cidade interiorana e pouco desenvolvida). Embora seu nome não se apresente para os leitores, um dos personagens coadjuvantes a chama de “Rabudinha”. Sem grandes vaidades ou ambições, Nunca fui de querer muita coisa, disposta a satisfazer suas necessidades primárias (alimentação, moradia, sexo) com o mínimo, complementa a renda mensal com pequenos furtos. No básico, mantém a serenidade de quem conhece os mistérios da existência: Trabalho de garçonete desde os dezenove anos, quando decidi que não queria me esfolar pagando uma faculdade para acabar ganhando mais ou menos a mesma coisa. Ao contrário da maioria dos garçons, da maioria dos clientes, da maioria das pessoas, eu não sou consumida por nenhum desejo. Não quero ser atriz, nem cantora, nem modelo, nem designer, nem protética, nem cuspidora de fogo, nem milionária, nem porcaria nenhuma. Estou bem assim.

Logo atrás da Rabudinha surgem Biel e Tiana, a compor a figuração, a produzirem acontecimentos capazes de “roubar a cena”. Biel não passa de um golpista de terceira classe, desses que vivem de expedientes pouco recomendáveis como explorar mulheres carentes ou servir de capacho para quem possa financiar cama, comida e roupa lavada. Além do cigarro e do uísque, claro. É ele quem faz a intermediação para que o livro possa ser roubado. Na definição da narradora (...) ele não era um coroa misterioso, nem um elemento avesso ao sistema. Ele era apenas um sujeito imaturo, com tudo de bom e de ruim que isso acarreta.

Tiana foi feita em outra forma. Literalmente. A dona do brechó, onde a narradora/protagonista vende as roupas, calçados e acessórios que rouba, é uma transgênero. As duas, Tiana e Rabudinha, são, digamos, melhores amigas. Isso significa que também se desentendem, que pedem desculpas, que cultivam os altos e baixos da amizade: Cheguei com o blazer como um namorado chega com flores depois de uma briga. O bordado colorido na mão, os olhos baixos, o rabo entre as pernas.

Cenário montado, cabe fazer as engrenagens se movimentarem. Querendo reunir negócio com prazer, Rabudinha ambiciona deixar Cícero sem fôlego e, simultaneamente, ter alguma (ou muita) diversão sexual.  Acredita que, depois de levar o sujeito para a cama, encontrar o livro será fácil. O problema é que ele se mostra imune aos inúmeros truques de sedução. Essa é uma das partes mais divertidas do romance, desconstrução do mito machista, exposição sem piedade das fraquezas masculinas. Homem, mesmo quando se mostra diferente, é tudo igual. 


Com dicção peculiar, Tudo Pode Ser Roubado também revela diversas facetas da cidade de São Paulo que não cabem em cartão postal. Hotéis vagabundos, festas milionárias, amores frustrados, autoengano, cocaína, mendigos, prostituição, noites que nunca acabam, dias que sequer existirão, taxistas que sonham em ser saxofonistas, a diversidade se multiplicando em cada espaço de uma cidade que devora os seus habitantes. São Paulo se desdobra em muitas São Paulo, um abismo em cada esquina, um parque de diversões em cada rua.  (...) a verdade sobre uma cidade é esta: o que sobra de cada um depois que as luzes dos escritórios se apagam. E aqui, como todo mundo sabe, o que sobra é pouco, um emocional talhado pelos excessos, um terreno propício para as patologias se instalarem.


Concluída a leitura, o leitor fica extasiado com o conteúdo – alta qualidade, linguagem fluída, senso crítico, amostras frequentes do poder corrosivo do humor. E ligeiramente frustrado com as páginas finais, visto que algumas questões ficaram em aberto. Faltou o “toque de Midas”, reunir os penduricalhos em um “gran finale”.

P.S: Uma das melhores frases do romance expressa parte da dor de Tiana, que foi espancada por um namorado: Sou vaidosa demais para sair por aí vestindo um hematoma.



TRECHO ESCOLHIDO

 

 

Será?, falei, e dei mais gole no café. Às vezes acho que esse livro tem alguma mandinga. Que esse livro não pode ser roubado.

 

Deixe de ser boba, Rabudinha. Tudo pode ser roubado.

 

Não é bem assim.

 

Olhe em volta. Essa garrafa, essa cadeira, esse freezer. Até aquela igreja pode ser roubada, ele diz, e aponta para uma igreja um pouco mais à frente, do outro lado da rua. E não falo roubada só no sentido de ser saqueada, mas roubada mesmo, como já aconteceu com milhares de igrejas que foram transformadas em templos de outras religiões.

 

Daí pra dizer que tudo pode ser roubado tem uma longa distância.

 

Te dou outros exemplos. Um país pode ser roubado. Eu não entendo muito de história, mas só a Rússia anexou quantos países?

 

Belarus virou Bielorrússia, falo, lembrando da origem de um vizinho de Lages.

 

Você pode ir presa, tua liberdade pode ser roubada.

 

Vire essa boca pra lá.

 

Tua sanidade pode ser roubada.

 

A minha não.

 

A de qualquer um. Vá ser molestada, torturada pra ver. E me olhando de um jeito dramático e quase ridículo: tua vida pode ser roubada.

 

Um pensamento não pode ser roubado.

 

Claro que pode. Eu posso te ir induzindo até descobrir o que você esconde aí dentro. Ou te hipnotizar.

 

Não seja ridículo.  


segunda-feira, 19 de março de 2018

MANUAL DE DEMISSÃO


Algumas tragédias – descontado o oximoro – são muito divertidas. Evidentemente, nesse tipo de circunstância, o exercício literário (transformar o limão em limonada) deve utilizar um tom menos dramático e, se possível, bem-humorado. O segredo está aí.

O romance Manual de Demissão, de Julia Wähmann, cumpre com esse objetivo. Ao se concentrar em um episódio cada vez mais comum nas relações contemporâneas de trabalho, o desemprego, J. (a narradora e protagonista) realiza – de forma minuciosa – um exame do corpo de delito. No seu relato, a “crise” (viga-mestra de todas as desculpas administrativas) serve de escudo para o sucateamento das relações laborais. Depois da inevitável conversa com alguém do Departamento Pessoal (sempre uma pessoa calma e simpática), depois de cumprir com todos os rituais referentes ao desligamento da empresa, sobra a ausência de chão embaixo dos pés. Nada restabelece o equilíbrio. Em alguns casos, e não são poucos, a compensação surge como variação da Síndrome de Estocolmo: (...) saudades da vida regrada, com ordens, de um chefe a quem me reportar, cercada de colegas da minha categoria que compartilhavam não só as cadeiras giratórias baratas e os ácaros, mas também um piso salarial e um ticket alimentação que nos permitia comer verduras cheias de agrotóxicos e frangos cheios de hormônios nos restaurantes xexelentos do Centro da cidade.

Não precisando mais ir para a empresa pela manhã, restam alguns obstáculos quase intransponíveis. A visita ao sindicato, para acertar os termos da demissão, caracteriza uma experiência antropológica digna de pesquisa de campo com aborígenes da Polinésia. Estranhamento total com usos e costumes. Evidentemente, o pior ainda está para vir. O descompasso se torna uma brincadeira infantojuvenil no momento de ir ao banco receber o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) ou o seguro-desemprego. As dificuldades praticamente brotam do ar. As filas são imensas, o tempo de espera exige paciência, o atendimento é deficitário. O melhor remédio para suportar essas provações é... Um livro do Roberto Bolaño. Aquele com o maior número de páginas.

Invariavelmente, o atendimento acontece em horário próximo ao término do expediente. Além disso, o funcionário percebe que alguma informação documental está errada. Voltar no dia seguinte é a alternativa – quando a cena se repete. A exceção a esse episódio kafkaniano ocorre quando a loucura ameaça dar tchauzinho para o distinto público: J. abriu a torneira lacrimal e ameaçou o inicio de um processo de desidratação O funcionário, assustado com esse recurso patético, a ajudou a solucionar o problema. Uma pequena vitória em uma guerra perdida.

Para muitos dos colegas de demissão, o aeroporto se transformou na porta de saída. Saída de emergência, cenário de aventuras, histórias de exílios. Portugal à vista, poderia ter dito o comandante do avião repleto de brasileiros desiludidos com a situação econômica, política e social do país: Era incrível, o mundo parecia uma narrativa do Saramago em que todos são acometidos por um mal súbito, sem aviso prévio, sem explicação, e, diante do absurdo da situação, partem para Lisboa, que já tinha mais gente conhecida que o meu próprio bairro.

Para aqueles que ficaram em terras brasilis, sobrou, em quantidade cavalar, angústia e depressão. A ajuda anestésica de vários comprimidos de Dormonid (adquiridos no mercado negro dos remédios) se impõe.  Nos momentos mais suaves, cervejas e vinhos também contribuem para a construção de uma atmosfera lúdica e menos assustadora.

Ah, para não dizer que não se falou de flores, o bundão do namorado de J. também atravessou o oceano, casou, teve filho e foi feliz. O cara construiu uma história de contos de fada (que J. acompanhou, on line, como parte do ritual de autoflagelação).  

Como termina essa bagunça? Não termina. Não há possibilidade de terminar. Cada demissão transforma o indivíduo em ruína. O estrago é irreparável. Não há possibilidades de reverter esse desastre. A vingança é um prato que se come frio, dizem. Mas, na história do mundo, seguimos sentados à mesa, em frente a travessas fumegantes, a esperar.

Manual de demissão foi construído como um imenso monólogo, a escassa comunicação entre os personagens está incorporada nos blocos narrativos. O texto, ágil e de fácil leitura, está dividido em 23 capítulos –  cada uma das interrupções do discurso serve de pausa para que o leitor possa respirar e refletir sobre o que está sendo narrado. Todos os capítulo possuem título (ditados populares, clichês de autoajuda). Os personagens secundários (e que aparecem de maneira furtiva no texto) são designados por letras do alfabeto (A, B, C, D, E, F, G). A exceção é a narradora, J., que quebra a ordem alfabética.

Salve Manual de Demissão – texto ficcional imprescindível para quem quer se preparar para o futuro. Depois de algumas reformas no setor trabalhista, promovidas pelo governo vigente, o desemprego em massa deixou de ser uma hipótese remota e se transformou em ameaça diária. Acabou a diversão!


TRECHO ESCOLHIDO

 

O telefone tocou novamente, fui atender e não era o meu amor. Não mesmo, era a moça do Departamento Pessoal, e ali eu já sabia que, ao me levantar da cadeira azul giratória, barata e desconfortável, na qual sentei por anos, e dar os primeiros passos por um corredor azul meio mofado, o rapaz do Departamento de Informática se sentaria no meu lugar e bloquearia meu computador. Enquanto isso, eu estaria assinando os papéis de demissão, ouvindo, cada vez mais ao longe, a voz tensa da moça dizendo que não era nada pessoal, embora o nome do departamento deixasse certa dúvida, que a empresa, você sabe, é a crise, vinha passando por dificuldades, que meu trabalho era ótimo, certamente, mesmo que ela não soubesse exatamente o que eu fazia, e enquanto eu segurasse numa mão a caneta, na outra apertaria os pen drivers no bolso do casaco, só de nervoso, e para me certificar de que tudo estava ali, alguns arquivos pessoais e fotos que resgatei do computador que usei por anos. Àquela altura, cerca de duas da tarde, já uma leva de gente tinha ido embora carregando suas caixas de papelão antes do almoço e, portanto, as horas seguintes foram agonias de espera e de backups possibilitados pelos pen drives surrupiados das três ou quatro gavetas abarrotadas de papéis que eu jamais iria ver. Quando a moça terminasse a sua fala e me explicasse resumidamente o que eu deveria fazer – a primeira coisa, claro, era ir embora dali –, eu voltaria para a minha agora ex-mesa com a certeza de que não deixaria nada muito intimo no HD da empresa, ao mesmo tempo que desconfiaria do que poderia haver nos inúmeros papeis das tais três ou quatro gavetas, rascunhos de textos que não terminei, devaneios e rabiscos de reuniões em que a cafeína demorava a fazer efeito, setas, estrelas ou quadrados desenhados obsessivamente durante telefonemas que se estenderam para além do habitual, anotações dispersas de tarefas a cumprir. Talvez um esboço de uma declaração de amor – ou de guerra – feita numa tarde tediosa em que até vídeos de pandas falharam.