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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O DIABO NO CORPO



(...) o amor, que é o egoísmo a dois, sacrifica tudo a si, e vive de mentiras, afirma, convicto, o narrador inominado de O Diabo no Corpo, uma das duas narrativas escritas pelo enfant terrible Raymond Radiguet (1903-1923) e que foi publicada em 1922. A outra, O Baile do Conde d’Orgel, foi publicada postumamente em 1924. Junto com alguns poemas, esse foi todo o espólio literário de um dos mais criativos escritores da literatura mundial.


Celebração juvenil do egoísmo que – em nome da paixão – não mede esforços para esgotar as energias que suga do corpo da amante, O Diabo no Corpo relata, de maneira muito próxima da selvageria, a obsessão amorosa. Ao abordar uma das muitas variações do tema, adolescente que se envolve com mulher mais velha, casada, o narrador e protagonista da novela, 16 anos, hormônios à flor da pele, passa por cima do romantismo barato – embora o tom de desgraça eminente margeie o texto.

Toda história de amor precisa superar obstáculos. Espelhando um trecho bíblico, o do Rei David, que enviou Urias à frente de batalha para poder conquistar o amor de Betsabéia, a história contada pelo narrador tem a seu favor a situação geopolítica da Europa. A Primeira Guerra Mundial levou Jacques, o marido de Marta, para longe de casa. Sua jovem esposa, 19 anos, ficou desprotegida.  O narrador percebe que essa é a oportunidade de aprender uma ou duas coisas sobre os fatos da vida – para escândalo dos vizinhos que moram no andar de baixo.

Raymond Radiguet
O amor é ócio benfazejo, como a chuvinha suave que fecunda a terra, ensina o protagonista/narradorembora não pratique o objeto temático de sua pregação. Prepotente, escorado em um princípio da filosofia política, O poder só se revela se usado com injustiça, sem se importar com a vulnerabilidade da situação social da amante, o rapaz abusa da força, exige o absurdo, multiplica os perigos. E transforma Marta em uma espécie de escrava sexual. Ela suportava o insuportável: visitas da família, afrontas, insinuações amargas da mãe, remoques do pai, que lhe supunha um amante sem no entanto acreditá-lo. Essa incoerência faz par com o sentimento possessivo do amante: Minha pretensa ideia fixa de possuí-la como Jacques não fora capaz de possuir, de beijar um canto de sua pele depois de fazê-la jurar que jamais outros lábios haviam-no tocado, não passava na verdade de libertinagem.

Acreditando que pode dispor de tudo o que obteve com mínimo esforço, o narrador nada faz para retribuir. Esse é um de seus erros. Mas, talvez não seja o mais importante. No entanto, antes de perceber que está agindo de forma equivocada, precisa superar uma importante crise.

Marta descobre que está grávida. O narrador, incapaz de controlar a vertigem, sente que algo está lhe escapando pelo vão dos dedos. A isso se acresce outro problema: Marta viaja pra Granville, no litoral do Canal da Mancha, onde o marido se recupera de alguma doença. Pela primeira vez, o narrador/personagem percebe que o amor é sinônimo da perda. Ao mesmo tempo, como compete a um adolescente, multiplica as possibilidades, e começa a namorar todas as mulheres que estão ao seu alcance. Essa imaturidade, típica de homens que nem sequer sonham em confundir sua felicidade com seus prazeres gera um estado de espírito muito confuso. E que culmina em declarações absurdas, infantis, como Eu queria me aproveitar de Marta enquanto a maternidade não a estragava.

Em contrapartida, a insensatez do desejo se manifesta no momento em que Marta pronuncia frases como Prefiro ser infeliz com você do que ser feliz com ele.  Se, como afirma o narrador O amor anestesiava em mim tudo o que não era Marta, o resultado final da aventura não pode ser outro senão a desgraça. Uma noite, apenas para manifestar a força do macho, que não soube resolver uma questão básica, eles foram dormir em um hotel. Claro que esse desatino não poderia resultar em algo produtivo. Depois de inúmeras tentativas frustradas, momentos de medo e insegurança, chuva torrencial, tiveram que voltar: Mil contradições de minha idade às voltas com uma aventura de homem.

Falta muito para que o protagonista/narrador se transforme em um homem. Nem mesmo a morte de Marta, logo depois do parto, serve para impor alguma grandeza ao personagem. Algumas páginas antes, ele havia insultado a amante, em uma carta, comprovando desconhecer que a gramática dos afetos impõe o eliminar do ego. Isso ele não faz. Ciúme, insegurança, imaturidade – o triste resumo da tragédia: (...) é insuportável que a criatura que amamos se encontre em companhia numerosa, numa festa onde não estamos.


P.S.: Toda releitura é um elogio. Alguns romances, como O Verão de 42 (Herman Raucher), Fôlego (Tim Winton) e Luz Antiga (John Banville), em alguns momentos, dialogam com O Diabo no Corpo; em outros, o desconstroem. No entanto, o personagem que forneceu uma aura mais colorida à questão foi Mrs. Robinson, protagonista do romance The Graduate, de Charles Webb, e que foi imortalizada no filme A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate. Dir. Mike Nichols,1967). Na cena em que Anne Bancroft seduz Dustin Hoffmann o imaginário masculino é contaminado por um furacão erótico descomunal – e que nenhum homem encontra forças para rejeitar. Esse enlevo também está presente nas adaptações cinematográficas de Houve Uma Vez Um Verão (Summer of’42. Dir. Robert Mulligan, 1971) e O Diabo no Corpo (Diavolo in Corpo. Dir. Marco Bellocchio, 1986) – que ganhou inesperada repercussão por ser o primeiro filme “sério” a apresentar uma cena de felácio explícito.

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