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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O PINTASSILGO



E o gosto do beijo de Pippa – agridoce e estranho – permaneceu comigo durante todo o trajeto até a casa dos Barbour, enquanto balançava sonolento no ônibus de volta, derretendo de tristeza e encanto, uma dor estrelada como uma pipa acima da cidade e da ventania: minha cabeça nas nuvens de chuva, meu coração no céu.


 Entre as múltiplas formulas romanescas, o bildungsroman (romance de formação) jamais perde a atualidade. Para muitos narradores a grande dificuldade está em construir uma história que inicie in medias res (latim, "no meio das coisas"). Parece mais fácil começar a narração na infância do personagem e, lentamente, descrever a transição emocional entre a imaturidade adolescente (ou infantil) e a vida adulta do protagonista – dando destaque ao momento em que a crueldade do mundo “real” se impõe como um anátema. É um truque que funciona com bastante eficiência.

A história de Theodore (Theo) Decker, protagonista e narrador de O Pintassilgo, romance escrito por Donna Tartt, inicia quando a personagem tem 13 anos e está sendo conduzida pela mãe, Audrey Decker, para uma reunião escolar. Alguma coisa aconteceu de errado e o diretor quer esclarecer. No meio do caminho, uma chuva repentina faz os dois se refugiarem no Metropolitam Museum of Art (Met) de Nova York (localizado na 5ª Avenida). O que se segue, um atentado terrorista, é apenas o primeiro estágio de uma serie de eventos que contradizem a sensatez que ordena o mundo cultural. A morte de Audrey representa a vertigem que vai devorar a vida de Theo – que consegue escapar da tragédia com alguns arranhões e o original do quadro O Pintassilgo, de Carel Fabritius (discípulo de Rembrandt, professor de Vermeer), pintado em 1654.

O desaparecimento da mãe, a pintura e a paixão platônica por Pippa, uma menina que conheceu no museu e reparte com ele a experiência de sobreviver à catástrofe, são os temas principais do andamento narrativo do romance. Os demais acontecimentos – na corrente de desordem e falta de sentido que tinha se seguido à morte de minha mãe – são consequências desses três vetores.

Adotado, temporariamente, pela família Barbour, enquanto aguarda pela regularização de sua situação, Theo vive uma espécie de exílio paradisíaco. Ao mesmo tempo em que não encontra referências de pertença no mundo de seu amigo Andy Barbour, precisa ultrapassar o luto produzido pela perda das relações familiares (a morte da mãe, o desaparecimento do pai, a falta de afinidade com os avós paternos). Numa garoa de tristeza que se estendia infinitamente em todas as direções, reconstruir o mundo cognoscível se revela inacessível para um pré-adolescente.

O oásis se transforma em areia, vento e miragens. O mundo adulto, com suas regras, comportamentos e obrigações sociais, estraga qualquer diversão. Larry e Xandra (pai de Theo e sua namorada) levam o menino para morar em Las Vegas, cidade que – de uma forma ou de outra, metafórica e literalmente – está localizada em um deserto. A depressão somente diminui na companhia de Boris Volodymyrovych Pavlikovski, filho de um minerador russo, que, por conta de humor peculiar, só o chama por um apelido, Potter. Embora Theo se pareça fisicamente com o bruxo de Hogwarts, jamais se mostrou capaz de produzir algum truque de magia. Os rapazes se tornam amigos e companheiros no consumo de drogas, principalmente álcool, maconha, cocaína e anfetaminas diversas.

Carel Fabritius (1662-1654)
Essa circunstância, refletida nas primeiras 328 páginas do romance, revela uma peculiaridade narrativa: a quase completa ausência de adultos – que se mostram (de uma forma ou de outra) violentos todas as vezes que aparecem em cena. Em Nova York, o mundo se resume a Theo e Andy. Em Las Vegas, Theo e Boris. Nem mesmo os colegas de escola dos rapazes possuem visibilidade ou importância. São sombras, sobras da humanidade. A vida coletiva parece estar restrita ao enredo de algum dos filmes clássicos que os garotos assistem na televisão, completamente chapados.

Nesse mundo amoral, sem freios, sem controle, a ausência de limites impera. Mas não muito. Boris e Theo, abandonados pelos pais (que estão distantes, envolvidos em atividades pouco claras), começam a cometer pequenos furtos para obter comida. Diante da sugestão de Theo, que deveriam expandir as atividades para conseguir mais dinheiro, Boris replica: Rá! (...) Provavelmente você vai acabar na cadeia, Potter. Moral fraca, escravo da economia. Péssimo cidadão, você. O engraçado é que essa ética fuzzy, digamos assim, momento em que o bem e o mal travam um duelo sem vencedores, retorna a ordem do dia cerca de dez anos e 290 páginas depois. O espaço compreendido por vários anos de separação entre os dois rapazes resulta na recuperação do passado em comum, como percebe Boris: Lá estava eu, todo orgulhoso de te ensinar a roubar maçãs e doces do armazém, enquanto você tinha roubado uma obra-prima.

Mas antes dessa cena, há muitas outras. A principal reviravolta acontece quando a vida de Larry entra em colapso (dívidas de jogo) e ele morre em um acidente automobilístico. Theo volta para Nova York – sentindo-se completamente sozinho, como ele comenta mais tarde, em outra situação, mas que espelha circunstâncias de sua vida que parecem se repetir com constância.

Donna Tartt
A narrativa – através de uma elipse – suprime oito anos e o tempo de estudos na universidade, bem como quase todos os fatos relacionados com a sua vida íntima nesse período, desaparece na voracidade de Cronos. O que surge diante do leitor é um homem viciado em barbitúricos, completamente dependente dos paraísos artificiais. Utilizando-se de suas inúmeras habilidades comerciais, torna-se sócio de James (Hobie) Hobart em uma loja de antiguidades (algumas peças não são, na falta de expressão melhor, muito “antigas”). Também reencontra a família Barbour e começa a namorar Katherine (Kitsey) Barbour, irmã de Andy (que morreu em um naufrágio). São acontecimentos, como um princípio de chantagem e o reencontro com Boris, que fornecem um novo colorido ao homem que parecia destinada a terminar seus dias na sarjeta, vítima de uma overdose. Simultaneamente, a pintura, que poderia estar guardada em local seguro, volta a ter relevância. A pintura fez com que eu me sentisse menos mortal, menos ordinário. Era base e justificação; apoio e consistência. Era a pedra angular que tinha mantido toda a catedral de pé. E era possível descobrir, com seu desaparecimento tão súbito, que durante toda a minha vida adulta eu tinha sido secretamente sustentado por essa grande e secreta alegria cruel: a convicção de que toda a minha vida estava equilibrada sobre um segredo que a qualquer momento poderia lançá-la pelos ares.

Nesse cenário, que desfaz o tom de autopiedade do adolescente que precisou sobreviver em um ambiente hostil e se projeta como crônica burguesa, Theo, próximo do casamento com Kitsey, descobre que vive em um mundo que se aproxima do caos. Não por acaso, conclui que está respirando uma sensação renovada de desespero diante da (...) vida contaminada. Entre o desespero e a agonia, como se fossem estátuas de areia, os elementos que estruturam a sua vida se desmancham no percurso de uma espiral de complicações e horrores.

Para entender o mundo de fato, às vezes só o que você podia fazer era focar em uma pequena parte dele, olhar bem para o que estava mais à mão e fazê-lo valer pelo todo. Mas, desde que a pintura tinha desaparecido de debaixo de mim, eu me sentia afogado e aniquilado por vastidão – não só a vastidão previsível do tempo e do espaço, mas as distâncias intransponíveis entre as pessoas, mesmo quando estavam ao alcance do braço uma da outra, e com uma onda de vertigem eu pensava em todos os lugares em que tinha estado e em todos os que não tinha, um mundo perdido, vasto e incognoscível, labirinto sujo de cidades e ruelas, cinzas se espalhando ao longe e imensidões hostis, relações perdidas, coisas extraviadas e nunca mais encontradas, minha pintura sendo arrastada nessa poderosa corrente, flutuando por aí em algum lugar: um minúsculo fragmento de espírito, uma fraca faísca boiando em um mar escuro.


Há uma peça que não se encaixa no quebra-cabeça. A imagem total não se completa sem que a história de mão única que (não) une Theo e Pippa se resolva. Para o rapaz, Pippa era o reino faltando, a parte não ferida de mim que perdera com minha mãe. Para a moça, ele – no máximo – é um irmão querido. Hobie sabia como eu me sentia em relação a Pippa – eu jamais tinha dito, jamais soltara uma palavra sobre isso, mas ele sabia. E isso se complica a cada instante, ela morando em Londres, tendo um namorado, uma vida em separado e coisas desse tipo, que os estava afastando cada vez mais. Theo, a cada encontro, navegando na contracorrente, constata que era um prazer supremo estar com ela, eu a amei durante cada minuto de cada dia, coração, mente, alma e tudo o mais.

Obviamente, isso não basta. Quando o tema amoroso se expande, seja como paixão, seja como obsessão, poucas coisas bastam. Principalmente em uma narrativa em que, na parte final, a linha de beleza se mistura com o fantasma de Dostoievski (e, consequentemente, de suas personagens). A luz de uma lanterna em noite de tempestade muitas vezes não passa de um foco luminoso perdido na escuridão.

Como entretenimento, como tour de force narrativo, O Pintassilgo é um livro mágico – embora se esfarele no último capítulo, um arremate mal construído, o painel social transformado em tolice policialesca, autocomiseração advinda do uso maciço de drogas, histerismo, filosofia de botequim, teoria estética e a estupidez típica da culpa religiosa e do puritanismo estadunidense. Em outras palavras, falta o encantamento das primeiras 550 páginas, quando o livro praticamente gruda nas mãos do leitor.


P.S.: Erros gráficos são inaceitáveis. Acontecem, claro, mas caracterizam incompetência. Um deles, o mais grosseiro, está na página 45: Ora ou outra ainda recuo.... Ora? Então tá, mas talvez seja “hora” de mudar de revisores!

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